Estou Sozinho e Sinto-me Ir

Arrotei. Arrotei qualquer coisa azedo. Fiquei com um sabor horrível na boca. Não tive tempo para ir lavar os dentes nem bochechar o elixir oral. Veio-me uma terrível dor de estômago.
Caí de joelhos na cozinha. Estou de joelhos na cozinha. Agarrado à barriga. Mas não é a barriga que me dói. É o estômago. É lá dentro. Dentro do dentro. Fez-me cair. Fez-me vergar. Estou agarrado ao estômago mas nem sei o que fazer. São dores horríveis, como se me estivessem a rasgar por dentro.
O que é que comi?
Não comi nada de mais. Almocei uns rissóis de peixe com arroz de tomate. O arroz de tomate secou demasiado e os rissóis eram do Intermarché, o mais triste dos hipermercados – é só gente feia que trabalha nos diferentes Intermarché; é só gente feia que vai às compras ao Intermarché; eu vou ao Intermarché quando me sinto feio. Hoje sentia-me feio e fui ao Intermarché à procura de uns carapauzinhos para fritar e comer com arroz de tomate (a vizinha deu-me uma caixa de tomates e tenho de lhes dar uso; já fiz doce de tomate e enchi três frascos de quase meio-quilo de maionese Hellmann’s), não havia e acabei por trazer rissóis que, depois de fritos e comidos, me fizeram ter saudades dos rissóis feitos pela minha mãe, que eu via a estender a massa sobre a bancada da cozinha, a torná-la fina debaixo do rolo que ela fazia rolar, via-a limpar o suor às costas da mão cheia de farinha e virar-se para mim e sorrir, mas esta imagem talvez seja de um filme publicitário e não realmente da minha mãe, mas vejo-a a colocar, com uma pequena colher, um refogado de peixe ou de carne, dobrar a massa sobre o conteúdo e depois cortar a massa com um copo de vidro verde de um conjunto trazido de Espanha que toda a rua trazia quando lá ia, e fazia um rissol generoso e bem recheado que me fazia comer e chorar por mais. Foi aí que me habituei a comer rissóis dentro de um pão, o que ainda hoje faço, e que escandaliza muita gente que nunca viveu uma infância como a minha. Também estranham quando coloco azeitonas na sopa. Gente triste. Não sabem o que é bom.
Continuo caído de joelhos no chão da cozinha agarrado à barriga, mas é o estômago que me dói, e que parece querer rasgar-se e deitar tudo cá para fora. Tenho as têmporas molhadas. Os olhos parecem maior que os buracos onde estão. A cabeça lateja. A garganta está seca e parece querer fechar-se.
Olho para o telemóvel a carregar na bancada da cozinha mas não consigo lá chegar. Não consigo mexer-me. Não consigo deixar de estar assim como estou. Agarrado à barriga.
Quero fumar um cigarro.
Quero ir para a praia em Agosto mas no Agosto da minha infância.
Quero voltar a poder queixar-me de dores à minha mãe e ela fazê-las fugir com um beijo.
Quero não estar aqui assim.
Quero alcançar o telemóvel.
Quero adormecer e acordar bem outra vez.
A dor é cada vez mais lancinante. Sinto-me tombar mais sobre mim. Sinto-me cair mais. Sinto a minha cabeça atingir o chão. Sinto a cabeça bater no chão. Ouço uma pancada seca. Mas não me dói. Sinto-me a perder os sentidos. Estou sozinho em casa. Estou sozinho. Estou sozinho e sinto-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/23]

