A Mina

Ouvia o assobio, o Hey! soprado, alto, para o burro, e o burro a rodar à volta de uma espécie de nora a puxar, a puxar, a puxar a corda, o balde, o minério das profundezas da terra cá para cima, para a terra de Deus.
Lá em baixo, no Inferno, ouvia-se as picaretas a perfurarem as paredes do subsolo. As pás a apanharem os detritos, e tudo a tombar nos carros de metal que circulavam em linha de comboio miniatura, mas não de brincar, que levavam o minério, os detritos, tudo aquilo que tinha de ir embora do estômago da terra cá para cima, para a luz solar, fazer brilhar o seu dourado, o brilho do luxo nas costas de um burro, a toque de caixa de um chicote. Arre! Arre! Hey!
Não sei as horas. Lá em baixo é sempre noite. Não há janelas. Não vejo a luz do sol. Também não vejo a da Lua. Mas percebo-lhe o ambiente. A escuridão. A solidão. O ar é pouco. Pesado. Por vezes ganham-se vertigens. Embebedam-se com a falta de ar. Eu sinto-me levado. Para onde não estou. E esqueço que não estou lá. Sou sugestionado. Mas não estou lá. Percebo como é lá, com é estar lá, como é ser parte integrante de lá.
Vejo o balde a subir, puxado numa corda pelo burro, às voltas, à volta de uma espécie de nora, até lá acima. Os detritos. O lixo. O luxo.
Daquela vez dois acontecimentos tiveram lugar. Acontecimentos vulgares. Mas não em conjunto. Vulgares solitariamente. Daquele vez foi um a seguir ao outro. Primeiro o miúdo que tinha de apanhar o balde do poço, o balde que o burro puxava naquele seu ritmo cadente à volta de uma espécie de nora caiu dentro do poço. Desequilibrou-se e caiu ao fundo. Não conseguiu agarrar o balde. Não conseguiu agarrar-se ao balde. Não conseguiu agarrar-se à corda. Caiu. Até às profundezas do Inferno. Não sei em que parte do trajecto morreu. Nem como morreu. Nem se morreu na queda. Ou da queda. Já estava morto quando o encontraram. Pedaços dele. Do pouco que encontraram dele. Depois foi a explosão. Uma picareta perfurou uma bolsa de gás. Explodiu. A bolsa. A picareta. O homem da picareta. O túnel. O poço. A mina. Morreram vários homens. Não só o homem da picareta. Mas todos os outros que lá estavam. Morreram na explosão. Ou morreram no bloqueio provocado pela explosão. Ou morreram de fome e de sede presos dentro de túneis bloqueados pela queda das paredes que os sustentavam.
O burro continuava cá em cima. À espera das ordens. Arre! Arre! Hey! Estava parado. Depois viu o resto de uma maçã. Comeu uma maçã. Uma maçã encontrada ali pelo chão. Uma maçã tombada da lancheira de um qualquer trabalhador da mina. Talvez um dos mortos. Desmembrados. Desaparecidos.
Mais tarde vi uma ambulância parada na rua. Um homem. Duas miúdas novas. Olhavam a ambulância com nervosismo. Um paramédico saiu da ambulância e falou com o homem. As miúdas ouviram. Começaram a chorar. Uma delas caiu, sem forças, ao chão. A outra ajudou-a a levantar-se. O homem ficou petrificado. Sem reação. Alheado das miúdas a chorar.
Não é só nas minas que morre gente.
Lá em cima o burro tinha recomeçado a girar à volta do poço. A fazer girar uma espécie de nora. Um gajo dizia Arre! Arre! Hey!, enquanto assobiava ao burro.
Life goes on. E a mina não podia parar. A vida não se compadece da morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/06]

A Puta da Gravidade

Nem tudo é preto no branco, // Sou bandido e santo // Mas só toco no céu // Se subir a um banco // Eu nem sei bem porque canto, // Eu já nem a mim me espanto // Orelhas de burro ao canto// A ver se aprendo entretanto…

A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da!…

Vinha pela estrada do pinhal para a Nazaré. No rádio, a TSF. No rádio os Linda Martini a berrar A Puta da Gravidade. No rádio a Playlist de Tó Trips. E que Playlist! Podia ser a minha. Não! Não podia! Havia três ou quatro escolhas dele que eu não conhecia. E que bem me soube conhecer.

