O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

À Queima-Roupa

Hoje assisti a uma coisa. A um coisa a que queria não ter assistido.
Vivo na baixa da cidade. Mesmo no centro. No que já foi o coração da cidade e agora não passa de um cancro. Um cancro a espalhar as suas metástases.
As traseiras de minha casa dão para uma rua onde reina a marginalidade. É uma espécie de inferno onde a polícia prefere não ir.
As lojas fecharam. Os escritórios mudaram-se. Os bancos e os cafés escolheram zonas mais modernas. Os velhos foram postos a andar das suas casas na esperança de uma recuperação da zona. Condomínios. Alojamento local. Um hotel. Restaurantes. Mas a crise passou uma rasteira aos investidores. A rua ficou como estava. Sem vida, degradou-se. E acabou entregue à bicharada.
Primeiro foram os ratos a ocupar as casas vazias. A alimentarem-se do lixo. Chegaram os gatos vadios. Os cães de rua. Depois chegou a droga para alimentar as veias da cidade. Em seguida veio a prostituição para pagar a droga. Não foi um processo rápido. Não. Mas foi um processo implacável.
Da janela cá de cima vejo as miúdas, cada vez mais novas, encostadas à entrada dos prédios vazios. Sentadas nos degraus das escadas sujas. Entregues à economia dentro de carcaças vazias de antigos carros que a autarquia não retira da via pública.
Já assisti a umas quantas overdoses. Quezílias. Zangas. Roubos. Violência. Violações. Femininas e masculinas que isto de levar no cu não escolhe género. Às vezes chegam-me alguns gritos aqui a casa. O que é que posso fazer para além de ficar mal-disposto?
Já vi lá passar carros de polícia. Mas só passam. Passam de vagar. Olham. Não saem do carro. Alguns dedos erguem-se para eles. Umas risadas. E é tudo.
As poucas vezes que lá fui, e já lá fui comprar cavalo, já lá fui à procura de sexo numa altura mais complicada da minha vida, já lá fui procurar alguém que podia estar por lá (não estava, mas também não sei por onde anda que nunca mais a encontrei, e portanto até pode estar por lá, metida nalgum muquifo), fui de botas. Aquele chão é perigoso. Aquele chão é uma armadilha. Preservativos usados, lenços de papel sujos, agulhas, seringas partidas, sangue… Aquela rua é uma lixeira a céu aberto. Aquelas pessoas vivem abaixo de humano. Aquelas pessoas que lá vivem já não são pessoas.
Mas hoje assisti a uma coisa.
Estava à janela da cozinha a fumar um cigarro. E olhava para a rua. Os movimentos. Os carros que passavam. Mas não estava realmente a ver nada. Estava só a olhar para lá para não ter que olhar para as minhas paredes vazias. Num apartamento vazio. Numa vida, também ela, vazia.
Estava a olhar para lá, de cigarro na mão, quando vejo um homem abrir a porta de um carro lá parado e disparar dois tiros. Dois tiros à queima-roupa. Até dei um salto. Pam-Pam. Assim. Um som seco. Pam-Pam. Silêncio. Depois um grito de mulher. De rapariga. Uma miúda saiu do outro lado do carro e correu para o homem que esticou o braço para ela, na mão uma pistola, e voltou a disparar. Dei outro salto. Pam-Pam. Foi o que se ouviu. Pam-Pam. O som seco dos tiros de pistola disparados à queima-roupa. Pam-Pam. Assim. Económico. E simples. Pam-Pam.
Perdi o cigarro que tinha na mão. Caiu não sei para onde.
O homem prendeu a pistola no cinto. Nas costas. Debaixo do casaco. E foi embora. A andar. A andar devagar. Como se não fosse nada com ele. Nem foi ver a rapariga. Nem quem deixou no carro. Ninguém. Nada. O vazio e a indiferença.
Eu peguei no telemóvel. Escondi a minha identificação. Liguei o 112 e avisei.
Começaram a aparecer pessoas. À volta da miúda. À volta do carro. Começou a haver algum choro. Gritos.
Eu devia lá ter ido. Mas fazer o quê? Não era nada comigo. Avisei a polícia.
Não quero chatices.
Estou a pensar mudar de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/22]

É isto Dois Mil e Dezanove?

