E Ela Disse…

E ela disse Fica à vontade, e eu vi, pela primeira vez, que lhe faltava um dente à frente, mesmo à entrada da boca, e que se via cada vez que ela falava, porque ela esboçava um pequeno sorriso cada vez que falava, abria a boca, rasgava o sorriso como se fosse uma pessoa sempre feliz, mas eu ainda não tinha reparado na falta do dente até àquele momento, ela abria a boca e notava-se a ausência do dente, e só o percebi naquele momento e também percebi que ela não devia ser assim sempre tão feliz, talvez fosse mais um esgar da boca, talvez um erro na matriz, talvez fosse ela a tentar fugir à tristeza.
E ela disse, enquanto se despia, enquanto tirava a camisola pela cabeça e começava a desapertar o soutien Tens ali um bidé e podes lavar-te, e eu olhei para o canto do quarto onde estava plantado um pequeno bidé, em cima de umas pequenas lajes cinzentas numa espécie de ilha com as paredes forradas de oleado com desenho de azulejos brancos, como se fosse uma casa-de-banho, uma verdadeira casa-de-banho, e estava tão encardido como estariam os verdadeiros azulejos se estivessem realmente ali, no canto daquele quarto, a serem utilizados a cada duas horas, ou uma hora ou, porque não, a cada meia-hora, o tempo que cada homem se demorava por lá. Também vi um toalha colorida em cima do bidé e pensei se a cor não seria para esconder as misérias.
E ela disse Não tenhas vergonha, mas não era vergonha o que eu tinha, era mais arrependimento, arrependimento por estar ali, por estar ali com ela, naquele quarto de odores pesados de after shave misturados com água de colónia barata e suores entranhados nos lençóis e cobertores e paredes. Ela, pressentindo o cheiro que me estava a enjoar, abriu as janelas de par-em-par e eu pude ver a cidade, o resto da cidade, lá em baixo, ao fundo, para além da janela daquele quarto onde eu já tinha decidido que não queria estar, quando senti as mãos dela pousarem nos meus ombros e o bafo que a boca projectava ao aproximar-se do meu pescoço como se me fosse beijar mas sem o fazer porque, naquele negócio, não se transacionam beijos.
E ele disse Vem! e começou a desapertar-me o cinto das calças e eu afastei-me dela, afastei-me até à janela e olhei para a cidade, para a cidade banhada pelos raios de sol das três da tarde e senti um frio desgraçado, um arrepio ao longo das costas e depois virei-me para ela e abanei a cabeça enquanto apertava o cinto que ela tinha começado a desapertar.
E ela disse Tens de pagar na mesma, não é? e eu procurei nos bolsos das calças, enfiei as mãos pelos bolsos das calças e encontrei duas notas de vinte e deixei-as na mesa-de-cabeceira manchada dos copos e uma pequena estátua da Nossa Senhora de Fátima em baquelite luminosa, cheia de pó, e quando olhei para ela outra vez, pensei que estava a rir-se e depois lembrei-me que, se calhar era um esgar da boca, talvez um esgar para esconder, afinal, toda a tristeza da vida que levava naquele quarto de odores fortes.
E eu disse Desculpa!, enquanto abria a porta do quarto e saía e a deixava sozinha, quase-nua, de cuecas, num quarto onde não queria estar, e saí pelo corredor e passei por inúmeras portas fechadas e perguntei-me que vidas se contavam atrás delas e saí da pensão e cheguei à rua e pus-me a respirar com força para deitar fora o ar viciado que trazia comigo e, então, comecei a descer a ladeira que levava ao centro da cidade e que eu tinha vista lá de cima, do quarto dela.
E ainda pensei como não tinha visto logo a falta do dente?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/22]

