Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]

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Trata-a Bem!

Lembro-me que começou tudo quando a conheci e comecei a sair com ela. Nem era ainda namoro. Saía com ela. Íamos a sítios públicos juntos. Encontrava amigos com ela do meu lado. E começou quando alguns dos meus amigos, que também eram amigos dela, me disseram Agora estima-a! Trata-a bem, se não, temos problemas, nós os dois.
Começámos a namorar. Não a trates bem, não! E eu nunca percebi esses avisos. Como era possível não tratar bem alguém de quem gostava?
Casámos. Os amigos continuaram com a história. Agora já não era só os amigos em comum. Agora também eram os meus amigos que se tinham tornado amigos dela. E também eles diziam Trata-a bem!
E eu tratei. Não porque me tinham dito para o fazer. Mas porque sou assim. Gosto de quem gosto e gosto até ao fim. Quando acaba, acaba. Mas gosto de tratar bem a quem quero bem. Aliás, nem penso como pode ser de outra maneira. Não trato mal as outras pessoas.
Mas o casamento começou cedo a azedar. Afinal ela não era como eu pensava que fosse. Eu, provavelmente, também não era o que ela queria que eu fosse.
Não durou muito tempo, o casamento. Quando nos separámos, reparei que estava sozinho. Sem nada nem ninguém. Ela levou tudo o que era nosso, mais algumas coisas que eram minhas (a minha colecção de vinis!) e ainda levou todos os amigos e conhecidos. Não deixou ninguém a quem encostar a cabeça ao ombro e chorar. Ninguém com quem mandar uns copos goela abaixo a maldizê-la, a ela e à minha vida.
E foi a minha sorte.
Sem companhia para os copos de esquecimento, virei-me para a escrita.
Passei as noites a escrever. Escrevi muito. Primeiro umas crónicas que foram publicadas num jornal local. Depois uns pequenos contos que foram publicado numas revistas literárias. Por fim um livro que foi um relativo sucesso para alguém que começou a escrever há tão pouco tempo, mas que mereceu uma segunda edição e um adiantamento considerável para um segundo livro a publicar no prazo de um ano.
E ela?
Ela foi com os amigos. Os dela e os meus. Passavam as noites no Escondidinho. Depois iam para o Lagoa, até aquilo fechar e serem expulsos de lá para fora, e terminavam as noites na Ala dos Namorados. Copos de três. Não sei quando é que começou a beber assim. Enquanto vivemos juntos, bebíamos esporadicamente. Depois, pelo que fui sabendo, era todas as noites. Fui percebendo que os amigos iam tratando dela. Magoou-me imenso, no início. Depois fui esquecendo tudo. A ela. Aos ex-amigos. À relação frustrada que tínhamos tido. Até as aventuras nocturnas dela.
Voltei a saber dela hoje. Por causa do acidente. Parece que andava com uma informação para eu ser o avisado no caso dela sofrer algum acidente. Não sei porquê eu.
Telefonaram-me perto das seis da manhã. Um acidente a caminho da Ala dos Namorados. Um Fiat Punto com seis pessoas lá dentro, espetou-se de frente com um camião cisterna. Morreram todos os ocupantes do Fiat. O motorista do camião sofreu somente algumas escoriações. Por sorte não houve explosões. Nem incêndio. Mas os corpos ficaram muito danificados. Não tinham a certeza, precisavam de confirmação das autópsias, mas parecia que havia demasiado álcool naquele carro.
Não chorei. Fiquei chocado, mas não chorei. Por momentos ainda pensei que a culpa tinha sido minha. Que eu, talvez, não tivesse tratado bem dela. Tratado como me avisaram para tratar. Mas depois percebi que a culpa não era minha. Fiz o que podia fazer. Tentei fazer mais do que o que fiz. Mas tinha sido ela a tratar da sua vida, à sua maneira. Uma maneira que, para mim, era nova. Mas foi uma escolha dela.
Não, a culpa não foi minha.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/12]

