O Verão que Passei Sentado no Banco Corrido do Café

Passei aquele Verão quase todo sentado num banco corrido encostado à parede do café. Ia para lá de manhã. E passava lá o dia. Via chegar os clientes habituais. Pessoas que precisam de uma bica para funcionar. Bebia café com eles. Fumávamos um cigarro juntos. Contavam-me coisas. Algumas sem interesse. Outras fantásticas. Umas poucas diabólicas. Eu ouvia.
Bom-dia! Bom-dia! E isto repetia-se.
Às vezes lia o Correio da Manhã. Quase todos os dias A Bola.
Às vezes levava a máquina fotográfica e fotografava as caras das pessoas que por ali passavam. Os velhos cheios de rugas e cara curtida do sol. As crianças à procura de um gelado, ou de um chupa-chupa. As mães para três dedos de conversa entre elas e saberem as novidades do dia.
Às vezes passava um turista. Alguém que se perdia a caminho da praia. Alguém a pedir uma informação. Alguém que precisava de uma garrafa de água. Geladinha.
Depois de almoço, geralmente petiscava qualquer coisa, dava-me a moleza. Dormitava por ali um pouco. Encostava-me à parede. Fechava os olhos. Um chapéu-de-sol da Olá protegia-me do sol. Depois acordava. Bebia uma imperial. Lia um bocado de um livro que se arrastava. Escrevia notas para um futuro livro. Via chegar os vespertinos.
Boa-tarde! Boa-tarde! E isto repetia-se.
Ao final da tarde começavam a chegar os homens. Vinham beber um bagaço. Uma mini. Um copo de tinto. Comiam um pastel de bacalhau. Discutiam. Discutiam muito. Sobre futebol. Diziam mal da Junta de Freguesia. Aliás, do Presidente da Junta. Maldiziam a vida. Depois diziam bem dos filhos. Das mulheres, variava. Às vezes esqueciam o tempo. Às vezes as mulheres iam lá buscá-los. Às vezes mandavam os filhos mais novos. Às vezes havia barulho. Zangas. Desconcertos entre eles. Eles, marido e mulher. Mas também eles, amigos. Vizinhos. O álcool fazia-os irritar. Falar alto. Odiarem-se ódios velhos que morriam rapidamente. Mas às vezes aqueciam as nozes dos dedos nas caras uns dos outros. Nada de muito grave.
Às vezes puxavam uma mesa cá para fora e jogavam Dominó comigo. À Bisca Lambida. À Lerpa. Ao Sete e Meio.
Sentavam-se muitas vezes lá comigo. A beber cerveja. Um vinho. A fumar um cigarro. À espera que a noite chegasse. A noite que os arrastava para casa. Às vezes iam a contra-gosto. E eu? Eu também partia com a noite.
Boa-noite! Boa-noite!
Depois, mais tarde, em Agosto, chegaram os emigrantes. Regressavam à terra. Vinham abrir as janelas das casas fechadas. Vinham arejar o bafio das casas. Vinham mostrar os carros potentes e vistosos. As roupas coloridas que não há cá. As sapatilhas de marca. Mas então? Agora a época era outra. Estava já tudo desfasado no tempo. Quem não vinha de fora ia ao Continente e tinha as mesmas coisas. As mesmas marcas. Os filhos confundiam-se já todos. Mas era bom estar ali sentado. Estar sentado e ouvir falar aquele francês, às vezes mal arranhado, mas sempre com sotaque. Como uma música velha num tijolo fanhoso. O sotaque dali. Um sotaque que eu já reconhecia.
Essa era também a época das festas. O banco estava sempre cheio de gente. Mas o meu lugar estava sempre reservado. Fotografei caras. Filmei a procissão. Escrevi estórias. Descrevi o baile. Gravei sons de conversas. De discussões. De namoros. Nesse Verão fiz uma bela recolha da vida que se cruzava ali, frente ao café.
Chegou o Outono. As pessoas foram embora. Ficaram as que ficam sempre. Passei a estar mais vezes sozinho. A apreciar mais a chegada solitária de um ou de outro. Aproveitava o pouco sol. Evitava a chuva. Enfrentava o frio.
Um dia, já perto do Natal, o café não abriu. O dono, já velhote, tinha morrido. Durante a noite. Sossegado. Em paz. O banco nunca mais voltou à rua.
Alguém comprou o café. Transformou-o em alojamento local. Anunciou-o no Airbnb. Eu deixei de lá ir. Deixei de ver pessoas. Deixei de ver a vida a acontecer por ali.
Agora não passo do alpendre de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/05]

