Regras Estúpidas

Eu não estava a perceber. Às vezes tenho dificuldade em perceber coisas estúpidas. Tenho um cérebro selectivo que bloqueia coisas estúpidas, problemas com as finanças e com a segurança social.
Estávamos a olhar um para o outro. Ela à espera da minha resposta. Eu sem perceber o que é que ela queria. Mas ela queria uma resposta? Não era bem uma resposta. Era uma confirmação. Queria que eu lhe mostrasse o Certificado de Vacinação Covid. Eu respondi Sim, tenho o Certificado. Mas eu estou cá dentro. Já estou cá dentro. E não há mais dentro para eu entrar.
Ela ficou parada, muito séria, a olhar para mim. E disse Tem razão, e continuou Mas eu preciso de ver o Certificado.
Eu bufei. Bufo muitas vezes quando perco a paciência com coisas estúpidas. Esta era uma delas. Uma coisa estúpida. A culpa não era da rapariga. A culpa era das regras estúpidas feitas a eito, em cima dos joelhos e sem serem pensadas.
Ai, que caralho! foi o que me saiu. A rapariga murmurou qualquer coisa. Murmurou qualquer coisa entre dentes. Não deve ter gostado da minha caralhada. Ouvidos sensíveis. Também eu sou sensível e tenho que gramar com a estupidez das regras e da falta de bom-senso das pessoas. Agora já estava a ficar irritado com a rapariga embora soubesse que a culpa não era dela, e ela pudesse ter outra atitude.
A história era simples. Eu tinha entrado no Centro Comercial Fórum, em Coimbra. À entrada, assisti a uma fila interminável de pessoas que esperavam, estoicamente, para entrar dentro da Primark. Raios os partam! Eu circulei pelo Centro Comercial. Segui as setas. Tive de me desviar inúmeras vezes de pessoas que ignoravam as setas de sentido. Vi umas montras. Entrei numas lojas. Tive de esperar à entrada de outras que só aceitavam dois clientes de cada vez. Clientes que se passeavam dentro das lojas e saíram de mãos a abanar. Eu também lá acabei por entrar e sair de mãos a abanar. Ia à procura de coisas concretas. Coisas que não havia. E tive de esperar para entrar. Esperar por gente que se passeava, de mãos atrás das costas e cigarro ao canto da boca. Estou a brincar. Não tinham o cigarro ao canto da boca. Mas alguns deles, homens, passeavam-se com as mãos atrás das costas. À patrão!
Deu-me a fome. E quando me dá a fome, tenho comer. Da mesma forma que quando tenho vontade de urinar, urino. E já o tinha feito. Já tinha urinado. E então, cheguei-me ao Wok to Walk. Fiz o pedido. E a rapariga deixou-me fazer o pedido, que não registou, e depois pediu-me o Certificado de Vacinação Covid. No início não percebi. Depois percebi mas não encontrei lógica no pedido. Eu já estava dentro do Centro. Ninguém me iria pedir para sair. Não ia entrar para dentro do restaurante porque o Wok to Walk não tem restaurante. É uma kitchenette onde agarramos uma bandeja com o prato e vamos comer algures, onde houver lugar vago entre McDonalds, Pizza Hut, Pans e Companhia e A Portugália. E a rapariga ainda se justificou com É Sábado! Eu sei que é Sábado, disse. Mas eu não quero entrar para dentro de nada, aliás vocês não têm dentro para eu entrar. Só quero um prato com comida. Eu fico aqui onde estou e onde posso ficar e vocês estão aí onde estão e devem ficar. Estamos todos de máscara, eu já estou vacinado, duplamente vacinado e tenho o Certificado. Mas é estúpido este pedido porque eu não quero entrar em lado nenhum.
Ao meu lado ouvi Vá lá. Mostra o certificado. Deixa-te de merdas.
Voltei a bufar.
Mostrei o Certificado de Vacinação Covid. E perguntei ’tá a ver? Tenho Certificado. E ela respondeu ‘tá a ver? Não custou nada.
Oh, que porra de gente! Tudo só para me chatearem. O Costa quer é que me chateiem.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/24]