A Mãe, às Voltas, no Recinto em Fátima

Eu conheci-a há uns anos, em Fátima. Eu estava lá a tirar umas fotografias. Ela andava lá de joelhos. Era uma daquelas mulheres a pagar promessas. Qualquer coisa que tivesse pedido a Deus. Qualquer coisa que tivesse recebido. E agora o pagamento. De joelhos à volta do recinto. Pedi-lhe autorização para a fotografar. Ela anuiu. Prometi-lhe um café. E assim foi.
No fim das suas voltas. No fim das minhas fotografias. Um café. E conversa.
Fiquei a saber o que a levara ali. Não era nenhuma promessa. Não estava a pagar nada. Não tinha pedido nada. Estava a crucificar-se. Culpada, cumpria a sua penitência.
E depois, contou-me sua história. Talvez para ilustrar a fotografia que tirei. Talvez para se justificar. Talvez para exorcizar a sua vida.
Era uma mão solteira. Vivia com o filho de 13 anos. Vivia para o filho de 13 anos.
Todos os dias, antes do filho se levantar, aquecia uma caneca de leite com chocolate, e ia levá-la à cama dele. Ele era assim acordado para o dia. Quando chegava à cozinha já lá estava a mochila da escola preparada. Uma malga com cereais. Um saco de plástico com duas sanduíches para o resto do dia. Uma de fiambre de peru. Outra de queijo flamengo. Ambas com manteiga.
Ao fim-do-dia, quando ele regressava a casa, a mãe tinha sempre um bolo caseiro, de pão-de-ló, à espera dele. Quando não era um bolo, era uma salada de frutas, mas cortada momentos antes e sem adicção de sumo nem de açúcar.
Mais tarde estaria feito o jantar. Invariavelmente carne, que o filho não gostava de peixe. Um mimo para sobremesa. Depois, à noite, enquanto o filho via um bocado de televisão ou ia dormir, a mãe passava a roupa dele a ferro. Cerzia umas meias. Dobrava as cuecas.
Antes de se ir deitar ainda ia levar uma caneca de leite quente ao filho que não adormecia sem o estômago quentinho e saciado.
Aos fins-de-semana ia com o filho ao cinema. Às vezes ao circo. Lanchavam fora. Às vezes a mãe aproveitava para ir com ele às compras. Umas calças. Uma camisola. Umas sapatilhas. Um jogo para a consola.
Chegavam a casa, o filho ia experimentar o jogo novo. A mãe ia pôr uma máquina a lavar roupa. Depois preparava o jantar.
Quando era bife de vaca, ou uma bifana de porco, a mãe cortava-lhe a carne aos bocadinhos. Tirava-lhe a gordura. Tirava-lhe o nervo. O frango assado só tinha pernas e asas. Que ele gostava de comer à mão. O resto do frango, o peito, a mãe utilizava para fazer outras coisas que ele acabava por comer. Umas quiches. Umas tostas. Uma pasta no forno com molho bechamel. No arroz de ervilhas tirava as ervilhas. No arroz de cenoura tirava todos os pedaços de cenoura. Na canja não podia lá deixar as moelas, o fígado ou o coração.
Aos Domingos, a mãe incentivava-o a sair. A ir brincar para a rua. A ir ter com os amigos do bairro. Mas o filho ficava o dia todo em pijama no sofá a jogar na consola. E ela acabava por gostar da companhia. Aproveitava e limpava a casa. O quarto do filho. Apanhava a roupa que ele deixava caída pelo chão. As latas de Coca-Cola acumuladas na secretária. Os pacotes vazios de Filipinos. As migalhas dos Oreos. As várias sapatilhas espalhadas.
Um dia a mãe conheceu alguém.
Um dia a mãe conheceu melhor alguém lá do trabalho. Era ainda uma mulher nova e bonita. Ainda era bonita a mulher que estava à minha frente, no café. Uma mulher bonita mas triste. Mas muito bonita. De olhos brilhantes.
Bom, a mãe conheceu alguém e foi passar um fim-de-semana fora.