A Vizinha da Frente à Varanda a Fumar um Cigarro

Estava cheio de frio em casa. E saí. Fui até à rua aqui em baixo. Aquecer o corpo. Desentorpecer as pernas. Limpar um pouco os olhos. Fumar um cigarro.
Estava em casa. Frente ao computador. Música no iTunes. A tentar fazer sei-lá-bem-o-quê. A tentar fazer algo que não saía. Olhava a página em branco do Word. O cursor a piscar. A irritar-me. Abri o Photoshop. Nem sei bem para quê. Não tinha fotografias novas para retocar. Acho que tentava encontrar alguma coisa para fazer. Alguma coisa para me enganar. Acabei por desligá-lo.
Levantava o olhar por cima do écran e via a janela aberta, o céu azul com nuvens, o prédio em frente, a vizinha do prédio em frente na varanda a fumar um cigarro… Depois, chuva. Choveu um pouco. Vinha forte. Mas parou logo. A vizinha continuava na varanda a fumar o cigarro.
Fui ler os títulos das notícias online. A Bola. Record. Público. Expresso. Observador. New York Times. The Guardian. The Huffington Post. El Pais. Revista Piauí. Tudo para não fazer nada. Não fazer nada porque não sabia o que fazer. Inteirar-me das novidades. Irritar-me ainda mais. Um chato de merda, aquele poeta de voz grossa e ar arrogante.
Só ler as gordas das notícias despacha-se tudo mais rapidamente. E a irritação acabava também por ter prazo mais curto.
Arrefeci.
Fui até à rua.
Acendi um cigarro. Caminhei ao longo do passeio. Chegou-me o cheiro das castanhas assadas. A pastelaria da rua já tinha Bolo-Rei na montra. Não gosto de Bolo-Rei. Às vezes como Bolo-Rainha. E às vezes também Bolo-Escangalhado. É conforme. Se me dão, eu como. Até o Bolo-Rei. Não gosto mas, quando me é oferecido, marcha tudo. Não sou esquisito nem mal-agradecido. Frutas cristalizadas. Fava. Brinde. Marcha tudo.
Já há algumas luzes coloridas nas montras das lojas.
Já há luzes penduradas pela cidade, mas ainda não estão a funcionar.
E, graças a Deus, ainda não há musiquinhas de Natal a fluir pela cidade. Mas elas hão-de chegar aí, mais-dia-menos-dia.
No jardim descubro uma rulote de farturas. Não são do Penim, mas vão servir para o jantar. Compro duas. Antecipo azia. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan.
Regresso a casa.
Largo as farturas e o Kompensan na mesa da cozinha.
Sento-me frente ao computador. O Word continua em branco. A minha vizinha continua na varanda a fumar.
Eu esqueci-me de comprar cigarros e já não tenho nenhum. Se calhar tenho de ir pedir à vizinha. Olha, ela está a olhar para aqui. Será que me vê?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/21]

