Quando o Mundo É Possível

Outubro de Verão tardio.
Sol e calor na Andaluzia. Vou a conduzir pela estrada quase deserta. Ela vai a meu lado.
O final das férias retirou muito trânsito a estas estradas. Estamos a ir para Granada. Visitar Alhambra, beber cerveja e comer tapas.
Vamos em silêncio a ouvir a música da viagem. Ela, de janela aberta, vai brincando com a mão ao vento. Eu sorrio a isso. Quando era miúdo também gostava de fazer surf no vento, com a mão.
Aproximamos-nos de uma Estação de Serviço. Começo a perguntar Queres…? ao que ele responde imediatamente Sim.
Paramos na Estação de Serviço. Primeiro a casa-de-banho. Depois, ao balcão, partilhamos uma Coca-Cola, uma ración de Ibérico e de calamares. Não bebemos café, que é quase sempre muito mau em Espanha. Em seguida sentamos-nos na esplanada enquanto ela come um gelado. Eu sento-me virado para o parque de estacionamento. Ela senta-se de perfil, e estica as pernas sobre o meu colo. E ali ficamos por um bocado, mesmo depois dela ter terminado o gelado. A sentir a viagem.
Voltamos para o carro. Ela agarra-se ao meu braço e caminhamos assim, lado-a-lado, com ela suspensa em mim. Colados. Um.
Chegamos ao carro e arrancamos pela Via Rápida. De novo a música a tocar e ela com a mão ao vento.
Apetecia-me um cigarro. Mas já não fumo.
Tiro os óculos da realidade virtual e estou em casa. Está na penumbra. Levanto-me do sofá e largo os óculos lá por cima. Vou até à cozinha à procura de alguma coisa para comer. Pego nuns restos ressequidos de pizza de uma caixa cheia de gordura. Bebo um bocado de água pela torneira do lavatório da cozinha.
Ponho-me à escuta. Só ouço o silêncio. Mentira, ouço uns pingos a cair no lavatório cheio de louça por lavar. Estou sozinho em casa.
Volto para o sofá. Sento-me e fico uns instantes a olhar para o vazio. Depois volto a pegar nos óculos da realidade virtual.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/05]

O Faz-Tudo que Não Cobra IVA Nem Passa Recibos

À minha volta há tendência para o desgaste, para a avaria, para a morte ou, pelo menos, para o acidente. Tudo tende a estragar-se nas minhas mãos.
Depois dos elevadores do prédio que se avariam todas as semanas, desta vez foram as persianas da sala. E precisamente quando estava com uma louca vontade de voltar a pegar num cigarro e fui impedido de o fazer, não conseguindo chegar à varanda.
Lá telefonei para o tipo faz-tudo que não cobra IVA nem passa recibo. É um gordo enorme com dificuldade em respirar. Chegou cá a casa a deitar os bofes pela boca – os elevadores estão avariados, outra vez. Os dois.
Depois de lhe dar um copo de água da torneira, sentei-me no sofá a apreciar a mestria do homem e a dificuldade em levantar os braços para tirar a tábua da caixa onde se esconde a persiana. Lá tive de ir buscar o escadote. E a chave-estrela. O canivete-suíço – não sei bem para quê. O rolo de cozinha – esse percebi que era para ensopar a testa.
Depois de fazer descer a persiana, retirou uma série de réguas que, parece, estavam estragadas, telefonou e deu uma data de instruções em linguagem de iniciados.
Ficou parado a olhar para mim. Passado um bocado tocam à campainha e era o correspondente feminino de tipo faz-tudo com uma série de réguas debaixo do braço.
Enquanto o tipo faz-tudo colocou as mãos na cintura a olhar, a rapariga, A minha filha que está a seguir as pegadas do pai, disse com grande orgulho, esta arranjou as persianas tão rápido que nem tive tempo de perceber que já estavam a sair de casa com o tipo faz-tudo a dizer que viria receber na próxima semana Quando vier arranjar a fechadura da porta de entrada que está por um fio, e, se não me engano, a canalização da cozinha que quando tirou água para o copo percebi aí um barulho muito estranho que lhe irá dar problemas.
O que seria de mim sem esta gente?

[escrito directamente no facebook em 2017/07/24]