Dia de Greve na Função Pública

Levantei-me cedo. Tinha uma consulta no hospital. Uma consulta muito cedo. Tinha de apanhar a carreira mais cedo ainda. Estes poucos mais de vinte e cinco quilómetros que me distanciam da cidade e do hospital são na verdade muito mais que os quilómetros que as placas à beira da estrada anunciam. Os horários curtos. As inúmeras paragens. As voltas pelas redondezas numa viagem pelo que é o país profundo, consomem as voltas dos ponteiros do relógio que giram rápido a olho nu. Quase que tenho de sair de véspera se quero chegar a tempo às minhas obrigações, mesmo que sejam de saúde, esse bem precioso que me custa os olhos da cara mesmo que seja barato ao olhos sempre financeiramente aguçados dos economistas de serviço.
Levantei-me de noite. Antes do galo. Fui cantar à janela para o acordar e mostrar-lhe como é terrível ter que o aturar todas as manhãs. Gostas de estar do outro lado, cabrão? Estava a chover.
Tomei um duche com todos os cuidados do mundo. Não posso cair. Ando com vertigens. Tenho de tomar cuidado com os passos que dou. Com as voltas do corpo. Agarro-me. Às vezes esqueço-me. Às vezes ainda penso que sou um jovem adolescente na flor da idade e de perna ligeira. Já quase caí. Mas ainda não aconteceu.
Vesti-me no quarto. Em silêncio. A tentar esquecer o frio que estava.
Fiz café para beber antes de sair de casa. Liguei a televisão pequena, a televisão a preto e branco da cozinha, a televisão que muda os canais com um rotor que preciso de rodar sempre para a direita para mudar de canal. Às vezes é preciso força. Deixei no canal que estava. Notícias. Ainda bem que liguei a televisão.
Era dia de greve na função pública.
Primeiro nem percebi muito bem o que estava a ouvir. Sabia que era algo que me interessava. Que me afectava, de algum modo. Mas nem percebi logo. Depois, o clique. Greve. A greve. A greve da função pública.
Pus café numa caneca. Acendi um cigarro. Fui pôr-me à janela da cozinha. A olhar para fora, para a rua. Mas via-me a mim, não via a rua. Via o meu reflexo. Lá fora estava escuro. O dia ainda era noite. Só via o meu reflexo na janela. O meu reflexo de caneca numa mão e cigarro na outra.
Imaginei o cabrão do galo a rir-se de mim.
Ainda não via o contorno das montanhas lá ao fundo. Ainda era de noite. A manhã ainda vinha longe. A carreira devia estar a passar lá ao fundo. Ao fundo da estrada. E continuava a chover.
Apaguei o resto do cigarro no resto do café que já não conseguia beber.
Comecei a despir-me ali, na cozinha. Tirei a camisola. As botas. As calças. A t-shirt. Os boxers. As meias. Fiquei nu. Vi-me nu na janela da cozinha. No meu reflexo iluminado no vidro da janela contra o escuro da rua. Senti um arrepio de frio.
Para que é que ia à consulta? perguntei-me. E já não me lembrava ao que ia.
Tentei forçar a memória. O porquê da consulta. E então só me vinha à memória a Suzi Quatro. Porquê a Suzi Quatro? Vi-a de calças de cabedal pretas e camisola de alças branca, justa, os peitos volumosos, uma guitarra nas mãos a cantar 48 Crash.
Virei costas ao meu reflexo. Percorri a casa nu, na companhia da Suzi Quatro, e voltei para a cama. Ouvia a chuva a cair lá fora.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/31]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

