O Conformista

Levanto-me tarde. Levanto-me tarde porque não tenho porque me levantar cedo. E levanto-me tarde porque já não conseguia mais estar na cama. Se não, continuava em directa até amanhã de manhã, hora de me levantar, aí sim, para cumprir prazos, obrigações e promessas. Hoje não. Hoje levanto-me porque estou farto de estar deitado.
Visto qualquer coisa que está ali à mão. Ali, caído sobre a pequena poltrona que tenho no quarto e onde nunca me sentei. Umas calças de fato-de-treino, umas meias, um t-shirt. Vou até à cozinha. Fico ali em pé, no meio da cozinha, a tentar perceber o que é que fui ali fazer. Sinto-me um pouco perdido no dia e na casa. Parte de mim continuou na cama. Não sei que dia é. Coço a cabeça. Penso que tenho de voltar a comprar champô para a caspa. Talvez Linic. Como o Ronaldo. O CR7. Coço o rabo e percebo que estou sem cuecas.
Chego-me à janela. A luz está baixa. Mas não deve ser muito tarde. Ligo a televisão da cozinha. Jorge Jesus e a equipa do Flamengo está em todo o lado. Em todos os canais. Até parece que é o Benfica. Que me importa a mim o Flamengo? O Jorge Jesus, fico contente por ele. Acho que ele nunca ficou contente por mim. Eu também nunca fiz nada merecedor de tal honraria. A minha vida é miserável. Não tenho história. Onde está a minha Taça dos Libertadores?
Faço café. Vejo que passa um pouco das duas da tarde. Costumo ver o Leste Oeste, com o Nuno Rogeiro, a esta hora na SIC Notícias. Já percebi que não vou ver. O futebol é poderoso. Come tudo o resto. Já vi o Pedro Santana Lopes a abandonar um estúdio de televisão, por ter uma entrevista interrompida, por causa da chegada de José Mourinho ao aeroporto. Na altura achei que o Santana Lopes tinha razão. Continuo a achar. O futebol mexe com muito dinheiro e é importante. Sim, é certo. Mas é só futebol. É só a porra do futebol. Nada mais que isso. Um jogo. E quanto mais penso nisso mais entendo que a televisão, os programas de televisão, as ideias transmitidas pela televisão, os programas que os programadores decidem que é o que o povo quer ver na televisão, é a grande responsável pelo nivelamento, por baixo, da exigência social e política do país. Dos países.
Enquanto espero pelo café olho para a rua. A luz baixa e cinzenta deprime-me. Vejo a cidade deprimida. A cidade está vazia. Não há ninguém na rua. As pessoas devem estar por casa. Solitárias nas suas casas. Cada um agarrado ao seu computador, ao seu tablet, ao seu smartphone. Filhos e pais de costas voltadas. Amantes desencontrados. Gente sozinha, mesmo que na companhia de corpos presentes, mas tão distantes quanto o alcance da rede.
Acendo um cigarro. Eu preciso sempre de um cigarro. Algumas amigas chateiam-me com o facto de fumar. Que me faz mal. Que é um erro social. Que é um compromisso que não devia ter. Não lhes ligo. Estou em casa. Estou sozinho em casa. Não incomodo ninguém. É estranho que sejam só raparigas a chatearem-me por causa do tabaco. Talvez porque gostem mais de mim. Talvez porque sejam mais controladoras.
Encho uma caneca com café. Sento-me na mesa da cozinha. Vou olhando para a loucura instalada no Rio de Janeiro enquanto se aguarda a volta de honra dos vencedores pela cidade. Tanta gente nas ruas. Tanta gente a aplaudir. Tanta gente a partilhar a glória da vitória. E pergunto-me onde estava esta gente quando Jair Bolsonaro ganhou as eleições deste país-continente? Um presidente que glorifica a ditadura e a tortura da ditadura.
Desligo a televisão. Acabo de beber o café. Vou à sala procurar um livro para ler. Apetece-me ler. Cai-me nas mãos O Conformista do Alberto Moravia. Nem de propósito. É o que somos. O que queremos ser. E por momentos penso que, afinal, Alberto Moravia escrevia sobre o futuro e não sobre o presente. Andamos ainda, e sempre, a aprender.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/24]