Um Arrepio de Frio nas Costas

Senti um arrepio de frio como se alguém tivesse passado por mim. Senti um arrepio de frio e os pêlos dos braços eriçaram-se.
Olhei para trás. Virei-me e olhei para trás de mim. Tive aquela sensação de alguém ter passado por mim e estar parado, atrás de mim, a olhar-me na nuca, a olhar-me fixo na nuca. Levei a mão à nuca. Massajei-a. Virei-me e olhei para trás mas não vi ninguém. Não vi nada. Só a cozinha e a solidão da minha cozinha. O silêncio dos vidros duplos. A porta e a ligação ao corredor que leva ao resto da casa. Que leva à porta da rua. Que leva à rua.
Aproximei-me da porta da cozinha. Olhei para o fundo do corredor. Vi as portas abertas dos quartos, da sala, a porta encostada da casa-de-banho. Pus-me atento. À escuta. Não ouvia nada. Nem os barulhos dos apartamentos de cima e de baixo, dos apartamentos dos lados.
Fixei o olhar no fundo do corredor, na porta da rua. A chave estava na fechadura. Via-a à distância. A chave na porta. A porta fechada.
Tive a sensação, pelo canto do olho, de uma sombra a mover-se dentro da casa-de-banho de porta encostada mas com uma frincha que deixava ver a luz no interior. Senti o coração a acelerar. A bater forte. A bater tão forte que fiquei com medo que se ouvisse em casa, no corredor, na casa-de-banho.
Fui devagar. Fui em silêncio. Fui com uma mão a deslizar pela parede do corredor a manter o equilíbrio, o salto da mão sobre os quadros, e o regresso à parede, a deslizar.
À porta da casa-de-banho encostei o ouvido. Prestei atenção. Procurei um ruído, um barulho, qualquer som. Senti, de novo, um arrepio de frio pelas costas acima. Virei-me, em silêncio, de regresso ao corredor até ao fundo à cozinha. Mas nada. Não havia nada. Voltei a minha atenção para a casa-de-banho. Olhei-a pela frincha. Nem uma sombra. Nem um movimento de sombra. Nem um ruído. Nem o bater do meu coração. Com a mão direita, empurrei a porta para dentro, devagar, até a ter toda aberta e a casa-de-banho vazia à minha frente. Olhei para a janela. Estava fechada. O chuveiro pendurado acima da banheira estava seco, não pingava. Nenhuma das torneiras pingava. O depósito de água da sanita estava em silêncio. Os frascos de after shave na prateleira. Voltei a puxar a porta e deixei-a encostada.
Caminhei em frente. Parei à porta do primeiro quarto. O meu quarto. A cama por fazer. O edredão tombado no chão. Os lençóis enrolados neles próprios. O relógio-despertador a iluminar, a verde, as horas. Os livros na mesa-de-cabeceira. Nas mesas-de-cabeceira. Uma revista caída no chão, junto com o edredão e o que deviam ser umas cuecas. Minhas, obviamente. A janela também estava fechada. As cortinas corridas.
Segui em frente, até ao outro quarto. Só espreitei. Era um quarto vazio. Não havia nada para ver. Só o espaço. O ar. O vazio. O pó no chão. A janela fechada, também. Sem cortinas. De persianas meio corridas.
Virei-me para trás. Voltei para trás, no corredor. Parei à entrada da sala. Em silêncio. Vazia, também. As luzes dos led dos aparelhos electrónicos ligadas. Um copo vazio na mesa de apoio. Umas revistas em cima do sofá. Um cinzeiro, de pé, cheio de beatas. Tinha de o despejar. Mas não agora. Pilhas de livros no chão. Nenhum livro tombado.
Voltei a olhar para o fim do corredor. Para a entrada da cozinha. Regressei lá.
Olhei de novo a cozinha. Vazia.
De súbito, notei a janela meio aberta. A janela da cozinha. E pensei Estava fechada. Não estava? Mas não conseguia responder. Achava que estava fechada. Mas não tinha a certeza. Não conseguia ter a certeza. Se calhar estava aberta.
Aproximei-me da janela. Olhei para fora. Puxei a porta de vidro da janela e abri-a toda. Meti a cabeça de fora. Assustei-me. Estava um gato preto sentado no pequeno parapeito que contorna o prédio, mesmo ao lado da janela da cozinha. Meti a cabeça para dentro. Assustei-me. Senti o coração a bater muito depressa, de novo. Senti-me tremer. Suspirei fundo. Voltei a pôr a cabeça de fora da janela. Devagar. Com calma. Olhei para o gato que estava a lamber-se. Lambia as patas. Depois abriu as pernas e começou a lamber-se entre as pernas.
Eu já não sentia mais nenhum arrepio de frio. Deixei de ter aquela sensação de haver alguém a passar por mim.
Acendi um cigarro. Fiquei ali à janela a fumar, a olhar para o gato a limpar-se, e a pensar que, se calhar, estava na altura de arranjar companhia lá para casa. Um pouco de companhia. Um pouco de barulho. Um caminhar no soalho da casa para além do meu.
Acabei o cigarro e lancei-o para a rua.
Fui buscar um pires com leite e deixei-o à janela, a janela aberta e o pires de leite do lado de dentro da janela. O pires de leite em casa. Anda bichano, anda.
Anda gato. Anda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/21]