Um Gajo Escangalhado

Sou um gajo escangalhado. Tiro fotografias imaginárias às minhas mazelas. Não se vêm, mas estão cá.
Aparentemente estou saudável. Escapo às constipações do Inverno. Sobrevivo aos meus ataques de bronquite, mesmo na ausência do Ventilan. À falta de laranjas, vou tomando Cecrisina quando tenho dinheiro. Lavo os dentes três vezes por dia. Por enquanto ainda com pasta dentífrica. Mesmo quando não como, o que tem acontecido ultimamente. Não tenho fome. Agora de Inverno deixei de tomar banho diariamente porque tenho frio. E poupo na água, no gás, no champô, no sabonete. A minha perna bamba está mais forte. Deixou de doer. Já não coxeio. Já não uso a bengala. Ainda tenho bastante cabelo, mesmo que com grande entradas nas frontes. Herança do meu pai. Fisicamente não me posso queixar. Sou um sujeito relativamente saudável. Acho.
O meu problema é outro.
Tenho a cabeça em permanente revolução. E já não vai lá com químicos. Não com todos estes que tenho tomado. O único resultado são as horas que passo sentado na retrete a tentar fazer algo que não consigo. Também não tenho nada para conseguir. Às vezes saio de lá com as pernas dormentes. Já cheguei a cair quando uma perna se recusou a mexer-se e eu nem a senti recusar. Estou baralhado. Quebrado.
Hoje estava no café. Insisto em sair de casa. Forço-me a isso. Às vezes tento não estar vencido. Fui beber um chá e tentar ler A Bola. Ao lado, uma miúda contava a outra como o namorado lhe dava uns estalos. Não é bem bater-me, dizia, É acordar-me, que eu às vezes não percebo bem as coisas. Eu tive vontade de lhe dizer que ele é que a estava a adormecer e que era um canalha e que o melhor era ela parar as coisas logo ali, matar o erro à nascença, mas não fui capaz. Tenho dificuldade em falar com estranhos. E toda a gente me é estranha. Mesmo quem eu já conheço. Tudo me é estranho. Vejo-lhes as bocas a abrir e fechar e só vejo as cáries e os dentes chumbados e podres. Tudo é doença. E morte. O som das vozes desaparece em fade sob o som ambiente que aumenta muito, tanto que me ensurdece. Não consegui dizer nada à miúda e desatei a chorar. Nem sei porquê. Saí do café. Choquei com um tipo à entrada e mandei-lhe dois murros violentos. Deixei-o estendido no chão. E fui embora. Não senti remorso. Senti-me mais leve. Voltei para casa. É onde me sinto melhor. Mais seguro. Mas atento.
Tento pegar num livro e não consigo passar da primeira página. As letras baralham-se. As palavras fogem. Perco-me nos sentidos. Canso-me. Os olhos ardem. Vomito.
Ando obcecado com a dor. A dor da alma. Leio nas notícias os males do mundo e perco as forças. O meu corpo não se sustenta. Dobra-se. Cai. Enfio-me debaixo dos cobertores e deixo-me lá ficar dias inteiros. Às vezes toca a campainha. Às vezes toca o telemóvel. Às vezes acusa mensagens. Às vezes chegam, sonoramente, e-mails. Às vezes há gente a tentar contactar comigo. E eu fujo. Tenho medo das pessoas. Tenho medo de mim. Não quero ver ninguém.
Deixei de escrever. Não tenho nada para contar a ninguém. Não tenho ninguém a quem queira contar alguma coisa.
Não tenho sentido. Não há sentido. Vejo as pessoas correr e pergunto-me Para onde vão? Para quê?
Deixei de perceber o Natal. A Páscoa. O Carnaval. E todas as outras celebrações. Celebrações de quê? De estarmos vivos? E estamos vivos para quê?
Sinto-me numa queda existencial adolescente. Não vejo sentido em nada. Não vejo sentido em mim. Quero fugir de casa dos meus pais. Mas já não vivo com eles.
O mundo todo parece algo que está cada vez mais distante. Os sons tendem a afastar-se, como quando estamos com sono. As imagens tornam-se difusas, como se estivesse a ficar com a visão embaciada. Os pensamentos sobrepõem-se uns aos outros numa amálgama caótica e não entendo nada de nada.
Acendo um cigarro e pergunto-me porque é que fumo. E dou conta que é a única coisa com sabor na minha vida. Gosto de fumar. Gosto de ver o fumo subir pelas luzes dos candeeiros e acumular-se no tecto da cozinha. Gosto de sentir o fumo dos cigarros encher-me os pulmões e dificultar-me a respiração. É a única altura em que me sinto vivo. Mas nunca sei se quero continuar vivo ou de pulmões cheios.
É possível que com vontade e alguma ajuda eu tivesse alguma espécie de arranjo. Mas acho que não quero. Perdi os pais. Perdi os filhos. Perdi as vontades. Perdi os sentidos.
Agarrei nos livros e mandei-os pela janela. Vi-os voar. Vi as folhas soltarem-se, rasgarem-se. Vi as estórias fugirem pelo mundo. O cigarro na mão. A queimar-me os dedos. Os dedos a ficarem amarelos. E depois começo a chorar a perda de todas aquelas estórias. Porque é que mandei os livros embora? Eu quero e não quero. Não sei mais nada. Sinto-me escangalhado. Mas acho que já não quero ser arranjado.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/02]