Entropia

Tudo começou com a greve dos motoristas de matérias perigosas. O combustível deixou de ser distribuído. A associação patronal assumiu o braço de ferro: não negociava enquanto a greve se mantivesse. O Estado tentou garantir os serviços mínimos e prioridades. Mas o assunto era entre privados. O Mercado regula-se a ele próprio, disseram. E foi assim que tudo se precipitou.
Em dois dias as Estações de Serviço ficaram secas. Os motoristas de outros pesados, os pesados de passageiros e os pesados de mercadorias, também partiram para a greve aproveitando a falta de combustível.
Com alguma dificuldade e ajuda das forças policiais e militares, nos primeiros dias o combustível ainda chegou aos aeroportos e hospitais. Mas depressa terminou. A polícia também ficou sem combustível. Ainda requisitou os carros eléctricos da pouca população que os tinha mas, o pouco uso dos poucos sítios onde carregar electricidade e o vandalismo resultante da pouca utilização (a manutenção é sempre algo muito dispendioso), os carros também começaram a parar ao fim de menos de uma semana.
Os militares ainda foram os únicos que garantiram combustível mas, duas semanas depois, também já não tinham. As refinadoras já tinham parado a laboração. Já não havia mesmo combustível fóssil.
O caos já estava instalado e muito dificilmente as coisas seriam revertidas. Nessa altura já ninguém se conseguia deslocar.
Foi ao segundo dia que as Estações de Serviço secaram.
Ao terceiro dia encerraram as escolas. Os serviços não prioritários. As pessoas não-essenciais ficaram em casa.
Ao quinto dia começou a encerrar quase tudo o resto. As pessoas não conseguiam deslocar-se. Havia quem ainda o fizesse de bicicleta. De carro eléctrico. De trotineta. De skate. Mas a cidade começava a ser um problema. Começou a insegurança.
Quando o Estado acordou para o problema, já era tarde.
Ao sexto dia já não havia televisão. A rádio ainda insistia, com os telemóveis e a internet, mas foi uma situação que durou pouco mais. Os hospitais já estavam em ruptura. A autoridade estava a cair na rua.
Já não havia bombeiros.
Já não havia polícia.
Os militares saiam em grupo para acções bem definidas de razão própria.
Sucediam-se os roubos. Os assaltos. Matava-se por um jerricã de gasóleo. Mais tarde já se matava por um quilo de arroz. Nessa altura já não havia quase nenhum carro a circular. Quem arriscava sair, fazia-o de bicicleta. Ou a pé. À procura de comida. Ou do que quer que fosse. As lojas já tinham fechado. Já tinham sido saqueadas. Já estavam destruídas. Já se procuravam restos. Restos dos restos. No lixo que já não era recolhido.
E o que começou por ser um problema em Portugal, depressa se alastrou à Península Ibérica e à Europa. O resto do mundo acabou por ser envolvido no problema. À velocidade de um piscar de olhos.
Depois de ver como uma dúzia de motoristas de baixo escalão salarial conseguia parar um país, em França os coletes amarelos copiaram o modelo à sua escala. Na Alemanha foram os verdes para tentar parar de vez com a utilização dos combustíveis fósseis.
A Espanha estava rasgada em regiões.
A Grécia metida no caos. Ninguém conseguia perceber o que por lá se passava. Os meios de comunicação já estavam a falhar.
A internet, que no início funcionou como veículo agregador, veículo privilegiado de divulgação de informação, muito importante para passar as mensagens, mas também de muita mentira e contra-informação que as pessoas não souberam perceber, também começou a sofrer cortes. O excesso inicial de acessos, deitou browsers abaixo várias vezes.
As pessoas responsáveis pela manutenção das redes, dos sites, dos browsers, dos satélites deixaram de ser rendidas.
Deixou de se fazer a distribuição de alimentos. Quem não tinha meios alternativos começou a morrer de sede. De fome.
Já não havia medicamentos.
Já nada funcionava.
Os militares tornaram-se grupos armados. Senhores da Guerra.
Já não havia Estado. Havia Estados dentro do Estado.
Já não havia nada nem ninguém para resolver os problemas. Tudo era um problema. Estar vivo era um problema. As pessoas começaram a viver localmente. Isoladamente. Em pequenos grupos. Sozinhas.
As pessoas da cidade começaram a migrar para o campo. Mesmo quem era contra a emigração. Era uma luta pela sobrevivência.
Mas não foram bem recebidos.
Eram excesso de bocas para alimentar com o pouco que havia.
Entretanto, também eu fiquei sem internet.
Escrevo estas palavras no Word enquanto tenho bateria no computador. Para ficar registado. Para memória futura. Já não há energia há uns dias. Não estou optimista. Quando acabar a bateria vou escrever numas agendas que ali tenho. Vou escrever até acabar a tinta. O papel. Eu.
Por enquanto, a vida por aqui vai-se fazendo. Com alguns problemas, mas vai-se fazendo. Ainda não chegaram aqui as milícias. Os grupos armados. Os Senhores da Guerra.
Mas já andamos aqui todos às turras. Tentamos sobreviver uns aos outros. Apesar uns dos outros. Há dificuldade em nos ouvirmos. Os meus problemas são sempre maiores que os problemas dos outros.
O campo ainda produz alguma coisa, mas as pessoas agora tendem a apanhar tudo o que existe enquanto ainda está verde para não serem roubados pelos vizinhos. As trocas revelam-se muito complicadas. Há quem ofereça sacos de dinheiro. Há quem ofereça ouro. Há quem ofereça jóias. Mas já ninguém quer.
As vacas, as cabras, as ovelhas, os porcos e as galinhas são guardadas em casa. As pessoas é que saem à procura de forragens para os alimentar para evitarem serem roubadas.
Regredimos de época. E não precisámos de uma Máquina do Tempo. Só precisámos de nós e da nossa ganância.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/17]

