A Minha História com F.

Foi a minha primeira paixão. Mas não foi a minha primeira namorada. Nem sei se ela alguma vez soube que eu gostava dela. Nem sei mesmo se ela sabia que éramos da mesma turma. Um ano fomos vizinhos de mesa, mas não sei se ela sabia que eu estava ali, a olhar para ela sempre que podia.
Tudo começou na primeira classe. Era assim a nomenclatura. Primeira classe. E foi na primeira classe que a vi pela primeira vez. Fui atingido pela seta de Cupido. Vi-a e apaixonei-me. Desde esse primeiro momento sempre tive dificuldade em lhe dirigir a palavra. E quando ela, por um qualquer acaso do destino, metia conversa comigo, o gaguejar era a minha única resposta. Ficava vermelho, sentia a cara a ruborescer, e isso ainda ampliava a minha timidez transformada num gaguejar estúpido de onde só saíam grunhidos. Ela acabava por se ir embora, provavelmente a achar que eu era parvo. E era.
Chamava-se F., e é a única coisa que direi dela que não quero que, ao fim de tantos anos, alguém, finalmente, descubra o que eu nunca desvendei. Nem a ela.
Por uma única vez nos cruzámos numa festa. Uma festa de aniversário, claro, que, naquelas idades, não temos autorização para outras festas. E foi nessa festa que ganhei coragem para a convidar a dançar um slow. Mas ninguém dançava naquelas festas. Éramos novos demais. Os meninos andavam em grupo a fazer asneiras, as meninas andavam também em grupo mas aos risinhos. Nunca percebi o que significavam aqueles risinhos.
A certa altura, na única festa em que me cruzei com F., alguém pôs música a tocar. Uma dessas músicas era um slow, um tipo de música que veio a estar na moda na minha adolescência e que os rapazes e as raparigas aproveitavam para mostrar uns aos outros que gostavam de quem gostavam. Ainda me lembro da primeira vez que senti os dedos de uma rapariga a mexer-me nos cabelos, suavemente, como quem não quer nada, e a respiração húmida a tombar sobre o pescoço que começava a ficar rígido, fixo, para não alterar em nada o estado das coisas. E não, não foi, obviamente F. que me mexeu com os dedos no cabelo durante um slow. Até porque nem cheguei a dançar com ela. Mas também não digo quem foi porque toda a gente a conhece e eu não quero causar constrangimentos às raparigas que passaram pela minha vida.
Fui convidar F. para dançar o slow. Eu nunca tinha dançado. Não sabia dançar. Mas arranjei coragem no fundo mais profundo de mim e pensei Seja o que Deus quiser! (na altura andava num colégio de freiras). Para meu terror, ela disse que sim. Ela aceitou o meu convite. Estendeu-me a mão que eu agarrei cheio de vergonha. Lembro-me que, de repente, ficou muito calor. Senti a cara a ficar vermelha. Os meus músculos retesaram-se. Agarrei-lhe na mão e conduzi-a para o meio da sala onde ninguém mais estava a dançar. Vi toda a gente a olhar para mim. Os rapazes a rirem que nem uns perdidos. As raparigas a suspirarem e ansiosamente à espera de também elas serem convidadas. Os meus pés pesavam. As minhas pernas tinham dificuldade em mexerem-se. Sentia o corpo desconjuntado. A transpiração a acumular-se nos sovacos. Então parei. Ela em frente de mim. Estiquei os braços. Ela encaixou em mim. E ao meu primeiro passo pisei-a. Eu estava de sapatos de sola. Ela de sandálias. Magoei-a, claro. Ela deu um berro. Eu assustei-me e larguei-a. Ela saiu dali e foi procurar consolo junto das amigas. Eu fui a chacota dos rapazes.
Durante os quatro anos que durou a primária fui um apaixonado escondido. Nunca olhei para outra rapariga que não a F. e sabia que podia olhar para ela à vontade que o meu olhar nunca se cruzaria com o dela. Eu era invisível. Não existente.
Foi só quando chegámos ao quinto ano, no início do que é hoje o segundo ciclo, é que nos separámos. Fomos para turmas diferentes. Eu ainda a via nos intervalos. Ela continuava a não me ver. A não saber da minha existência. Mas foi só nessa altura que me livrei dessa paixão assolapada que não me permitia olhar para outras raparigas.
