Numa Fila de Gente

Foi a primeira vez. E a primeira vez custou. Primeiro custou estar na fila com todos os outros como eu que estavam na fila à espera. Mas o que custou mais foi ser visto por todos os outros que passavam ao largo e mandavam olhares para nós, os que estávamos na fila, à espera. Aqueles olhares entravam por mim dentro. E eu vestia-me de vergonha.
Esperámos horas a fio ao longo do passeio. Houve quem viesse muito cedo para arranjar um lugar à frente, entre os primeiros. Gente que já sabia como é que aquilo funcionava. Eu nunca tinha ido e acabei por ficar num dos últimos lugares. Só esperava era que ainda houvesse alguma coisa para mim quando fosse a minha vez de chegar lá à frente.
Nunca tinha passado por nada daquilo. E no entanto, várias vezes imaginei aquilo a acontecer. Não aquilo assim, exactamente assim, nem que achasse possível aquilo realmente acontecer daquela maneira. Mas tenho tendência para imaginar desastres terríveis e depois congratular-me pela sua não-ocorrência. Talvez seja uma forma retorcida de me sentir bem com a vida. Já imaginei vários acidentes de automóvel em que eu sobrevivia tetraplégico. Ou que que familiares meus, próximos de mim, muito próximos de mim, morriam de mortes terríveis e dolorosas. Uma vez imaginei que a minha mulher tinha caído a um poço e eu acabava a casar com a irmã dela. Logo eu que nunca fui casado. Mas a minha imaginação não tem regras, nem limites. Eu não tenho poder nenhum sobre os meus sonhos e eles, por vezes, são bem macabros, terríveis, e estão-se nas tintas para mim.
Daquela vez o sonho tornou-se realidade. Uma realidade. Mas já estava à espera. Embora tenha sido uma descida rápida, era uma descida que se vinha anunciando. Mas o que é que eu podia fazer? Não conseguia mudar o destino. Eu não sou um tipo desses, de grandes frases filosóficas e acções compatíveis que lutam contra o mundo e conseguem vencê-lo. Eu, não. Eu acho que sou um falhado. Vou andando ao sabor das ondas, sem levantar muitas. Deixo-me ir. Às vezes corre bem. Outras vezes não.
E foi assim que acabei lá, na fila. Naquela fila. Com uma série de gente como eu. E só esperava ainda chegar a tempo.
Há quanto tempo não comia? Quer dizer, comer-comer, a sério? Porque comer, tinha comido. Tinha sempre comido alguma coisa. Umas laranjas. Restos de hambúrgueres. Iogurtes fora de prazo. Às vezes conseguia roubar umas couves ali nas hortas comunitárias. Mas não tinha comido mais que isso. Isso era o que tinha comido nas últimas semanas. A última vez que tinha comido, antes de ir para a fila, foi um resto de torrada que encontrei abandonada numa esplanada. E isso já tinha sido… No dia anterior? Talvez antes, talvez antes do dia anterior.
Mas tive sorte. Quando chegou a minha vez, ainda consegui levar algumas coisas para casa. Arroz. Bolachas. Óleo. Latas de atum. Feijão. Nessa noite consegui comer quase normalmente. Nessa noite, acabei a vomitar o que tinha comido e me tinha sabido tão bem. Não vomitei por causa da comida. Vomitei por ter estado na fila, junto com todos os outros que estavam na fila, à espera de conseguirmos trazer alguma coisa para casa. Vomitei por minha causa.
Agora, já não vomito. Agora, já estou habituado. Quer dizer, o mais habituado que é possível alguém estar quando tem de se colocar numa fila de gente desesperada como eu à espera de conseguir que lhes dêem alguma coisa, qualquer coisa, para comer e mitigar a fome. Sim, porque há fome. Eu tenho fome. Todos eles, que estão na fila, têm fome. E passo, passamos, horas na fila para podermos comer alguma coisa. E é o que nos resta. Mitigar a fome de comida. O resto, o resto das coisas que nos faltam, ficam à espera de melhores dias.
A primeira vez que entrei na fila, pensei que seria a primeira e a última vez. Depois dessa vez já passou,,, Quanto? Quanto tempo?… Já não sei. Já não sei há quanto tempo foi a primeira vez. Mas sei que já me habituei. Agora faz parte da minha rotina entrar na fila e chegar lá à frente.
Um dia gostava de deixar a fila. Um dia gostava de voltar a ser como os outros, os que não vão para fila.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/08]