Ano Novo, Vida Nova

Já fiz quase dois dias inteirinhos deste novo ano que estreei ontem. Nada de novo debaixo do sol nem dentro de casa.
Queria acreditar que as coisas seriam diferentes. Não são.
Regressei ao trabalho. Entrei às oito da manhã. Estava ainda escuro. Frio. Mesmo em sistema self-service, as pessoas ainda me pedem para ser eu a encher os depósitos. A agarrar a mangueira de combustível e enfiar a agulheta dentro da entrada do depósito do carro. O cheiro. O óleo nas mãos. Tudo igual. Pagam em plástico. No final já nem espero uma moeda de gorjeta. Já lá vai o tempo. Agora é como se eu fizesse parte do preço do litro. O meu trabalho. Um trabalho de merda, mal pago e mal tratado.
Foi um dia de muito movimento. Os carros chegavam quase vazios e queriam voltar a partir cheios. Andou-se muito durante as festividades. Fez-se fila. Eu sozinho. Para encher os depósitos. Para receber os pagamentos. Para os trocos para a máquina de tabaco. Pediram-me para passar uma escova no pára-brisas. Para calibrar os pneus. Pediram-me duas latas de óleo. Uma embalagem de detergente para os vidros. Os que esperavam para o combustível, buzinavam. Eu olhava, mas não podia fazer nada. Estava sozinho. E assim continuei. Sozinho a servir toda a gente. Uma gente bem cheirosa, sabonete, champô, after-shave, perfume. A quererem agradar ao novo ano. Eu também vim de banho tomado. Durou até ao segundo carro.
Pude fazer uma breve pausa a meio da manhã. Bebi um café na máquina de venda automática e fumei um cigarro. Cheguei a imaginar pegar fogo à estação de serviço e ver tudo a arder. Eu sentava-me no lancil do passeio do outro lado da estrada a ver os depósitos de combustível a explodirem e a queimar tudo ali à volta. Eu sentado no passeio, a fumar um cigarro e a contar os minutos que os bombeiros demorariam a chegar ali à estação. O quartel dos bombeiros fica a cerca de quinhentos metros de distância da estação de serviço mas, o camião tem de dar a volta pelo outro lado, que a estrada é de sentido único. A sirene tocaria. A chamar os bombeiros que estariam ainda de cama. Agarrados às mulheres de penteado novo pela festa de Passagem de Ano. Alguns ainda de ressaca. Demorariam a responder ao apelo. Quanto tempo até chegarem ali à estação?
Cheira-me bem. Não é o cheiro a queimado. Não é o cheiro a gasolina. É um cheiro a dinheiro fresco.
A buzina a tocar. A buzina a tocar e ninguém a responder ao apelo. A buzina afinal era do carro de um cliente que me chamava. Um Mercedes. Um homem de fato e gravata. Senti-lhe o cheiro de perfume do outro lado da estrada antes de perceber que a buzina era para mim. Apago o cigarro na estrada. Levanto-me. E lá vou eu.
Claro que sim. Claro que atesto o carro. Sim, sim, eu. Eu agarro na agulheta. Puxo a mangueira. Fico ali a agarrar na agulheta até encher o depósito. Café só na máquina. Eu tenho moedas. Sim. Olhe aqui. Sim. Já sai com açúcar. Pode escolher a quantidade. Sim, tem colher. É de plástico. Infelizmente. Mas irá mudar, sim. Quem sabe quando?
Ano novo? Vida nova? Não nestas latitudes. Não na minha vida. Aqui continua tudo igual. Tudo velho.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/02]