E foi então que conheci M. M. era uma colega de turma do quinto ano. M. meteu conversa comigo e, num intervalo, convidou-me para partilhar uma Bola de Berlim com ela. Mas essa é outra história. Essa é a história de M. Esta, de hoje, é a história de F. E a história de F. acaba aqui, no final da primária. Mesmo que, a tempos, me lembre dela. Como hoje. Gostava de me lembrar de um beijo trocado com ela. Mas isso nunca aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/15]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Bella Poeta Guerra Buenos Aires El Tango e El Mar

Estava parado num meio de uma estrada de asfalto, onde por estes dias não passam lá carros, a olhar para um ecran onde vocalistas virtuais ensaiavam cantar canções que afinal não passavam de playback para gravar as imagens vídeo a serem projectadas nos espectáculos ao vivo onde não iriam estar.
Ia bebendo uma cerveja de um copo de plástico, mas reciclável. Acendi um cigarro. Tentei. Tentei acender. Começou a chover. Este é o Verão da chuva, do frio, do mau tempo e da gripe que não me deixa em paz. Os primeiros pingos de chuva caíram em cheio no cigarro. Já não se iria acender. Muito menos deixar-se fumar. Deitei-o fora.
E agora? O que faço agora?
Corri de regresso ao carro. Precisava de fugir da chuva.
Parei debaixo de um beiral um pouco mais largo para recuperar fôlego. Encostei-me à parede. Descansei. Olhei para a luz do candeeiro público e percebi que a fúria aguaceira poderia estar de passagem. A chuva que caía era menos intensa. Aguardei.
Recuperei fôlego. Acendi um cigarro. E disse, sonoro, mas para mim Se no fim do cigarro estiver a chover menos, volto para trás, não regresso já ao carro, e vou ao concerto.
Fumei o cigarro. A chuva, que não tinha parado completamente, era uns pingos leves como flocos de neve vistos no contra-luz do candeeiro público que estava à minha frente. E decidi Vou ao concerto e seja o que Deus quiser!.
E fui.
Desci à vala. Estava bem composta. Quase cheia. O palco inundado. O PA coberto com manga plástica. Virei-me para o lado e perguntei Vai haver concerto? e o lado respondeu-me Claro, pá! Há sempre concerto! Toca aí uma! e passou-se um charro. Dei um bafo. Acabei a dar dois. Devolvi-o à precedência e disse Obrigado! e o tipo acenou com a cabeça.
Lá em baixo, no palco, um rapaz passeava-se com um balde e uma esfregona a tentar secar o que estava molhado. Por vezes o público batia-lhe palmas. Ele respondia com uma vénia. Às vezes imitava um pequeno passe de bailado. Tinha piada, o miúdo. Ainda lhe pediram para dançar. Ele recusou, envergonhado. Mas ainda ofereceu um jogo de troca de mãos nos joelhos das pernas. O público foi ao delírio.
O palco estava seco. Já não chovia. Levantaram a teia do palco. Retiraram a manga plástica de cima do PA e dos instrumentos. Chegaram os músicos. Cegou a voz. E começou. Começou a viagem.
Eu entrei no buraco da minhoca directamente para a Aula Magna. Outro tempo. Outro lugar.
Eu era jovem. Acabado de sair da adolescência. Cabelos compridos. Com caracóis. Os caracóis onde as miúdas gostavam de enfiar os dedos enquanto me sussurravam ao ouvido palavras que não repito. Magro. De barba rala e sem brancos de espécie alguma em nenhuma parte do corpo. Fugia das chinesas e dos cachimbos. Das seringas. Dos selos miniatura. Fugia de tudo aquilo que ia fazendo cair quem comigo estava e ia deixando de estar até eu ficar sozinho, eu, eu sozinho e a banda a tocar só para mim. E a voz dizia-me Avanti Marinaio, Life Is Not a Crime, Bella, Poeta, Guerra, Buenos Aires, El Tango e El Mar.
E regressei. Regressei ao meu tempo. Cabelos curtos. Já sem caracóis. Já sem os dedos das miúdas e os seus sussurros a prometerem-me a Lua. Com brancos na barba, comprida, mas muito mal semeada. A barriga proeminente salientada pela t-shirt apertada mas de uma banda cool, A respiração pesada. Um cigarro na ponta dos dedos. Sozinho, ainda e sempre, em frente à banda. A ouvir a voz, que me repetia, como à trinta anos, Avanti Marinaio, Life Is Not a Crime, Bella, Poeta, Guerra, Buenos Aires, El Tango e El Mar.