A mãe deixou todas as refeições preparadas. Todas as refeições em embalagens individuais no frigorífico. Era só aquecer cada uma delas no micro-ondas. A roupa para cada um dos dias do fim-de-semana empilhada na cadeira do quarto do filho. Caso ele quisesse ir ter com o vizinho do andar de cima. Eram amigos. Andavam na mesma turma na escola. A mãe avisou a vizinha. Que ia sair. Que o filho ficava sozinho. Que fosse lá ver dele. Que lhe desse uma ajuda se fosse necessário.
A mãe passou o fim-de-semana isolada. Foi para uma cabana nas montanhas. Houve um temporal. As comunicações foram cortadas. As estradas também. O fim-de-semana transformou-se numa semana.
A vizinha de cima foi para o hospital com o filho, atropelado à porta de casa por um condutor bêbado. Nunca mais se lembrou do filho da vizinha.
O filho passou o fim-de-semana deitado na cama. E a semana. E foi assim que a mãe o foi encontrar quando regressou na outra Segunda-feira de manhã, quando finalmente abriram as estradas e deixaram de estar presos na montanha.
Tentou telefonar mas ninguém atendeu. Nem o filho. Nem a vizinha. Mal chegou a casa correu para o quarto dele. Ele estava deitado na cama. Rodeado de merda. Inanimado. Morto.
A mãe entrou no quarto e foi abrir a janela. O quarto exalava um cheiro que não se podia. Um cheiro a merda. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte.
O filho estava morto. Ela gritou. O amigo com quem tinha estado isolada na montanha abraçou-a. Ela afastou-o. Deitou-se sobre o filho. Sobre o corpo do filho. Sobre o corpo cheio de merda do filho. O amigo telefonou para as emergências. Para a polícia. Para o trabalho de ambos. Para a escola do rapaz. Depois foi-se embora. A mãe estava abraçada ao filho. Nem os para-médicos, nem os bombeiros, nem a polícia conseguiram afastar a mãe do corpo frio do filho.
Mais tarde, e depois da autópsia e de todas as perícias, ela soube o que, provavelmente, acontecera.
O filho estava sozinho em casa. Ninguém lhe levara o leite à cama. E ele não podia sair de casa sem beber o leite com chocolate na cama, sinal que podia levantar-se e sair de casa. A comida no frigorífico não apareceu quente na mesa. Esteve uma semana inteira sem comer e sem beber. Não saiu de casa para ir à escola nem para ir ao vizinho de cima. O vizinho de cima estava no hospital e a mãe dele nunca mais se lembrou do miúdo. Da escola telefonaram à mãe mas o telefone estava sem rede. Na verdade, o miúdo enfiou-se na cama e acabou por nunca mais sair de lá. Mesmo para fazer as necessidades. Ele ficou na cama à espera da mãe. Mas a mãe nunca mais chegou. Ou chegou, mas chegou tarde.
A mãe sentiu-se culpada. A mãe sentiu que foi tudo por ter querido um fim-de-semana de luxúria quando devia ter ficado a tomar conta do filho.
Isto é o que ela pensava.
As autoridades não pensavam o mesmo. Tudo tinha sido fruto das circunstâncias.
A mãe entrou em depressão. Foi internada. Acompanhamento psiquiátrico.
Há um mês que estava de regresso à vida. Virou-se para a religião. Não para a Igreja. Para a religião, mesmo. Sem intermediários. E estava a tentar sobreviver. Ultrapassar a culpa.
Era a primeira vez que falava sobre o assunto.
Eu não soube o que dizer.
Queria sair dali, mas não sabia como. Tive de esperar que fosse ela a ir embora. E assim foi.
Hoje, ao abrir o jornal da cidade, descobri que tinha morrido. Foi encontrada morta num banco de jardim nas margens do rio. Estava já morta há algum tempo quando foi encontrada. Parece que se sentou no banco à espera da morte.
Foi a fotografia dela, de joelhos no recito em Fátima, que me deu o meu primeiro prémio de fotografia.
Chorei quando vi a notícia da sua morte. Chorei mais ainda quando lembrei a sua história.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/09]