Cheira a Homem, Aqui Dentro

A minha mãe entrava pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava à transpiração de um adolescente que dormia enfiado debaixo de dois cobertores em pleno Verão porque gostava de se sentir aconchegado. Cheirava às pívias batidas durante a noite, debaixo dos lençóis, enquanto olhava as fotografias já gastas de um número qualquer da revista Gina.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali dentro no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu que remédio tinha senão levantar-me e manter o respeito pela minha mãe, pelo menos até à hora do almoço, à espera que fizesse algo que fosse do meu agrado, o que quase nunca era um problema porque sempre fui uma boa boca, graças a Deus, e a cozinha dela era santa.
Mais tarde, continuava a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava ao álcool ingerido de véspera a destilar pelo poros do corpo. Cheirava a tabaco frio fumado e entranhado na roupa que jazia no chão, ao fundo da cama, numa massa disforme. Cheirava a vomitado, pelos excessos da noite.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu não me mexia à espera que ela saísse do quarto sem me puxar os cobertores para trás e não me ver de pau feito, tesão de mijo à espera de se sentir, enfim, aliviado.
E depois, continuava assim a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava mal. Cheirava a cama. A corpo de homem deprimido sem vontade de se levantar, tomar banho e sair de casa. Cheirava a noites e dias do mesmo pijama caído sobre um corpo que não se lavava e mal se alimentava. Um corpo que se arrastava pelas sombras do corredor para ir à casa-de-banho quando não estava ninguém em casa.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e mostrar-me como a vida corria bonita lá fora, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar!, mas eu não me levantava, não via nada lá de fora, encolhido na cama, cabeça coberta pelos cobertores a ansiar que ela saísse do quarto e me deixasse sozinho ali, na cama.
E mais tarde, muito mais tarde, ela continuava assim a entrar pelo quarto dentro, mas mais devagar, a barafustar, mas a barafustar baixinho, e dizia Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. Mas não era verdade. Já não cheirava mais a homem ali dentro. Ali já só cheirava a memórias de um dia, um outro dia…
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e apoiava-se na janela e respirava o ar fresco que agora era para ela, todo para ela, e já não se virava para trás nem dizia Vá, vamos a levantar!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/23]

O Hotel

Não o conhecia de lado nenhum. Mas, aparentemente, o homem conhecia-me. Pelo menos conhecia as coisas que eu escrevo. E tanto conhecia que me convidou para passar uma semana no seu hotel, à conta da minha escrita, para depois, ou durante a estadia, escrever uma pequena estória que lá se passasse.
Ele era dono de um hotel à beira-mar. Um bom hotel, diga-se. Hotel sobre o Atlântico, zona centro, a subir para norte. Mar agitado, portanto. O convite era para uma semana, dormida, comida, bebida, mini-bar cheio e utilização de todos os espaços do hotel (que ainda tem piscina, ginásio e SPA) à borla e, no fim, só tinha de escrever uma pequena estória localizada no hotel. Nem pensei muito. Claro que aceitei.
Mudei-me logo no dia seguinte ao convite. Um quarto grande, espaçoso. Num dos últimos andares. Uma vista deslumbrante sobre o mar. A casa-de-banho, enorme, com banheira de hidromassagem, chinelos e roupão de turco.
Os primeiros dois dias deixei-os ir ao sabor da maré, a apreciar os luxos que me tinham destinado. Refeições à la carte como se fosse buffet livre. Massagens com final feliz. Cocktails de todas as cores do arco-íris. Braçadas na piscina. Corridas na passadeira.
Experimentei de tudo o que havia para experimentar.
Observei os clientes. Os homens. As mulheres. Os filhos de algumas destas pessoas. Alguns solitários. Dois casais homossexuais. Quase todos com bastante dinheiro. Alguns, aparentemente, bastante felizes. Gente sem dramas. E, ao contrário do que estava à espera, não descortinava por ali nenhuma estória suculenta. Nem um caso de amantes a arrastar a sua traição palas salas do SPA. Nem uma filha adolescente, rebelde, ávida de atrair o desejo sexual dos velhotes agarrados à bengala mas de mente perversa. Ninguém fugido e procurado pela Interpol. Nenhum mercenário em semana de descanso. Nem um único caso de utilização de drogas pesadas ou de excesso de álcool.
Nada.
Ainda tentei aproximar-me do grupo de trabalhadores para tentar vislumbrar algo pérfido. Queixas. Lutas. Mas nada.
Aquele hotel era a coisa mais tranquila do mundo, cheio de clientes calmos e empregados satisfeitos com o seu trabalho e os seus honorários.
Se estava contente pelo convite para usufruto do hotel por uma semana e pelo convite para a escrita de uma estória, por outro lado sentia-me desiludido pela vida demasiado tranquila que observava e pela minha incapacidade de sugar, dali, alguma coisa de útil.
Ao quinto dia de estadia decidi ter de tomar algumas providências. Algo teria de acontecer. Algo de estranho e bizarro teria de acontecer naquele hotel para que eu pudesse executar a segunda parte do acordo: escrever uma estória.
No dia seguinte, uma das camareiras, de origem brasileira, foi encontrada morta na sala de conferências do hotel. Estava sem roupa, tombada no chão, mesmo em frente ao quadro do Power Point. Tinha uma faca espetada na barriga, uma morte horrível, mas não havia sangue na sala. Nem a roupa da camareira. Fora morta noutro local e levada para ali.
A minha estadia foi prolongada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/18]