Ela Aparecia Lá por Casa e Ficava a Dançar Comigo

Naquele tempo eu trabalhava como assistente de realização em pequenos filmes de baixo orçamento. Tínhamos de ser pau para toda a obra. Às vezes para além do nosso trabalho também tínhamos de ser pais e mães de muita gente, especialmente dos realizadores e dos actores, personagens sempre tão cheias de dúvidas e a precisarem de um certo conforto e de uma palavra de ânimo.
Chegava a trabalhar doze, treze, quatorze hora por dia só em plateau, a dirigir as várias equipas, a aguentar os egos dos realizadores, a minimizar os danos financeiros dos produtores, a garantir menos horas de trabalho e horas extra pagas ao resto da equipa, a dar carinho aos actores, tantas vezes abandonados por realizadores indecisos e demasiado nervosos para conseguir tirar dos actores o que eles tinham para ser tirado. Mas também, naqueles filmes de série B não havia muito a desejar tirar. Era o que era. E tinha de ser feito. E alguém tinha de garantir que se fazia. E eu era esse alguém.
Depois destas doze, treze, quatroze horas de trabalho em plateau, mal chegava a casa, abria uma garrafa de vinho tinto, sentava-me na mesa da cozinha, computador aberto, e preparava a folha de serviço do dia seguinte, deixando-a depois em stand-by à espera de eventuais alterações de última hora, coisa que acabava quase sempre por acontecer. Depois acendia um cigarro, pegava no telemóvel e telefonava aos chefes de equipa a perguntar se estava tudo pronto para o dia seguinte, confirmava com os actores se já sabiam os horários para a maquilhagem, cabelos e guarda-roupa e acabava a noite de trabalho a falar com a produção. Confirmar transportes, locais de filmagens, autorizações. Às vezes dois ou três dedos de conversa com o produtor sobre como é que estava a correr o filme, a prometer que mantinha o realizador dentro das datas e do orçamento, sabendo à partida que nada do que eu dizia iria alguma vez ser verdade. Mas tentava-se.
No fim desligava o telemóvel. Fechava a tampa do computador. Olhava à volta da cozinha. Precisava de comer alguma coisa. Nunca sabia o que me apetecia comer. Acabava sempre por fazer uma sandes de presunto. Quando não havia presunto fazia com mortadela. Mais um copo de vinho tinto. E depois ia finalmente para a sala. Sentava-me pesadamente no sofá, cansado, ligava a televisão que ficava a trabalhar para o boneco e aguardava que ela chegasse, porque essa era a altura em que ela chegava.
E ela chegava, sentava-se no outro sofá e olhava para mim. Sorria-me. Um sorriso doce. Eu voltava a acender outro cigarro e começava a conversar com ela. Falava de tudo com ela. As dificuldades nas filmagens, os problemas com os realizadores, com os produtores, a dificuldade em manter a tranquilidade nos actores, a falta de dinheiro no projecto, a crónica falta de dinheiro no projecto, o desespero por um local de filmagens que se tinha tornado impraticável, um fato que se estragara, os figurantes para o dia seguinte, demasiados para eu conseguir tratar deles todos, poucos para as necessidades do filme, até chegar às partes mais íntimas da conversa e dizer-lhe Fazes-me falta! e ela sorrir outra vez, um sorriso de simpatia, um sorriso de quem percebia a falta que me fazia mas que não podia fazer nada para mudar o estado das coisas. Era assim a vida. A minha vida. Às vezes punha uma música a tocar, uma música melosa do tempo em que ainda dançava e dançava com ela, abraçados, eu sentia-lhe o cheiro do cabelo acabado de lavar, e é estranho como às vezes me esqueço da cara dela, da voz dela, mas não me esqueço do cheiro dos seus cabelos acabados de lavar, e dançávamos durante toda a noite, até que o telemóvel tocava e eu perguntava sempre Quem será a estas horas? e ela largava-me, eu ia buscar o telemóvel, ela despedia-se de mim, lançava-me um beijo com a mão e desaparecia. Eu agarrava o telemóvel, perguntava Quem é? Quem é?, mas nunca era ninguém, era o despertador, eram horas de me levantar, era já outro dia, outro dia de trabalho, e eu levantava-me do sofá, desligava o alarme do telemóvel e despia-me para ir tomar um duche e vestir roupa lavada que estava a nascer mais um dia de trabalho duro e eu tinha de me preparar para ele.
E enquanto ia a caminho do banho, perguntava-me sempre pelo dia em que eu chegasse a casa e ela já lá não estava para partilhar comigo os pequenos problemas do dia-a-dia. E não queria que esse dia chegasse.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/19]