Uma Praia Deserta

É Domingo. Dia de tédio. Dia de neura. Está calor. Visto os calções, pego na toalha, n’A Bola e saio de casa.
Vou de carro até à praia onde costumo ir.
Arrependo-me depressa.
Ainda não vejo o mar e já há carros parados pelas bermas. Sigo em frente à espera da sorte. Mas não aparece. Não há um buraco à minha espera. Continuo em direcção às outras praias que se seguem.
Está tudo igual. Tudo cheio de gente. Cheio de carros.
Continuo estrada fora. Vou na marginal, junto a um penhasco. Olho para o mar. Está convidativo. Mas há muitos barcos, gaivotas, botes, colchões de ar e gente, gente, gente.
De repente, uma buzina soa histérica ao meu ouvido, recupero o olhar para a frente e vejo um carro quase em cima de mim e só tenho tempo de desviar o volante para a direita e entrar pela berma mesmo sobre o mar. Travão a fundo. O carro bloqueia. Levanto uma nuvem de pó. Ouço ainda a buzina do outro carro a gritar enquanto se afasta. Estou a transpirar. O coração bate muito e muito depressa. O carro está suspenso sobre o penhasco. Foi por pouco.
Meto a primeira e volto à estrada. Sigo por ela fora e começo a descer. Vou devagar. É bastante íngreme.
Chego a uma pequena enseada. Vazia. Linda e vazia.
Páro o carro. Saio. Olho à minha volta. Ninguém.
Ao fundo, ao fundo da praia deserta, o barulho das pequenas ondas do mar a arrastarem-se na areia. Esqueço a toalha e A Bola e vou por ali fora. Largo os chinelos. Tiro a camisa. Começo a correr. Chego à água e mergulho. Mergulho na água tépida do mar e, com o impulso do mergulho, vou por ali fora, debaixo de água, por momentos. Depois subo. A cabeça fora da água. Abro os olhos e vejo o horizonte a perder de vista. Viro-me de costas e descubro a praia, a mesma praia de onde mergulhei, cheia de gente, muita gente, uma quantidade de gente inacreditável, quase que parecem todas as pessoas do mundo.
Nado até à praia e vejo alguém a caminhar na minha direcção. Mãe. Vem ali a minha mãe. E o meu pai. O Zé Pedro. O Bowie. A minha primeira namorada. O meu tio. Os meus avós. Os quatro. A Marilyn também está ali. E o Bogart. O JFK. O Orson Welles. O Ian Curtis. O Philip Roth, foda-se!
Onde é que estou?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/22]

Enquanto o Sangue Fluía

Entrei na loja e ouvi-o.
É daquelas vozes a que não se consegue fugir. Monocórdica. Persistente.
Eu entrei na loja por engano. Julgava que era um quiosque de jornais, onde esperava encontrar A Bola do dia, mas afinal era uma daquelas lojas de bric-à-brac onde se vendem produtos de ocasião, aquelas coisas que ninguém procura mas que, quando se encontra Oh, tão fofinho!, pensa-se como foi possível viver toda a vida sem.
Aquela voz estava a tentar vender um produto de revenda. Falava das qualidades, do fantástico que era, mas a voz não transmitia nada disso. Não transmitia emoção. Desejo. Vontade. Era uma gravação aprendida numa aula de formatação.
E pensei Como se pode vender algo em que não se acredita?
A voz sabia tudo sobre o produto em questão. A voz respondia a todas as dúvidas lançadas sobre o produto em questão. Mas a voz não queria vender aquele produto. Queria só vender. Porque era esse o seu trabalho. Não a vocação.
Depois de ter dado um giro à loja e, finalmente, ter percebido que não havia ali jornais, acabei por sair.
Cá fora encontrei-a à minha espera, encostada a um corrimão, à sombra, debaixo de uma árvore, a tentar fugir do sol quente.
Deu-me um beijo.
Trinquei-lhe o lábio enquanto nos beijávamos.
Senti o cheiro do sangue que lhe escorria, numa pequena gota, pelo queixo abaixo. E lambi-o. Lambi o sangue. Excitou-me.
Abracei-a e fomos, abraçados, à procura d’A Bola.
Pelo canto do olho vi-a a lamber-se a si própria. Não desperdiçava uma gota de sangue. Mesmo que fosse o dela.
Aproximava-se o meio-dia e era melhor regressarmos a casa. Tinha de encontrar A Bola rápido. Enquanto o sangue fluía.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/19]