Os Livros do Brasil e o Fernando Relvas em Viagem nos Autocarros da Carris

Naquele tempo passava muitas horas dentro dos autocarros da Carris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, às voltas por Lisboa, por Lisboa grande, entrando, por vezes, nos seus subúrbios, especialmente em dias de mau tempo e em que não queria ir às aulas e aproveitava para ir conhecer mais uma sala de cinema (naquela altura haviam muitas salas de cinema em Lisboa, algumas, como os Alfa, eram multiplex, e nos Alfa havia uma sala de cinema pequena, pequenina, com um ecrã um pouco maior que uma televisão e meia dúzia de cadeiras, talvez um pouco mais, mas poucas, mesmo muito poucas).
Nas minhas viagens sem fim pelos circuitos cinematográficos da capital, fui conhecendo os bairros, os finos e os populares, gostava mais de uns que de outros, mas o que eu fazia mesmo mais enquanto ia de um ponto a outro, em viagens de largos minutos, por vezes de horas, era ler. Muito li eu naquela altura. Devorei a colecção Dois Mundos dos Livros do Brasil, depois de ter, finalmente, largado as edições de bolso, baratinhas e más, da Europa-América.
Entrava nos autocarros, às vezes um pouco à sorte, entrava no primeiro que me aparecia numa das paragens ao pé de casa, naquele tempo vivia ali à Estrela, entre o Rato e Campo de Ourique, e tinha várias paragens próximas, que não eram tão próximas assim mas, também não eram muito distantes. Apanhava um autocarro, um qualquer, para qualquer lado menos para a Cidade Universitária e, mesmo quando lá passava, não levantava os olhos do livro que andava a ler para não ser acometido de culpa por não ter ido às aulas, e devorava livros, devorei uma biblioteca inteira que fui fazendo nesses anos comprando livros a vendedores de rua e, principalmente, na Feira do Livro, muito mais apelativa nos preços dos livros que hoje e onde encontrava ainda restos de colecção, livros descontinuados, preciosidades várias que ninguém queria e eu comprava tudo ao preço da uva mijona.
No início de cada mês comprava o passe social e isso permitia-me mobilidade durante um mês inteirinho mesmo quando eu já não tinha dinheiro para comer, mesmo quando já não tinha dinheiro para comer na cantina da Universidade, e passava os dias sentado num autocarro, escolhia os lugares de trás para fugir às velhas a quem tinha de dar assento, mas também não para os últimos lugares por causa dos solavancos que me faziam enjoar quando estava a tentar ler e me concentrava nas histórias que se abriam diante mim, às vezes com o estômago a roncar, e então tinha de sair, sair num sítio qualquer, fumar um cigarro na rua para enganar a fome e voltar a entrar num outro autocarro qualquer e recuperar a leitura no capítulo seguinte. Tentava sempre que as minha pausas coincidissem com a mudança de capítulo.
Às vezes também lia banda-desenhada, mas era raro por que eram livros que eu lia rapidamente e rapidamente precisava de outro para ler. Acontecia ler nos dias em que comprava um livro novo de banda-desenhada e não esperava por chegar a casa. Foi assim que li o L123 do Fernando Relvas pela primeira vez, num autocarro da Carris. Ler sobre Lisboa dos subúrbios passando por alguns subúrbios de Lisboa.
Às vezes levava uns livros feitos por mim das histórias do Fernando Relvas, uns livros feitos com os recortes das pranchas semanais publicadas no semanário Sete, que comprava para saber que filmes estavam em cartaz na cidade e escolher as salas de cinema onde iria ver cada filme, para assim passar por todas as salas de cinema de Lisboa, e acabava por compor com recortes alguns livros do Fernando Relvas: Karlos Starkiller, Sangue Violeta e Concerto para Oito Infantes e um Bastardo.
Há uns anos ainda voltei a comprar o passe social para poder voltar a ler como fazia naquele tempo. Mas a minha capacidade de abstração já não é a mesma. Por vezes tinha de repetir a frase, o parágrafo, a página. Por vezes esquecia-me que estava a ler e deixava-me perder nas pessoas que entravam, olhava-lhes as roupas, os cabelos, se vinham a mascar pastilhas, a comer um bolo, se tinham apanhado chuva ou não tinham tomado banho depois de uma aula de ginástica ou de uma ida ao ginásio. Às vezes sentavam-se ao pé de mim e eu sentia-lhes o cheiro. Umas vezes agradável, outras vezes não. Mas distraía-me da leitura. Perdia o fio-à-meada.
Finamente aburguesei-me e deixei de andar de autocarro. Ando de metro porque é rápido. Tão rápido que não me dá tempo para voltar às leituras. Limito-me a ler os nomes das estações, nomes que sei de cor-e-salteado mas que vou lendo uma e outra vez por hábito.
Não sei se foi a vida que foi ficando mais rápida, se era a juventude que tinha mais tempo para a vida. Hoje luto para ter tempo para ter mais tempo, mas o tempo teima em desaparecer da mesma maneira que desapareceu a minha colecção Dois Mundos dos Livros do Brasil e os livros de recortes das histórias do Fernando Relvas.