A Velha Morta Dentro da Cama

Abri a porta com um cartão de crédito. Forcei a porta, enfiei o cartão pela nesga da porta forçada até chegar ao trinco da fechadura. Depois foi só tentativa e erro até conseguir abrir a porta e empurrá-la para trás.
O trinco cedeu mas tive de empurrar a porta com força. Algo estava a travá-la. Mal forcei a porta um pouco para dentro, senti logo o cheiro. Um cheiro a podre. Um cheiro pestilento que me fez recuar para trás, para as escadas do prédio, e me provocou vómitos. A vizinha que estava comigo no patamar das escadas, e que eu quase atropelei no recuo, percebeu o cheiro. Levou a mão ao nariz. Tirou a écharpe que tinha ao pescoço e deu-ma para as mãos. Eu levei a écharpe ao nariz e voltei a empurrar a porta para dentro. Tive de forçar. Fazer força. A casa estava às escuras. Estiquei o braço para a parede. Encontrei o interruptor da luz. Cliquei para cima. Cliquei para baixo. Não havia luz. Não havia luz em casa. Fui às escuras até à parede do fundo, até à janela, com cuidado para não bater com as pernas nem com a cabeça em lado nenhum. Encontrei a janela, apalpei à volta e puxei as estores. Abri a janela de par-em-par. Pus a cabeça de fora e respirei o ar da rua. Virei-me para dentro, para a sala. Olhei para o fundo, para a porta de entrada e vi um monte de pêlo no chão junto à porta. Parecia um casaco de peles tombado. Depois percebi que era o cão. O cão morto atrás da porta da rua.
Voltei a colocar a écharpe no nariz e avancei dentro da sala. Estava tudo em ordem. Tudo em ordem mas cheio de pó. Como se a casa tivesse sido abandonada. A televisão de cinescópio com um naperon por cima. Uma mesa ao lado com inúmeras fotografias emolduradas. A mesa de apoio, em frente ao sofá, com o comando da televisão e do cabo, lado-a-lado. Um pequeno vaso com uma planta morta. Uma mantinha dobrada sobre o sofá. Vários quadros clássicos, de representação da vida de antigamente, pendurados pelas paredes. Circulei com cuidado. Saí da sala, entrei num corredor. Ao fundo percebi a cozinha. Havia alguma luz da rua a iluminar ao fundo do corredor, a cozinha. No corredor, uma porta à direita. Outra à esquerda. Fechadas. Abri uma. Abri a outra. O cheiro era ainda mais insuportável. Um cheiro a qualquer coisa podre. Mais forte. Mais azedo. As duas portas davam para a escuridão. Fui à cozinha. Louça no escorredor no lava-loiça. Um chaleira sobre o fogão. Uma fruteira com algumas peças de fruta já podres. Algumas desfeitas e alguns tufos de bolor. No chão, debaixo da janela aberta e sem estores, duas tigelas vazias. Deviam ser do cão. Mas não havia nem comida nem água. Encontrei fósforos e regressei ao corredor, às portas abertas para buracos negros. Prendi a écharpe no bolso das calças e acendi um fósforo. Entrei pela porta à direita. Uma casa-de-banho. Lavatório. Bidé. Retrete. Polibã. Um pequeno banco. Uma toalha para as mãos ao pé do lavatório. Uma toalha de banho junto do polibã. Uma prateleira com alguns frascos. Tudo organizado. Tudo cheio de pó.
Voltei ao corredor e entrei na porta da esquerda. O cheiro era demasiado forte. Prendi a respiração. Senti os pulmões a quererem saltar. Acendi novo fósforo. Uma cama. Algo na cama. Uma janela na parede. Fui abrir a janela. Puxei os estores. Abri os vidros. Enfiei a cabeça na rua. Respirei profundamente. Várias vezes. Virei-me ao contrário. Os olhos a habituarem-se ao escuro do quarto. A cama. Um corpo dentro da cama. Debaixo dos cobertores. Um corpo que era cadáver. Se calhar o cadáver da velha da casa. Não reconhecia a cara. A cara também já não era bem uma cara. Saí do quarto, refiz o corredor até à sala e saí pela porta da rua. A vizinha aguardava no patamar das escadas por mim. Entreguei-lhe a écharpe. Ela olhava ansiosa para mim, como se perguntasse Então? Então? Agarrou na écharpe e amarrotou-a entre as mãos. Estava nervosa. E eu disse-lhe Está na cama. Está morta. E a senhora soltou um grito, levou as mãos à boca e libertou o choro. Agarrou-se a mim a soluçar. Eu abracei-a com um braço e com a outra mão agarrei no telemóvel. Era preciso avisar o INEM. Ou a Polícia? Ia ligar para o cento e doze.
Enquanto o telemóvel chamava, e a senhora soluçava o choro no meu peito, pensei na morte solitária da velha. Há quanto tempo ninguém a via na rua? no prédio? à janela? Mesmo o cão, que era mandado sozinho à rua fazer as suas necessidades, há quanto tempo ninguém o via? A velha abria a porta de casa ao fim da tarde, o cão saía e esperava que alguém chegasse do trabalho para lhe abrir a porta da rua e ir fazer as suas necessidades lá fora. Depois regressava da mesma maneira. Ficava à espera que alguém chegasse ou saísse. Eu às vezes ficava à espera que ele desse a sua volta para o deixar entrar no prédio. Há quanto tempo não via o cão? nem pensava nele? Senti-lhe a falta?
Vivemos de costas voltadas uns para os outros e acabamos todos a morrer sozinhos. Quer dizer, uns mais que outros. O que é que me esperava? a mim? Uma morta solitária, também?
Do outro lado do telemóvel alguém atendeu e eu disse Sim?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/17]

Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

O Falhado

Sou um falhado.
Nunca consegui fazer nada que se visse da minha vida. A única coisa que um falhado faz bem é reconhecer outro falhado.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e as cabeças a acenar que sim, como a cabeça daqueles cães-bonecos que se abanavam nas traseiras dos carros de antigamente quando a auto-estrada começava no Carregado e antes de lá haver Campera e de podermos comprar roupas de marca a preço de saldo, num ritual sem sentido nenhum. Um ritual falso. Um ritual que é só mesmo isso, um ritual oco e mentiroso que se cumpre porque sim. Um automatismo. Na verdade nem eu nem ele queríamos estar ali. Mas estávamos. É o que acontece aos falhados. Estão lá. Estão sempre lá.
E então, dois falhados entram no café.
O que é que faz de mim um falhado? Talvez o nunca ter feito nada de jeito da minha vida. Pelo menos nada que seja traduzível em euros, honrarias e reconhecimentos.
Acabei um curso superior que não me levou para lado nenhum.
Fui abandonado por todas as mulheres que amei.
Fui despedido de todos os empregos onde trabalhei.
Perdi todos os amigos que fiz ao longo da vida.
Não estive presente na morte dos meus pais.
Não estive presente no nascimento dos meus filhos.
Todos os convites que tenho é para fazer algo à borla. Quando há orçamento não é a mim que chamam.
Tenho uma única conta no banco e, invariavelmente, está a zeros.
O meu cão mordeu-me.
O meu gato arranhou-me.
O preservativo estava roto.
Os números da minha chave para o euromilhões são sempre ao lado. Literalmente ao lado. Um número acima ou um número abaixo dos números vencedores.
Nunca ganhei nenhum prémio. Nunca ganhei nenhum concurso.
Nunca recebi nenhum subsídio.
Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi nenhum livro.
Escrevi poemas de merda adolescentes sobre problemas existenciais.
Antigamente era a mim que saía a fava no Bolo-Rei. O brinde, quando me calhava em sorte, ficava preso na garganta e engasgava-me. Ainda bem que os Bolos-Rei deixaram de trazer favas e brindes. De qualquer forma, não gosto de Bolo-Rei. Nunca gostei.
Aposto sempre no cavalo errado.
Todas as empresas que tentei erguer nunca saíram do chão.
Se o Benfica estiver a perder, num jogo que esteja a ver, é só deixar de ver para dar a volta ao marcador.
A canção que mais gosto na Eurovisão nunca ganha.
Nunca consegui comprar um carro e uma casa com uma cerca branca e uma casota para o cão que agora dorme na varanda.
Não tenho onde cair morto.
Sou mesmo um perdedor. Um falhado.
Mas reconheço os que são como eu. Os falhados.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e reconheci-me nele. Ele era eu antes de eu ser o que sou. Na altura ainda não sabia que era um falhado. Como ele ainda não sabe. Mas virá a saber. Porque vai aprender. Porque lhe vão dizer. Várias vezes. Alguns até lhe vão cuspir na cara És a merda de um falhado! como se fosse uma gripe e um tipo tivesse culpa de ter gripe.
E então, dois falhados entram no café.
Ele foi beber a sua bica. Eu acabei por voltar para trás e ficar na rua a fumar um cigarro e a pensar como a vida nos trucida. Rimos uns para os outros mas sentimos, cá dentro, o azedume que nos consome. Mentimos para que não nos julguem falhados. Rimos. Está tudo bem! Despenteamos o cabelo. Desalinhamos a roupa. Não fazemos a barba. Fumamos um cigarro. Bebemos um copo de vinho tinto. Está sempre tudo bem! Mesmo que estejamos a morrer de fome, com os bolsos cheios de comprimidos e uma navalha afiada.
Eu sou um falhado porque não consigo ser outra coisa. Eu sou um falhado porque não consigo ser um filho-da-puta.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/15]