A Memória Vem e Logo se Desvanece

É estranho as pequenas peças acessórias a que nos prendemos. De tanta vida que vivemos juntos durante aqueles anos, o momento que recordo com mais claridade e, afinal, com mais saudade, é um agarrar na mão dela e puxá-la comigo enquanto atravessávamos a estrada fora da passadeira e eu a via e sentia aos pulinhos com as suas sandálias de meio-salto que ela não dominava assim tão bem por ter-se licenciado a caminhar com botas, daquelas de meio-cano e rasas.
Estamos no passeio e eu decido que temos de passar naquele momento para não perdermos o que não poderíamos perder de maneira nenhuma, e eu agarro-lhe na mão, com a minha, e puxo-a e vejo-a vir atrás de mim, um pouco assustada e ao mesmo tempo empolgada, aos pulinhos nos meios-saltos, a atravessar a estrada e, ao chegar ao outro lado, encosta-se a mim, agarra-me, envolve-me com os dois braço em volta do meu pescoço, eu sinto o seu coração a bater, galopante, a cara rosada da excitação, a respiração pesada e a dizer Podíamos ter caído!, enquanto encosta os seus lábios nos meus, porque ainda não tinha coragem suficiente, nem nunca chegaria a ter, para enfiar a língua na minha boca e tocar na minha língua a mostrar-me como o desejo a consumia, mas os lábios húmidos dela encostados aos meus, secos, num beijo suave, assim de passagem, têm o mesmo efeito sedutor e dou comigo, tantos anos volvidos, a pensar precisamente nisso, nesse momento primordial, tão simples e aparentemente tão banal que afinal ganha alforria para aparecer como a súmula de todos aqueles anos. Nem sei porque passámos a estrada a correr. E importa, isso?
É o que recordo mais de todos aqueles anos em que vivemos juntos.
Muitas outras coisas aconteceram, claro. Muitas delas muito importantes, para o bem e para o mal. Mas nada me marcou tanto como aquele quase-nada que foi quase-tudo.
Acendo um cigarro. Estou debaixo do toldo de uma loja. Uma loja de comida de animais. O cheiro daquela comida enjoa-me. Está a chover. Estou molhado. Estou molhado mas consigo manter o cigarro seco e praticável. O Verão é chão que já deu uvas e a chuva rompe por Agosto.
Acabei de passar a estrada aos pulinhos para evitar as poças de água no asfalto. Não fugi aos pingos, mas tentei. Foram os pulinhos que me levaram no tempo. Foram os pulinhos que me trouxeram a memória.
Fico aqui debaixo do toldo da loja a fumar o cigarro. Vejo a chuva a cair. Aos poucos, a memória desvanece-se. Não é o que sucede com todas as memórias?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/20]

A Última Vez que Andei de Skate

Começava logo de manhãzinha, no meio da rua, a chamá-lo. Aos berros. Para se ouvir bem lá em cima, no terceiro andar onde ele vivia com os pais. Mas não o chamava pelo nome que os pais lhe tinham dado à nascença. Chamava-o pelo nome de rua. Era assim que ele era conhecido, era assim que o conhecíamos, e evitávamos que aos primeiros berros cá de baixo, do meio da estrada, os pais fossem logo à janela para ver quem eram os amigos malcomportados do filho. Eu não era malcomportado. E os pais dele conheciam-me. Até eram amigos dos meus pais. Nós chegámos a ir de férias um com o outro quando éramos mais miúdos. Agora já não íamos de férias juntos com os pais de um ou de outro. Agora já éramos demasiado crescidos e, bem vistas as coisas, demasiado insuportáveis. Mas nas férias, eu ia ali ao prédio dele chamá-lo, aos berros, e depois, pouco tempo depois, lá aparecia ele, a cruzar a porta de vidro de entrada do prédio, com o skate na mão e íamos por ali fora, a voar pelo asfalto, às vezes a descer até à cidade. Mas voltávamos sempre à hora do almoço. Íamos sempre almoçar a casa. Cada um almoçava na sua. Durante a semana não podíamos almoçar em casa dos outros porque os pais não tinham tempo para nos aturar. Só ao fim-de-semana. E não todos. E então, quando estávamos na cidade, regressávamos agarrados aos pára-choques dos autocarros urbanos e subíamos até casa. Às vezes a polícia passava e tínhamos de andar a fugir. Era sempre uma chatice porque corríamos o risco de chegar atrasados ao almoço e isso tinha sempre consequências. O confisco do skate. E da bicicleta. Às vezes uma multa pecuniária que se resolvia numa diminuição da mesada.