Ir à Bola com o Meu Pai

Era miúdo e ia ao futebol com o meu pai.
Pegava na bandeira, com ripa de madeira que ninguém proibia de entrar no Estádio que ainda era Campo da Bola, numa almofada para sentar o rabo suavemente nas bancadas de cimento, passávamos na senhora dos tremoços e comprávamos um saquinho de tremoços e outro de pevides e, em dias de festa, uma fiada de pinhões que eram caras como o raio.
Antes de entrar no Estádio passávamos no Lagoa. O meu pai bebia um copo de três ou uma mini e eu bebia uma Superfresco de laranja ou um Canada Dry. Isto foi antes das imperiais e do bagaço. Agora já ninguém me deixa ir com o bagaço para a bola.
Lembro-me de uma época no Estádio da Luz, em jogos da UEFA, jogos que eram à noite mas em que entrávamos no Estádio a meio da tarde, armados de Tupperwares com rissóis e croquetes e pastéis de bacalhau e torresmos que depois embebíamos em cerveja adquirida nas bancadas que havia sempre gente a vender as coisas necessárias à nossa satisfação.
Nessa altura não havia claques de futebol. Os adeptos eram toda uma claque que incentivava os jogadores, chamava ladrão ao árbitro e cabrão ao jogador adversário.
Havia sítios onde as coisas eram mais perigosas. Acompanhar a União de Leiria aos Marrazes, à Marinha Grande, à Nazaré ou à Vieira de Leiria poderia ser perigoso. Especialmente se fôssemos uns adeptos daqueles que nunca se calam. E éramos. As Caldas também era grande rival mas nunca rivalizou grande coisa.
Nessa altura A Bola saía três vezes por semana, havia dois canais de televisão e só um tinha um programa sobre bola e o indicativo do Domingo Desportivo era o Blue Monday dos New Order.
Era normal encontrar nas imediações dos Estádios vários carros onde as senhoras esperavam os seus maridos fazendo renda ou tricot.
Tudo mudou com a chegada da morte.
Com a chegada da morte do meu pai, deixei de ter companhia para os jogos e deixei de ir com tanta frequência. Com a morte de um adepto no Estádio e depois a ascensão das claques de futebol, deixei mesmo de ir.
O futebol é somente a porra de um jogo. Gosto de me empolgar, mas é só um jogo. Não quero que a minha vida seja posta em causa por causa de um jogo. Gosto de me sentir livre.
Continuo a gostar de futebol, mas o futebol para mim é já um jogo de televisão. Um jogo de televisão e em casa. Em casa posso comer e beber o que quiser. Em casa posso ter bandeiras com paus, ripas ou o que for. Em casa posso ver o jogo nu. Em casa posso desligar a televisão quando as coisas não correm de feição. Em casa posso mandar toda a gente para o caralho que ninguém se sente ofendido. Em casa mando eu. Em casa mando eu quando a minha mulher me deixa mandar.
Mas tenho saudades. Saudades de ir livre a um Estádio ver um jogo de futebol.
Acho que é isto a velhice. A saudade de um tempo que já não é.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/11]