Era Sábado de Carnaval e era bom fugir ao Apita o Comboio e ao Meu Amigo Charlie, Charlie Brown e levar uma bela tareia de bom e velho rock’n’roll de guitarras eléctricas cheias de genica e gana a dar-me cabo da cabeça. Que se fodessem os tímpanos e as dores de cabeça!

Não cheguei a descer à Nazaré. Fiquei-me pelo Sítio. É mais tranquilo. Havia lugar para o carro. E dava para ver o corso lá em baixo. Na marginal.

Engano. Dei logo de caras com o Love Bus. Um autocarro cor-de-rosa cheio de mascarados com duas caras. Foliões de copo na mão. Dançavam uns com os outros. Roçavam-se uns nos outros. Cantavam músicas cujas letras ficavam embargadas nos altifalantes fanhosos e na voz enrolada de gente já muito bebida.

Não vou embora daqui sem ela, nã vou, nã vou, nã vou…

Depois desta gente arrancar atrás do Love Bus, chegaram outros com uma cabeça de tubarão plantado no cocuruto e a cara pintada de branco, como mimos, mas estes não conseguiam estar calados. Estes tentavam vender porta-chaves para pagarem a bebedeira. Deixem-me em paz! dizia eu.

Sentei-me numa esplanada com lugares vagos. Percebi logo o porquê. Das colunas rasgava um som alto de música popular, folclórica e alguma brasileira, com gente a bailar feito louca.

Cada balão uma criança, lá lá lá lá lá…

Os turistas fotografavam. Os locais bebiam. Os locais dançavam. Os locais cantavam. Os turistas riam. Os turistas fotografavam mais ainda. Very typical!…

Alguém disse Olha o corso lá em baixo! E sim, afinal havia corso. Ou uma imitação dele. Uma miúda encostou-se ao muro para uma selfie com o corso na marginal de fundo. Levantou uma perna. Sorriu. Abanou a cabeça. Os cabelos voaram. Ela tirou a selfie. A perna levantada. Desequilibrou-se. Caiu para trás. Ainda lançou a mão para a frente. Para o muro. O telemóvel caiu no chão. Estilhaçou-se. As duas pernas levantaram-se acima do corpo. O sorriso fugiu. Eu levantei-me da cadeira. Ela gritou. E ficou em suspenso por alguns momentos. Em suspenso no ar. No vazio daquele precipício. Entre o Sítio e a Nazaré.

E depois… E depois, a puta da gravidade. E ela foi puxada para baixo. Caiu no vazio. Ainda vi a primeira vez que bateu com a cabeça numa rocha. Depois sentei-me e deixei de a ver cair. Ouvi os gritos das pessoas que acompanhavam ainda a queda. As mãos nas bocas. O desespero nas caras. O horror.

Ao fundo, o Love Bus descia para a Nazaré em alegre cantoria. Os foliões dançavam. Cantavam. Apitavam ao comboio, em apitos de plástico de todas as cores do arco-íris. Eu já não consegui levantar-me da cadeira. O café que tinha pedido estava a ficar frio. Acendi um cigarro. Fumei-o quase todo de seguida. Esqueci-me do café.

Na esplanada a música continuava a sair pelos altifalantes. As pessoas já não cantavam. Nem dançavam. Ali à volta, à volta daquele sítio, ali no Sítio, o Carnaval estava ferido. Havia música mas já não havia vontade de festejar.

Do outro lado Praça havia mais um grupo a preparar-se para descer. Mas estavam longe. Não se tinham apercebido.

Olhei para a praia, lá em baixo. Vi a Doca. Vi a Praia do Salgado. Se fosse Verão haveria lá alguns nudistas. Elas com as mamas ao léu. Eles com as vergonhas a dar-a-dar.

No horizonte do mar viam-se as Berlengas. E os Farilhões. Raios de luz rompiam o céu como uma bênção divina. Faziam círculos iluminados no mar. Às vezes Deus parece adormecido. Depois acorda. Mas geralmente acorda tarde.

