Quando a Internet Falhou

Só percebi o que estava a acontecer quando fiquei sem internet. No início nem percebi muito bem porque era normal falhar a internet. Só não podia era faltar o pagamento dessa internet que estava sempre a falhar. Mas a internet, essa estava sempre com falhas. Naquele dia a falha começou a durar demasiado. Liguei para o Apoio ao Cliente mas dava sinal de ocupado. Dava sempre sinal de ocupado. De todas as vezes que liguei, até ter linha telefónica, o serviço de Apoio ao Cliente esteve sempre ocupado. Depois, até a linha telefónica ficou muda. Só percebi que estava realmente a passar-se alguma coisa quando faltou a luz. E o gás. Logo depois faltou a água.
Saí de casa. Vim até à rua. Ainda havia luz do dia. Não havia sol. Não tinha havido sol durante o dia. E se bem me lembrava, há uma semana que não se via o sol. Estava assim um ambiente cinzento e triste. E foi isso que vi, naquele resto de dia, no alpendre de casa, quando saí depois de perceber que alguma coisa se passava, que estava um ambiente cinzento e triste.
Acendi um cigarro. Olhei em frente. A estrada em frente. Os campos. As montanhas lá ao fundo. Olhei com atenção para ver se via alguma coisa. Alguém. Mas nada se mexia. Não via vivalma. Nem um cão. Onde raio é que estava o cão? E os gatos? Onde andariam os gatos?
Não via ninguém a quem pedir informações. Podia ir até à cidade. Mas não queria deixar a casa vazia. Alguma coisa se estava a passar e não queria deixar a casa sozinha.
Não havia electricidade. Não havia televisão. Tinha um rádio a pilhas. Era isso. O rádio a pilhas. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora. Entrei em casa. Procurei o rádio a pilhas na confusão da dispensa. Encontrei. Tinha pilhas. Procurei uma estação. Só estática.
Levei o rádio para a sala e sentei-me.
Fiquei à espera do que estava para acontecer. Do que ia acontecer.
Mantive o rádio perto. De vez em quando fazia uma varredura por todas as ondas. Silêncio.
Anoiteceu.
Estava a amanhecer quando ouvi uns camiões. Levantei-me do sofá. Fui à janela e vi passar, na estrada lá em baixo, vários camiões. Por cima dos camiões voavam uns drones. Um deles saiu do comboio e voou até à minha casa. Eu larguei as cortinas e afastei-me um bocado para o interior de casa. Mantive-me em silêncio a espreitar para além das cortinas. Engoli em seco. Não me mexi. Percebia o drone a sobrevoar a casa. A espreitar a toda à volta. Ainda bem que o cão e os gatos tinham desaparecido. Não havia cá em casa movimento nem ruídos. Mas havia assinatura térmica. A minha assinatura térmica. Rezei para que o drone não conseguisse ter leitura térmica. E a verdade é que ao fim de algum tempo, e algumas voltas, o drone afastou-se e voltou ao comboio.
Eu estava a transpirar.
Precisava de sair dali. Quem quer que fosse, iria voltar.
Peguei numa mochila. Enfiei lá dentro o rádio. Uma caneta. Um bloco de papel. Um rolo de papel higiénico. Uma máquina fotográfica pequena. Um chouriço e um queijo, embrulhados em prata. Umas maçãs. Um canivete-suíço. Os óculos de sol e os de ver. Coloquei o relógio de corda no pulso. Agarrei na caçadeira do meu pai. Umas caixas com cartuchos que pus na mochila. E saí de casa. Devagar. Em silêncio. Calmo. Mas atento. E fui até às montanhas em frente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/13]