Na Praia do Malhão

Ela pôs-me as mãos em cima e eu senti-me logo excitado.
Estávamos na praia do Malhão. Mal chegámos à praia e tirámos a roupa eu comecei logo a sentir um certo frémito pelo corpo.
Não era só a vista dos corpos nus ali à minha volta e dos quais não conseguia desviar o olhar. Era o facto de estar livre, de me sentir solto e perceber a leve brisa fresca que vinha do mar a acompanhar o balanço que a pila levava, de um lado para o outro, à medida que íamos caminhando ao longo da praia, à procura do nosso sítio.
Encontrámos o nosso local. Era mesmo ali aquele. Afastado, mas perto. Havia gente, mas não estava à pinha. Tínhamos companhia, mas não precisávamos de ouvir a respiração de cada um deles. Cada pessoa naquela praia, tinha espaço suficiente para estar descansado. Poder deitar-se ao sol e deixar-se adormecer enquanto o sol nos trabalhava o bronze.
Uma espécie de paraíso alentejano. E tudo isso estava a contribuir para a minha excitação.
Então, quando ela colocou o factor 25 nas mãos e o começou a espalhar pelos meus ombros e costas, foi o clique.
E aqui estou eu. De costas para ela. De pau feito. A tentar esconder a minha tesão de toda a gente. Que vergonha! Quando ela acabar de colocar o creme, dou uma corrida rápida até ao mar e mergulho logo.
Qual é a equipa do Benfica para este ano? O guarda-redes é o…
Ainda me lembro quando fui pela primeira vez ao Meco. Com umas amigas. Ainda um puto um pouco mais que adolescente. E ainda me lembro de como fui logo a correr até ao mar e mergulhei vestido para esconder o volume que me crescia dentro dos calções. A água ajudou a matar aquela excitação precoce, mas tive de andar a fugir aos corpos nus que se cruzavam à minha frente. Tive de ignorar os corpos das minhas amigas. O que não deixou de ser uma tristeza. Fui ao Meco com elas, várias vezes, e nunca as vi nuas. Tinha sempre de desviar o olhar. Naquela altura tinha o sangue ainda mais quente. E qualquer coisa mínima, que lembrasse sexo, era suficiente para me excitar.
Portanto o guarda-redes do Benfica é… Este ano, é…
É agora. Vou agora ao mar.
E ela pergunta Onde é que vais? Vira-te para cá para te colocar protector no peito.
E eu digo Já venho. Tenho mesmo de mergulhar. Estou muito quente. Estou com muito calor.
Levanto-me e corro. Corro e tento esconder aquela excitação com as mãos enquanto estico as pernas pela areia quente da praia e rezo para que ninguém me veja. Chego ao mar, mergulho de imediato, nem sequer tenho tempo para pensar que a água está fria e eu quente do sol e que devo ir devagar por causa do choque térmico e…
Mergulho.
Nado. Dou umas braçadas lá para a frente. Volto para trás. Sinto as coisas mais calmas. O corpo mais tranquilo. Saio do mar. Olho-me e vejo a minha pila encolhida com o frio da água. E sinto que já estou em condições para andar ali no meio das outras pessoas.
Subo à toalha. Deito-me. De barriga para cima. Ela dá-me um beijo. Eu abro um pouco os olhos, semicerrados pelo brilho do sol, e vejo-a nua. E sinto que estou tranquilo. Tudo está tranquilo. E sorrio-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/11]