A Culpa Não Morre Solteira

Estávamos os dois ali assim, parados, um frente ao outro. Eu olhava-o, mas não o via. Estava a tentar perceber. Estava ainda a tentar perceber o que tinha acontecido. Ele olhava-me de baixo para cima. O focinho virado para baixo, para chão, e os olhos revirados para cima, a tentar ver-me, com medo mas a tentar ver-me, a tentar perceber o que é que eu iria fazer. Ele sabia que tinha feito asneira.
Eu agarrava a mão com a outra mão. Tinha sangue na camisola, nas calças, nas botas. Havia sangue espalhado à minha volta. A mão estava aberta. Ainda não me tinha começado a doer muito. A doer a sério. Estava ainda um bocado sem perceber muito bem o que tinha acontecido. Só sabia que a culpa era minha. Não era dele. Era minha. O tempo tinha parado. Parado naquele momento de loucura momentânea. Para ele e para mim. Aquele momento pareceu uma eternidade. A olharmo-nos. Um ao outro. A zanga. A fúria. O medo.
E então, começou a doer-me. A doer-me bastante. Acordei. Vi-o. Ele estava à minha frente. A olhar para mim. Eu estava do outro lado do olhar dele. Uma mão agarrava a outra. Rasgada. Quase cortada à dentada. O sangue a jorrar. A dor. Então, sim. Finalmente. A dor. A dor a sério.
Ele estava com fome. Há três dias que estava preso pela corrente à casota. Há três dias que não tinha comida. Há três dias que ia juntando merda ali à volta da casota, até onde a corrente o deixava ir. Há não-sei-quanto-tempo sem água. Há três dias que uma miúda – miúda! uma gaja!… – me levou não-sei-para-onde, e me deu não-sei-o-quê, e estivemos por lá, onde quer que tenha sido esse lá, sem sair de onde estávamos, a fazer tudo o que duas pessoas podem e conseguem fazer quando estão sozinhas não-sei-onde, até que me lembrei do cão. O cão! Tenho de ir dar comida ao cão! E foi então que regressei.
E então, percebi.
Acho que ele estava zangado comigo. E com razão. Acho que estava com fome. E sede. E quando me viu chegar, quando me percebeu ali, de regresso, ali ao pé dele, ali, na zona de exclusão da sua corrente, saltou para cima de mim e ferrou-me os dentes. Ferrou-me os dentes onde me apanhou primeiro. Na mão. Na mão porque foi o que encontrou. Foi a primeira coisa a que conseguiu deitar os dentes. Ferrou os dentes na minha mão e puxou. E eu puxei numa tentativa vã de a fazer soltar. E este conflito de puxar para um lado e para outro quase que me fazia ficar sem mão. E então ele percebeu. Percebeu quem eu era. Percebeu o que estava a fazer. Percebeu que não devia ter feito o que fez. E abriu a boca. Retirou os dentes. Permitiu que eu retirasse a mão. Mesmo com ela rasgada e a deitar sangue para cima de mim, para cima dele, para o chão. E agarrei-a com a outra mão.
A culpa não era dele. A culpa era minha. Eu é que tinha faltado. Eu é que tinha cometido o erro.
Virei costas e voltei a casa. A deixar um rasto de sangue pelo caminho.
O cão ficou lá junto à casota. Encolhido ao lado da casota. O rabo entre as pernas. As orelhas para baixo.
Entrei em casa e procurei um pano. Procurei na gaveta dos panos de cozinha. Agarrei num e atei-o à volta da mão, numa tentativa de estancar o sangue. Precisava de pontos.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Meti a mão boa no fundo do armário e agarrei na caçadeira. Abri a gaveta e apanhei dois cartuchos. Coloquei-os na arma. Fechei o cano. Saí do quarto. Saí de casa. Voltei à casota.
A culpa era minha. Não era dele.
Pensei que teria de apanhar os cagalhões do cão e de lavar tudo à mangueirada. Estava tudo cheio de mijo. Cheirava mal. Tudo cheirava mal. Ele cheirava mal. Até eu parecia cheirar mal.
Aproximei-me do cão. Apontei a caçadeira.
A culpa era minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/25]