Um Casal no Aeroporto

08:00’
Estou no aeroporto. Vim esperar alguém. Alguém que tenho de levar a um sítio.
Embora a cidade estivesse deserta, as chegadas do aeroporto estão cheias de gente. Gente que espera. Gente que desespera. Há alguns voos atrasados. Mas há gente que chega. Encontros. Abraços. Choro. Muita alegria. Alegria carregada de malas de todas as cores e feitios.
Eu espero.
Vejo um rapaz, novo, com uma rosa amarela na mão. Vejo o rapaz olhar para uma rapariga que chega. A rapariga sorri, envergonhada. Ele vai ao encontro dela. Ela caminha para ele. Encontram-se. Abraçam-se.
Eu sorrio.
Ela coloca as mãos nos cabelos dele. Ele beija-lhe o pescoço. Prolongam a saudade. Aguentam o desejo. Agarram-se. Olham-se. Aproximam os lábios. Beijam-se. Beijam-se com sofreguidão.
Eu sinto um pingo de inveja.
Ele agarra nela e fá-la rodopiar ali no meio das chegadas do aeroporto. A rosa amarela cai no chão. Nenhum deles se apercebe. Já se esqueceram da rosa. Já só têm olhos um para o outro.
Param o beijo. Olham-se. Os olhos dançam. Os lábios, húmidos, sorriem. Ela cruza as mãos no pescoço dele. Levanta o pé direito enquanto lhe beija a cara em formato bilhete-postal. Ele agarra na mala dela. Estão de mãos-dadas. E partem a flutuar pelo pé-direito alto da nave das chegadas do aeroporto.
Ninguém os viu. Eu vi.

13:00’
Estou a almoçar à beira-rio. Levei quem fui buscar a comer um peixinho assado. Partilho o gosto. A mesma vontade. Peixe-assado para dois. Na companhia de uns brócolos. Um vinho branco. Da casa. Nem sei de onde é. É da casa e a casa escolhi eu. Ali à beira-rio. Junto ao fresco da maré.
Enquanto a fome devasta umas azeitonas embebidas em azeite e alho e umas fatias de pão alentejano, vejo-os chegar. O casal do aeroporto. Estão com a mesma roupa. Um e outro. Sem a mala dela. Sem a rosa deixada caída lá no aeroporto. Esquecida.
Não têm mesa reservada. Esperam. Esperam em pé. À entrada da esplanada. Junto ao rio. À beira-rio. Ao sol quente deste início de Primavera que promete ser um pequeno Verão.
Ele acende um cigarro e põe-se a olhar os barcos no rio. Ela está próxima dele. Ela passa-lhe a mão pelo braço. Afaga-o. Longamente. Depois vira-se para a esplanada. Vira-se para mim. E eu vejo. Vejo-lhe o olho negro. O olho negro que ela não tinha negro de manhã.
Eu sinto pena. Primeiro sinto pena. Depois sinto raiva.
E despejo um copo de branco de uma só vez.