Sexta-Feira Santa

É Sexta-feira Santa.
Almocei um bitoque na esplanada. Desculpa, mãe! Duas imperiais. Molhei um bocado de pão na gema mole do ovo a cavalo.
Ao meu lado, um casal com dois filhos adolescentes devorou um cabrito com batatinha assada e grelos. Por encomenda. Só há por encomenda. Os miúdos não tocaram nos grelos.
Enquanto bebo uma Ponte de Amarante e um café, observo quem passa na marginal à minha frente. Ao fundo o mar, de um azul bem escuro e a contrastar com o azul bebé pintado no céu.
Uma velha passa manca, sem bengala.
Três gordos com coletes do Moto-Clube da Nazaré discutem o tamanho das mamas da striper.
Carros, de alta cilindrada, passam em passo de caracol. Não há milagres. É a procissão dos tristes. Ali, na fila, são todos iguais. A rapariga do Punto. O homem do Jaguar.
As gaivotas vêm a terra. Grasnam. Voam em círculos. Rasam a cabeça das pessoas. É impossível não pensar no Alfred Hitchcock.
Um casal de namorados, muito novinhos, adolescentes, comem uns carapaus secos, como se fossem tremoços. Beijam-se. Ela queixa-se. Leva os dedos à boca e retira uma espinha dos dentes. Ele ri-se.
Há muita gente repetida a passar. Velhos barrigudos de bigode farfalhudo. Velhas empinocadas com o cabelo armado como as senhoras finas da Tentadora, ali no início da Ferreira Borges, no exclusivo Campo de Ourique, em Lisboa. Também há classe nas berças. E repetem-se. Há muita gente velha a passear ao sol envergonhado de Abril.
Uma miúda tira fotografias. É gira, a miúda. Coça a cabeça. Depois leva o dedo à boca. Ninguém é perfeito.
Uma criancinha chora. Quer um gelado. Um Epá. A mãe, presumo que seja a mãe, não diz nada e continua o seu caminho. A criança segue-a a chorar. Os dedos a esfregar os olhos.
Ao meu lado há uns espanhóis. Bebem cafés e comem pastéis de nata.
Há muita gente com roupa domingueira. Mas o Domingo já não é o que era. Nem as roupas. Muito menos as roupas domingueiras que hoje são compradas nas lojas dos chineses onde conseguem ser mais baratas que na Zara. Mas também são de muito pior qualidade. De qualquer forma não é Domingo.
Então, uma pausa. Não passa ninguém, agora. Acabo a Ponte de Amarante.
Do outro lado alguém berra Amanhã vou almoçar a Fátima! mas um velho pergunta O quê? Vou almoçar a Fátima! O velho acena a cabeça mas não ouviu nada.
Alguém deposita outra Ponte de Amarante à minha frente. Eu não queria. Mas não vou desperdiçar.
Os espanhóis vão-se embora. Passam mais motards. Gordos. Enormes. Alguns deles são mulheres. Também são enormes. Gordas. Mas têm os cabelos mais compridos.
Vejo alguém a tirar-me uma fotografia. Não digo nada. Aceito como parte do processo de globalização a que estamos sujeitos. Vou aparecer no Instagram de quem?
Senta-se um pai. Uma mãe. Um filho adolescente com a cara cheia de acne. Ele pede um café. Ela um descafeinado. Um compal para o miúdo. A mãe acende um cigarro. O miúdo abana a mão à frente da cara em jeito de reprovação. A mãe ignora-o. Putos insolentes!, penso.
Recomeça a passar gente à minha frente. Gente vestida para todas as estações. Miúdos de manga curta. Velhos com casacos de pêlo. Adultos com anoraques, gabardines e sobretudos. Mas está sol. E calor. É Sexta-feira Santa.
Reparo, ao olhar as pessoas que passam à minha frente, que há muita gente feia no mundo. Valha-me Deus.
Topam-se os estrangeiros pelos desenhos das caras. Pelos cabelos. Pelas roupas. Mas também são feios. Aqui, o mundo é democrata. São todos feios. Eu acabei por ter sorte.
Passa um pescador de camisa ao quadrados, como um grunge de Seattle, de bicicleta. Cigarro ao canto da boca. Atrás, uma miúda de patins segue-o.
Os carros continuam a passo de caracol. Já me agonia o cheiro a gasóleo, gasolina, combustível. O barulho dos motores. A greve dos motoristas de materiais perigosos não podia ter demorado um pouco mais?
No meio de tanta gente vestida de preto e cinzento, uma senhora passa com um casaco vermelho. Dá nas vistas. Os homens que passam por ela viram-se para trás.
Um rapaz olha para o telemóvel e escreve qualquer coisa enquanto caminha. Não olha para onde vai. Olha para o telemóvel. E escreve. Vejo os dedos mexerem-se à velocidade da luz.
Uma loira pára mesmo à minha frente. Baixa-se e sacode os cabelos. Depois tira um elástico do pulso e prende o cabelo num rabo de cavalo.
O pai já bebeu o café e pede uma mini. O filho pede uma torrada. A mãe acende outro cigarro.
Eu esqueci-me da Ponte de Amarante. Agarro no cálice e bebo dois goles. Também acendo um cigarro. Um homem senta-se ao meu lado, onde estavam os espanhóis, e olha-me com reprovação por estar a fumar ali na esplanada. Ignoro-o.
É Sexta-feira Santa. Alguém foi à missa?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/19]