A Lâmina Mais Pequena É Sempre a Mais Afiada

Não sei como fazer as coisas. Mas não posso continuar como se não se passasse nada. Não posso.
Vejo os meus olhos tristes ao espelho. Faço a barba. Faço a barba com navalha e espuma de sabão. Nunca tinha feito a barba com navalha. Ela não está muito bem afiada. E eu nunca tinha feito a barba com navalha. Passo-a várias vezes pelo mesmo sítio. Para raspar bem. Para raspar melhor. Corto-me. Mas nada de grave. Uns cortes sem importância. Estanco o sangue com pedaços de papel higiénico.
Massajo a cara barbeada com after shave. Encetei um frasco que a minha filha me deu há… Há dois anos, acho. Não costumo fazer a barba. Não costumo usar after shave.
Será que vão achar estranho?
Tenho de fazer alguma coisa. Não posso esperar mais.
Tomo um banho de imersão. Há quantos anos não o fazia? Ela vai achar estranho. Não tarda vai querer entrar na casa-de-banho e vai achar estranho eu estar a tomar banho de imersão. E não sei mentir. Não consigo fingir. Oh! Mas sabe-me tão bem!
Deixo-me ficar quieto na banheira durante algum tempo. E penso como a vida pode ser fabulosa na sua simplicidade. Um simples banho de imersão e esqueço-me de mim.
Ela abre a porta da casa-de-banho, coloca a cabeça dentro e diz Demoras muito? e eu sinto-me despertar da minha letargia, forço um pequeno sorriso e digo Saio já! e ela ainda comenta Banho de imersão, hum? Lorde!, sorri e eu volto a dizer Saio já!
E saio. Saio já. Seco-me. Vou vestir-me no quarto. Não me cruzo com ela. Nem com eles. Visto-me. Umas calças de ganga e uma camisola. Ouço-a entrar na casa-de-banho. Ouço-os a eles na brincadeira na cozinha. Desço as escadas e dirijo-me à porta da rua. Grito alto para toda a casa ouvir Adeus! Estou atrasado! Beijos! e ainda os ouço gritar, chamar por mim Pai! Pai!, mas saio a correr, rápido, não os quero ver, não os quero encarar, e entro dentro do carro e arranco pelas ruas do bairro. Olho para o espelho retrovisor e vejo os olhos molhados. Páro o carro na berma de uma rua qualquer e desato a chorar. Choro compulsivamente. Grito. Ainda aqui estou e já sinto saudades. Saudades dela. Deles. Da minha vida. Da vida.
Tento respirar. Tento respirar com calma. Acalmo. Páro o choro compulsivo. Mas choro. Ainda choro. Acendo um cigarro. Abro a janela do carro e deixo o fumo sair para a rua.
Vejo as crianças a pé a caminho da escola. Uma mulher, de robe, passeia um cão pequenino pela berma da estrada. Passam carros. Carrinhas. Um jipe. Motas. Várias bicicletas. Miúdos de bicicleta a caminho da escola.
Deito fora a beata ainda fumegante.
Olho o relógio. Vejo as horas.
Acendo outro cigarro.
Vejo os carros passarem. As pessoas passarem. Os cães passarem. As minutos passarem. A vida passar.
Volto a casa. Está em silêncio. Vazia. Já não está ninguém.
Deixo o carro. Deixo a carteira. O dinheiro. O telemóvel. As chaves. Tudo em cima da mesa da cozinha. O bloco aberto. Amo-vos! escrito numa linha de página do bloco como se fosse uma redacção da escola.
E vou embora. Outra vez. De vez.
Saio a porta. Olho a casa pela última vez. Penso que aguentei quase dois anos sem trabalho. Ela aguentou. Eles todos aguentaram por mim. Mas isto agora… Isto agora já é demais. Eles precisam de viver as suas próprias vidas. Sem âncoras que os prendam.
Faço as ruas do bairro a pé. Não me cruzei com ninguém conhecido. Pelo menos, não dei por isso.
Desço até à cidade. A pé até à cidade. Um bilhete de autocarro para fora da cidade. Não precisa de ser muito longe. Tem de ser é muito rápido. Para não ter tempo de me arrepender.
Vou até uma aldeia que nem conheço. Nunca ouvi falar. E fica aqui nos arredores da cidade. Saio do autocarro. Caminho ao longo da rua da aldeia. Saio da aldeia. Entro no pinhal. Caminho à deriva pelo pinhal. Vou andando enquanto consigo. Começo a chorar. Sinto saudades. Saudades deles. De tudo. Tenho uma dor de estômago e vomito. Vomito agarrado a uma árvore.
Sento-me no chão, em cima de uma manta de musgo, encostado a um pinheiro. Acendo um cigarro. Sinto uma grande angústia.
Penso em quando acompanhei o meu pai à quimioterapia. Penso em quando acompanhei a minha mãe. E penso que não quero que me acompanhem a mim.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o no musgo, entre as minhas pernas.
Agarro no canivete-suíço. Puxo a lâmina mais pequena. Está mais bem afiada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/09]