Choro-lhe a Ausência

Não sei que voltas ele deu que se enrolou na própria trela e acabou por se enforcar.
Já passou uma semana. Já consigo falar disto. Mas custou-me. Custou-me muito ultrapassar a sua ausência e a forma como foi.
Eu sei que ele não estava habituado a estar preso. Mas tive de o fazer. As coisas não podiam continuar daquela maneira. Estava a dar em doido. Já não aguentava o gajo da quinta e as suas queixas.
Prendi-o enquanto colocava uma rede à volta do quintal para ele não ir lá para fora. Mas ele não aguentou. Não aguentou estar preso ou não aguentou a falta de liberdade. Acho que ficou zangado comigo. Eu, que era o seu melhor amigo.
Conhecemo-nos há sete anos.
Ele apareceu por aqui. Devia de andar perdido. Não tinha coleira, mas estava bem tratado. O pêlo lustroso. Forte mas não gordo. Sentimo-nos logo atraídos um pelo outro.
Ele apareceu aí, subiu o pequeno caminho do quintal até ao alpendre e veio ter comigo.
Eu estava lá sentado a beber um copo de vinho e a fumar um cigarro enquanto lia A Bola. Ele subiu até ao alpendre e parou a olhar para mim. Eu olhei para ele. Estudámo-nos. Percebi que ele tinha sede. E fome.
Fui à cozinha buscar uma tigela de água. E trouxe-lhe um tacho com um resto arroz, a única coisa para comer, já feita, que tinha cá em casa. Ele bebeu e comeu. E depois foi deitar-se ao pé de mim. Colocou o focinho em cima do meu pé. E ali ficou. E foi ficando. Nunca apareceu ninguém à procura dele e acabou por ficar por cá.
Ele não era puro. Mas era uma mistura bem interessante. Parecido com um labrador. Era muito meigo e intuitivo. Íamos juntos para todo o lado. Portava-se bem. Era intrépido. Lançava-se alegremente às ondas do mar, mesmo nas marés vivas. Eu assustava-me mais que ele. A única coisa que o irritava eram as namoradas que eu trazia cá para casa. Nunca gostou de nenhuma. Devia achar que eu era dele, que a casa era nossa e tudo o resto eram intrusos. Não sei, mas era o que parecia. Nunca mordeu ninguém. Mas arreganhou os dentes algumas vezes.
Tudo mudou há cerca de 2 meses.
Não sei o que se terá passado. Começou a sair de casa e do quintal de madrugada e, quando voltava, às vezes vinha com sangue na boca.
Um dia descobri que as ovelhas da quinta ali em baixo andavam a ser mortas. Não demorou muito até que o tipo da quinta viesse cá acusá-lo. Prometi que não se repetiria. Não consegui cumprir a promessa.
Há cerca de quinze dias resolvi vedar o quintal para ele não sair daqui e deixar as ovelhas do homem em paz. O homem chegou a vir aqui com uma pressão-de-ar. Tive de o ameaçar com um podão com que estava a cortar uns ramos. Foi aí que resolvi vedar o quintal. Isto era suficientemente grande para ele dar aso às suas necessidades de liberdade.
Prendi-o com uma trela enquanto acabava de concluir a vedação para não ir mais às ovelhas do homem. Mas ele não aguentou estar ali preso. Uma casota e dois metros de autonomia. Não era o suficiente.
Um dia levantei-me e ele estava enrolado na trela.
Não sei o que se terá passado.
Tenho saudades. Era uma companhia. Um amigo.
Choro-lhe a ausência.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/30]

Acordado às Cinco da Manhã

Está a tornar-se um hábito.
Um dia destes deixo os contos pós-jantar e passo a escrevê-los antes do pequeno-almoço.
São cinco e trinta da manhã. Estou às voltas na cama desde as cinco, se bem me lembro, para ver se voltava a pegar no sono. Não funcionou.
Tudo começou ontem à noite.
Eu sou das pessoas que mais tarde se deitava e mais cedo se levantava – sempre achei ser da família do Presidente. Lia livros, via filmes, séries, discutia, às vezes comigo mesmo, lia A Bola de há três dias… Mas ultimamente umas alterações químicas no meu corpo têm-me obrigado a adormecer mais cedo que o normal. Isto quando não é mesmo durante o dia.
Ontem à noite estava a assistir ao Governo Sombra quando ouvi uma vozinha lá muito ao fundo dizer-me Vai deitar-te! e lembro-me de responder Estou a ver o Governo do Rui Rio. Lembro-me de ouvir uma gargalhada geral lá muito ao fundo, outra vez, mas já não tenho a certeza disso, porque acho que já perdi as certezas de tudo desde que passei a despertar às cinco da manhã.
Às vezes penso que ainda estou a sonhar.
Mais tarde reparo que está tudo escrito no Facebook. Não sei quem o faz. Posso não ser eu. O algoritmo é capaz de tudo. E o Elon Musk também.
Voltei a ter vontade de me levantar, vestir o fato-de-treino (sim, também tenho um, não lhe dou muito uso, é verdade, mas também tenho um), e ir outra vez, a correr, até ao InterMarché só para comprar um pão de Rio Maior já fatiado e depois comê-lo todo barradinho de Milhafre ou Primor.
Mas faltou-me coragem. Mais uma vez.
No entanto, e como acabei por me levantar para ir à casa-de-banho, agora que já estava acordado, não é?, acabei por sentir o cheiro do resto do bolo de chocolate que estava cá por casa.
Não fui ao InterMarché comprar o pão de Rio Maior, mas acabei a devorar o resto do bolo de chocolate.
E eu nem gosto de chocolate. A sério.
E o resto nem era assim um pequeno restinho. Também a sério.
E a casa, que não é minha, é uma boa casa que me trata com bolinhos de chocolate (de que eu nem gosto) às cinco da manhã. Obrigado, casa.
Bom, agora já são seis horas.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/14]