O Homem nas Escadas

São oito da manhã. Estou à janela da cozinha. Bebo o café acabado de fazer. Lá dentro, no quarto, ela continua deitada. Não está grande coisa. Sem vontade de se levantar da cama. Sem vontade de sair de casa. Sem vontade de nada. Eu deixo-a estar. Deixo-a descansar. Mais tarde ligarei para o escritório a dar conta da sua ausência. À noite trago um risotto de cogumelos. Talvez a anime.
O carro da polícia passa devagar lá em baixo, no largo. Ontem à noite não apareceram. Os miúdos andaram a fazer barulho até às tantas. Se calhar também foi isso que a deixou assim. Não descansou. Ficou nervosa.
Deito o resto do café no lava-louça.
Passo na casa-de-banho e lavo os dentes. Olho-me ao espelho. Estou a ficar velho. Estes últimos meses foram terríveis. Envelheci rapidamente. Foi de um momento para o outro. Tenho muitos pêlos brancos na barba. Umas grandes olheiras que fazem a cara tombar e ficar macilenta. Umas peles descaídas no pescoço. E uma grande dificuldade em focar a minha imagem no espelho. Preciso de novos óculos.
Agarro do casaco e na mochila e saio de casa. Chamo o elevador. A luz de chamada começa a piscar. Está avariado. Gaita! Os dois.
Percorro o corredor até à porta das escadas. Entro naquele buraco onde raramente entrei. Está frio. Visto o casaco. Começo a descer. Os meus passos ecoam pelas escadas. Acho que até os meus pensamentos fazem ricochete nestas paredes frias. Olá! Olá! OLÁ!
Não. O eco dos meus pensamentos afinal é só na minha cabeça.
Vou a meio das escadas e vejo uma garrafa de água de Luso. Litro e meio. Já encetada. Uma caixa de pizza. Abro-a. Tem duas fatias. Frias. Ao canto, um saco-cama enrolado. Que é isto? Alguém anda a dormir aqui nas escadas.
Deixo tudo como estava. Desço o resto das escadas. Vou trabalhar.
Trabalho.
Almoço.
Trabalho.
Tenho uma discussão com um colega de trabalho. Eu tenho razão na discussão. O que eu defendo prevalece. O meu colega fica chateado. Ele que se foda!
Trabalho.
Restaurante take-away. Compro um risotto de cogumelos. Para duas pessoas.
Casa.
Eu janto.
Ela continua na cama. Agora não fala comigo. Acho que não fiz qualquer coisa que devia ter feito. Ou era ter dito? Já não sei.
Continuo a beber o vinho que comecei a beber no meu jantar solitário.
Sento-me frente à televisão. Faço horas. Faço horas para ir às escadas ver quem é que está lá a dormir.
Uma da manhã. Começa o noticiário da hora certa na SIC Notícias.
Levanto-me do sofá. Calço umas sapatilhas. Visto uma camisola. Saio de casa. Percorro o corredor até à porta das escadas. Abro sem fazer barulho. Desço as escadas em silêncio. Nem eu me ouço. Está tudo às escuras. Sigo agarrado ao corrimão. Cheira-me a frango assado. Ao chegar a meio das escadas noto uma luz muito ténue. Alguém está nas escadas. Alguém está nas escadas a comer frango assado. Ouço o mastigar. Aproximo-me. Devagar. A luz ténue agora é um bocadinho mais presente. E vejo que está alguém sentado num degrau das escadas. Sentado em cima do saco-cama. É um homem. É o meu vizinho de baixo. Que raio está aqui a fazer?
Chamo-o. Chamo por ele. Chamo pelo nome dele. Não muito alto para não o assustar. Mas não o impede de dar um salto. Assustei-o na mesma. Ele aponta a luz ténue de uma lanterna pequena de dínamo para mim. Reconhece-me. Diz o meu nome. Diz o meu nome com um ponto de exclamação no final. Pensa O que é que estás aqui a fazer? Penso O que é que estás aqui a fazer? Ambos pensamos o mesmo. Mas eu é que preciso de uma resposta. Agora pergunto sonoramente O que é que estás aqui a fazer?
Ele olha para mim. Se fosse mais novo, uma criança, mesmo um adolescente, diria que estava a fazer beicinho. Mas ele não. Ele não estaria a fazer beicinho. Ele está prestes a chorar. Ele sente-se apanhado no seu segredo. Mas faz um esforço para segurar as lágrimas. E diz Olá! Estás bom? Como se nos tivéssemos encontrado no elevador a caminho de uma festa.
O que é que se passa? pergunto.
Ele fica a olhar para mim em silêncio. À procura de um começo. Tipo Era uma vez… Mas aquela não era uma história dessas. Ele suspira. Tem uma garrafa de vinho tinto ao lado. Agarra nela e passa-ma para as mãos. Eu sento-me num degrau acima dele e bebo um gole de vinho.
E ele começa A minha mulher chateou-se comigo. Perdi o emprego. Perdi o emprego e ela chateou-se comigo. Saí de casa. Ela pôs-me fora de casa. Não sei para onde ir. Não tenho dinheiro para um hotel. Pedir aos amigos… nem falar! Não quero ter de dar explicações a ninguém. Estas que te estou a dar a ti. Não quero falar disto a ninguém. Tenho evitado toda a gente. Durmo aqui. Como aqui. Durante o dia vou para a rua. Vou para zonas da cidade onde não espero encontrar gente conhecida. Passeio pelas ruas. Sento-me nos bancos de jardim. Espero que o tempo passe. Espero que o tempo passe e tudo regresse. Espero que ela me chame de volta para casa. Espero que me telefonem para um trabalho. Espero que volte a ter um salário. Espero que possa voltar a tomar um duche de água quente. Espero voltar a dormir numa cama com colchão e um tecto por cima da cabeça…
Eu ouço. Não sei o que lhe dizer. Não posso levá-lo para casa. Não com ela assim. Não no estado em que ela está.
Agarro na garrafa de vinho e bebo mais um gole. Um gole bastante grande. Quero ficar entorpecido.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/15]