A Revolução em Marcha

Este é um grande país, afinal. Cheio de gente valorosa. Voluntariosa. Inteligente. Mas nos lugares errados. Com os caminhos tapados.
Estava a ler os comentários às notícias do dia. Os comentários que o povo anónimo escrevia sobre as notícias reluzentes da actualidade. As notícias sobre política, economia e finanças. Também sobre futebol. Sim, eles tinham razão. O povo. As elites estavam erradas. Enredadas nas suas obrigações. Atoladas na corrupção. No compadrio dos pequenos chefes de secção. As elites ajudavam-se entre elas. Construíam o seu próprio condomínio fechado. Porta fechada a sete-chaves. O povo estava a descobrir isso. No início nem ligou. Era lá entre eles. Mas depois começou a pagar a factura. E começou a irritar-se. A ver os outros a irritarem-se noutros lados. Era preciso mudar o estado das coisas. Era preciso saltar das caixas de comentários para a rua. Era preciso colocar a revolução em marcha. Era preciso substituir a velha razão de estado pelo novo pragmatismo social. O que estava em baixo tinha de passar para cima.
Foi o que aconteceu em França. Em Inglaterra. No Brasil.
O um por cento devia ser substituído pelos noventa e nove por cento. As ajudas do estado não podiam mais ser aos bancos, mas às famílias. O risco sistémico não era mais o descalabro das finanças que sobrevivia mal aos erros sucessivos do CEO com mais olhos que barriga. O risco sistémico era o do suicídio em massa de quem não tinha comida para pôr na mesa, para colocar na boca dos filhos.
Eu resolvi fazer a minha parte.
Tomo banho. Um duche quente. A escaldar. Vejo a minha pele a ficar encarnada. Faço a barba. Duas vezes. Corto-me. Faço algum sangue. Estanco-o com pedaços de papel higiénico. Quero ficar limpo. Passo after-shave pela cara. Arde. Dou duas palmadas.
Visto um fato. Um fato azul escuro. É a primeira vez que visto um fato. Camisa branca. Gravata às riscas em vários tons de azul. Uso os botões-de-punho do meu pai. Calço sapatos de sola. Sinto-me elegante.
Pego na pistola e coloco-a à cintura. À frente. Entalada entre o cós das calças e a barriga. Amarrota um pouco a camisa. Mas não faz mal. Aperto um botão do casaco. Estou elegante.
Entro no carro. Vou devagar até à casa dela. Páro o carro a certa distância. Vejo a porta de saída. Aguardo pelo momento certo. Substituir o velho pelo novo. O amante há-de sair por ali. E quando sair, começa a revolução. Um tiro. Quando ele sair pela porta da rua, eu saio do carro. Aproximo-me dele e disparo. Limpo o meu caminho. Recupero o tempo perdido. Começa a revolução.
Vejo a porta a abrir. Vejo o amante a sair pela porta da rua. Coloco a mão na arma, antes de sair do carro. Ouço um som forte. Sinto uma picada… Um murro.
Foda-se!
Olho para baixo. Vejo uma mancha de sangue a alastrar pela camisa branca. E não pára. O vermelho come o branco. Vem em jorro. Porra! A vista começa a ficar turva. Levo a mão à porta. Quero abri-la mas não consigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/29]