Ao fundo da marginal via-se umas luzes a brilhar. Não sabia se era da polícia, dos bombeiros ou do corso de Carnaval. Mas lá em baixo ninguém se tinha apercebido do que tinha acontecido.

A puta da gravidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/02]

El Eternauta

Chego a Buenos Aires. Estou de rastos. Cansado. Foi uma viagem longa e não consigo dormir no avião. Não consigo dormir com tanta gente desconhecida à minha volta. Nem consigo ir à casa-de-banho. Sinto-me desconfortável. Vi filmes. Ouvi música. Tentei ler um livro mas não consegui concentrar-me. Há sempre um ciciar de uma voz. Um pigarrear do catarro. Todos aqueles barulhinhos parecem ampliar dentro de mim tiram-me a atenção e desconcentram-me.
Coloco a máscara cirúrgica na cara. Estamos no auge do H1N1. Não quero arranjar problemas. Os aeroportos são grandes propagadores de gripe. De doenças transmissoras. Protejo-me. Não estou em casa e tenho de ter cuidado. Mas não gosto de andar com isto na cara.
Saio do avião. Recupero a mala. Apanho uma fila enorme para passar a fronteira e entrar no país. Depois vejo que há uma outra fila para mim. Mais pequena. Que anda rápido. Para cidadãos da União Europeia. Dou graças. Sinto-me um privilegiado. Mostro o passaporte. Sigo. Olho para trás. Para os outros em passo de caracol. Sou europeu. Tenho privilégios. Sinto-me bem. E, ao mesmo tempo, sinto-me mal. Estou cansado.
Peço um Táxi na ilha à saída do edifício do aeroporto.
Aí vou eu. Estrada fora.
Quilómetros e quilómetros a voar por cima das casas. Os subúrbios de Buenos Aires estão aos meus pés. Só vejo telhados. Terraços nos telhados. A ponta de arranha-céus. Estou nas nuvens. Numa auto-estrada que nunca mais acaba. Acima das casas.
Há quanto tempo estou na estrada?
Vejo muito trânsito parado lá mais à frente. Houve um acidente. Ou qualquer outra coisa esquisita. Há fogo. Há fumo da estrada. Mas o motorista parece não abrandar. Vamos a grande velocidade. O trânsito está parado. Há gente a fugir por todo o lado. Há gente a lançar-se dos viadutos abaixo. Estou assustado. Começo a gritar. Chego-me à frente no banco. Tento tocar no motorista. Alertá-lo. Ele não me liga. Continua a acelerar estrada fora. Como se a estrada estivesse livre. Eu grito. Salto para o banco da frente. Agarro no volante. O motorista ignora-me. Continua na sua corrida imparável. Dou-lhe dois murros. Mas ele nem pestanejou. Acho que nem me sentiu. Puxo o travão de mão. Puxo o travão de mão do carro com força. O carro bloqueia as rodas e começa a deslizar. Flui de lado. O motorista larga o volante. Deixa-o rodar à vontade. A carro vai livre. Eu estou em pânico. Agarro-me ao volante e tento bloqueá-lo, não sei bem para quê. Porque acho que é o que devo fazer. Aproximamos-nos dos carros parados a arder na auto-estrada. Mas o carro desliza por conta própria. Vai por onde quer. Leva de arrasto algumas pessoas. E vai direito aos rails de protecção. Vai a toda a velocidade. Bate nas protecções, quebra-as e voa. Faz-se silêncio, como no cinema. Só ouço a minha respiração. O carro voa por cima das casas dos subúrbios de Buenos Aires. Olho para baixo e só vejo telhas. Telhas vermelhas. Telhas laranjas. Um telhado verde. Terraços. O carro voa. Começa a perder velocidade. Até que pára. Pára no ar. Está uns micro-segundos parado do ar. E eu antecipo a queda. Ouço-me a respirar. Recomeça o som. O som dos caos. E ele cai. Cai do céu sobre Buenos Aires.
E eu acordo. Acordo na parte de trás do Táxi. O motorista debruçado sobre o banco. Está a olhar para mim. E diz, San Telmo.
Eu estou estremunhado. Arranco a máscara cirúrgica da cara. Tento falar, mas tenho a boca seca. Mastigo um pouco. Engulo em seco. Crio saliva. E consigo balbuciar, Bárbaro!
Fico aqui. Algures em San Telmo. Tenho uma morada no bolso das calças mas esqueci-me de a mostrar ao motorista do Táxi. Estou aqui e não sei que aqui é este. Estou ao pé de uma Bomba de Gasolina. Uma Bomba de Gasolina entre prédios. Não estou mesmo na Europa. Estou na Rua do Chile.
Ao lado da Bomba de Gasolina há um quiosque de jornais. Aproximo-me e vejo, pendurado, um livro que procuro há uma eternidade, El Eternauta.
Estou em San Telmo. Não sei para onde ir. Preciso de ajuda. E já comprei uma banda-desenhada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/21]