Já Não Tenho Dezoito Anos

Já não tenho dezoito anos. Há muito tempo que cruzei essa fronteira. Já não sou adolescente. Nem jovem. Já nem quase um homem. Sou velho. Sou um velho.
Já não tenho dezoito anos. Mas esqueço. Esqueço que não os tenho. Continuo a ver-me como era. Sinto-me projectado no futuro com as graças do passado. Os anos passam por mim, mas eu continuo eu.
Tenho dezoito anos. Estou já perto do fim da minha vida e tenho dezoito anos. Continuo a gostar de gostar de coisas como quando tinha, efectivamente, dezoito anos. E as miúdas? Ah, as miúdas!…
Mas depois, a dor nas costas. O músculo da perna que prende. A perna que já não dobra como devia. Os dentes a cair. A partirem-se em pedaços pequeninos que eu engulo sem querer. Os cabelos brancos. A barba branca. A pila murcha. Os músculos puxados para baixo, obedientes à lei da gravidade. A barriga cada vez maior e mais flácida. A vista turva que obriga a óculos. O repetir, cada vez mais, O quê? O que disseste? A medicação. Os comprimidos. As visitas ao centro de saúde. Ao hospital. Vou quase tantas vezes ao médico quanto ao museu. Os cigarros que me proíbem. O vinho que me retiram. E todas as outras proibições. Não comer fritos. Não comer salgados. Não comer pão. Não comer queijo. Não comer carnes vermelhas. Fruta. Muitos legumes. Peixe. Evitar o café. Cerveja nem pensar.
É agora que percebo que já não tenho dezoito anos.
É agora que percebo que a morte espreita. Já não é um mau sonho de um azar ou de um futuro distante. A morte agora é uma realidade ao virar a esquina. À minha espera. À espera de me ceifar.
Ouve um tempo em que me ofereci. Ela rejeitou-me. Procura-me agora quando já não tenho nada para lhe dar. Agora que lhe quero fugir.
A vida troca-nos as voltas. A morte também. Quem ganha?
Estou dentro do carro. Está a chover. Não vejo nada lá para fora. Os vidros estão tapados pelas gotas da chuva que continua a cair. Os vidros estão embaciados da minha respiração. Ouço um zumbido.
Estou nervoso.
Já não tenho dezoito anos.
A minha Carta de Condução caducou. O agente da Brigada de Trânsito viu logo que a data tinha expirado. Mas vejo bem. Com óculos, mas vejo bem. E estou lúcido. Viro-me para o lado e pergunto ao meu pai Não estou lúcido? e ele acena que sim. Concorda comigo, o meu pai. O meu pai já morreu há… Há quantos anos é que ele se foi? Acho que eu ainda não tinha dezoito anos. E agora já não tenho. Tenho saudades dele. Do meu pai. E gosto quando ele me visita. Olha, já foi embora outra vez.
O agente da Brigada de Trânsito vem ali. Abre a porta do carro. Estende-me a mão para sair. Eu agarro-a e saio do carro. Sinto a chuva a cair-me em cima. Já não tenho cabelo. A chuva cai-me no crânio. Na careca. Ainda me constipo.
Passo ao lado de uma rapariga que está caída no chão. Está tapada com um pano. Mas eu sei que é uma rapariga. Eu vi quando lhe bati com o carro. Era bonita. Muito bonita. Pena que eu já não tenha dezoito anos.
O agente da Brigada de Trânsito abre-me a porta de trás do carro da polícia e faz-me entrar. Eu vejo o braço da rapariga saído do pano. É um braço branco, liso, bonito. Entro no carro da polícia. Tenho saudades do meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/21]

