Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

O Último Suspiro

E naquela tarde desejei que a vida fosse um dia de sol brilhante, quente e confortável, um mar ondulante e dócil de águas mornas onde poderia nadar crawl e que nadaria como ninguém, boiaria num colchão de ar e seria levado ao longo da costa até uma praia deserta e secreta onde encontraria uma sereia verdadeira com rabo de peixe, almoçaria um bife do lombo com batatas fritas e um ovo a cavalo, molharia um bocado de miolo de um papo-seco na gema amarelinha do ovo, beberia um pirolito e guardaria o berlinde de porcelana colorido que iria juntar ao atabafador, ao contra-mundo e ao olho-de-boi na caixinha das preciosidades onde também estaria o pin do Benfica, o cartão de sócio da União de Leiria, os cromos de futebol das pastilhas May e a fotografia da Cindy, uma inglesa de Bristol que conheci na Praia da Oura e com quem andei de gaivota, comi gelados de laranja da Olá e chorei baba e ranho quando me vim embora para Leiria e ela ficou mais uma semana, jurámos trocar cartas e só foi a primeira e só chegaram duas, e que depressa troquei pela Rita que conheci no colégio, mas a fotografia ficou para me lembrar as pequenas histórias que fazem toda a minha vida, e depois iria a uma matinée de cinema ver o Grease, a Guerra das Estrelas ou uma reposição da Fantasia que o meu gosto é eclético, passearia de bicicleta tipo chopper ao longo do rio e subiria a estrada até à nascente do Liz, às Fontes, logo ali acima das Cortes, e regressaria mais tarde até à descida do Seminário onde iria fazer a descida em carrinho-de-rolamentos e passaria pela caixa de água pública onde o Jorge um dia rebentou umas bombas de Carnaval que lhe iam arrancando os dedos da mão, mas não arrancaram e nós fartámos-nos de rir à conta dele que nunca mais pegou em bombas de Carnaval, só em bombinhas de mau-cheiro que partia nas aulas de matemática e a freira era obrigada a dar a aula por terminada porque o cheiro se tornava impossível e ninguém mais tomava atenção à matéria, e saíamos da sala e íamos jogar à bola para o campo pelado onde esfolei e esfolaria ainda mais vezes os joelhos e todos os finais de tarde seriam passados na Feira de Maio, na pista dos carrinhos-de-choque da feira, aos empurrões aos outros carros para impressionar as meninas que olhariam para mim e suspirariam, e eu veria os seus pequenos corações a baterem forte dentro dos seus frágeis corpos de adolescentes à minha passagem e iria passear à volta do mundo com uma dessas meninas e conheceria todos os países e todos os povos da Antártida ao Ártico, passando pela Austrália, a Ásia, a América do Norte, Central e do Sul, e toda a África, e teria todo o tempo do mundo para usufruir da vida de todos estes continentes e povos, e comeria das gastronomias locais e nunca ficaria maldisposto com nenhuma das iguarias que o mundo está cheio de maravilhas para comer e beber e ver e ouvir e tocar e sentir e apreender, e cada vez que regressaria iria rever os meus amigos que ainda seriam sempre os meus amigos porque os amigos seriam sempre para a vida, ao contrário dos amores que se enterram na areia da praia em cada fim de Verão, e mataria saudades dos meus pais e da escola onde andava mas já não andaria porque iria aprender pelo mundo fora a fazer surf no Hawai, mas poderia ser também na Nazaré ou em Peniche, a jogar futebol de praia em Copacabana, judo no Japão, a tocar didgeridoo na Austrália, percussão em África e kazoo… onde é que poderia aprender a tocar kazoo?… talvez em África também e ocarina com os descendentes dos maias e…
…e depois descobria, naquela tarde, que a vida afinal nunca seria assim tão boa enquanto assistia ao último suspiro do meu pai deitado na cama onde estava já há uns meses à espera de ser levado lá para onde vão as pessoas que respiram pela última vez e eu chorava como choravam todos os abandonados cá deste lado ao sentirem-se sozinhos e perdidos, à espera que a vida, mesmo assim, não me abandonasse como parecia ter abandonado naquele momento.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/15]