A última vez que descemos à cidade foi num dia assim como o de hoje. Um dia de Agosto. Quase meio do mês. Eu e ele estávamos a gastar os últimos cartuchos. Depois tínhamos quinze dias de martírio com os nossos pais no Algarve. Cada um no seu lado do Algarve. Ele em Lagos. Eu em Tavira. Ele numa casa que o pai tinha comprado há muitos anos em time-sharing. Eu a acampar na ilha de Tavira. Os meus pais eram assim um pouco freaks e gostavam da natureza. Eu não gostava muito. O chão fazia doer-me as costas, mas não tinha outro remédio. O que me causava maior confusão era ir à casa-de-banho onde ia toda a gente e onde havia sempre muita gente e onde se ouvia os barulhos de toda a gente. Um horror.
Era então um dia assim, um dia chocho de Agosto. Ameaçava chuva e acho que até acabou por chuviscar um pouco.
Nesse dia fui chamá-lo como chamava normalmente, cá de baixo da rua, chamando-o pelo nome de rua, e pouco depois ele apareceu, cruzou a porta de vidro do prédio com o skate debaixo do braço. Fomos andar pelas ruas do bairro, como fazíamos normalmente. Depois ele disse Bute até à cidade? E eu respondi Yeah! e fomos até à cidade, a descer em alta velocidade a estrada de asfalto que ligava o bairro ao centro da cidade. Depois passeámos pela zona histórica. Roubámos umas laranjas numa mercearia e fomos comê-las para a praça. Andámos de skate na zona nas praças de pedra lisa. Competimos com outros miúdos de outros bairros da cidade. Íamos andando ao estalo, mas não chegámos a tanto. À hora do almoço decidimos ir embora. Corremos até à paragem do autocarro e esperámos. Quando o autocarro chegou, engoliu as pessoas e partiu. Nós partimos com ele.
A meio da viagem, um carro da polícia apareceu por trás do autocarro, por trás de nós, e ligou a sirene. Eu, que estava junto ao passeio, larguei o pára-choques e fugi logo pelas ruas adjacentes. Ele tentou fazer o mesmo mas, estava no meio da estrada, tentou correr para o passeio do outro lado e, ao cruzar a estrada, com o skate debaixo do braço, foi abalroado por uma camioneta de distribuição de cigarros. Eu ainda me virei para trás e vi-o voar. Mas não parei. Não parei de correr. Não parei de correr até chegar a casa, ir à casa-de-banho lavar as mãos e a cara e olhar para mim no espelho da casa-de-banho e fazer-me acalmar, acalmar o meu coração que parecia querer saltar fora do corpo. Depois fui sentar-me à mesa da cozinha e almocei com os meus pais e a minha irmã. Acho que foi aí que vi que estava a chover. Mas não tenho a certeza.
Nessa tarde a minha mãe veio dizer-me que ele tinha morrido. Tinha sido atropelado e tinha morrido ainda na rua, antes de chegar a ambulância. Eu não disse a ninguém que estava com ele e que o vi ser atropelado. Dois dias depois fui para o Algarve com os meus pais. No regresso, arrumei o skate no meio das tralhas da garagem. Nunca mais andei de skate. Nesse ano, depois do começo das aulas, conheci a minha primeira namorada. Às vezes ainda penso nele. Mas já não me recordo do som da sua voz. Já não me recordo da sua cara. Já não recordo do seu nome de rua.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/16]

