O Cheiro do Meu Pai

Durante anos, ao passar pela casa-de-banho principal, a maior lá de casa, a casa-de-banho onde havia banheira onde se tomavam os banhos de imersão, lembrava-me sempre do meu pai. Via-o lá de pé, de camisola interior de alças, em frente ao lavatório, a fazer a barba. Havia dias em que utilizava máquina. Uma máquina de cortar a barba que fazia um barulho baixo e agudo, parecia uma abelha, bzzzzzzzzzzzz, e que alterava o som à medida que caminhava pela cara. Outros dias espalhava creme, com a ajuda de um pincel, parecia que estava a pintar-se como um palhaço, e raspava com uma lâmina que enfiava numa espécie de martelinho, prateado, pesado mas pequeno.
Durante anos, ao passar por essa casa-de-banho, lembrava-me sempre do meu pai. Era o cheiro. Um cheiro forte do after-shave que eu deixei cair e parti, ali mesmo, no sítio onde o via, quase todos os dias, a fazer a barba.
Eu já tinha alguns pêlos na cara. Nada que alguém visse. Mas eu via. Os pêlos da barba. Da minha barba. Eu crescido. Eu já com barba. Uma penugem que crescia aos meus olhos. Um dia peguei no pincel da barba do meu pai, molhei-o, esfreguei-o no sabonete e espalhei-o pela cara. Depois peguei na pequena máquina de raspar a barba e raspei a espuma que tinha na cara. Nem reparei que a lâmina não estava colocada. E ainda bem. Não me cortei. Não fiz sangue. E fiz a barba. A minha primeira barba. Sozinho. Era um homem.
Passei a cara por água. Sequei-a com a toalha. Agarrei no frasco azul-olho-de-boi com as duas mãos e, quando larguei uma das mãos para desenroscar a tampa, senti-o fugir-me da mão. Olhei para baixo. Vi-a. A minha mão em posição de agarrar mas sem agarrar já nada. Um frasco a cair. A cair por ali abaixo. Vi o trajecto todo. E ainda pude pensar Estou fodido! O frasco caiu. Foi caindo. Até que chegou ao chão. Estilhaçou-se. Mil-e-um pedaços de vidro, já vidrinho, azul-olho-de-boi a invadir a casa-de-banho. Ao mesmo tempo, um duche invertido daquela espécie de perfume a salpicar-me as pernas, os pés, até chegar-me às narinas. O cheiro. Aquele cheiro. Estou fodido!
Nunca mais me esqueci daquele cheiro. O cheiro do after-shave do meu pai. O cheiro do meu pai acabado de fazer a barba. O cheiro do meu pai.
O meu pai não precisou de se zangar comigo. Eu mesmo me encarreguei disso. Zanguei-me. Fiquei triste. Chorei. Chorei por tudo aquilo que fiz. Por ter partido o frasco. Que não era meu. Por querer ter sido o que não era. Por ter feito asneira. Por ter enchido a casa-de-banho de pequenos pedaços de vidro que ainda andaram por lá alguns anos. Por ter feito a casa-de-banho principal da casa ficar com um cheiro perfumado para o resto da vida. Pelo menos foi assim que eu o senti sempre. Aquele cheiro. Nunca mais o esqueci. E com ele, as memórias do meu pai.
Eu nunca mais fiz a barba. Às vezes aparo-a. E nunca usei after-shave. Isso era coisa do meu pai. Eu sou só o filho.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/11]