Tentar Focar, Tentar Não Perder Atenção

Tento focar. Tento não perder atenção. Tento não me dispersar por interesses vários só para não fazer o que tenho de fazer.
Começa tudo mal.
Levanto-me e faço a cama. É mau prenúncio. Normalmente levanto-me e deixo a cama aberta, com o edredão puxado para trás. Digo que é para a cama arejar. Na verdade é por não ter paciência para fazer logo a cama.
Hoje levantei-me e fiz a cama. Puxei o lençol e o edredão para cima. Estiquei o edredão. Não deixei um único vinco. Alisei as almofadas. Parecia uma cama de hotel num quarto de hotel.
Depois lavei toda a louça suja acumulada na cozinha. E só depois de ter a louça lavada, à mão, é que fiz café e duas torradas. E lavei a louça utilizada logo de seguida.
Fiz uma máquina de roupa. Não tinha roupa suficiente para fazer uma máquina e fui buscar roupa que não tenho usado. Para lhe dar uma limpeza. Matar o pó. E os ácaros.
Olhei à volta. Vi o trabalho a espreitar para mim de cima da secretária. Já vou!, respondi.
Fui organizar a dúzia de livros que estavam fora das prateleiras.
Sentei-me frente ao computador. Espreitei os jornais online.
Abri um dos livros que precisava para o meu trabalho. Folheei-o. Fiz o mesmo a outro. Folheei-o. Deixei-os de lado. Não estava com grande vontade.
Peguei no telemóvel. Marquei um número. Ninguém.
Lembrei-me que tinha contas para pagar.
Fui ao móvel da entrada. Luz e água. Duas contas.
Desci à rua. Fui à caixa do multibanco. Paguei a conta da luz. Não consegui pagar a conta da água. Tinha de ir ao SMAS.
Arranquei rua fora. Fui ao SMAS. Enquanto caminhava pela cidade solarenga pensei que devia estar a fazer o trabalho. Pensei que estava a ficar sem tempo. Mas parecia-me ser isso que queria. Ficar sem tempo. Ou pelo menos, ficar sem muito tempo para não poder fugir mais ou evitar o trabalho e ser, finalmente, obrigado a fazê-lo.
Cheguei ao SMAS. Tirei um número. Dez pessoas à minha frente. Esperei. Olhei em volta. Vi o número de caixas a funcionar. Não disse nada. Nem pensei nada. Não queria chatear-me. Estive tranquilo.
Finalmente a minha vez. Paguei. Demorei dois minutos. Dois minutos para os quais tive de esperar meia-hora.
Regressei a casa.
Sentei-me de novo frente ao computador. Abri uns livros. Procurei os assuntos que me interessam. Comecei finalmente a mergulhar no trabalho.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Perguntou se podia ir ao supermercado por ela. É claro que sim, mãe! respondi. Não podia responder de outro modo.
Voltei a sair de casa. Fui a casa da minha mãe. Deu-me uma lista de compras para fazer no supermercado. Descobri que tinha, também, uma conta de água por pagar. Já fora de prazo. Estava esquecida. A minha mãe não é de deixar passar prazos. Esqueceu-se. Peguei na conta da água e na lista de supermercado e saí de casa dela. Voltei ao SMAS. Sete pessoas à frente. Mais ou menos meia-hora de novo em espera. Joguei Snake no telemóvel enquanto esperei. O meu telemóvel é antigo.
Paguei. Fui ao supermercado. Passei em casa da minha mãe. Voltei para minha casa. Mas antes passei no café. Bebi uma bica. Comi um pastel de feijão miniatura. Descobri que é só invólucro. Não tinha recheio. Regressei a casa desconsolado.
Sentei-me, outra vez, frente ao computador. Lá fora o dia estava a ir embora. Aproximava-se a noite. Já estava atrasado. Já não sabia se tinha tempo para fazer o trabalho.
Tento focar. Tento não perder atenção.
Pergunto-me Onde raio gastei o meu tempo?, e fico ali, frente ao computador, a pensar no meu dia e no tempo que gastei sem fazer nada de jeito a arrastar-me para evitar começar a fazer uma coisa que tenho absolutamente de fazer mas que não consigo começar. E tudo começou quando resolvi fazer a cama.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/18]