Aquele Mês de Agosto

Naquele mês de férias que passei em casa dela, à hora do almoço ela mandava-me sempre para trás da casa, para perto da garagem, onde tinha uma espécie de churrasqueira que o ex-marido tinha construído, com tijolo e cimento e uma chaminé que subia acima do telhado da garagem e levava o fumo para os quintais da vizinhança, numa zona ventosa, e eu ia para lá todos os dias assar sardinhas, pelo menos enquanto houvesse sardinhas, pensava eu, tendo-me esquecido que agora havia sempre sardinhas o ano inteiro porque o Pingo Doce as vendia congeladas e as sardinhas aguentavam assim todos os meses do ano e então, o mês de Agosto, não haveria de ser um problema e sofrer com falta delas.
Assava primeiro dois pimentos, um verde e outro vermelho, que metia, assados, dentro de um saco de plástico que fechava, com um nó, e deixava-os ficarem lá a cozer a pele até ela lá ir buscá-los e levá-los para dentro de casa, despelá-los e juntá-los à salada que estava a fazer e com o qual iríamos acompanhar as sardinhas. Eu também cortava uma fatia de broa de milho para cama da sardinha e que guardava até ao fim, depois de comer todas as sardinhas que me estavam destinadas, para que estivesse bem embebida em azeite e pedaços perdidos das sardinhas. Ela não comia a broa porque dizia que lhe provocava azia e flatulência.
As primeiras vezes, e dada a minha falta de cultura para fazer brasas e assar fosse lá o que fosse, eu, menino da cidade, armado de uma embalagem de gasolina Zippo despejava golfadas e deitava-lhes fogo e via os raminhos a começarem a arder, juntava-lhes o carvão e agitava as chamas com um abanador de palha que lembro de ver um parecido nas mãos da minha mãe quando ela também assava as sardinhas mas num minúsculo fogareiro na varanda do nosso apartamento na cidade. Aprendi depressa a desenrascar-me.
Passei todo o mês de Agosto a comer sardinhas assadas à hora do almoço. Depois dormíamos a sesta debaixo de uma árvore, deitados sobre uma mantinha que partilhávamos com as formigas, fazíamos amor quando acordávamos e dávamos um mergulho no tanque de água gelada que ela usava para regar as hortaliças que cultivava e que vendia para o Pingo Doce, e eu aproveitava para me lavar depois de andar a roçar-me nela e com ela.
Ao fim da tarde ela fazia uma sangria que despejávamos à velocidade da luz. Era refrescante e escorria pelo gargalo abaixo sem pedir autorização.
Ao jantar era ela que inventava sempre qualquer coisa, uma tosta, uma novidade criada assim em cima de uma fatia de pão que torrava e que eu comia com um prazer diabólico, ou uma salada, criada na hora com o que houvesse nas prateleiras do frigorífico ou esquecido na despensa. Às vezes misturava fruta nas saladas que fazia. E queijos.
No fim do mês de Agosto eu tinha engordado cerca de dez quilos.
Decidi que aquilo não era vida para mim. Quando tentei vestir umas calças de ganga, percebi que já não cabia dentro delas. Foi a gota de água. Fui-me embora.
Depois desse mês de Agosto de vacas bem gordas, acabei por cair de amores por uma rapariga escanzelada que a única coisa que cozinhava era um esparguete insípido, demasiado cozido, ao qual juntava uma lata de atum inteira e, às vezes, era ela que acabava por comer o atum todo porque nunca o misturava. Também não me demorei por aquela casa.
Hoje, quando como sardinhas assadas, lembro-me sempre daquele mês de Agosto. Eu nunca mais voltei a assar sardinhas. E tenho saudades daquelas tardes dormidas sobre a mantinha, debaixo da árvore, e do acordar com ela a enfiar-me traqueia abaixo e a dizer-me Cheiras a fumo.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/14]