O Cheiro do Meu Pai

Durante anos, ao passar pela casa-de-banho principal, a maior lá de casa, a casa-de-banho onde havia banheira onde se tomavam os banhos de imersão, lembrava-me sempre do meu pai. Via-o lá de pé, de camisola interior de alças, em frente ao lavatório, a fazer a barba. Havia dias em que utilizava máquina. Uma máquina de cortar a barba que fazia um barulho baixo e agudo, parecia uma abelha, bzzzzzzzzzzzz, e que alterava o som à medida que caminhava pela cara. Outros dias espalhava creme, com a ajuda de um pincel, parecia que estava a pintar-se como um palhaço, e raspava com uma lâmina que enfiava numa espécie de martelinho, prateado, pesado mas pequeno.
Durante anos, ao passar por essa casa-de-banho, lembrava-me sempre do meu pai. Era o cheiro. Um cheiro forte do after-shave que eu deixei cair e parti, ali mesmo, no sítio onde o via, quase todos os dias, a fazer a barba.
Eu já tinha alguns pêlos na cara. Nada que alguém visse. Mas eu via. Os pêlos da barba. Da minha barba. Eu crescido. Eu já com barba. Uma penugem que crescia aos meus olhos. Um dia peguei no pincel da barba do meu pai, molhei-o, esfreguei-o no sabonete e espalhei-o pela cara. Depois peguei na pequena máquina de raspar a barba e raspei a espuma que tinha na cara. Nem reparei que a lâmina não estava colocada. E ainda bem. Não me cortei. Não fiz sangue. E fiz a barba. A minha primeira barba. Sozinho. Era um homem.
Passei a cara por água. Sequei-a com a toalha. Agarrei no frasco azul-olho-de-boi com as duas mãos e, quando larguei uma das mãos para desenroscar a tampa, senti-o fugir-me da mão. Olhei para baixo. Vi-a. A minha mão em posição de agarrar mas sem agarrar já nada. Um frasco a cair. A cair por ali abaixo. Vi o trajecto todo. E ainda pude pensar Estou fodido! O frasco caiu. Foi caindo. Até que chegou ao chão. Estilhaçou-se. Mil-e-um pedaços de vidro, já vidrinho, azul-olho-de-boi a invadir a casa-de-banho. Ao mesmo tempo, um duche invertido daquela espécie de perfume a salpicar-me as pernas, os pés, até chegar-me às narinas. O cheiro. Aquele cheiro. Estou fodido!
Nunca mais me esqueci daquele cheiro. O cheiro do after-shave do meu pai. O cheiro do meu pai acabado de fazer a barba. O cheiro do meu pai.
O meu pai não precisou de se zangar comigo. Eu mesmo me encarreguei disso. Zanguei-me. Fiquei triste. Chorei. Chorei por tudo aquilo que fiz. Por ter partido o frasco. Que não era meu. Por querer ter sido o que não era. Por ter feito asneira. Por ter enchido a casa-de-banho de pequenos pedaços de vidro que ainda andaram por lá alguns anos. Por ter feito a casa-de-banho principal da casa ficar com um cheiro perfumado para o resto da vida. Pelo menos foi assim que eu o senti sempre. Aquele cheiro. Nunca mais o esqueci. E com ele, as memórias do meu pai.
Eu nunca mais fiz a barba. Às vezes aparo-a. E nunca usei after-shave. Isso era coisa do meu pai. Eu sou só o filho.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/11]