O Domingo É uma Neura

O Domingo é dia de gastar tempo com o tempo.
Ao Domingo não se pode pedir demasiadas coisas. Não se pode esperar milagres.
Ao Domingo não devia sair de casa. Eu sabia-o e, no entanto, continuo sempre a acreditar que dias-não-são-dias e os milagres esperam-me ao virar de uma esquina.
Levantei-me de manhã cedo, completamente desperto. Abri os olhos e não consegui voltar a fechá-los. Tomei banho. Estava sol. Vesti uma roupa leve e calcei umas sapatilhas. E fui à rua beber café.
Ia a meio da rua quando começou a chover. A chover com força. Bátegas grossas. Daquelas que nos batem na cabeça e magoam. Cheguei ao café todo encharcado e com as sapatilhas ensopadas.
O dono do café virou-me uns olhos mal dispostos quando me viu entrar café dentro a largar poças de água.
Pedi um café. Olhei a vitrina e escolhi um rissol. O café estava queimado. Amargava, mesmo com um pacote inteiro de açúcar. O rissol estava seco. A massa rija com o panado a desfazer-se. Um desconsolo.
Procurei por um jornal do dia. Não havia nada. Nem A Bola. Andava pelas mesas uma Nova Gente, mas já havia fila para a consultar.
Voltei para casa.
Comecei a lavar louça à mão, quando fiquei sem água. Não teria sido por falta de pagamento, que tinha as facturas em dia. Tentei telefonar para o SMAS. Interrompido.
Fui à casa-de-banho. Entrei e parei. Que é que estou aqui a fazer? Não posso lavar os dentes. Nem as mãos. Olhei para o cesto de roupa suja e disse E também não te posso lavar.
Voltei para a sala e sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Não havia imagem. Só estática como era dantes, quando a antena retransmissora de Monsanto estava com problemas técnicos. Liguei para a NOS. Música. Voltei a ligar para o SMAS. Interrompido.
Não quis desanimar. Olhei para o céu e parecia tranquilo. Pelo sim, pelo não, calcei botas gortex, vesti anoraque e peguei no chapéu de chuva. Arranquei para o Estádio Municipal Magalhães Pessoa para ver o jogo da União de Leiria.
O tempo estava quente e, com o trajecto, fiquei ainda com mais calor. Transpirei.
Cheguei ao Estádio e não se passava nada. Estava fechado. Não havia ninguém à vista. Só uns autocarros parados lá no meio. Devia ter percebido mal, a União devia jogar fora ou já não jogava mesmo no Estádio Municipal. Não sabia em que estado as coisas estavam. Que porra.
Voltei para casa. De botas, anoraque, chapéu de chuva na mão e a transpirar.
Cheguei a casa. Larguei o chapéu no corredor. Despi o casaco e tirei as botas. Estava cansado e cheio de sede. Abri o frigorífico e agarrei num pacote de leite. Levei-o à boca, comecei a beber e, imediatamente, cuspi tudo para a frente. Estava azedo.
Acabei a encomendar uma pizza. De enchovas, alcaparras e alcachofras. Enquanto esperei, sentei-me no sofá. Uma hora mais tarde ainda não tinha chegado. Meia-hora mais tarde lá acabou por chegar, fria, de bacon e ananás. Disse que aquele não era o meu pedido e que tinha demorado mais que meia-hora e então não tinha de pagar. O entregador de pizzas disse Isso é só nos filmes. Paguei. Não consegui comer.
Despi-me e fui deitar-me na cama. Enfiei-me debaixo dos cobertores. Depois comecei a pensar se tinha fechado, ou não, as torneiras para o caso da água voltar. Levantei-me, nu, e corri a casa a garantir as torneiras fechadas. Voltei a telefonar para o SMAS. Lá consegui. Segui um corredor apertado de números a discar e acabei por ir dar a uma mensagem gravada. Rebentara um conduta e os técnicos não esperavam ter o assunto resolvido antes do dia seguinte à tarde. Segunda-feira, dia de trabalho, portanto.
Olhei para a televisão, mas não quis saber. Sentia-me cansado. Cansado e desanimado. Fui tomar um xanax para acalmar e conseguir descansar um pouco. Talvez até dormir.
Enganei-me e acabei a tomar uma anfetamina que alguém deixara cá por casa. Em vez de me ir deitar, acabei por vestir o fato-de-treino e ir para a rua fazer parkour. Sim, nem sei o que é isso. Não sei correr nem dar saltos nem pular na medida do que é necessário para ultrapassar os obstáculos. Acabei por cair de um segundo andar para cima de um roseiral. Fiquei deitado no chão sem conseguir levantar-me, picado pelos espinhos das rosas, rodeado de gente que me conhecia e me fez sentir vergonha ao ser levado numa maca pelos paramédicos para o hospital distrital.
A única coisa boa nisto tudo, é que é quase meia-noite e, não tarda, é Segunda-feira e acaba-se a desgraça do Domingo.
Só que, entretanto a ambulância teve um acidente e eu estou aqui, de pernas para o ar, dentro da ambulância, à espera que alguém me venha ajudar. O paramédico que estava aqui atrás comigo, acho que morreu. Ainda é Domingo. Espero que não por muito mais tempo.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/18]