Para Sul

Saí cedo de casa. Saí de carro e apanhei a EN1. Fui pela EN1 até Aveiras.
Passei a noite em claro. Estava ansioso. Estou ansioso. Ainda estou ansioso. Não consegui pregar olho a noite inteira. Mas nem sei porquê. Levantei-me várias vezes para beber água. Fumei vários cigarros. Cheguei a beber um copo de vinho. Nada funcionou. Devia ter tomado um Zolpidem, mas já não tinha nenhum.
Sou como as crianças. Mal despertaram os primeiros raios de luz, levantei-me, tomei banho, vesti-me, entrei dentro do carro e saí sem destino. Fui andar de carro. Até sentir-me cansado. Até ter vontade de dormir.
Cheguei a Aveiras e perguntei-me como como é que consegui chegar até ali. Os responsáveis pelas estradas de Portugal (deve haver responsáveis, não?), não devem sair dos corredores acondicionados do poder. Esta EN1 está abandonada. Sem manutenção. Enormes quantidades de buracos. Autênticas crateras. Ausência de asfalto. Bermas sujas. Bermas cheias de mato. Restos de pneus de camião ao longo da estrada. As mesmas placas brancas por onde passava, nos anos 80, quando ia estudar para Lisboa e a auto-estrada começava precisamente ali, em Aveiras, depois de uma sandes de panado e uma média Sagres no Pôr do Sol 2. Se calhar é para obrigar os viajantes a utilizarem as auto-estradas exploradas por entidades privadas. Mas haviam de ver a quantidade de gente que se movimenta pela Nacional. Não há dinheiro para pagar todas aquelas portagens. Não com os salários que se praticam. E os cafés de merda, a preço gourmet, nas estações de serviço?
Entrei na auto-estrada e segui até Lisboa. Apanhei o eixo Norte-Sul e decidi continuar em frente. Para baixo. Para baixo todos os Santos ajudam, costumava dizer a minha mãe. E foi para baixo que decidi ir. Fiz o o eixo Norte-Sul, meti-me pela ponte 25 de Abril, cruzei o Tejo, não havia muito trânsito e continuei. Pensei Vou até ao Algarve.
Tinha acabado de passar a saída para Sesimbra e mudei de ideias. Vou até Setúbal. Comer choco frito.
Cheguei a Setúbal e estacionei na Luísa Todi. Havia bastantes lugares. O parquímetro só recebia até às treze. Depois era gratuito. Andei às voltas a fazer horas e depois fui até ao porto. Não reconhecia nada daquilo. Não reconhecia nenhum daqueles restaurantes. Era meio-dia e, um deles, estava já cheio de gente. Decidi que era ali, precisamente ali, que ia almoçar. E almocei. Choco frito. Duas imperiais. Paguei. Fumei um cigarro a olhar as traineiras. Mandei a beata ao mar, e voltei a arrancar de carro. Para sul. Sempre para sul. Ainda não tinha sono.
Fui dar a volta ao estuário do Sado. Depois voltei para trás, quase até à Comporta. Fui ultrapassado por inúmeros Mercedes, BMWs, dois Maseratis e dois Tesla. Antes de chegar à Comporta, virei para Melides. A Comporta não é para mim. Tem muitos mosquitos.
Passei por Melides, fiz Sines, ainda espreitei para São Torpes (à pinha) e continuei para Porto Covo. Nunca gostei de Rui Veloso nem nunca quis ir à ilha do Pessegueiro. Mas estava cheio de gente. Muita gente na praia (imagino), muita gente nas ruas. Assusto-me com muita gente. Continuei.
Em Vila Nova de Milfontes, uma praia da minha juventude, onde enterrei muitas lágrimas e amores na areia, estava igual. Muita gente. Assustador. E eu sem sono. Continuei.
Cheguei à Zambujeira do Mar. Estava nos antípodas. As ruas desertas. Com um ar triste e desolado. Quase ao abandono. O facto de não haver quase ninguém, era uma benção, um convite a sentar-me por ali e beber uma cerveja e fumar um cigarro. Esperar o sono. Mas não consegui. Tinha histórias bonitas vividas ali. Não conseguia estragar tudo com aquela desolação. Continuei.
Enquanto ia andando para sul, pus-me a pensar na últimas notícias. Toda a gente se queixava da falta de clientes, de turistas, de gente que pusesse a vida económica a funcionar depois destes meses de confinamento. Mas o que eu via ali, o que eu via ali com excepção da Zambujeira do Mar, era Portugal a fazer a economia mexer. Havia muita gente. Muita gente a consumir. Muita gente de férias. Muita gente a utilizar o trabalho dos outros, a pagar o trabalho dos outros. Alguns de máscara. Mas nem parecia estarmos a meio de uma pandemia sem vacina. Portugal parece ter saído todo para férias em Agosto.
Do que se queixa esta gente? Esta especificamente. Porque há gente, realmente a passar mal. Há gente que não tem mesmo dinheiro para comer. Mas esses não são estes. Esses já estão habituados à míngua e a nunca serem ouvidos.
Quando dei por mim, fui andando tanto para sul que descobri-me na ponta de Sagres.
Ainda não tinha sono nem estava cansado. Talvez com um pouco de sede. E uma vontade de fumar um cigarro.
E agora? pensei
Pus o pé no acelerador e acelerei.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/08]