O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

Corto-me

Corto-me, não para libertar a dor, mas para me castigar.
Já cheguei ao final do mês. Do mês que agora começa. Recomeço. Outra vez. Olho a carteira. O fundo da carteira. O fundo vazio da carteira.
Não entendo as regras. A minha iliteracia é selectiva. Mas concreta. Real. Não entendo as regras. Os códigos. A linguagem.
Corto-me. Corto-me com o canivete-suíço. A lâmina cega. Preciso de forçar. Magoa mais. Castiga mais.
Tenho uma casa que não é minha. Um trabalho que não é pago. Um almoço que não é comido. Mas tudo o resto custa-me um olho. Custa-me uma mão. Custa-me a vida. Um café com açúcar. Um pão com manteiga. Um frango assado. Um disco. Um livro. A escola obrigatória. O hospital. Um concerto. Uma bicicleta. Um carro. Uma casa. Uma mulher. Um filho. Um nome.
Corto-me. Uma vez. E outra. Castigo-me.
Escondo-me. No fundo do armário. No fundo da cave. No prédio abandonado. Lá onde já mais ninguém vai. Só as agulhas. As putas. Os paneleiros. Onde ninguém vai. Vou eu. E os que não são ninguém. Não estão nas estatísticas. Mas estão lá. E nas estatísticas. Escondo-me no fundo do fundo, escuro e sujo. Tenho por companhia os ratos e as baratas. Que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me nos braços. Desfaço as unhas no chão de cimento à procura de uma fuga. Mas não saio daqui. Não sei para onde ir. Não tenho para onde ir.
A minha companhia são os ratos e as baratas que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me. Corto-me e espero nas sombras que me esqueçam. Que não me peçam o IMI, a Segurança Social, o IRS e o IVA. Que me enterrem numa vala comum e me deixem ser comido pelos bichos até deixar de ser memória.
Corto-me e deixo-me ficar assim. Quieto. Em silêncio. Ali. Onde ninguém vai.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/06]

Obrigado, 25 de Abril!