Setenta e Cinco Anos

E então?
É noite, embora fosse ainda dia. Fumo um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Continuamos a cuspir-nos ao espelho.
Espelho meu, espelho meu, existe alguém melhor que eu?
O trabalho liberta.
Soares é fixe.
O partido é sexy.
Diferentes mas iguais.
#MeToo.
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas. Para o trabalho. Para casa. Fazer o jantar. Lavar a roupa. Passar a ferro. Fazer os TPC. Aspirar o pó. Cerzir as meias. Mudar a roupa da cama. Apanhar as batatas. Plantar milho. Cozer as couves. Assar um frango. Amanhar o peixe. Pintar as unhas. Cortar o cabelo. Lavar o carro. Ver o jogo. Corrigir as provas. Coçar um olho. Coçar os dois. Abrir a boca num bocejo. Que horas são?
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas.
Uma voz grita Bebes um copo? As cabeças abanam. Todas as cabeças abanam. As pessoas estão atrasadas. Estão sempre atrasadas para irem fazer o que têm de fazer.
O trabalho liberta. Liberta quem?
Continuo a fumar o cigarro à janela enquanto ouço a telefonia na cozinha.
A mulher mais rica de África, ouço.
A mulher é uma ladra, ouço,
As provas não têm legalidade no país, ouço.
O trabalho liberta, lembram-me.
Não. O dinheiro liberta.
Setenta e cinco anos da libertação de Auschwitz. Não aprendemos nada.
Continuamos no ódio. Ao judeu. Ao árabe. Ao cristão. Ao preto. Ao amarelo. Ao vermelho. Ao comunista. Ao fascista. À mulher. Ao homem. Ao velho. Ao novo. Ao careca. Ao cabeludo. Ao albino. Ao cigano. Ao transmontano. Ao alentejano. Ao vizinho. A ti. A mim.
E então?
Está escuro e é já quase noite. Acabo de fumar um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Mando fora a beata do cigarro. Fecho a janela. Desligo a telefonia.
Silêncio.
Não estou.
Não estou para ninguém.
Tenho o jantar por fazer. A roupa por lavar. As camisas por passar. Os TPC por fazer. O pó por aspirar. As meias por cerzir. A roupa da cama por mudar. As batatas por apanhar. O milho por plantar. As couves por cozer. O frango por assar. O peixe por amanhar. As unhas por pintar. O cabelo por cortar. O carro por lavar. O jogo para ver. As provas por corrigir.
Foda-se!
Visto o casaco. Apanho o maço de cigarros, o telemóvel e a carteira. Saio de casa. Preciso de rua. De ar fresco. De gente. De conversar. Beber um copo. Rir. Dançar.

Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]