Quarenta Graus à Sombra

Quarenta graus à sombra. Aqui onde estou. Sentado no alpendre de casa a olhar as montanhas, a única constante na minha vida.
Quarenta graus à sombra. Pelo menos é o que me informa o telemóvel, um smartphone daqueles todos chiques mas a que basta faltar a bateria para ficarem sem serventia.
Quarenta graus à sombra e eu estou de boxers sentado no alpendre. Sinto a transpiração escorrer pelas costas abaixo. Agarro no copo de gin e bebo mais um gole. Um grande gole. Não posso bebericar. Tenho de o esvaziar rápido. O gelo já quase que derreteu com o calor.
Quarenta graus à sombra. Tenho os pés descalços sobre a tijoleira. Está quente e, ao mesmo tempo, está fresco. Sinto a transpiração escorrer entre os dedos dos pés.
Acendo um cigarro. Fico admirado como consigo fumar com todo este calor. Mas é uma maneira de me tranquilizar. Quando o fumo do cigarro entra por mim dentro, sinto-me relaxar.
Ouço os gritos dos miúdos das casas vizinhas. Imagino-os nas piscinas. O pai a grelhar uns hambúrgueres. A mãe a fazer uma salada. Bebem um copo de vinho branco. Os miúdos entram e saem da piscina. Mergulham. Correm à volta da piscina. Caem. Partem a cabeça. Fazem um bocado de sangue. Mas nada que estrague o dia da família. Com um pouco de sorte e o cansaço dos miúdos, ainda poderá haver festa logo à noite.
Não aqui. Eu estou sozinho. Sozinho, cansado e cheio de calor.
Alguém toca a campainha lá em baixo, no portão lá de baixo. Não faço tenção de ir abrir. Pego nos binóculos, e vejo quem está ao portão. Duas senhoras. Duas senhoras demasiado vestidas para o calor que está. Devem ser Testemunhas de Jeová. Ao mesmo tempo admiro-lhes a persistência. Dia-após-dia em busca de fiéis. Faça frio ou calor, chova ou faça sol. Nada os pára. Nada os demove. E lá estão elas outras vez. Voltam a tocar à campainha. Lá de baixo não me conseguem ver. Vão-se embora.
Apago o cigarro.
Recosto-me na cadeira. Sinto os olhos a fecharem-se e não resisto. Este é o meu presente. Não quero fazer nada. Só estar aqui. Deixar-me embalar pelo calor que já não é reconfortante mas que me mói. Não adormeço. Fico só assim, na fronteira. A ver e a ouvir as coisas ao longe, como numa outra dimensão.
Quarenta graus à sombra e há gente que trabalha debaixo deste sol.
Desperto. Acabo o copo de gin. Penso que deveria ir fazer outro, mas não consigo levantar-me. Estou colado à cadeira. Demasiado inerte. Eu e ela somos só um. Volto a acender outro cigarro na vã esperança que o fumo seco do cigarro me faça levantar e ir fazer mais um copo de gin. Mas acho que tal não vai acontecer. Tenho muitas dificuldades para me obedecer.
A campainha do portão lá de baixo volta a tocar. Agarro outra vez nos binóculos. Agora são dois bombeiros. Trazem um caderninho nas mãos. Devem andar a vender rifas. Já só falta os organizadores da festa de Agosto virem pedir para o andor.
Anda toda a gente a pedir. Ninguém a oferecer. E depois há eu. E eu só estou.
Quarenta graus à sombra. Se eu tivesse aqui a caçadeira, podia experimentar a pontaria. Ora bolas, os bombeiros já vão embora.
Tenho a cabeça a tombar sobre o peito. Acho que é desta. Acho que é agora vou mesmo fechar os olhos e adormecer…

[escrito directamente no facebook em 2020/07/11]

A Árvore Grande

A árvore era grande. Grande não, enorme. A árvore era mais alta que o prédio mais alto da cidade. E estava ali desde sempre. Durante toda a minha vida, e durante toda a minha vida a árvore esteve por lá, eu nunca tinha reparado nela. Foi preciso eu sentir-me cansado e ter-me sentado no banco de jardim para descansar e fumar um cigarro, para olhar para a árvore pela primeira vez na vida e descobrir que a árvore era grande. Grande não, enorme.
O facto de ter descoberto a árvore ao fim de mais de cinquenta anos deixou-me apreensivo sobre a forma como olhava para a cidade. Eu realmente via a cidade?
Enquanto estive ali sentado a fumar o cigarro e a olhar a árvore grande, reparei que as pessoas continuavam a ir e a vir, de um lado e de outro, sem reparar na árvore. Iam depressa. Algumas mesmo em passo de corrida. Outras só a andar depressa. Aos pares, em trio, solitárias. As solitárias iam de auscultadores nos ouvidos. Os pares e os trios iam na conversa. Conversavam umas com as outras. Ninguém olhava para a árvore. Alguém conhecia aquela árvore, ali? Alguém sabia da existência de uma árvore grande, tão grande e alta que era mais alta que o prédio mais alto da cidade?
Apaguei o cigarro no chão. Olhei em volta e não vi nenhum cinzeiro. Nem nenhum caixote do lixo. Deixei a beata esmagada no chão.
Acendi outro cigarro.
Aquela árvore fazia-me lembrar um dos romances da minha adolescência. Aquela árvore remeteu-me para A um Deus Desconhecido de John Steinbeck.
Imaginei-me a cortar as raízes daquela árvore grande. O que é que aconteceria com a cidade? Com aquela cidade que também era minha? Continuaria assim tão brilhante e cheia de gente de sucesso?
Imaginei a chegada do Inverno em pleno Agosto. O tempo cinzento. As trovoadas. Os relâmpagos a riscarem o céu. As chuvas torrenciais. O frio. O granizo. Os tremores-de-terra. As culturas mortas. As fábricas sem matérias-primas. A zona histórica da cidade alagada. Os esgotos entupidos. O rio a transbordar. As pessoas a fugirem. As que pudessem. As outras a ficarem. À espera dos bombeiros que não apareciam. Da polícia que tentava, em vão, evitar os assaltos às lojas. E, então, as primeiras casas a desabarem. Os bairros mal construídos, na periferia da cidade, a desabarem. O tsunami que entraria pelas praias do litoral e galgaria terra pelo leito de rio até à cidade. Salvar-se-iam aquelas que subiriam à Nossa Senhora da Encarnação.
Deitei fora a beata do cigarro. Voltei a esmagá-la com o pé. Não havia cinzeiro nem caixote do lixo e deixei-a no chão, ao lado da outra.
Olhei para a árvore grande, tão grande e alta que era mais alta que o prédio mais alto da cidade. E disse, baixinho, Um dia escrevo-te uma carta de amor.
Depois levantei-me do banco e voltei à minha caminhada ao longo das margens do rio. Como os outros. A andar depressa e sem olhar à minha volta. Sem ver a cidade. Mas a pensar que a conhecia. E a pensar que, no fim, no fim daquela caminhada, era tipo para ir comer um hambúrguer aos arcos dourados.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/06]