A Minha Mãe Queria que Eu Fosse Tão Elegante como o Meu Pai

A minha mãe olhava para mim e dizia Porque é que não és como o teu pai?, mas não para ser ele, ou ser parecido com ele, mas para ser mais como ele.
O meu pai era elegante. Sempre de fato. Calças, casaco, camisa, gravata e, às vezes, até colete. Usava botões-de-punho. Tinha vários diferentes, para as diferentes camisas e diferentes ocasiões. Eu poderia tentar explicar como é que determinado botão-de-punho era para determinada camisa. Mas não sei. É uma ciência que me transcende. O meu pai sabia. E tentou ensinar-me. Mas não tive ouvidos.
O meu pai fazia a barba todos os dias de manhã. Eu acordava, geralmente, com ele a fazer a barba. Fazia quase sempre com lâminas. Pincelava a espuma na cara e depois raspava. Quando estava com muita pressa fazia à máquina, mas não gostava. Dizia que Não fica como deve ficar. Depois massajava-se com after shave. Um dia ofereceu-me uma navalha para a barba. Nunca a utilizei. Não sei utilizar. Era raro que ele utilizasse mas, uma vez, fez-me a barba a mim, com a navalha. E depois colocou-me um pano quente sobre a cara acabada de ser escanhoada. Deve ter sido a última vez que a minha cara ficou livre de pelos.
Nunca vi o meu pai usar calças de ganga. Aquelas que até Primeiros-Ministros de países do Primeiro Mundo usam quando visitam países do Terceiro Mundo. Muito menos calções. Calções de banho, sim. Nas poucas vezes que foi à praia.
Também nunca vi o meu pai calçar sapatilhas. Muito menos ténis. Talvez tenha usado alpercatas nos tempos de mocidade, mas nem ele se devia lembrar de tal heresia.
De Inverno usava, geralmente, uma gabardina ou um sobretudo sobre o fato. Gabardina em dias de chuva ou de vento. Sobretudo em dias frios. Cheguei a roubar-lhe algumas gabardinas. Principalmente na minha fase urbano-depressivo. Gabardinas de três-quartos. Escuras. Cinzento escuro.
Nunca usou botas. Sempre sapatos. Sapatos de sola. Nunca de borracha e muito menos de plástico. O que me complicou a vida quando quis comprar umas Doc Martens.
De Verão usava calças mais leves, mas sempre impecavelmente vincadas pela minha mãe, e camisas leves de manga comprida. Não usava mangas curtas e, no Verão, prescindia da gravata. A não ser que usasse casaco por algum motivo e, então sim, usava gravata. Nessa altura usava uns sapatos mais leves, com uns furinhos em cima, no couro, a formar desenhos.
O meu pai usava óculos. Óculos de ver. E em toda a vida, deve ter mudado de armação, não mais de quatro vezes. É aqui que sou mais parecido com ele. Agora também uso óculos para ver que estou a ficar velho e os livros que fui lendo ao longo da vida gastaram-me a vista, mas sempre usei óculos de sol, que tenho uma vista com muita sensibilidade à luz. A iluminação branca, fluorescente, dá-me nervos e é capaz de me levar a cometer actos de loucura. E em toda a minha vida devo ter usado quatro ou cinco armações diferentes.
Em casa o meu pai usava roupão por cima do pijama. Eu nunca uso pijama. Já usei quando a minha mãe me obrigava. Quando deixou de me conseguir obrigar, deixei de usar. Gosto de boxers. E t-shirt. E, na hora de dormir, nem uso um pingo de Channel 5. E roupão, foi coisa que nunca usei na vida. Faz-se sentir preso. E eu não gosto de me sentir preso.
A última vez que entrei em casa da minha mãe ela perguntou És tu, menino?, e eu disse Sim, sou eu!, e ela perguntou-me se por acaso eu era algum menino. E disse-me Senti logo, pela falta do after shave, que não era o teu pai. E quando te vi assim, maltrapilho, nessas calças de ganga todas ruças, nessa camisola que já deve ter sido um dia, há muito anos, branca – quem é que te lava a roupa? podia por um bocadinho de lixívia para desencardir -, e com essas sapatilhas todas sujas e rotas – como é que consegues andar assim, meu Deus? – percebi logo que não era o teu pai. Que desgosto, filho.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/21]