E enquanto ouvia, sentia. E pensava naqueles infelizes que me dizem que é impossível viajar no tempo. Esses nunca tiveram dezoito anos. Esses já nasceram velhos. Velhos e mortos.
No resto da noite não voltou a chover. Quando regressei ao carro, passei duas horas à procura dele. Só o encontrei quando era o único na eira. E nessa altura já não me apetecia voltar a casa. Peguei num cigarro. Sentei-me no capot e fiquei ali a fumar até o dia nascer. Depois fui beber um café e comer um croissant folhado como quando tinha dezoito anos e entrava na Bénard e achava que era fixe ser fixe.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/11]

Só Quero que Me Deixem em Paz

Quando era novo só pensava em sexo.
Era jovem, acabado de sair da adolescência, e corria para os braços que se abriam para me acolher. Saltava de cama em cama. Tinha tesão pela novidade. Pelo novo. Gostava de ouvir as diferentes respirações que me sussurravam ao ouvido. Gostava de passar as minhas mãos pelos diferentes corpos, corpos quentes, corpos despertos, ansiosos pelo meu. Não havia penas, nem tristezas. Não havia amarras, nem prisões. Era livre. Éramos todos livres uns dos outros e desejávamos-nos livres. Corria atrás de paixões que se esvaíam quando eu me esvaía. Tudo era fogo que ardia até se consumir. E consumia-se rápido. Rápido e indolor. Até ao próximo.
Quando cresci descobri o amor. Corri para ele. Corri devagar que o amor é lento. Descobri-o amargo. O amor era uma coisa assim morna, que demora a aquecer, mas logo começa a queimar etapas e tempo e disponibilidade e, quando menos esperamos, chegou ao fim. Alguém chega sempre ao fim. Não dá mais. Porque alguém quer sempre mais. Outra coisa. Porque alguém sente-se sempre enganado. Ultrajado. O amor começa sempre por ser grandioso. Muitas vezes acaba odioso. Por isso se fala tanto da linha ténue que separa o amor do ódio. Quando descobri o amor, fui à Lua buscar uma rocha só para ver o outro feliz. Mas depressa perdi o sorriso. Deixei de ter conversa. Mais rápido procurei consolo noutros braços. Braços vazios. Braços de vingança. Braços tristes. Percorri muitos braços. Tantos como os amores. Amores que me pareceram sempre de Verão. Amores que fui sempre enterrando na areia. Sempre à procura do próximo. Que era o definitivo. Mas nunca era. Somos sempre diferentes. Incompatíveis. Raios partam a matemática.
Envelheci. Envelheci sozinho. Procurei companhia. Depois da paixão e do amor, só queria companhia. Alguém com quem compartilhar uma refeição. Um prato de sopa. Uma pequena conversa sobre a espuma dos dias. Um filme na televisão ao final da noite. A lareira no Inverno, a brisa no Verão. Percorrer as festas das aldeias e comprar Bolo da Festa e ter com quem o compartilhar torrado, barrado de manteiga, na manhã seguinte. Ter alguém com quem ir comer uma filhós e beber um café da avó. Sem dramas nem obrigações. Só pelo prazer da companhia. Algum sexo ocasional. Mas, acima de tudo, a companhia. Alguém que ouça. Alguém que quebre o silêncio. Alguém.
Hoje só quero que me deixem em paz. Já não sei a idade que tenho. Só sei que estou numa cama que não é minha. Num quarto que não é meu. Talvez um hospital. Talvez um lar de idosos, preâmbulo da morte. Trazem-me comida insípida a horas certas. Comprimidos a horas certas. Lavagem do corpo a horas certas. Olho em volta e só vejo outros como eu. Eu nos outros. Tanta solidão em grupo.
E depois, a dias certos, como certa é a morte mas demora como o diabo o chegar!, as visitas de gente que fala comigo como se fosse um bebé. Com vozes aparvalhadas. Deixem-me em paz, porra! é o que me apetece gritar. Mas mantenho-me calado. À espera que se vão embora. E me deixem voltar para debaixo do cobertor. Eu e a minha solidão. Não quero outra coisa. Ficar sozinho. Em paz. Sem ver ninguém. Sem ouvir barulho. Só.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/22]

Não Tenho uma Casa a Lembrar com Nostalgia

Acompanhei-o num regresso ao passado. Já tinham passado tantos anos. Já tinha passado tanta história. Já tinha passado tanta vida. Ele mesmo já era outro, embora nunca tivesse deixado de ser, também, aquele que tinha sido naquela altura. E, no entanto, aquele regresso, quase cinquenta anos depois, àquele lugar, àquele lugar específico, estava tão carregado de emoção que até eu a podia sentir ali, perto mas distante, ao lado dele.