[escrito directamente no facebook em 2021/01/27]

Ensopado de Borrego Temperado com Racumin Forte

Ela matou-o com Racumin Forte que misturou no ensopado de borrego que lhe deu de almoço num Sábado. Farta de ser saco de pancada do marido, que lhe batia porque sim e porque não, já lhe tinha começado a bater pouco depois de terem casado, que o namoro fora curto que ela tinha pressa em sair de casa para não aturar mais o pai bêbado que batia, todos os dias, nos filhos e na mulher, sentiu que tinha chegado a altura de pôr fim a uma situação que lhe podia pôr fim a ela, agora que ele já não tinha mais tanta força nas mãos e lhe começara a bater com a fivela do cinto. Da última vez abrira-lhe um lenho na cabeça. Já não fazia queixa na GNR. Já não fazia queixa desde há muitos anos. Desde que lá fora, quase no início, e a mandaram voltar para casa com paciência. Talvez ele mudasse com o tempo, com a idade. Talvez fosse ela a causadora das arrelias do marido. Talvez fosse o demónio. Talvez fosse bom falar com o padre. Nunca falou.
Depois habituara-se. Não se habituam todas? Havia o medo de ficar sozinha. Naquela idade o que é que iria fazer da vida? Sem dinheiro? Sem casa (a casa era dele, como tudo o que lá estava dentro, como ela, que ela também era dele, era tudo dele)? Sem filhos, que os filhos tinham-se posto a andar assim que puderam Desculpa lá, mãe! mas não podemos ir aí! Estamos a trabalhar! As viagens de regresso aí a casa são caras! Não temos condições para vires para cá!, o que é que lhe restava senão levar nos cornos e aguentar como as outras aguentavam? Sim, que ela não era a única. Às vezes punha-se a pensar se a culpa não seria dela. Talvez fizesse ou dissesse algumas coisas que não deveria fazer ou dizer. Talvez.
Eu via-a às vezes na aldeia. Cruzava-me com ela à entrada do minimercado. Às vezes ela tinha um olho roxo, um braço ao peito, um penso rápido à volta dos dedos. Toda a gente sabia. Eu também sabia. Mas o que é que havíamos de fazer?
Ela fez.
Comprou Racumin Forte e misturou-o no ensopado de borrego que ele até rapava o molho do prato com pedaços de pão. Depois foi para a fazenda cavar o que ele andava lá a cavar, coisas de pequeno agricultor com parcelas de terreno onde cultivava algumas coisas para consumo próprio e uns poucos excedentes que levava para vender no minimercado, mas à socapa que não passava recibo. Quem é que aqui dos velhos pode passar recibo de meia-dúzia de produtos que vendem e lhes rende não mais que meia-dúzia de tostões? E ainda querem receber impostos sobre estas misérias.
Então ele foi lá para o terreno e foi lá que o encontraram. Estava caído sobre o terreno cavado. Um terreno que tinha estado a cavar para semear alguma coisa. O que é que se semeava naquela altura? Ou será plantar? Ele estava caído, com a cara enfiada num vómito. Aliás, havia vários despejos de vomitado à volta, como se ele tivesse andado a tentar desfazer-se do veneno que lhe consumia o estômago. Um inferno que lhe ardia por dentro. A camisa rasgada. Os dedos rígidos. Cravados como os dentes de uma forquilha.
Depois de ser encontrado, a guarda foi logo a casa da mulher e levou-a sob custódia. O pretexto foi a segurança da própria mulher. Por causa da vizinhança. Por causa da família do marido. Por causa de qualquer outra coisa que não souberam bem explicar quando a foram buscar.
Mais tarde houve quem a ouvisse dizer que agora ela sentia-se mais calma. Muito mais calma que durante todos aqueles anos a viver ao lado do marido à espera de quando viria a próxima surra. Que já não tinha mais medo. Nem dele, nem de ficar sozinha. Que na cadeia haveria mais mulheres como ela. Mulheres partidas mas que já não seriam mais quebradas. Pelo menos, não mais do que eram, do que estavam.
Ela já não voltou mais a casa. A casa continua aí, vazia, triste, abandonada. Nem os filhos voltaram. Nem a casa nem à terra. Quem é que quer saber disto?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/21]