A Culpa Agonia-me

A culpa agonia-me. E estou sempre agoniado. Sinto-me sempre culpado.
Podia puxar desta minha educação católica como justificação do meu estado. Mas não preciso. Sinto-me culpado. Mesmo. Para além da moral religiosa.
Sinto culpa em tudo o que faço. Em tudo o que não faço. No que digo. No que fica por dizer. Mas sinto, principalmente, culpa pela minha ausência.
Os anos passam e eu não estou. Não vejo. Não ouço. E sinto a culpa da minha ausência. Sei que não é tudo culpa minha. Mas que interessa esta partilha? A falta é minha. O falhanço é meu. Sou eu o ausente. O culpado. Esta é a percepção. Isto é o que conta. Mesmo para mim.
E isso corrói-me. Por dentro. Como um verme que me vai comendo as entranhas e continua por ali, até ao coração, e depois à alma, até não restar mais nada, a não ser a culpa.
Habituei-me até a sentir culpa pelos erros alheios. Porque é culpa minha ter permitido o erro.
Acendo um cigarro. Afasto as cortinas. Abro a janela.
Lá fora já é noite. As luzes da cidade já estão ligadas. Tenho a vista embaciada. Tento perceber o que se passa lá fora mas não consigo. Um borrão colorido é tudo o que vejo.
Queria saber explicar a minha ausência mas não consigo. Tenho medo de a tentar explicar. Tenho medo que as explicações sejam desculpas. E é por isto que me sinto culpado. Por algum motivo ou outro, acaba sempre por se voltar para mim. Venha de onde vier. Seja a jusante. Ou a montante.
Sinto-me agoniado. Começo com convulsões. Largo o cigarro pela janela, para a rua lá em baixo, e começo a correr para a casa-de-banho.
Baixo-me na retrete e vomito. Depois fico ali assim, um bocado, a aguentar uns solavancos do corpo em agonia.
Levanto-me. Lavo os dentes. A cara.
Volto para a janela. Acendo novo cigarro.
Agora já vejo melhor a rua. As luzes. As pessoas lá em baixo na rua. Na esplanada. Na conversa. A rir. A gargalhar.
O telemóvel toca. Agarro nele e mando-o pela janela fora.
Pareço estar com raiva, mas não estou. É só fuga. É só medo. A culpa é solteira. Não preciso que me digam mais nada. Não preciso que me perguntem nada. Não quero ouvir mais nada.
Só quero que me deixem em paz. Sozinho e em paz. Já me basto eu. Para viver a minha culpa sozinho. Tentar pensar nela. E sobreviver-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/18]

Os Santos Populares Consumiram-me o Juízo

Estávamos a meio dos anos noventa e eu vivia numas águas furtadas num pequeno largo de um bairro popular.
A cidade ainda não era turística como é hoje, mas as festas dos santos, principalmente a de Santo António, eram de arromba e arrastavam gente de todo o lado.
Foi numa dessas festas que tudo aconteceu.
A culpa foi minha. Mas não foi totalmente minha.
Estava em casa e parecia estar na rua. Um grupo de música tocava êxitos populares e fazia dançar as pessoas ali, na praça. Havia sardinha assada e broa de milho. Cerveja. Vinho tinto. Gente aos berros. Gente muito bem disposta, alegre e com vontade de se divertir, nem que fosse à bruta.
A música entrou-me pela casa dentro e não me deixava ouvir os pensamentos. O odor a sardinha assada entranhou-se na roupa. No sofá. Nos lençóis da cama.
À varanda recebia o cheiro enjoativo do vinho tinto e da cerveja derramados. O pior era mesmo no dia seguinte, com o chão a transpirar esses vapores etílicos. E o vomitado na praça, nos canteiros, à entrada de casa. As beatas formavam uma passadeira de restos frios do tabaco da véspera. Mais umas espinhas. Pequenas poças de líquidos vários. Urina por todo o lado. Preservativos.
E isto manteve-se assim por vários dias.
Vários dias a moer-me o juízo.
Vários dias a consumir-me.
Até já não aguentar mais.
No último dia fui buscar a espingarda de caça que o meu pai me deixou como herança.
Arranjei umas cervejas frescas. Uns snacks. Um volume de tabaco. Uma caixa de fósforos. Das grandes.
Coloquei-me deitado na varanda, com a espingarda apontada à praça. Bebi umas cervejas. Petisquei. Fui fumando desalmadamente.
Esperei que a música começasse.
Aguentei, de novo, o cheiro das sardinhas assadas.
Mal começou o bailarico, disparei o primeiro tiro para o cantor, que caiu logo no chão. Ao princípio, ninguém percebeu muito bem o que tinha acontecido. A banda ainda continuou durante algum tempo a tocar. À espera que o vocalista se levantasse e retomasse a canção.
Só perceberam o que se estava a passar quando disparei sobre uma rapariga que estava a dançar sozinha frente ao palco. E logo depois no homem que estava a assar as sardinhas.
Depois foi o caos. Disparei a torto e a direito, mirando alvos aleatórios, sem procurar ninguém em especial. Apontando a quem se mexesse. E toda a gente se mexia. Corriam de um lado para o outro sem saber de onde vinham os tiros. Escondiam-se atrás uns dos outros, atrás das árvores, dos caixotes de lixo, das placas, viraram para ruas e travessas, atropelaram-se uns aos outros e acabou por morrer mais gente na confusão da fuga que com os tiros da minha espingarda.
Bebi mais umas cervejas. Fumei mais uns cigarros. E disparei mais uns tiros.
Lá acabou por aparecer a polícia. Os bombeiros. Os paramédicos. Mas só me descobriram quando chegou a polícia especial.
Cercaram-me. Distraíram-me com tiros na minha direcção. Atraíram-me.
Acabaram por conseguir entrar em casa e apanharam-me vivo. Nunca me passou pela cabeça o suicídio.
Apanhei vinte e cinco anos.
Estou quase há vinte e cinco anos na cadeia.
Sobrevivi a tudo, aqui.
Não tive redução de pena. Nem licenças precárias.
Estou quase a ser um homem livre.
Vou voltar para casa.
Estou curioso para rever os meus vizinhos.
Será que se lembram de mim?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/04]