O lugar, bem entendido, já não existia. Já não existia como ele o tinha conhecido. A casa onde viveu aqueles oito intensos meses, já não existia. Agora era um condomínio fechado. Janelas enormes. Linhas direitas. Tudo muito rectangular e sóbrio. Provavelmente abrigava gente com dinheiro. Com muito dinheiro. Também tinha sido assim, naquela altura, pelo menos até eles lá chegarem e tomarem conta do espaço naquele Verão onde tudo parecia possível. Mas as coisas eram diferentes. É sempre tudo muito diferente ao longo da cronologia do tempo. E o passado tem essa capacidade de nos embelezar o que ficou lá para trás, principalmente quando fomos jovens, idealistas e uns idiotas cheios de esperança no futuro.
Ele encostou-se ao muro do outro lado da estrada e ficou ali a olhar para aquele prédio que não lhe dizia nada mas que lhe tinha aberto uma auto-estrada para a época em que lá viveu.
Eu encostei-me ao lado dele. Como ele. E também olhei para o prédio. Achava o prédio bonito. Mas era só. Ao contrário dele eu não tinha empatia com casas.
E fiquei a pensar nisso enquanto olhava para uma das janelas do prédio. Eu não tenho para onde voltar. Não tenho um sítio para onde ir rejuvenescer memórias preciosas de épocas fantásticas. Não tenho uma casa de família. Não tenho uma casa-mundo. Não tenho um espaço de importância. Claro que houve momentos. Momentos bastante importantes na minha vida. Mas foi tudo disperso por casas sem história. Eu nasci numa casa. A minha irmã nasceu noutra. Nenhuma delas existe mais. O meu pai morreu noutra casa. Os meus filhos nasceram noutra. Cada um deles numa casa diferente. Quando casei fui viver para outro sítio. Quando me divorciei, despachei-me para uma kitchenette com um divã. Hoje… Hoje já nem sei bem por onde ando. Vou com o vento.
Apareceu um homem, já de uma certa idade, numa das janelas do prédio. Pôs-se a olhar para nós. Devia estar a pensar Quem serão estes tipos? A olhar aqui para casa?
Virei-me para ele e percebi que não estava ali ao pé de mim. Estava, mas não estava.
Eu gostava de ter uma casa da avó com sótão onde ir vasculhar o passado. Uma arrumação onde encontrar a minha infância. A minha adolescência. A minha formação. Não sei onde param as minhas bicicletas. O skate. Os jogos de tabuleiro. O Monopólio. O Risco. As bolas de futebol. Nem a PlayStation, a primeira que saiu e que tive já em adulto, não sei onde pára. Mas a verdade é que também não penso nisso. É importante? Se calhar não. Ou então estou a fazer mal as contas.
Não tenho um rio. Uma rua. Uma aldeia. Uma cidade.
Tenho um Verão. Ou dois. Uma viagem. Ou duas. Mas as estórias perdem-se nos espaços. Onde aconteceram? Algures por aí. Nem sei.
A cara dele mexeu-se. Vi porquê. Uma lágrima deslizava pela cara. E fez-lhe um risco brilhante naquela cara tão marcada.
Acendi um cigarro.
O homem continuava à janela, protegido pelos seus vidros duplos, ou triplos, a olhar para nós.
E pensei que se um dia quisesse contar histórias da minha vida iria ter muita pouca coisa para contar. Pelo menos coisas emotivas. Daquelas que trazem um nó agarrado ao estômago. Talvez eu seja desligado. Talvez não seja pessoa para me prender a coisas tão insignificantes como casas. Mas isto também não demonstra a minha falta de afectividade? A minha falta de amor?
Ele limpou a face com as costas de uma mão. Virou-se para mim e disse Vamos! E fomos.
O homem já não estava à janela.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/03]

Às Vezes Penso em C.

Às vezes ainda penso em C. Em como foi a minha vida e como poderia ter sido.