Um Céu Azul, em Dégradé

A manhã acordou bonita.
Através da janela da cozinha vejo o céu em dégradé. Desde o azul escuro, quase preto, por cima da casa, até ao amarelo explosivo, quase branco, que paira por trás das montanhas a aguentar a saída do sol. Não é um azul, são vários. Água, bebé, celeste, cobalto, marinho, turquesa, petróleo, tóquio. Nem uma nuvem. Uma ruga. Um céu limpo. Liso.
Ao fundo, no meio daqueles azuis em mutação, lá muito em cima, a Lua. A Lua em forma de unha de criança. Uma curva fininha. Fininha, fininha, fininha. Como a unha do meu filho perdida no chão da cozinha e encontrada quando procurava a lente de contacto caída por desleixo.
Depois vejo um, dois, três riscos de aviões a cruzarem o céu. Os chemtrails. A marca da conspiração mundial. Os químicos que os aviões vão largando nos céus para controlar a população. Basta ler na internet. Basta procurar no Google. Mas eu ia agora ali, num daqueles aviões, destino a onde-quer-que-fosse. Só queria que tivesse um céu assim. Azul. Em dégradé.
É três de Janeiro. A minha mãe dizia que os doze primeiros dias de Janeiro eram uma retrato dos doze meses do ano. Março vai ser um belo mês. Luminoso. Quente. Solar. Um regresso à praia, com certeza. Já houve anos em que fui à praia em Março. À praia para tomar banho no mar. Em pleno Atlântico. Eu e a Malta da Rua. De bicicleta. Estrada fora. Mochilas com farnel. Calções de banho e toalha. E uma mentira piedosa em casa.
Estranho como ao olhar agora estas montanhas me recordo da praia.
Acho que sinto falta do mar. Da água do mar. Da fúria da água do mar.
Os aviões parecem vir para cá. Afinal não vão para lado nenhum. Parece que vêm todos para cá. Para aqui. Os riscos no céu parecem uma chuva de asteróides em pleno dia na minha direcção.
Cada vez há mais.
Não podem ser aviões.
Há um ali que parece cair. Olha, olha, olha! Parece mesmo que vai cair. Está baixo. Muito baixo. Não, não é um avião. Olha! Desapareceu atrás da montanha. Caiu!
Porra! Que estrondo! Caiu, de certeza. Olha!… Olha, olha, olha!… Um cogumelo! Um cogumelo gigante! Atrás das montanhas. Era um míssil. Era a porra de um míssil, de certeza. São mísseis! Todos eles são mísseis!
Foda-se!
Há outros a cair. Há mais cogumelos a levantarem-se para lá do meu horizonte. Os azuis desaparecem debaixo dos cogumelos de fumo e fogo.
Há um míssil que se dirige para aqui. Vem para aqui. Para cima de mim. E ainda não bebi café. Ora, porra! Mais outro cogumelo e este não o vou ver.
Foda-se!…

[escrito directamente no facebook em 2019/01/03]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]

Estou na Estatística

Faço tudo aquilo que esperam de mim.
Lavo os dentes depois de comer, antes de deitar e depois de acordar. Corto as unhas dos pés e das mãos com regularidade. Tomo banho de duche todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia. Lavo o cabelo no banho, em todos os banhos. Corto o cabelo uma ou duas vezes por ano. Faço a barba todos os dias e trago a cara limpa, fresca e lavada. Também lavo as orelhas e limpo os ouvidos.
Trabalho. Pago os meus impostos. Pago a renda da casa, a electricidade, o gás, a água, o telefone, o cabo.
Cozinho em casa e, às vezes, almoço ou janto fora. Como pão sem glúten, manteiga sem sal, queijo light, maçãs de Alcobaça, pêras do Bombarral, cerejas do Fundão, tangerinas do Algarve, bananas da Madeira, carne de porco pata negra de Barrancos, fumeiro de Montalegre, bebo leite dos Açores, vinho do Alentejo e espumante da Bairrada.
Gosto de Pastéis de Nata e de Bolas de Berlim. Também gosto de Pastéis de Tentúgal. E de rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau e de massa-tenra e de chamuças.
Ao almoço como sempre um prato de sopa.
Bebo um litro e meio de água por dia. Engarrafada e da torneira.
Bebo café. Três por dia. Às vezes quatro. Um bagaço e, por vezes, uma aguardente velha.
Passo férias na Costa Alentejana, em São Pedro de Moel e em Moledo.
Vou regularmente ao cinema. A um concerto ao vivo. E ao futebol.
Compro móveis em Paços de Ferreira, sapatos em Oliveira de Azeméis e roupa no Vale do Ave.
Ando a pé bastantes vezes e também de bicicleta.
Compro um jornal por dia. Leio um livro por mês. Leio poesia quando calha. Ouço música diariamente. Vejo séries na televisão e vejo os noticiários.
Voto.
Compro os postais da UNICEF. Dou dinheiro nas campanhas para o Coração, para o Cancro e compro o Pirilampo Mágico para ajudar a CERCILEI.
Estudei em colégios privados e na escola pública. Frequentei o politécnico e a universidade. Joguei andebol, futebol e futsal.
Casei e divorciei-me. Tive filhos. Sobrinhos. Amigos. E amantes.
Faço sexo quando calha.
Jogo todas as semanas no Euromilhões. Mas nunca me saiu nada.
Porra! Sou um português normal e estou na estatística.
Que mais querem?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/01]