Cathy Come Home

Sentei-me na sala, sozinho, com um copo de vinho e um maço de cigarros. Ao fundo uma vela acesa, por causa do cheiro do tabaco. A janela aberta, com pouco barulho vindo da rua.
Sentei-me no sofá disponível para ver Cathy Come Home, colheita de 1966 de Ken Loach. Um filme feito para televisão. Uma obra-prima (sim, já sei o que vão dizer, mas quero que se fodam!). Um filme político. Um filme-denúncia. Um filme-resumo das políticas sociais britânicas dos anos ’60.
E foi uma má escolha.
Não, o filme é excelente. Filme para televisão mas cheio de cinema lá dentro. Cathy Come Home é o realismo inglês. A nova vaga do cinema britânico nascido ainda nos anos ’50. Locais naturais. Assuntos sociais. Revolta. Grandes planos. A sujidade e a tristeza da vida como ela é. Sem filtros ou paninhos quentes.
Mas terminei o filme deprimido. E a achar que entre Cathy Come Home e Eu, Daniel Blake, que se distam 50 anos, tanta coisa mudou na Europa para estarmos quase no mesmo sítio.
Mas tenho de começar pelo fim. O texto, em cartela, depois do desenlace final, sobre a cara de Cathy, em grande plano, a chorar angustiada, adverte:

“Tudo o que se passou neste filme, aconteceu em Inglaterra nos últimos 18 meses.
4.000 crianças foram tiradas aos seus pais, e institucionalizadas, por estes não terem habitação.
A Alemanha Ocidental construiu o dobro das casas que Inglaterra construiu após o fim da guerra.”

