Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Tentar Focar, Tentar Não Perder Atenção

Tento focar. Tento não perder atenção. Tento não me dispersar por interesses vários só para não fazer o que tenho de fazer.
Começa tudo mal.
Levanto-me e faço a cama. É mau prenúncio. Normalmente levanto-me e deixo a cama aberta, com o edredão puxado para trás. Digo que é para a cama arejar. Na verdade é por não ter paciência para fazer logo a cama.
Hoje levantei-me e fiz a cama. Puxei o lençol e o edredão para cima. Estiquei o edredão. Não deixei um único vinco. Alisei as almofadas. Parecia uma cama de hotel num quarto de hotel.
Depois lavei toda a louça suja acumulada na cozinha. E só depois de ter a louça lavada, à mão, é que fiz café e duas torradas. E lavei a louça utilizada logo de seguida.
Fiz uma máquina de roupa. Não tinha roupa suficiente para fazer uma máquina e fui buscar roupa que não tenho usado. Para lhe dar uma limpeza. Matar o pó. E os ácaros.
Olhei à volta. Vi o trabalho a espreitar para mim de cima da secretária. Já vou!, respondi.
Fui organizar a dúzia de livros que estavam fora das prateleiras.
Sentei-me frente ao computador. Espreitei os jornais online.
Abri um dos livros que precisava para o meu trabalho. Folheei-o. Fiz o mesmo a outro. Folheei-o. Deixei-os de lado. Não estava com grande vontade.
Peguei no telemóvel. Marquei um número. Ninguém.
Lembrei-me que tinha contas para pagar.
Fui ao móvel da entrada. Luz e água. Duas contas.
Desci à rua. Fui à caixa do multibanco. Paguei a conta da luz. Não consegui pagar a conta da água. Tinha de ir ao SMAS.
Arranquei rua fora. Fui ao SMAS. Enquanto caminhava pela cidade solarenga pensei que devia estar a fazer o trabalho. Pensei que estava a ficar sem tempo. Mas parecia-me ser isso que queria. Ficar sem tempo. Ou pelo menos, ficar sem muito tempo para não poder fugir mais ou evitar o trabalho e ser, finalmente, obrigado a fazê-lo.
Cheguei ao SMAS. Tirei um número. Dez pessoas à minha frente. Esperei. Olhei em volta. Vi o número de caixas a funcionar. Não disse nada. Nem pensei nada. Não queria chatear-me. Estive tranquilo.
Finalmente a minha vez. Paguei. Demorei dois minutos. Dois minutos para os quais tive de esperar meia-hora.
Regressei a casa.
Sentei-me de novo frente ao computador. Abri uns livros. Procurei os assuntos que me interessam. Comecei finalmente a mergulhar no trabalho.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Perguntou se podia ir ao supermercado por ela. É claro que sim, mãe! respondi. Não podia responder de outro modo.
Voltei a sair de casa. Fui a casa da minha mãe. Deu-me uma lista de compras para fazer no supermercado. Descobri que tinha, também, uma conta de água por pagar. Já fora de prazo. Estava esquecida. A minha mãe não é de deixar passar prazos. Esqueceu-se. Peguei na conta da água e na lista de supermercado e saí de casa dela. Voltei ao SMAS. Sete pessoas à frente. Mais ou menos meia-hora de novo em espera. Joguei Snake no telemóvel enquanto esperei. O meu telemóvel é antigo.
Paguei. Fui ao supermercado. Passei em casa da minha mãe. Voltei para minha casa. Mas antes passei no café. Bebi uma bica. Comi um pastel de feijão miniatura. Descobri que é só invólucro. Não tinha recheio. Regressei a casa desconsolado.
Sentei-me, outra vez, frente ao computador. Lá fora o dia estava a ir embora. Aproximava-se a noite. Já estava atrasado. Já não sabia se tinha tempo para fazer o trabalho.
Tento focar. Tento não perder atenção.
Pergunto-me Onde raio gastei o meu tempo?, e fico ali, frente ao computador, a pensar no meu dia e no tempo que gastei sem fazer nada de jeito a arrastar-me para evitar começar a fazer uma coisa que tenho absolutamente de fazer mas que não consigo começar. E tudo começou quando resolvi fazer a cama.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/18]

A Manta

Mais que o conforto do calor, o aconchego era dado pelo peso. Deitava-me na cama, com várias camadas de cobertores, mas tinha de ter, sempre, em cima deles todos, a manta. A manta era uma espécie de tapete-cobertor, pesado, que não era quente nem aquecia grande coisa, mas que pesava sobre mim e me fazia sentir aconchegado e confortável.
Vestia um pijama de turco, material que detestava e que ainda hoje me provoca arrepios no corpo, e por baixo da camisola, que tinha um pequeno fecho abaixo do pescoço para facilitar a passagem pela cabeça, vestia uma Thermotebe. A Thermotebe era uma camisola interior, de manga curta ou comprida, que se vestia por baixo das camisas ou das camisolas de gola-alta ou das camisolas de lã, e que protegia da maior onda de frio polar que aí viesse Europa abaixo. Havia Thermotebe de gola redonda e outras com três botões. Dormia com uma Thermotebe por baixo do pijama e, de manhã, quando me levantava, lavava a cara, os ouvidos, o pescoço, os dentes, tirava a camisola de pijama mas mantinha a Thermotebe. Depois vestia a camisola de gola-alta, depois a de lã, um casaco grosso e estava pronto para ir para a escola.
Gostava de sentir este peso em cima de mim. Era um peso confortável. Quente.
Os anos passaram.
Cresci. Menos do que aparento.
Há muitos anos que deixei de usar pijama. Gosto de dormir nu.
Larguei os cobertores. Adoptei o edredão. Mas ainda guardo alguns cobertores que, em alturas de maior stress ou depressão, vou buscar e enrolo-me neles, como uma segunda pele, que me protege do mau-olhado, da inveja, do azar e da falta de amor. Depois de tudo passado, voltam para o armário. Dentro de sacos de plástico. Fechados a vácuo. Para se protegerem dos ácaros, das traças, das poeiras do tempo e manterem intactas as qualidades de me recuperarem a alma.
A manta ainda anda por aqui.
No meu quarto. Em cima da minha cama.
A manta está sempre por cima do edredão. Mesmo no Verão. Posso tirar o edredão, dormir só com um lençol, mas a manta está lá. Para pesar sobre mim. Para me fazer sentir protegido. Para me proteger.
As Thermotebes acabaram. Desapareceram do mercado. Mas já antes delas terem desaparecido, já eu não as usava. A minha adolescência tornou-me uma pessoa quente. Há muito que já não uso camisola interior. Nem sequer daquelas de alças que muitos homens ainda usam por baixo das camisas.
Não.
Não preciso.
Não tenho frio.
Mas a manta!… Ah, a manta sim, está cá por casa. Em cima da cama. Como uma amante. Onde me deito todos os dias.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/10]