Matilde na Praia

Ela não me dava um segundo de descanso.
Eu bem tentava passar pelas brasas, de cabeça enfiada na toalha, com A Bola dobrada, e ainda por ler ali ao lado, debaixo do sol abrasador, a torrar, a trabalhar para o bronze, mas ela não me deixava em paz.
Os pés cheios de areia passeavam-se pelas minhas costas. Até que gostava. Soavam a uma massagem radical. Leve, suave, mas picante. Os pés arrastavam a areia como se fosse lixa. Unhas que se passeavam por mim. Mas unhas ou lixa fofinhas. Que produziam mais cócegas que dor.
Virei-me sobre mim e ela tombou na minha barriga. Ninguém se magoou. A barriga era grande o suficiente para lhe aparar a queda e, a mim, para me proteger do tombo.
Da barriga rebolou para a areia e caiu de cara com as pernas no ar. Quando se levantou estava com cara cheia de areia. Mulher-Areia, disse-lhe. És uma super-vilã cheia de super-poderes maléficos para me super-chateares.
Ela começou por chorar, ao sentir a boca cheia de areia e ao não conseguir abrir os olhos. Mas depois de me ouvir falar desatou a rir. Peguei nela e sacudi-lhe a areia da cara. Limpei-lhe a boca e os olhos e ela olhou para mim a sorrir.
Depois disse-lhe Vamos ao mar dar um mergulho e tirar o resto da areia, e levantei-me.
Estendi-lhe a mão e ela agarrou-me o dedo indicador. E lá fomos os dois, praia fora, a descer até ao mar.
À beira do mar agarrei-a ao colo e entrei com ela dentro de água. Fomo-nos molhando com cuidado. Mas ela era aventureira, apaixonada pelo mar, e pulava no meu colo, com vontade que a largasse. Dei um impulso para cima e deixei-me afundar com ela ao colo. Quando me levantei ela começou a tossir. Tinha engolido um bocado de água. Começou a fazer beicinho mas não chorou. Recomeçou aos pulos. Eu agarrei-a pelos braços e fui baixando-a à água e fazendo-a subir. À velocidade da luz. Acompanhando os risos e as gargalhadas que dava. Fazia-a voar sobre as ondas. Pu-la num carrossel. Brincamos um bocado por ali. Depois fiquei cansado. Ela queria mais, mas eu fiquei cansado. E saímos do mar.
Sentámo-nos à beira-mar. As ondas rebentavam à nossa frente e ainda vinham lamber-nos o rabo sentado na areia. Íamos ficando com areia nos calções. Cada vez com mais areia nos calções. Mas que importava? Estávamos os dois à beira-mar, debaixo de um belo e quente sol, a ver passar as pessoas que iam mergulhar e voltavam cheias de frio. A vida era simples. Simples e bela.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/23]