Desvairado

O calor faz-me mal. Este excesso de calor que tem estado nestes dias que deviam ser de Primavera mas que nem em Agosto, dão-me volta à cabeça e transformam-me. Fico desvairado. Uma pequena gota faz transbordar o copo.
O pior de tudo isto é que eu sei. Eu sei quando me estou a transformar num monstro. Tenho noção disso. Acompanho par-e-passo todo o processo que leva à minha transfiguração e, no entanto, não serve de nada porque mesmo com essa consciência não deixo de fazer as merdas que faço quando sou levado a isso.
Falo com propriedade. Querem que vos diga? Neste momento, neste momento exacto, neste momento em que vos estou a contar esta história, estou sentado no alpendre, no alpendre onde normalmente estou sentado a olhar as montanhas lá ao fundo, montanhas que hoje estão bem nítidas, que eu já estive a olhar para elas há momentos enquanto fumava um cigarro, mas não agora, porque agora, agora neste exacto momento estou a olhar para as minhas mãos plenas de sangue, de sangue que não é meu, e que pingam nas lajes de cerâmica aos meus pés. Caem pingos nas lajes e salpicam-me as sapatilhas. Também tenho sangue na camisola e nas calças. Mas esse foi apanhado no momento em que dei a primeira martelada na cabeça do tipo. Mal lhe mandei a primeira martelada, o sangue da cabeça jorrou logo para cima de mim. Por momentos deixei de ver. Entrou-me sangue nos olhos. Enquanto limpava os olhos às costas das mãos, enquanto tentava voltar a abrir os olhos, ouvia-lhe o queixume. Um gemido patético para quem momentos antes se exprimia com todo o volume que a garganta deixava cuspir.
O tipo tinha tocado à campainha no portão lá em baixo. Eu estava na cadeira, nesta cadeira, a olhar as montanhas e a fumar um cigarro e não quis interromper a minha contemplação. O tipo insistiu. Deve ter percebido que eu estava cá. O cão foi para lá ladrar, para o pé do portão. Os gatos foram atrás dele, mas deitaram-se em cima do muro a apreciar a cena. Eu via-os daqui, daqui da minha cadeira.
E o tipo colocou o dedo na campainha e esteve assim durante bastante tempo, a tocar, a campainha a tocar, eu a não querer atender e à espera que o tipo percebesse que não era bem-vindo aqui, ninguém estava à espera dele nem queria nada do que ele tivesse para vender. Mas não. O tipo era um daquele tipos de sorriso fácil, simpático, demasiado simpático, sempre alegre e contente, daqueles que me enervam logo mal olho para eles e nunca percebem quando não são queridos, quando lhes dizem não, quando as coisas acabam ou nem sequer começam. Eu vi isso tudo quando cheguei lá abaixo. Porque ele pôs o dedo na campainha e não o tirou.
Eu levantei-me da minha cadeira, da cadeira onde tinha estado sentado no alpendre a olhar as montanhas lá ao fundo e desci as escadas para o quintal. Apanhei, num degrau, o martelo com que tinha estado a pregar uns pregos na sala para pendurar dois quadros de um amigo meu artista plástico, muito bom, por sinal, mas que ainda não tem mercado, eu fui o primeiro comprador de um quadro dele e ele ofereceu-me outro, peguei no martelo, nesse martelo com que preguei a arte na sala, e desci a alameda até ao portão.
Abri-o e parei em frente ao tipo.
Ele tirou o dedo da campainha e disse-me Trago-lhe o melhor pacote de TV por cabo que possa imaginar. E eu só consegui dizer Não vejo televisão! quando senti o meu braço puxado atrás e lançado para a frente, rápido, rápido e com força, e lhe desferi o primeiro golpe que lhe tirou logo o sorriso-pepsodent da cara. Ele cambaleou e caiu quase logo de seguida ao primeiro golpe. Mas eu não consegui parar. Senti-me eufórico e desferi-lhe mais três ou quatro golpes, que depois parei de contar, perdi-me, esqueci-me, sei lá, e só parei quando senti o braço dormente e a cabeça do tipo feita numa pasta mole e disforme.
Foi quando voltei a mim e percebi o que tinha feito. O calor. A merda do calor. O calor enerva-me.
Depois voltei cá para cima e telefonei à polícia. Estou aqui à espera que eles cheguem. Deixei o portão aberto. Para eles entrarem.
Vou buscar um copo de vinho. Está a apetecer-me um copo de vinho. Vou beber um copo de vinho e fumar um cigarro…
São as sirenes que ouço, não são? Já lá vem a polícia. É melhor acender já o cigarro.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/29]

Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]

Com o Martelo na Mão

Já só me parecia o coração a bater a bater a bater com muita força contra o peito e a querer saltar fora de mim farto de me aturar e aos gritos que silenciava para não ter ainda mais que aquele bater cadente e hipnótico que estava a dar comigo em doido.
Estava deitado na cama. Em cima da cama. A almofada sobre a cabeça a tentar abafar os sons que vinham do exterior mas em vão. Não abafavam nada. Já não sabia de onde é que os sons vinham, esses cabrões. Agora pareciam vir de mim, de dentro de mim, como se o meu coração estivesse a bater ritmado no adufe à espera da harmonia da guitarra mas essa nunca mais chegava que nada daquilo era como eu achava que era. Não era o meu coração embora ele batesse. Estava vivo, não estava? Não havia adufe nem haveria de haver uma guitarra. Não há guitarras cá em casa que eu nunca soube tocar nada e a única guitarra que houve não era minha e de qualquer forma deixou de existir quando eu a parti na cabeça da dona que passava os dias em solfejo para cima e para baixo como um yo-yo nunca passando daquilo, uma merda pá!, e eu à espera dela para noites tórridas de sexo em pleno Agosto e ela a transpirar com as unhas a arranhar as cordas num solfejo irritante que me fez sair da cama nu tirar-lhe a guitarra das mãos e parti-la na cabeça. E ainda tive de a levar ao hospital para levar uns pontos, sujou-me os estofos do carro com sangue que tive de mandar lavar a seco e ainda tive de lhe comprar uma guitarra nova e eu que nunca soube tocar guitarra tive de gastar dinheiro numa guitarra que nem era para mim e nunca mais a vi nem a miúda nem a guitarra o que não deixou de ser um alívio.
Agora parecia que era um remake e como todos os remakes ainda em pior.
Havia vários ritmos como se fossem várias baterias a tocar ao mesmo tempo, como os Paus, mas estava cada uma a tocar para seu lado e não havia harmonia nem nada a ligá-las era somente barulho barulho barulho puro que me entrava pelos ouvidos e viajava à velocidade da luz pelo cérebro dentro e já não sabia o que era nem de onde vinha era já só tudo dor uma porra de uma dor infernal e eu sem conseguir pensar, só a querer fugir, era fugir que eu queria, fugir dali e encontrar o silêncio mas não devia sair de casa que as ordens eram de confinamento, de distância social, nada de beijos, abraços, relações de proximidade uns com os outros mas barulho isso sim, havia carta branca para furar os tímpanos às pessoas, a mim, a mim que me queixava e a quem ninguém ligava. Já tinha telefonado à polícia. Já tinha ligado para a Junta de Freguesia. Já tinha alertado a CMTV. Mas para uns não havia nada a fazer e para outros era assunto menor.
Não era com eles, não é?
E foi então que me decidi.
Tirei a almofada de cima da cabeça. Na precisa altura em que me pareceu ser um martelo pneumático a partir paredes por cima de mim. Levantei-me da cama. Acendi um cigarro. Fui à despensa. Abri a caixa das ferramentas. Peguei no martelo. Saí pela porta da rua. O cigarro preso ao canto da boca a fumegar. O martelo na mão. Descalço. Em cuecas. Subi as escadas. Aproximei-me da porta do apartamento por cima do meu. Toquei a campainha. Esperei.
Começo a ouvir uns passos. Uns passos que se ouvem por baixo de toda a chinfrineira produzida no interior do apartamento. Levanto o braço com o martelo na mão. Sinto a fechadura a abrir. A porta a abrir. E penso É agora!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/21]