Uma Bota Pousada na Minha Cabeça

Abri os olhos. Não conseguia mover a cabeça. Tinha uma bota pousada em cima da minha cabeça e não a conseguia mexer.
Revirei os olhos o máximo que pude para perceber o que se estava a passar. Mas não percebi grande coisa.
Ia numa carrinha de caixa aberta. Ia deitado na caixa aberta da carrinha. À minha frente, à frente dos meus olhos, um corpo. Um corpo inerte. Alguém adormecido. Alguém desmaiado. Alguém morto, talvez.
Via umas botas. Tipo militar. Só via uma. A outra estava pousada sobre a minha cabeça. Sabia-o. Sentia-o.
A carrinha percorria uma picada. Um caminho de terra batida. Ia aos saltos. Eu ia aos saltos. Íamos todos aos saltos.
Era de madrugada. Estava escuro, mas já se percebia alguma claridade. Árvores. E casas.
O barulho da carrinha não permitia perceber outros barulhos em volta.
Senti o cheiro de um cigarro. Alguém ia a fumar. Apetecia-me um cigarro. Vi fumo.
Tinha a boca seca. Sabia-me a sangue. Devia ter sangue seco na boca.
Não sei o que aconteceu. Não sei o que se passou.
Não sei sequer quem sou.
A carrinha parou.
Ouvi homens aos gritos. Pareciam ordens. Não entendi. Não percebi o que diziam.
A bota saiu de cima de mim. Alguém agarrou-me pelas mãos presas atrás das costas. Magoou-me. Senti uma dor percorrer-me a coluna. Os braços pareciam que iam ser arrancados.
O corpo que estava à minha frente foi agarrado por dois homens e tirado da carrinha como um saco de batatas. Lançado para o chão. Lançado pelo ar para o chão.
Estávamos numa ponte.
Vi agarrarem o corpo e lançarem-no da ponte abaixo.
Depois agarraram em mim e alguém disse Tens sorte. Tens as pernas livres. Se bateres os pés chegas à margem. E lançaram-me, também, da ponte abaixo.
Senti todos os centímetros de ar durante a queda.
Não vi a minha vida a passar-me à frente. Mas vi a ponte a afastar-se de mim, lentamente, e o rio a aproximar-me, devagar, mas cada vez mais próximo.
Tentei cair de pé.
O impacto foi violento. Senti uma dor lancinante quando bati na água, quando mergulhei, quando me agitei dentro de água, quando me debati e abanei os pés, com a força que já não tinha, até atingir o cimo do rio.
Ar. Ar. Ar.
Bebi golfadas de ar. Bebi golfadas de água. Aguentei-me à tona.
Vi o outro corpo inerte a passar, lá mais à frente, e ser levado pela corrente.
Eu deitei-me na água. Bati os pés. Agitei o corpo. Fui-me arrastando pelas pequenas ondas do rio. E cheguei à margem. Bati na margem. Ergui-me pela margem. Senti terra. Terreno duro. Fixo. E deixei-me ficar. Senti-me ir. E fui.
Fui não sei para onde.
Não sei quem sou.
Não sei o que me aconteceu.
Está tudo escuro.
Não sei se estou adormecido. Não sei se morri.
Estou à espera. À espera do que virá a seguir.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/28]