A Mãe

Ela acordava todos os dias às sete da manhã. Mesmo aos fim-de-semana, dias em que podia descansar um pouco mais. Mas habituara-se. Levantava-se às sete. Casa-de-banho. Duche. Vestia-se. Secava o cabelo, mas nem sempre, à vezes gostava de ir com ele molhado, tombado sobre a cara, a arrefecê-la. Passava pelo quarto do filho mais novo Acorda, vá! Está na hora! Vá, vamos! E ia preparar o pequeno-almoço. Quando o filho mais velho estava de regresso a casa, para lavar roupa e buscar comida, levava-lhe uma caneca de leite com chocolate, que ele adorava. Mas era raro vir a casa. Estava lá para a universidade. A estudar. A estudar o que ela não pode estudar. Ou não quis? Às vezes já nem sabia bem os contornos da sua própria vida. Sentia-se cansada.
Depois de preparar o pequeno-almoço, preparava também o almoço, caso o filho mais novo viesse almoçar a casa. Ela vinha também. Tomar conta dele. Garantir que ele se alimentava. Que nada lhe faltava. Mas era chegar, comer e partir de regresso ao trabalho. Se não viesse a casa almoçar, arranjava uma sandes e umas peças de fruta, que colocava num tupperware, e comia lá no trabalho. Mas não gostava de comer no trabalho. À frente dos outros. Ela até gostava de beber um copinho de vinho à refeição. Mas não à frente dos colegas. Não no trabalho. Não lá.
Antes de sair, e ela era sempre a primeira a sair de casa, ainda ia ver se o filho já estava levantado. Dava comida aos gatos. Dava comida ao cão. Limpava os cocós do cão. Às vezes mudava a areia aos gatos. De Inverno ainda tinha de limpar a geada no vidro do carro. E então, lá ia. Trabalho. Um trabalho sem chama, que não a motivava, mas que lhe pagava as contas de mãe solteira.
Regressava ao fim da tarde. Cansada. O filho mais novo no quarto. Talvez a estudar. Talvez a jogar. Talvez na internet. Aspirava a casa. Limpava o pó. Em certos dias fazia máquinas de roupa. Havia sempre muita roupa para lavar. E para secar. De Inverno era sempre uma chatice para secar a roupa. Não tinha máquina de secar (e onde é que a ia pôr?) e tinha de andar sempre a improvisar estendais lá por casa. Às vezes parecia-lhe que a casa era uma barraca de circo. Ficava envergonhada quando o filho mais novo levava um colega lá a casa e havia roupa estendida. Por isso estava sempre a perguntar Vem alguém contigo cá a casa, hoje? Mas o filho nunca sabia. Ou não respondia. Era adolescente.
À noite, jantava ela e o filho mais novo. Ela ainda tentava saber como tinha corrido o dia do filho. Ele respondia-lhe por monossílabos. Às vezes sentava-se e levantava-se sem abrir a boca. Mas mesmo assim, era melhor companhia que o mais velho. O mais velho quando vinha a casa, era raro jantar. Tinha sempre jantares com os amigos. Mas quando jantava, as poucas vezes que jantava, enfardava qualquer coisa rápido por estava sempre com pressa, sem tempo, atrasado.
Ela estava sempre adiantada nas refeições. Sempre a pensar o que fazer para o jantar de amanhã, para o almoço de depois de amanhã. Era boa cozinheira. Com boa mão. Com olho para os temperos. Mas era raro o dia em que o filho gostava. Não queria. Não tinha fome. Estava cheio. E depois ela ia descobrir papelinhos de chocolates e embalagens de gomas vazias no quarto dele.
Quando, no fim do enorme dia, e depois do filho estar na cama, ela se sentava, finalmente, no sofá, em frente à televisão, adormecia.
Estava cansada.
Já não via nada. Era embalada pelo som baixo da televisão e, normalmente, adormecia por ali, pelo sofá. Às vezes, a meio da noite, acordava para ir à casa-de-banho e então sim, ia para a cama, dormir duas ou três horas mais aconchegada.
Às vezes dava consigo a pensar se não devia ter casado de novo. Ou pelo menos arranjado um namorado. Ou alguém para mandar uns amassos. Corava quando se imaginava na cama com um homem. Não!, pensava. Estou bem assim. Aceitava a sua solidão. Vivia para os filhos. Para a casa. Para ir seguindo a vida. Um dia após o outro. Ainda houve uma altura em que chegou a juntar dinheiro para ir passar uns dias de férias ao Algarve. Talvez ao sul de Espanha. Parece que é mais barato, dizia a si própria. Mas depois… O carro, o seguro do carro, os constantes aumentos do preço da gasolina, alguns arranjos necessários lá em casa, umas sapatilhas para o filho mais novo, umas calças para o filho mais velho e acabou por desbaratar tudo o que tinha guardado.
A sua única tristeza era a falta de afecto dos filhos. Não que fossem maus, que a tratassem mal, que lhe faltassem ao respeito. Não! Nada disso! Mas sentia-lhes a falta de um abraço. Um aconchego. Um beijo. Um pouco de ternura. Não que fossem pessoas frias. Ela é que era, simplesmente, a mãe.
Um dia o filho mais novo acordou já passava da hora de ir para a escola. A mãe esquecera-se de o acordar? Ou fora-se embora e deixara-o na cama? Levantou-se rápido e vestiu-se. Nem tomou banho. Passou pela casa-de-banho para urinar e depois deu um pulo à cozinha, antes de sair de casa, para beber um copo de leite rápido. Foi ao chegar à cozinha que viu a mãe, sentada à mesa, com uma chávena de café, já fria, à frente. Mãe! Estou atrasado! Não me acordaste!, mas a mãe não respondeu. Nem se mexeu. Mãe! Mãe!, insistiu. Aproximou-se da mãe. Colocou-lhe a mão no ombro. Ela não se virou. Agarrou-lhe no braço. E ele caiu, inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/18]