As Peças de Xadrez na Caixa das All Star Pretas

No dia em que decidi vir morar para esta casa, guardei as peças de xadrez numa caixa de sapatilhas All Star que durou mais, a caixa, que as sapatilhas, sempre presas nos pés desde o dia em que as comprei até ao dia em que, todas rotas, as enfiei no caixote do lixo. Eram umas All Star pretas, de costura a preto e uma estrela branca na lateral exterior das sapatilhas.
Mas não é das sapatilhas All Star que quero aqui falar. Nem sequer das peças de xadrez que meti dentro da caixa dessas sapatilhas, caixa essa que guardei na arrecadação daqui de casa e nunca mais as fui buscar. Não é que não goste de jogar xadrez, que gosto, mas não gosto de jogar xadrez sozinho e, no momento em que escolhi vir viver para aqui, para esta casa, perdida no campo, perto de uma aldeia que acho que nem vem no mapa, que eu sabia que estava a desistir de ter adversário para o jogo ou companhia para o resto que fosse da minha vida.
Escolhi isolar-me por deixar de gostar das pessoas. Por deixar de acreditar nelas. Claro que podem acusar-me de soberba. Claro que podem achar que me sinto superior a toda a gente e por isso não tenho paciência para aturar pessoas. Mas não, não é por me considerar superior. Também não me considero inferior. Não. Deixei foi de ter paciência para as pequenas guerrilhas diárias. Teorias da conspiração. Políticas manhosas. Falsas. Terrorismo de língua. As palavras começaram a matar. Mudaram-lhes o sentido. Chegámos à novilíngua. E tudo está mal. Tudo está sempre mal. Tudo é horrível. Nós somos maus. A culpa é deles. A culpa é nossa. A culpa é de quem a agarrar. Que importa a culpa, porra? Não é encontrar o culpado que me motiva. É resolver o problema. Superá-lo. Conseguir viver para além dele.
É preciso parar.
É preciso reaprender a respirar.
Peguei em mim. Arrumei as peças de xadrez. O tabuleiro enfeita uma das paredes que estava muito vazia. Demasiado vazia. Eu olhava para aquela parede vazia e via mais do que queria ver. Coloquei lá o tabuleiro de xadrez e o que passei a ver nessa parede foi o tabuleiro de xadrez cujas peças arrumei porque não gosto de jogar sozinho e não tenho adversário para jogar.
Quem sabe onde é que este sítio, onde vivo, fica?
Uso um prato. Um copo. Um talher. Um individual.
As garrafas de gin e as cervejas duram muito mais tempo porque não vem cá ninguém para as beber. O vinho gasto o mesmo. Afinal, já era eu sozinho que dava cabo dele. Como hoje. Bebo o mesmo que bebia. Fumo o mesmo que fumava. Mas tenho os dentes mais brancos. Os dedos não tão amarelos. Cheiro bem menos a tabaco. Passei a ter mais tempo para comigo. Lavo mais vezes os dentes. Lavo mais vezes as mãos. Tomo mais vezes banho. Arejo mais vezes a roupa. Ando mais pela rua. Gosto do alpendre. É a minha divisão preferida da casa. Passo a maior parte do tempo aqui. Posso olhar as montanhas ao fundo. Sei com antecedência quando vai chover ou fazer sol. Vejo quem está ao portão, lá em baixo, na estrada. Posso não abrir. Não fazer barulho. Não estar em casa. Morrer para as pessoas.
Deixei de comprar Ventilan. Deixei de comprar Zolpidem. Respiro melhor. Durmo melhor. Não me zango tanto. Sorrio mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/06]