Avisaram-me.
Cabeça baixa. Olhos nos pés. Aproveita e vê se os sapatos estão bem engraxados. Ninguém gosta de gente desmazelada.
Não levantes a voz. Agradece. Diz Sim, senhor! Obrigado, senhor! Pois não, senhor! Tem razão, senhor!
Junta as mãos. Uma na outra. Não as deixes abandonadas. Vagabundas. Especialmente, não as deixes nos bolsos. Ninguém gosta de gente demasiado descontraída. E vê se não agarras nada que não seja teu.
Não olhes nos olhos. Ninguém gosta de gente insolente.
Não refiles. Não refutes. Não contradigas.
Quando fores ao Banco, quando fores à Caixa, quando fores à Câmara, quando fores ao Centro de Saúde, mesmo quando fores ao Hospital ou à Cadeia, leva a melhor roupa. Apresenta-te bem. Cose as meias. Cose as cuecas. Cose os fundilhos. Lava os sovacos. Lava as orelhas. Os olhos. Os dentes. Põe brilhantina no cabelo. Apresenta-te bem. Essas instituições representam o país. O teu país. Respeita-as.
Quando passares por uma imagem do chefe, curva-te. Em respeito. Quando passares por uma imagem de Deus, curva-te e benze-te. Em respeito. Quando te cruzares com alguém mais importante que tu, e há dez milhões de gente mais importante que tu neste país, dá passagem.
Quando vires a bandeira, glorifica-a. Quando ouvires o hino, emociona-te.
Sê humilde. Generoso. Poupado.
Não faças o que não deves. Não ambiciones o que não podes. Não desejes o impossível.
Não discutas.
Não peças.
Aceita.
Quarenta e cinco anos depois ainda caminho curvado sobre os meus pés enfiados numas sapatilhas rotas que arrastam o meu corpo inchado e flácido.
Quarenta e cinco anos depois recebo um salário de 600 euros. E não é o que levo para casa.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a prestação da casa. Do carro. Do telemóvel.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a conta da luz. Da água. Da televisão. Do cabo. Da Internet.
Quarenta e cinco anos depois não morro de fome porque me ajudam. Quarenta e cinco anos depois tenho o que vestir porque há lojas chinesas.
Mas quarenta e cinco anos depois trago debaixo do braço um livro, vários livros, muitos livros. E ninguém diz que não os posso ler. Ninguém me proíbe de os ler.
Quarenta e cinco anos depois posso olhar-te nos olhos e mandar-te para o caralho!
Obrigado, 25 de Abril.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/23]

Um Dia que Até Tinha Começado Muito Bem

Um ano depois volto a ter aspirador. Depois de tantos meses a varrer a casa. Depois de tantos meses a respirar o pó da casa. A engolir o cotão. A sobreviver a ataques de asma. Depois de tantos meses a maldizer o aspirador e as avarias que consomem os novos electrodomésticos construídos para serem substituídos ao fim de alguns meses, numa febre-Ikea. Depois de tudo isso. Depois de tanto azucrinar-me a cabeça. Depois de tanta Merda! e Caralho-Foda-se! que gritei. Depois de tudo isso descubro que, afinal, o aspirador estava entupido.
Estava para levá-lo para o lixo. Estava a ocupar a casa. Estava, feito mono, deitado no chão da despensa que, na verdade, não o é. Estava lá, abandonado. Peguei-lhe. Espreitei pelo tubo, coisa que pensava já ter feito. Espreitei e não vi nada. Não vi nada do outro lado. Enfiei o cabo da vassoura. Prendeu. Forcei. Forcei mais. Rompeu do outro lado. Uma bola de pêlo. De pêlos e fios e cotão e nojo, tudo enrolado numa bola de pêlo.
Fiquei contente. Fui experimentar. Aspirei a casa. Aspirei a casa toda. Tapetes e carpetes. Casa-de-banho e cozinha. Até a varanda.
Estou a transpirar. Estou cheio de calor. Mas estou satisfeito. Tenho a casa limpa. Bom, limpa, limpa, não. Está aspirada. O que é melhor do que tem estado. Estou cansado. Sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Mas agarro num cinzeiro. Não quero borrões de cinza caídos numa casa acabada de aspirar.
Fiquei com fome. Decido. Acabo o cigarro e vou almoçar. Aqui em baixo. Há uma pequena tasca aqui em baixo. No rés-do-chão de casa. Comida caseira. Acho. Barata.
Acabo o cigarro. Apago-o no cinzeiro. Vou à casa-de-banho. Olho em volta e não vejo os pêlos da barba nem os cabelos em queda espalhados por lá. Também estou sem óculos, é certo. Lavo as mãos. Lavo as mãos e a cara. Espanto a transpiração com um sabonete da Ach. Brito. Gosto do cheiro que me deixam.
Desço ao rés-do-chão. Vou de elevador. Está a funcionar. Estão os dois a funcionar. Parece um dia de festa. Tenho de jogar no Euromilhões.
Entro na tasca. Hoje há bife de cebolada com puré de batata e petinga frita com arroz de tomate. Opto pela petinga. Mas arrependo-me. Afinal, a petinga está toda oleosa e mole. O arroz de tomate está empapado. Fico um desconsolo. Salva-se o vinho tinto. Uma zurrapa de pacote de cartão. Doce. Mas bate. É o que preciso. Que bata. E bate. Relaxo. Estou na esplanada. Na pequena esplanada debaixo de um corredor exterior de arcos. Gosto de sentir o frio. Já me passou a transpiração. E acabo por continuar a comer aquelas petingas oleosas e o arroz empapado. Não desperdiço comida.
E é então que ouço o craque. Primeiro ouço o craque e depois percebo que parti alguma coisa na boca. E percebo, logo, o que foi. Foda-se!-Caralho!, penso. Mas não digo. A placa. A placa dos dentes. A placa de baixo. Em cima não tenho placa. Ainda tenho os meus dentes. Ao trincar a cabeça de uma petinga mole e mal enjorcada, parti a porra da placa.
Olho para o relógio. Duas da tarde. Ainda não deve haver ninguém no dentista. Disfarçadamente, retiro a placa para o guardanapo de papel. Estou envergonhado. Muito envergonhado. Levanto-me e vou ao interior, ao balcão, pagar. Quanto devo?, pergunto. Com a mão a tapar a boca. Com a mão a disfarçar a falta de dentes na parte de baixo da boca. Tenho dificuldade em falar. Tenho dificuldade em soletrar as palavras. Pago e voo para casa.
Entro em casa e sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Penso Quanto custará arranjar isto? Olho de novo o relógio. Duas e cinco. Ainda é cedo para o dentista. Ou se calhar não. Posso telefonar para lá. E quanto é que me custará arranjar isto? Não. Prefiro lá ir. Directamente. E digo alto, para me ouvir, Quanto é que terei de pagar por esta merda?
O dia até que tinha começado muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/12]