Uma Co-Produção

Já conhecia Z. há muitos anos. Já tínhamos trilhado muitos caminhos juntos muitas vezes. Alguns deles eu já nem me lembrava. Apareciam assim, por acaso, quando alguém referia algo e isso despoletava uma memória, um regresso, e então fazia-se luz e percebia que já tinha lá estado, já lá tinha feito alguma coisa. Com algumas pessoas. Nomeadamente, com Z.
Daquela vez, estávamos num país africano. Num país africano que já não me lembro qual, tal a quantidade de África que fomos conhecendo ao longo de tantos anos.
Lembro-me que estávamos numa esplanada. Numa espécie de esplanada. Bebíamos umas cervejas. Quer dizer, eu bebia uma cerveja. Ele bebia uma Fanta. Estava calor. Estávamos de calções e chinelos. Sem carteira. Sem mala ou mochila. Sem relógio. Só o telemóvel enfiado no bolso dos calções e algum dinheiro dividido em vários bolsos. Não era por medo. Era só para não criar a ocasião.
Já tínhamos bebido várias garrafas, e fumado vários cigarros, quando ele disse Anda! Temos uma reunião. E eu pensei Reunião? Afinal estávamos de calções e chinelos. Ainda lhe perguntei com um gesto de cabeça o que é que se passava. Ele respondeu-me também com um gesto de cabeça para o seguir. E segui. Às vezes é melhor não fazer muitas perguntas. Às vezes a comunicação em silêncio é suficiente. Mesmo que eu não soubesse onde íamos e fazer o quê nessa reunião, onde podia ir de calções e chinelos, o melhor mesmo era ir. E fui.
Fomos a pé, com os chinelos tipo havaianas a bater nos pés, schlap-schlap, a passar por estradas quase sem asfalto, com muita terra batida pelo meio, a saltar por cima de esgotos a correr a céu-aberto, a transpirar, a percorrer quase metade da cidade até chegarmos a uma zona de prédios muito altos, com muitos andares e muitas janelas.
Entrámos num desses prédios. O confronto com o ar-condicionado do prédio deixou-me com frio. Z. não. Z. nunca tinha frio ou calor. Z. estava sempre preparado para tudo. Cruzámos a cidade sem que lhe caísse uma gota de transpiração pela fronte. Entrámos no prédio e não lhe vi nenhum arrepio ao choque com o ar fresco, demasiado fresco para quem vem das ruas da cidade.
Subimos umas escadas. Umas escadas sem fim. Quando parámos, eu já deitava os bofes pela boca. Z. olhava para mim e perguntava Então? Então o caralho!, pensava eu. Então o quê? Se estou cansado? Estou. Acabei de subir não-sei-quantos degraus. É normal que esteja cansado. Mas ele também os tinha subido. Também fumava como eu. Talvez mais que eu. E não o via assim. Cansado como eu. E não disse nada. Segui-o.
Entrámos por um corredor. Batemos a uma porta. Ouvi um clic de abertura. Entrámos. Disse quem éramos. Ao que íamos. Esperámos. Esperámos em pé, frente a uma janela aberta sobre a cidade africana aos nossos pés. E vista dali, do alto daquela janela, a cidade era bonita. Lindíssima. Claro que, ao pormenor, quando descíamos à rua, encontrávamos os problemas. Mas, dali, dali era realmente muito bonita.
Franquearam-nos a porta. Entrámos. Estava um saco de plástico em cima de uma mesa. Z. cumprimentou alguém. Agarrou no saco de plástico e fomos embora.
Voltámos às escadas. Começámos a descer. A meio parou. Abriu o saco. Retirou uns maços de notas e disse para os distribuirmos pelos bolsos. Eu ainda fiquei boquiaberto a olhar para aquelas notas todas. Mas depois ele disse Despacha-te. E eu despachei-me. Distribuímos várias notas pelos bolsos dos calções dos dois. O resto foi mesmo no saco de plástico, a dar-a-dar na mão de Z. enquanto regressávamos à mesma esplanada do outro lado da cidade. Fomos a pé. A bater chinelo pelos restos de asfalto e terra batido. A saltar por pequenos ribeiros de esgoto a céu-aberto. Eu a transpirar. Ele não.
Chegámos à esplanada. À espécie de esplanada. Acendemos um cigarro cada um. Era preciso recuperar os níveis de nicotina no corpo. Pedimos uma cerveja para mim e uma Fanta para Z.
Apareceu um miúdo. Pediu dinheiro. Z. disse para se sentar na mesa connosco. Perguntou-lhe se tinha fome. O miúdo acenou a cabeça. Um fio de ranho caía para a boca. O miúdo limpou-o com as costas da mão. Z. pediu um hambúrguer e uma Fanta para o miúdo.
E assim estávamos nós. Eu a beber uma cerveja. O miúdo a comer um hambúrguer. E eles os dois a beberem uma Fanta de uma cor tão fluorescente que parecia radioactiva.
Em cima da mesa o saco de plástico com os maços de dinheiro. Eu, de vez em quando, levava as mãos aos bolsos dos calções para ver se o dinheiro que lá estava ainda lá estava. Z. continuava a fumar sem se preocupar com nada disto.
No dia seguinte íamos começar a filmar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/05]