Cathy Come Home

Sentei-me na sala, sozinho, com um copo de vinho e um maço de cigarros. Ao fundo uma vela acesa, por causa do cheiro do tabaco. A janela aberta, com pouco barulho vindo da rua.
Sentei-me no sofá disponível para ver Cathy Come Home, colheita de 1966 de Ken Loach. Um filme feito para televisão. Uma obra-prima (sim, já sei o que vão dizer, mas quero que se fodam!). Um filme político. Um filme-denúncia. Um filme-resumo das políticas sociais britânicas dos anos ’60.
E foi uma má escolha.
Não, o filme é excelente. Filme para televisão mas cheio de cinema lá dentro. Cathy Come Home é o realismo inglês. A nova vaga do cinema britânico nascido ainda nos anos ’50. Locais naturais. Assuntos sociais. Revolta. Grandes planos. A sujidade e a tristeza da vida como ela é. Sem filtros ou paninhos quentes.
Mas terminei o filme deprimido. E a achar que entre Cathy Come Home e Eu, Daniel Blake, que se distam 50 anos, tanta coisa mudou na Europa para estarmos quase no mesmo sítio.
Mas tenho de começar pelo fim. O texto, em cartela, depois do desenlace final, sobre a cara de Cathy, em grande plano, a chorar angustiada, adverte:

“Tudo o que se passou neste filme, aconteceu em Inglaterra nos últimos 18 meses.
4.000 crianças foram tiradas aos seus pais, e institucionalizadas, por estes não terem habitação.
A Alemanha Ocidental construiu o dobro das casas que Inglaterra construiu após o fim da guerra.”