C. foi a minha primeira namorada. A primeira namorada a sério. A namorada com quem passeava de mãos dadas. A quem dava um beijo de língua logo de manhã, quando nos encontrávamos na escola, mesmo em dias em que me tinha esquecido de lavar os dentes e ela sem se queixar. Foi a namorada com quem tive as primeiras relações sexuais de uma forma mais ou menos constante. Foi também com ela que apanhei os primeiros sustos do atraso do período. Mas nunca chegou a não vir.
Durante os anos em que namorámos fomos inseparáveis. Éramos amigos. Talvez os melhores amigos um do outro. Gostávamos das mesmas coisas. Sem obrigação. É que acabámos por ir adquirindo os mesmo gostos. Líamos os mesmos livros. Ouvíamos os mesmos discos. Íamos juntos ao cinema. Ainda não havia pipocas nem tinha chegado o VLC. Íamos juntos a concertos. Os poucos que existiam. Ainda não havia festivais de Verão. O Vilar de Mouros passou sem darmos por isso e o Artlântico acabou por nos deixar em Lisboa sem sabermos o que fazer na ausência de um festival que acabou por não acontecer. Gostávamos de exposições. Fumámos as mesmas marcas de cigarros. Foram várias ao longo dos anos. Quando nos separámos eu fugi para o CT. Ela deixou de fumar. Bebíamos em conjunto. Eu mais que ela. Eu embebedava-me. Ela aturava-me a bebedeira e os vomitados. Eu era do Benfica. Ela do Sporting. Mas não ligava muito. Ela era de direita. Eu também, mas refilava muito. Ela era mais conciliadora.
Tudo começou por nos detestarmos. Éramos da mesma turma no secundário. Ela era uma miúda de nariz arrebitado e pêlo na venta. Eu era um gajo teimoso e com a mania que sabia sempre tudo. Tivemos muitas discussões nas aulas. Discussões sobre a matéria. Sobre os pontos de vista. A última discussão que tivemos, antes de anos e anos de mãos transpiradas juntas a percorrer as ruas da cidade, terminou com eu a dar-lhe um beijo nos lábios, provocador, e ela, primeiro a ficar corada, depois envergonhada, acabou por sair da sala de aula a correr e a deixar a discussão sem final. A professora deu-me um pequeno ralhete. Que me entrou por um lado e saiu pelo outro.
Fui à procura de C. pela escola. Quando a encontrei foi porque ela veio ter comigo. Eu estava a rir, gozão. Ele chegou ao pé de mim e mandou-me um estalo. Um estalo valente. Sonoro. Fiquei com os dedos dela marcados na cara. Ainda não tinha barba para disfarçar. Mas depois de me dar o estalo, abraçou-me e beijou-me. Beijei-a. Beijámos-nos. Depois perguntei-lhe Queres namorar comigo? e ela disse Sim! Foi a primeira e última vez que pedi namoro a alguém, assim mesmo, com as letras todas. E ela disse sim. E lembro-me de ficar de sorriso enorme, de orelha a orelha, e nunca mais tive um sorriso desses.
Nesse dia, nos final das aulas, fomos lanchar juntos. Foi o primeiro de muitos lanches que partilhámos durante os anos seguintes.
Foi quando fomos para a Universidade que a nossa relação terminou. Fomos para a mesma cidade grande. Mas fomos para Faculdades diferentes. Cursar cursos diferentes. Viver em zonas diferentes da cidade. Fomos com expectativas diferentes. Começámos a ser diferentes. A desejar coisas diferentes. A fazer coisas diferentes. A crescer de forma diferente. Ela a crescer. Eu a manter a adolescência. E quando demos por nós já não éramos nós. Eu já era outro. Ela também. Acabámos por morrer. E renascemos diferentes. Eu e ela. E já não éramos nós.
Depois disso nunca mais a vi.
Soube, há uns anos, que tinha casado. Tinha duas filhas.
Às vezes penso nela. Penso nela como parte de uma época da minha vida em que também penso bastante. E agora, mais velho, é com maior regularidade que regresso lá atrás. E também com muita saudade.
Às vezes pergunto como seria a minha vida se tivesse continuado a namorar com C.
Às vezes sinto uma certa emoção quando penso nessa época e em C.
Às vezes penso se eu ainda seria eu e que versão de mim seria. E se seria melhor ou pior. Diferente, com certeza.
Às vezes gostava de poder voltar atrás no tempo e poder voltar ao mesmo momento. Àquele momento. Não sei qual seria a minha escolha. Mas gostava de poder voltar a escolher. Só para ver. Só para lembrar como é que era. E como é que sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/17]

Comprar um Disco de Vinil Era um Acto Quase Religioso

Hoje fui tirar o pó aos vinis.