De Mãos Dadas com a Morte

Tenho um sonho recorrente em que estou a correr, todo nu, numa espécie de limbo onde não existem formas, nem figuras, como se corresse no vazio, mas um vazio que se parece com um ouvido infectado, cheio de pus a escorrer, mas ao mesmo tempo não se vê, mas percebe-se, por isso é um vazio que se faz sentir cheio, e depois, quando me começo a sentir cansado, caio, não sei onde, num buraco qualquer e, invariavelmente, acordo aos pulinhos na cama, como se tivesse caído lá do alto do tecto sobre o colchão, depois de uma aventura com o Little Nemo.
Há muitos anos que não tenho este sonho. Não tinha.
Ontem tomei Mefloquina. Estou em África e tenho de tomar medicamento contra a malária. A Mefloquina exerce um grande poder sobre mim. Altera-me o sistema nervoso. Não fico mais irritado que o costume, que é o que faz normalmente a toda a gente, mas põe-me a sonhar. Ou a lembrar-me dos sonhos. Dos sonhos terríveis que me faz sonhar. Dos sonhos em que a morte anda comigo de mãos-dadas.
Então, ontem, dia em que tomei Mefloquina, sonhei. E voltei a sonhar o mesmo sonho que sonhava, dantes, quando ainda sonhava ou, pelo menos, me lembrava de o ter feito. Estava a correr, todo nu, numa espécie de vazio por onde escorriam coisas viscosas que não vinham de lado nenhum nem iam para nenhum lado. Simplesmente circulavam ali, à minha volta, enquanto eu corria. Mas eu também não corria para lado nenhum, nem sei de onde é que vinha. Corria. Só corria.
E de repente…
E de repente os fluídos viscosos começaram a solidificar e tornar-se corpos e a tombar à minha volta. Eu queria parar de correr, ver que corpos eram estes, mas não conseguia parar de correr. Mas vi a cara. As caras. As caras eram uma só. E era a minha. Todos aqueles corpos que tombavam à minha passagem eram eu, eu morto a cair sobre mim e não conseguia parar de correr e…
E acordei. Estava deitado na cama. A transpirar. Estava a respirar com alguma dificuldade. Sentia-me cansado. Como se tivesse corrido. Virei-me na cama e vi-a ao meu lado. Cheguei-me a ela e abracei-a. Senti-a viscosa. Puxei o lençol para baixo e mandei um grito. Ela estava cheia de fluídos viscosos, já não tinha corpo, era uma massa disforme gelatinosa e, quando olhei a cara, vi, novamente, que era eu. Ela era eu. E nessa altura voltei a acordar.
Acordei na cama. A transpirar. Estava a respirar com alguma dificuldade. Sentia-me cansado. Como se tivesse corrido. Virei-me na cama e deixei-me cair para o outro lado, que estava mais fresco. Mas não consegui adormecer. Não parava de pensar no sonho que tinha tido. E lembrei-me que tinha um sonho recorrente em que estou a correr, todo nu, numa espécie de limbo onde não existem formas, nem figuras, como se corresse no vazio, mas um vazio que se parece com um ouvido infectado, cheio de pus a escorrer, mas ao mesmo tempo não se vê, mas percebe-se, por isso é um vazio que me faz sentir cheio, e depois, quando me começo a sentir cansado, caio, não sei onde, num buraco qualquer e, invariavelmente, acordo aos pulinhos na cama, como se tivesse caído lá do alto sobre o colchão, depois de uma aventura com o Little Nemo.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/26]