Este filme é sobre o falhanço das políticas sociais inglesas. É sobre uma máquina autofágica que existe para se sustentar a si própria. É sobre políticas, leis e ideias, aprovadas em gabinetes assépticos, distantes da realidade, e sem serem bem pensadas.
Lembro o desdém da Economia sobre as Ciências Sociais. E depois penso que foi assim que chegamos aqui. Porque há coisas mais importantes que outras (salvam-se os bancos e matam-se as pessoas).
Somos muito piedosos. E somos muito gananciosos.
E quem não trabalha é calão, não quer trabalhar, é ocioso. Está marginal. E a culpa, e aqui falamos sempre de culpa, porque há sempre culpados, são eles, nós-eles, somos os que sofremos com as directivas dos outros, os que vivem de outra maneira. Protegidos. Poupados à barbárie do dia-a-dia. Poupados ao acordar, de manhã, e não saber como irá ser logo à noite. Se vão ter um tecto para dormir. Eles. E as mulheres. E as crianças. As famílias. Como vai ser amanhã? Logo? Daqui a pouco?
Aqui, tudo começa com Cathy a fugir da sua pequena cidade onde nada se passa para a cidade grande onde brilham as luzes e onde a magia acontece. Há gente, restaurante, bares, cinema, gente, gente diferente e vida. Muita vida.
Cathy conheceu Reg e apaixonaram-se. Reg era motorista numa pequena empresa. Casam. Alugam uma bela casa de classe-média. Mas Reg sofre um acidente. A empresa não tem seguro. E precisa de continuar a funcionar. Reg vai para o hospital e é despedido. Cathy engravida. Ficam sem dinheiro. A partir daqui, e com uma passagem por casa da mãe de Reg (casa social, pequenina, cheia de gente), Cathy e Reg entram numa espiral descendente que parece nunca mais terminar.
Vivem a Lei de Murphy: tudo o que pode correr mal, corre mal.
Começa a queda no poço de onde nunca mais vêm o fundo, já que é sempre a cair. Não conseguem encontrar um quarto para alugar. Entretanto já nasceu o segundo filho. Entram numa lista interminável para umas casas sociais que estão a ser construídas mas, e até lá?
Nasce o terceiro filho. São expulsos de casas vazias que ocupam. Vão para uma rulote, mas até daí são expulsos, porque há interesses, há sempre uns interesses financeiros, imobiliários. O estado tem um programa para ajudar famílias em dificuldades, mas é só para as mulheres e as crianças. Um quarto. Um quarto só. Agora, porque três meses depois, se não arranjarem nada têm de sair do quarto e o que lhes resta é uma cama para mulher e filhos em camaratas onde se aglomeram todas as falhadas que a sociedade produz.
E os homens? Os homens que se lixem. Desenrasquem-se. E assim separam-se famílias. Criam-se problemas. E as crianças são retiradas e metidas em instituições, porque já não há famílias. O Estado rompeu com elas. Destruiu-as.
É, aliás, assim que termina o filme, com Cathy a ser despejada da sua cama e, numa estação (comboio? autocarro?) onde estava a repousar com os dois filhos (o mais velho já estava à guarda da sogra), vem a polícia com os assistentes sociais retirar as crianças e deixá-la sozinha, perdida entre as suas lágrimas e todos os sonhos que tinha e que viu serem-lhes roubados.
O filme acaba. Acabei com a garrafa de vinho e tenho o cinzeiro cheio de beatas.
Estou nervoso.
Sinto que, mesmo assim, a minha vida não é tão má. Que, mesmo assim, enquanto sociedade chegamos mais longe… Mas logo depois questiono-me Chegámos mesmo? Aquilo que vi acontecer ali, nos anos ’60, alguns dos sítios onde Cathy e Reg viveram fizeram-me lembrar as fotografias dos biddonvilles que os portugueses ocuparam na emigração para França. Lixo, ratos, plástico, placas de zinco, sujidade, muita sujidade, doenças. Sim, estamos longe disso, penso. Acho.
E depois penso nas gentes que vi dormir junto aos Centros Comerciais do Martim Moniz, em Lisboa. E das gentes que vi dormir nos vãos de escada de prédios onde a porta da rua está sempre aberta. E nos degraus de algumas montras. Nas pequenas salas de algumas caixas Multibanco. Debaixo das estátuas. A dormir no Metro até serem de lá postas fora.
Tudo isto não há muito tempo.
Chegámos mesmo mais longe? Ou alguns de nós chegaram mais longe? Alguns mesmo, demasiado longe? E os outros? Os que não conseguem acompanhar? Os que não conseguem ser filhos-da-puta? Os que não são gananciosos? Competitivos? Os que não conseguem ser, nem querem ser, iguais aos outros?
Há duas frases no filme que resumem tudo o que éramos, na altura, e somos ainda hoje:

“Vocês não se importam. Só fingem importar-se.”

Tenho a casa às escuras e estou à janela da cozinha a fumar um cigarro enquanto olho as luzes brilhantes da cidade e penso que depois de toda a depressão e mal estar que o filme de Ken Loach me provocou, o que ainda anda cá por dentro a remoer é a capacidade que aquelas duas alminhas do filme, a Cathy e o Reg, que, no meio de toda a merda em que se transformou a sua vida, ainda tinham para se amar.
Foda-se! E isto é tanto.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/03]

Avanço Nu pela Casa

Estou sentado na cama. Como ontem ou como nos outros últimos dias. Mas não bem como nesses outros últimos dias. A janela está aberta e entra luz do dia. Acordei com a luz do dia. Dormi a noite inteira.
Ainda me dói o corpo. Uma parte do corpo. Ainda vejo umas imagens difusas de uma queda, de várias quedas, do meu corpo a não se suster, a cair sobre não-sei-o-quê, de sangrar e de não me conseguir manter quieto, parado. Mas estou calmo. Tranquilo. Não transpiro. Vejo o sol lá fora na rua e imagino que vai estar um dia quente. Um dia de Verão nesta Primavera tão invernal.
Estou sentado em cima da cama. Quase como nos outros dias. Ainda me passam umas imagens pela cabeça que me deixam uma certa tristeza. Umas ausências.
Olho para o lado, na cama, e descubro uma pequena folha de papel Bom-dia! Há café feito. Fresquinho. Beijo!
A casa está em silêncio.
Saio da cama. Coloco os pés nus no chão de madeira e sinto um certo frio agradável que sobe pelo meu corpo.
Olho à volta. O quarto não me é familiar mas não me é desconhecido de todo. Já aqui estive.
Avanço nu pela casa fora. Vou à procura de qualquer coisa. Não sei bem o quê.
Alguém. Uma torrada. O cheiro do café fresco acabado de fazer como dizia o papel ao meu lado na cama.
Vou olhando para a rua através das janelas por que vou passando e vejo as pessoas nas suas vidas diárias. E penso que, a determinada altura, também eu vou ter de me vestir e sair lá para fora.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/18]