Ainda Há Pessoas Normais

Estava num restaurante da baixa a jantar. Num daqueles restaurantes pequenos, com poucas mesas, e as poucas mesas existentes estão tão encavalitadas umas nas outras que duas pessoas que não se conhecem e que estão a jantar em mesas separadas parecem estar a jantar uma com a outra e a trocar segredos íntimos.
Mas é um restaurante de comida caseira, feita por uma senhora já de certa idade que de vez em quando espreita pela guarita da cozinha para ver o andamento da sala, e que tem a vantagem de ser barato.
Estava a jantar sozinho, como quase sempre, enquanto ia espreitando o telejornal que passava na televisão pendurada no alto da parede em frente.
Ao meu lado estava uma senhora a jantar com a filha e, nessa noite, a mesa do lado roubava-me a atenção e nem conseguia ligar à tragédia grega que estava a tombar sobre os arredores de Atenas.
A senhora andaria pelos quarenta anos. Ainda jovem. Bonita. Bastante atraente. A filha não teria mais que os doze, treze anos. Adolescente. Rebelde. E estavam em guerra.
A miúda pedia Oh, mãe, corta-me a carne, ao que a mãe respondia Corta tu. A miúda agarrou no bife com as duas mãos e começou a comer assim, com o bife nas mãos, a metê-lo na boca, a tentar rasgá-lo com os dentes mas a não conseguir grandes resultados. A carne tinha nervo. A comida era caseira mas às vezes não era grande coisa.
Quando a mãe viu a figura da filha à sua frente, de bife esticado entre os dentes e as mãos, deu uma palmada rápida e funcional na mão da miúda que deixou cair o bife no prato enquanto gritava um sonoro Ai!. Claro que não doeu nada que eu vi que a palmada foi mais um ligeiro toque que uma verdadeira palmada. Mas a miúda tinha de se fazer ouvir. Afinal era a vítima.
Olha a badalhoquice que estás a fazer!, disse a mãe enquanto olhava para mim a ver se eu não estava a ligar nada aos incidentes do lado. Eu não consigo cortar a carne, guinchava a miúda, embirrenta. Já tens idade para ir ao cinema com o teu namorado, também tens idade para cortar o bife, ou se fores jantar com ele também lhe pedes para te cortar a carne?, retorquiu a mãe. Como sopa!, respondeu certeira a filha.
Eu não consegui evitar uma gargalhada tão forte e imediata que acabei por cuspir um bocado de arroz que tinha na boca.
A mãe revirou a cara maldisposta para mim. Censurou-me.
Eu estava parvo, completamente hipnotizado pela conversa delas. Com pena da mãe. Mas a achar piada à filha. Já tinha esquecido a tragédia dos gregos.
A miúda lá voltou a pegar no talher. Mas ela agarrava ao contrário. A faca na mão esquerda. O garfo na mão direita.
E eu pensei Então, pá?
E a mãe disse Então, rapariga?
E a miúda disse Então?!
É que não me dá jeito de outra maneira, continuou. E a mãe disse Não vimos mais aqui jantar!. Depois esticou os braços e, com o seu talher, acabou por cortar o bife à filha.
Eu acabei de jantar. Bebi um café. Levantei-me e paguei ao balcão. Saí.
Já na rua pensei Nem sei o que pensar!. Mas sorri. E o sorriso tornou-se gargalhada.
Aquilo pôs-me bem disposto.
Afinal ainda há pessoas normais.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/24]