Este filme é sobre o falhanço das políticas sociais inglesas. É sobre uma máquina autofágica que existe para se sustentar a si própria. É sobre políticas, leis e ideias, aprovadas em gabinetes assépticos, distantes da realidade, e sem serem bem pensadas.
Lembro o desdém da Economia sobre as Ciências Sociais. E depois penso que foi assim que chegamos aqui. Porque há coisas mais importantes que outras (salvam-se os bancos e matam-se as pessoas).
Somos muito piedosos. E somos muito gananciosos.
E quem não trabalha é calão, não quer trabalhar, é ocioso. Está marginal. E a culpa, e aqui falamos sempre de culpa, porque há sempre culpados, são eles, nós-eles, somos os que sofremos com as directivas dos outros, os que vivem de outra maneira. Protegidos. Poupados à barbárie do dia-a-dia. Poupados ao acordar, de manhã, e não saber como irá ser logo à noite. Se vão ter um tecto para dormir. Eles. E as mulheres. E as crianças. As famílias. Como vai ser amanhã? Logo? Daqui a pouco?
Aqui, tudo começa com Cathy a fugir da sua pequena cidade onde nada se passa para a cidade grande onde brilham as luzes e onde a magia acontece. Há gente, restaurante, bares, cinema, gente, gente diferente e vida. Muita vida.
Cathy conheceu Reg e apaixonaram-se. Reg era motorista numa pequena empresa. Casam. Alugam uma bela casa de classe-média. Mas Reg sofre um acidente. A empresa não tem seguro. E precisa de continuar a funcionar. Reg vai para o hospital e é despedido. Cathy engravida. Ficam sem dinheiro. A partir daqui, e com uma passagem por casa da mãe de Reg (casa social, pequenina, cheia de gente), Cathy e Reg entram numa espiral descendente que parece nunca mais terminar.
Vivem a Lei de Murphy: tudo o que pode correr mal, corre mal.
Começa a queda no poço de onde nunca mais vêm o fundo, já que é sempre a cair. Não conseguem encontrar um quarto para alugar. Entretanto já nasceu o segundo filho. Entram numa lista interminável para umas casas sociais que estão a ser construídas mas, e até lá?
Nasce o terceiro filho. São expulsos de casas vazias que ocupam. Vão para uma rulote, mas até daí são expulsos, porque há interesses, há sempre uns interesses financeiros, imobiliários. O estado tem um programa para ajudar famílias em dificuldades, mas é só para as mulheres e as crianças. Um quarto. Um quarto só. Agora, porque três meses depois, se não arranjarem nada têm de sair do quarto e o que lhes resta é uma cama para mulher e filhos em camaratas onde se aglomeram todas as falhadas que a sociedade produz.
E os homens? Os homens que se lixem. Desenrasquem-se. E assim separam-se famílias. Criam-se problemas. E as crianças são retiradas e metidas em instituições, porque já não há famílias. O Estado rompeu com elas. Destruiu-as.
É, aliás, assim que termina o filme, com Cathy a ser despejada da sua cama e, numa estação (comboio? autocarro?) onde estava a repousar com os dois filhos (o mais velho já estava à guarda da sogra), vem a polícia com os assistentes sociais retirar as crianças e deixá-la sozinha, perdida entre as suas lágrimas e todos os sonhos que tinha e que viu serem-lhes roubados.
O filme acaba. Acabei com a garrafa de vinho e tenho o cinzeiro cheio de beatas.
Estou nervoso.
Sinto que, mesmo assim, a minha vida não é tão má. Que, mesmo assim, enquanto sociedade chegamos mais longe… Mas logo depois questiono-me Chegámos mesmo? Aquilo que vi acontecer ali, nos anos ’60, alguns dos sítios onde Cathy e Reg viveram fizeram-me lembrar as fotografias dos biddonvilles que os portugueses ocuparam na emigração para França. Lixo, ratos, plástico, placas de zinco, sujidade, muita sujidade, doenças. Sim, estamos longe disso, penso. Acho.
E depois penso nas gentes que vi dormir junto aos Centros Comerciais do Martim Moniz, em Lisboa. E das gentes que vi dormir nos vãos de escada de prédios onde a porta da rua está sempre aberta. E nos degraus de algumas montras. Nas pequenas salas de algumas caixas Multibanco. Debaixo das estátuas. A dormir no Metro até serem de lá postas fora.
Tudo isto não há muito tempo.
Chegámos mesmo mais longe? Ou alguns de nós chegaram mais longe? Alguns mesmo, demasiado longe? E os outros? Os que não conseguem acompanhar? Os que não conseguem ser filhos-da-puta? Os que não são gananciosos? Competitivos? Os que não conseguem ser, nem querem ser, iguais aos outros?
Há duas frases no filme que resumem tudo o que éramos, na altura, e somos ainda hoje:

“Vocês não se importam. Só fingem importar-se.”

Tenho a casa às escuras e estou à janela da cozinha a fumar um cigarro enquanto olho as luzes brilhantes da cidade e penso que depois de toda a depressão e mal estar que o filme de Ken Loach me provocou, o que ainda anda cá por dentro a remoer é a capacidade que aquelas duas alminhas do filme, a Cathy e o Reg, que, no meio de toda a merda em que se transformou a sua vida, ainda tinham para se amar.
Foda-se! E isto é tanto.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/03]