Senti-a Deslizar por Mim Abaixo

Íamos abraçados. Eu e ela. Íamos abraçados a atravessar a praça. Ela estava a dar-me um beijo no pescoço, eu sorria, quando ouvi um silvo.
E depois o silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
O corpo dela deu um esticão. Bateu no meu. Senti-a tremer. Mais que tremer, abanar, como se fosse uma folha de papel num turbilhão de vento.
O tempo abrandou. Quase que parou. Eu virei a cara para ela e vi-a cair para o chão. Ela deslizava suave, mas pesadamente, ao longo do meu corpo, para o chão.
Eu vi cada milímetro dessa queda. Eu vivi inúmeras vidas enquanto assisti a essa queda.
Eu vi-a escondida, atrás do sofá, a jogar às escondidas em minha casa. Eu vi-a a pular do prédio em obras para um monte de areia, só para fazer o mesmo que eu. Eu vi-a a gritar por mim enquanto eu marcava um golo num jogo de andebol. Eu vi-a, molhada, a sair do mar em São Pedro de Moel. Eu senti-a colada a mim, a dançar uma música xaroposa na Hot Rio, na Rio Mar, na Locopinha, na Stress Less, na Green Hill, na Princess, na Sunset, no Alibi…
E ela ainda não tinha chegado a meio da queda. A minha vida estava toda concentrada ali, naquele nano-segundo enquanto ela caía, deslizava ao longo do meu corpo, e o meu braço não a conseguia amparar. Ainda a vi no hospital, de criança nos braços, a conduzir um carrinho-de-bebé, a conduzir uma carrinha cheia de tralha infantil, na praia a brincar com um cão, de mãos dadas comigo, de braço dado comigo, a beijar-me, a acariciar-me, a sussurrar o meu nome e, finalmente, a bater com o corpo em peso na calçada da praça.
À sua volta começou a formar-se uma poça vermelha. No início não percebi bem o que tinha acontecido. Tropeçara, escorregara, desmaiara. Fugira de mim, do meu abraço. Entrara num buraco de minhoca e fugira para o passado, para uma daquelas discotecas onde dançámos músicas melosas, colados um ao outro, como se fossemos um só.
Mas não. Não fugira. Fora arrancada de mim. E caíra num buraco negro para além da minha compreensão.
Estava tombada no chão rodeada de uma poça de sangue.
À minha volta juntara-se gente. Apontavam os telemóveis e tiravam fotografias. Chamaram os paramédicos. A polícia. Trouxeram um copo de água. Dois. Uma aguardente. Uma manta.
E chegou o barulho. Uma manta de retalhos sonora. A cidade acordara ali. Eu ouvia-me gritar. Ajoelhei-me e agarrei-a. Puxei-a para mim. Puxei-a para o meu colo. Gritei-lhe o nome. Abanei-a. Abanei-a com força. Não faças isso, gritaram-me. Dei-lhe dois estalos na cara. Acorda! Acorda, caralho! Estou aqui. Não te vás embora. Eu não te deixo ir. Olha para mim! Olha para mim, foda-se!
Agarraram-me. Afastaram-me dali. Afastaram-me dela. Os paramédicos debruçaram-se sobre ela. A polícia agarrou-me e afastou-me dali. Outros polícias tentaram afastar as pessoas.
Os telemóveis continuavam no ar. Filmavam. Fotografavam. Gravavam o som das vozes caóticas.
Eu abria e fechava a boca e não conseguia fazer-me ouvir. Queria um cigarro. Eu queria um cigarro. Eu só queria um cigarro e fechar os olhos. E não estar ali.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/15]