E Vou para Onde?

Eu estava sentado na cama, as costas apoiadas na parede de cabeceira, com um livro de fotografias de Wolfgang Tillmans em cima das pernas (naquela época andava muito interessado nas composições do Tillmans, especialmente na criação de texturas e nas naturezas mortas) e ela estava sentada ao fundo da cama de costas para mim.
Tinha pousado o livro nas pernas quando ela entrou no quarto e se sentou de costas para mim ao fundo da cama. Sentou-se muito direita. O cabelo escorria liso sobre as costas. Nada nela se movia. Sentou-se ao fundo da cama, as mãos pousadas sobre as pernas e o olhar provavelmente fixado no exterior que se via para além da janela que ficava à frente dela. E de mim.
Olhei lá para fora seguindo o que imaginei que fosse o olhar dela. Estava a chover. Estava sempre a chover naqueles dias. Dias cinzentos e frios. Dias chuvosos. Dias tristes. De onde estava não conseguia ver a rua, afinal, aquilo era um terceiro andar, não era muito alto, mas o suficiente para me manter acima do limite da rua. Imaginava a rua vazia. Vazia de pessoas e de carros. Estava tudo em casa. Como eu. Como nós. Já lá iam, quanto? três meses, mais ou menos, de confinamento. Como é que as pessoas se estavam a aguentar? Se fosse como nós, eu e ela, mal, muito mal. Quase já não nos falávamos. Dormíamos na mesma cama mas de costas voltadas um para o outro. Ela ganhara o hábito de se despir e vestir na casa-de-banho para não o fazer à minha frente. Passámos a comer quando tínhamos fome, mas sozinhos. Tínhamos sempre fome em alturas diferentes. Se calhar era propositado. Se calhar a culpa era minha. Talvez fosse dela. Ou da situação. Nunca tínhamos estado tanto tempo sozinhos. Ao fim de quinze dias já não tínhamos nada para contar um ao outro. No final do primeiro mês, já não nos tocávamos. Quinze dias mais tarde já mal nos ouvíamos falar. Grunhidos era o que saía das nossas bocas. Ela continuava nas suas leituras. Aqueles poetas checos e polacos que ela desencantava não sei onde. Eu fazia pesquisa para os meus projectos. Projectos que talvez viesse a realizar um dia mais tarde, quando a vida pudesse retomar uma espécie de normalidade e pudéssemos sair à rua e estarmos uns com os outros.
Lá fora, na rua, continuava a chover.
Foi nessa altura que percebi que ela estava a chorar.
E então disse Quero que te vás embora!, assim, sem se virar para mim. Se calhar não queria que a visse chorar. Se calhar precisava de não olhar para mim para ter forças de me pedir o que estava a pedir.
Eu perguntei Agora?
A pergunta ficou um pouco no ar, a ecoar. Pareceu-me sentir uma fungadela. E depois respondeu Sim, o mais rápido possível.
Fiquei ali a olhar para a nuca dela que continuava de costas para mim, provavelmente a olhar a chuva que caía lá fora. Eu ainda tinha o livro do Tillmans aberto sobre as pernas. Via uma fotografia muito bonita com o que podia ter sido o meu pequeno-almoço, umas laranjas num pequeno prato, um filtro de café sobre uma caneca e uma embalagem que talvez fosse de manteiga, ou de queijo-creme, uma garrafa de vidro de leite vazia e uma colher caída junto a uma janela com um relvado verde e o tronco de uma árvore. Era uma fotografia muito bonita mas muito triste também.
Perguntei E vou para onde?
Vi-lhe o braço a subir e a levar a mão até à cara enquanto rebentava num choro sonoro. Levantou-se e saiu do quarto a correr.
Eu fechei o livro do Wolfgang Tillmans e larguei-o na mesa-de-cabeceira. Lá fora na rua continuava a chover. Pensei que mesmo que houvesse alguém na rua a furar o confinamento, agora estaria mesmo vazia. As pessoas não gostam de andar à chuva.
E voltei a perguntar E vou para onde?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/14]