El Eternauta

Chego a Buenos Aires. Estou de rastos. Cansado. Foi uma viagem longa e não consigo dormir no avião. Não consigo dormir com tanta gente desconhecida à minha volta. Nem consigo ir à casa-de-banho. Sinto-me desconfortável. Vi filmes. Ouvi música. Tentei ler um livro mas não consegui concentrar-me. Há sempre um ciciar de uma voz. Um pigarrear do catarro. Todos aqueles barulhinhos parecem ampliar dentro de mim tiram-me a atenção e desconcentram-me.
Coloco a máscara cirúrgica na cara. Estamos no auge do H1N1. Não quero arranjar problemas. Os aeroportos são grandes propagadores de gripe. De doenças transmissoras. Protejo-me. Não estou em casa e tenho de ter cuidado. Mas não gosto de andar com isto na cara.
Saio do avião. Recupero a mala. Apanho uma fila enorme para passar a fronteira e entrar no país. Depois vejo que há uma outra fila para mim. Mais pequena. Que anda rápido. Para cidadãos da União Europeia. Dou graças. Sinto-me um privilegiado. Mostro o passaporte. Sigo. Olho para trás. Para os outros em passo de caracol. Sou europeu. Tenho privilégios. Sinto-me bem. E, ao mesmo tempo, sinto-me mal. Estou cansado.
Peço um Táxi na ilha à saída do edifício do aeroporto.
Aí vou eu. Estrada fora.
Quilómetros e quilómetros a voar por cima das casas. Os subúrbios de Buenos Aires estão aos meus pés. Só vejo telhados. Terraços nos telhados. A ponta de arranha-céus. Estou nas nuvens. Numa auto-estrada que nunca mais acaba. Acima das casas.
Há quanto tempo estou na estrada?
Vejo muito trânsito parado lá mais à frente. Houve um acidente. Ou qualquer outra coisa esquisita. Há fogo. Há fumo da estrada. Mas o motorista parece não abrandar. Vamos a grande velocidade. O trânsito está parado. Há gente a fugir por todo o lado. Há gente a lançar-se dos viadutos abaixo. Estou assustado. Começo a gritar. Chego-me à frente no banco. Tento tocar no motorista. Alertá-lo. Ele não me liga. Continua a acelerar estrada fora. Como se a estrada estivesse livre. Eu grito. Salto para o banco da frente. Agarro no volante. O motorista ignora-me. Continua na sua corrida imparável. Dou-lhe dois murros. Mas ele nem pestanejou. Acho que nem me sentiu. Puxo o travão de mão. Puxo o travão de mão do carro com força. O carro bloqueia as rodas e começa a deslizar. Flui de lado. O motorista larga o volante. Deixa-o rodar à vontade. A carro vai livre. Eu estou em pânico. Agarro-me ao volante e tento bloqueá-lo, não sei bem para quê. Porque acho que é o que devo fazer. Aproximamos-nos dos carros parados a arder na auto-estrada. Mas o carro desliza por conta própria. Vai por onde quer. Leva de arrasto algumas pessoas. E vai direito aos rails de protecção. Vai a toda a velocidade. Bate nas protecções, quebra-as e voa. Faz-se silêncio, como no cinema. Só ouço a minha respiração. O carro voa por cima das casas dos subúrbios de Buenos Aires. Olho para baixo e só vejo telhas. Telhas vermelhas. Telhas laranjas. Um telhado verde. Terraços. O carro voa. Começa a perder velocidade. Até que pára. Pára no ar. Está uns micro-segundos parado do ar. E eu antecipo a queda. Ouço-me a respirar. Recomeça o som. O som dos caos. E ele cai. Cai do céu sobre Buenos Aires.
E eu acordo. Acordo na parte de trás do Táxi. O motorista debruçado sobre o banco. Está a olhar para mim. E diz, San Telmo.
Eu estou estremunhado. Arranco a máscara cirúrgica da cara. Tento falar, mas tenho a boca seca. Mastigo um pouco. Engulo em seco. Crio saliva. E consigo balbuciar, Bárbaro!
Fico aqui. Algures em San Telmo. Tenho uma morada no bolso das calças mas esqueci-me de a mostrar ao motorista do Táxi. Estou aqui e não sei que aqui é este. Estou ao pé de uma Bomba de Gasolina. Uma Bomba de Gasolina entre prédios. Não estou mesmo na Europa. Estou na Rua do Chile.
Ao lado da Bomba de Gasolina há um quiosque de jornais. Aproximo-me e vejo, pendurado, um livro que procuro há uma eternidade, El Eternauta.
Estou em San Telmo. Não sei para onde ir. Preciso de ajuda. E já comprei uma banda-desenhada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/21]