Abri a tampa de acrílico do prato. Mirei a agulha. Não tinha pó agarrado. Há tanto tempo que a agulha não tocava no vinil, nem a tampa era aberta, que não havia pó para tirar.
Apanhei um disco qualquer. Deitei a mão a uma das prateleiras. Mas já sabia o que é que devia andar por ali, naquela prateleira. Naquela prateleira especificamente.
Journeys to Glory. Os neo-românticos Spandau Ballet, antes da lamechice do True e das baladas para constituir família. O fabuloso álbum de capa branca com o discóbolo. E que abre com o marcial To Cut a Long Story Short.
Tirei o disco da prateleira. Soprei o provável pó da capa. Retirei a capa interior com as letras. Depois puxei o plástico. Retirei o vinil. Levei-o à altura dos olhos. Olhei para as estrias. Não tinham um grão de pó. Coloquei-o no prato. Baixei a agulha. Ouvi aquele ruído típico da agulha no disco antes de começar a música.
Deitei-me no chão. Regressei à adolescência.
Lembro quando desci à cidade para comprar o disco. Naquela altura, comprar um disco de vinil era quase um acto religioso.
Entrei na loja. Discoteca. Era assim que se chamavam as lojas onde se vendiam discos de vinil. Discoteca. Sim, também era um sítio onde se podia ouvir música e dançar e beber umas cervejas, Pisang Ambon, uma Cuba Libre ou uma Batida de Coco, bater o coro a umas miúdas e mostrar a toda a gente a t-shirt tão fixe que tínhamos. Mas era também, e primeiro, a loja onde ouvíamos os discos. E comprávamos. Quando em grupo, comprávamos discos diferentes. Para poderem rodar entre todos. Para haver música diferente nas festas de garagem. Para haver acesso a mais informação numa era tão longe dos motores de busca, das redes sociais e do Youtube.
Então, entrei na discoteca. Eram as novidades. Spandau Ballet. Classix Nouveaux. Duran Duran. Depeche Mode. Ouvi-os todos. Haveria de os comprar a todos. Lavei o carro ao meu pai mais vezes que o normal. Aspirei a casa à minha mãe sem ela ter de me pedir. Precisava do dinheiro. Para os discos. Para aqueles discos. Eu queria ser um neo-romântico! O primeiro foi mesmo o Journeys to Glory. Quantas vezes ouvi o Mandolin! E o The Freeze!
Nessa mesma semana cortei o cabelo. Cortei o cabelo muito curto, mas deixei uma franja descaída. Uma grande franja descaída. E como o meu cabelo era encaracolado, parecia ter um ninho de ratos na cabeça. Pelo menos era assim que a minha mãe dizia que parecia.
Comecei a ir aos concertos dos Heróis do Mar. Chamaram-me fascista. Usei umas calças largas em cima e apertadas em baixo. Acho que havia um nome para isto. Não me recordo. Comprei umas botas com franjas. Um casaco de algodão com fecho a cruzar à frente. Tudo era cor.
Arranjei uma namorada. Àqueles discos, juntei outros. E continuei a ir à discoteca ouvir as novidades. E a comprá-las.
O meu pai andava contentíssimo com a minha disponibilidade para lavar o carro. Por fora e por dentro. Quanto mais limpo, quanto mais tempo de trabalho, maior o salário. Eram os meus mercados em acção.
Ainda me lembro do dia em que na discoteca ouvi uma outra coisa. Uma coisa diferente. Muito diferente. Eram uns tipos que também tinham os cabelos esquisitos, mas um outro tipo de esquisitice. Chamavam-se Echo and The Bunnymen. Que nome fantástico! Estavam no meio da neve. Vestiam gabardines escuras. Fazia-me sentir frio. A música, a voz, as letras, era tudo muito mais negro. Carregado. Por vezes, até, triste. Melancólico.
Cortei o ninho de ratos. Deixei o cabelo crescer. Comecei a vestir de preto. Usava uma gabardine de três-quartos. Comecei a fumar. E decidi que o mundo era uma merda.
Deixei de ouvir os Spandau Ballet.
Agora, sentado aqui no chão da sala, de pano do pó na mão, mas sem limpar o que quer que seja, delicio-me com o regresso a este disco dos Spandau Ballet. E foda-se, ele ainda é muito bom.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/04]