A Vítima das Circunstâncias

Três semanas depois de ter começado a trabalhar no Modelo Continente como repositor de lineares, fui despedido. Não é que não merecesse ter sido despedido mas, acho que fui vítima das circunstâncias.
O Modelo Continente abriu há três semanas. Fui um dos empregados originais. Fiz a formação. Preparei-me para ser um sucesso numa equipa que se queria de sucesso. Estive no momento da abertura do supermercado. Ao fim de três semanas fui despedido por ter sido encontrado a comer iogurtes no corredor do frio. Com poucos clientes desde a abertura, eu fui o bode-expiatório para a catarse administrativa que não compreende porque é que os clientes continuam a preferir o Pingo Doce do outro lado da rotunda.
Tive sorte. Pagaram-me o mês inteiro. Quatro semanas.
Como é que vou chegar a casa e dizer, outra vez, que fui despedido outra vez?
Vou a pé até ao centro da cidade. Já não trabalhei o resto do dia.
Está calor. Transpiro. Sinto os sovacos molhados. Sinto um fio de água a escorrer-me pelas costas abaixo. E pelo peito. Parece Verão. Parece. Mas estamos em Fevereiro.
Caminho devagar. Evito pensar que vou ter de regressar a casa. Evito pensar que, a dado momento, vou ter de regressar a casa e voltar a dizer que estou sem trabalho.
Estou com calor. Estou com sede.
Ainda estou longe do centro da cidade mas já não aguento mais este calor. Entro na porta do primeiro snack-bar que encontro. Encosto-me ao balcão de inox e peço um copo de branco, fresco.
Despejo-o de uma vez. Peço outro. Olho para a vitrina de frio e vejo uma pequena bandeja com rissóis. Peço um. É de camarão. Devoro-o em três dentadas. Empurro-o com o copo de vinho branco fresco. Peço um terceiro copo.
Pego no copo e vou para a rua fumar um cigarro. Encosto-me à montra do snack-bar. Na estrada à frente, passam carros, nem sempre muito devagar. Acendo um cigarro. Penso em como enfrentar o problema que vou enfrentar em casa quando disser que estou outra vez sem trabalho. É que já começa a ser um padrão. É a terceira vez que sou despedido desde o ano passado. Mas a culpa não é minha. Eu sou uma vítima das circunstâncias. Ou porque não me calo. Ou porque não acato bem as ordens. Ou porque refilo muito. Ou porque como iogurtes no corredor do frio. As pessoas estão sempre a arranjar desculpas para tramar as outras. Às vezes é só porque sim. Eu acho que tenho uma cara que as pessoas adoram chatear. Tenho cara de vítima.
Dou cabo do copo de vinho. Acabo o cigarro. E agora? Volto para casa? Vejo as horas no relógio de pulso. Não quero ir já para casa. Ainda é cedo para enfrentar o drama.
Decido-me por outro cigarro. Levo a mão ao bolso para tirar o maço e o cheque com o ordenado do mês, das quatro semanas de trabalho das quais só trabalhei três, sai do bolso com o maço de cigarros e voa para a estrada. Estico-me mas não o alcanço, desço o passeio e corro para a estrada atrás do cheque que voa, aos esses, como se quisesse fugir de mim, o cabrão e, depois cai no asfalto, junto ao traço contínuo, eu aproximo-me, baixo-me para o agarrar, não me vá fugir de novo, ouço uma buzina, talvez duas e sinto uma pancada forte no meu corpo, talvez seja na cabeça, não sei, não tenho a certeza e…