Com o Martelo na Cabeça

Acordei com o barulho do tractor. Ainda não eram oito horas da manhã, e o vizinho da frente já andava com o tractor a acordar as redondezas.
Claro que as redondezas era eu. Eu era o único vizinho. E afinal, ele nem era bem meu vizinho. Era só o dono do terreno em frente a casa. Um terreno abandonado, ocupado pelas silvas a rodear uma casa deserta, e a cair de podre, que os miúdos da zona aproveitavam para ir para lá fumar umas ganzas e namorar.
Levantei-me nu e fui até ao alpendre. Acendi um cigarro.
Vi o tractor na sua marcha imparável, a destruir as silvas, a acabar com o matagal e a devolver o verde ao castanho da terra. Já não chovia há algum tempo e o terreno estava seco. O pó castanho da terra levantava-se e vinha cair sobre a minha roupa estendida de véspera para aproveitar o calor matinal sem se deixar queimar pelo sol do meio-dia.
A atravessar a estrada, do terreno dele para o meu, uma série de cobras. Era vê-las a deslizar alcatrão fora, de um lado ao outro. No meio, uns riscos verdes. Os sardões também fugiam ao barulho e à, agora, falta de esconderijos no terreno em frente e vinham à procura de segurança aqui, à minha volta.
Deitei fora o cigarro.
Fui à despensa e peguei no martelo.
Saí porta fora. Saí porta fora e nem reparei que estava nu.
Desci com calma o caminho até à estrada.
Cruzei-me com as cobras e os sardões. Eles para cá e eu para lá.
Fui até ao tractor e o homem só me viu quando me aproximei do tractor e saltei para cima dele em movimento e lhe dei uma martelada na cabeça. Duas. Três. Quatro marteladas. O tractor parou.
O sangue esguichou para cima de mim. Sobre o tractor. Espalhou-se sobre o terreno castanho tornando-o escuro e húmido.
E, de repente, o silêncio.
Um saboroso silêncio.
Quase parecia um vazio.
E depois lá apareceu um chilrear, o voo chato das moscas varejeiras, os grilos, as cigarras, os carros a passarem na estrada municipal lá mais para baixo.
Desci do tractor. Deixei lá o corpo rebentado do homem. E voltei para casa.
Entrei na casa-de-banho e fui tomar um banho. Lavar-me. Despejar todo aquele sangue que jazia em mim. E levei o martelo comigo para o duche.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/03]