[escrito directamente no facebook em 2020/02/23]

Alguém Ia Ter de Pagar

Quando, hoje, ia a sair de casa para ir ao café da aldeia beber uma amêndoa amarga e abrir o apetite para o almoço (estava a guisar um coelho que uma vizinha me tinha oferecido), vi o corpo do cão caído no chão do quintal. Senti um aperto no coração. Imaginei que não seria boa coisa. O cão anda sempre a correr de um lado para o outro com os gatos. Nunca está assim parado. Não seria boa coisa.
E não era.
O corpo estava parado. Vi espuma a sair-lhe da boca. Pus-lhe a mão sobre a barriga e percebi que estava morto. Envenenado, com certeza.
Acendi um cigarro. Senti um nervoso percorrer-me o corpo. Olhei em volta. Para os muros do quintal. Por cima dos muros do quintal. Para a estrada que passa lá em baixo. Para o terreno em frente. Não vi ninguém. Um Domingo como os outros. Nunca há ninguém nas ruas da aldeia antes de almoço. Uns estão na missa, outros a fazer o almoço e, os restantes, estão no café da aldeia. Não anda ninguém nas ruas. E hoje também não andava.
Dei uma volta em torno da casa. Olhei o chão com atenção. Espreitei atrás dos arbustos, das flores, dos troncos das árvores.
Espreitei atrás de todas as esquinas da casa. Levantei pedras. Subi ao muro e andei lá por cima a olhar para o lado de fora. Não sei do que é que andava à procura, mas saberia quando visse. Estava à espera de não ver. Não queria ter razão. Gostava que tivesse sido um acaso. Um azar.
Não vi nada de estranho.
Desci a pequena alameda até à estrada. Espreitei através das grades do portão. Caminhei ao longo do muro. Sempre a olhar para a estrada. Para o outro lado da estrada. Para as árvores do outro lado da estrada. Para os postes de electricidade. Vi os caixotes do lixo. Há ali, no fim do muro da casa, no outro lado da estrada, uma pequena ilha para separação de lixo. Há lá sempre alguns monstros. Tábuas de passar-a-ferro, esqueletos de máquinas de lavar, caixas de televisores de cinescópio. Que ficam por ali meses. Fiquei por momentos a olhar para os caixotes. Depois regressei a casa e subi a pequena alameda.
Estava furioso.
Entrei em casa. Fui ao quarto. Abri o guarda-fatos. Agarrei no cofre. Abri-o. Tirei o revólver. Confirmei que estava carregado. Prendi-o no cós das calças. Nas costas.
Passei na cozinha e agarrei num saco de lixo de 50 litros.
Saí de casa.
Agarrei no corpo mole do cão morto e enfiei-o no saco.
Desci a pequena alameda com o saco nas mãos. Fui à ilha e deixei-o no caixote de lixo RSU.
Acendi outro cigarro. Olhei em volta. Coloquei a mão atrás das costas para sentir o revólver. Estava lá. Estava lá à espera.
Voltei para trás na estrada. Olhei em volta. Fiz o caminho até à casa do vizinho mais próximo. Debrucei-me sobre o muro. O cão deles estava deitado no jardim. Viu-me e veio até ao muro a abanar o rabo. Esticou-se no muro. Fiz-lhe uma festa na cabeça. Voltei para trás. Ia fazer toda a aldeia. Olhar em todas as casas, em todos os quintais, em todos os jardins.
Alguém seria culpado. Alguém ia ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/09]

Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]