Acordo com dor de cabeça e a boca empastelada. Tenho algo colado à volta da boca. E sobre o queixo. No peito. Percebo que vomitei durante a noite. Estou todo vomitado. A cama também. Há vomitado pelos lençóis, pelo edredão, pelas almofadas. Pelo chão.
Coço a cara. A barba. As unhas arrancam qualquer coisa que não percebo bem o que é. Mas parece nojento. Massajo a pila. Tenho de urinar. Coço o pé. Mas não o sinto. Não sinto o meu pé a ser coçado. Assusto-me! Levanto-me! Levanto-me rápido demais e tenho uma vertigem. Dou um tempo. Para serenar. Olho para o pé na minha mão e descubro que não é o meu. Afasto o edredão e descubro um corpo nu deitado na cama. É de uma rapariga. Não a reconheço.
Levanto-me nu da cama. Bocejo. Coço os tomates. Tenho uma pequena erecção matinal. É tesão de mijo. Procuro os chinelos mas não os encontro. Vou descalço casa fora.
Entro na casa-de-banho. Começo a urinar e olho para a banheira. Está uma outra rapariga, nua, deitada na banheira. Acabo de urinar. Sacudo-me. Vejo os últimos pingos serem projectados pela parede da casa-de-banho. E sobre mim. Aproximo-me da banheira. Olho para a rapariga. Não se mexe. Não vejo o peito a subir e descer ao ritmo da respiração. Ponho dois dedos no pescoço. Não encontro batidas. Não encontro ritmo. Acho que não está a respirar. Mas posso ser eu. Posso estar ainda a dormir.
Vou ao lavatório. Abro a torneira. Lavo a cara. Agarro na toalha e limpo a cara. O peito. A pila. E mando a toalha para o chão.
Saio da casa-de-banho. Faço café. Bebo um copo de água da torneira. Vejo garrafas caídas no chão da cozinha. Deve ter havido festa cá em casa. Há uma garrafa de espumante quase cheia. Levo o gargalo à boca e bebo um gole. Cuspo logo de seguida. É doce. Muito doce. E está quente. Acendo um cigarro. Vou à varanda fumar o cigarro. A vizinha de frente também está a fumar um cigarro à janela. Aceno-lhe um Bom-dia, vizinha! com a cabeça. Ela ri. Percebo que estou nu. Que se lixe!
A cafeteira apita. O café está feito. Mando o cigarro para a rua e entro em casa. Sirvo-me de uma caneca. Duas colheres de açúcar. Vejo o vapor quente do café a voar. Sopro. Encosto os lábios a medo. Está muito quente. Eu começo a estar com frio.
Penso Tenho de ir vestir uma camisola. Umas calças.
Penso É isto dois mil e dezanove?
Penso Tenho uma rapariga nua na cama. E sorrio.
Lembro-me da rapariga na banheira. Procuro o telemóvel. Marco o 112.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/01]

Um Gin Tónico ao Fim da Tarde

Estávamos no alpendre a beber um gin tónico. Eu e ela. O calor apertava bastante, mesmo naquele fim-de-dia, e bem próximo do litoral. Sentados no alpendre, eu de calções, ela de vestido leve e fresco, cada um com um gin gelado nas mãos e que rapidamente despejámos, ouvíamos o silêncio que se estendia à nossa frente.
Foi necessário fazer outro. Ela foi fazer. Lembrei-a para espremer bastante limão.
Eu levantei-me para ir colocar música no tijolo que estava colocado em cima de um pequeno aparador frente à janela da cozinha. Ainda não tinha carregado no Play e já tinha decidido não o fazer. Estava-se bem assim, com o barulho da vida à nossa volta.
Voltei para a mesa. Apurei o ouvido. As cigarras. E havia ali algo diferente. Talvez um grilo, não sabia.
Olhei para o céu. Estava azul, mas um azul cinzento. O céu não estava nítido. Havia uma pequena película de neblina. Talvez as poeiras que vinham de África. Talvez.
Ela chegou com o gin. Sentou-se na mesa.
Sorri-lhe. Respondeu também com um sorriso.
Ao fundo, na aldeia, alguém batia com uma martelo. Dei uma pequena gargalhada a pensar no idiota que estava a martelar com aquele calor.
Depois pensei que seria necessidade. E senti-me eu o idiota.
Ao fundo do quintal, vimos passar um carro de instrução. Vinha devagar. Quase que nem o ouvimos chegar. Devia ser eléctrico. A meio da estrada, frente ao muro do quintal, percebemos o carro a deslizar e a desaparecer. Muito lentamente. A escorregar para baixo do muro.
Levantámos-nos.
Conseguimos ver o carro caído no terreno do outro lado da estrada que era mais baixo. E não só deslizou como também rebolou. Tinha capotado. Duas pessoas saíam de gatas de dentro do carro.
Eu pequei no telemóvel e chamei o 112.
Ela sentou-se, de sorriso na cara, e recomeçou a beber o gin.
Eu sentei-me e fiz-lhe companhia.
Ela ainda sugeriu Podemos ligar a mangueira e tomar um banho aqui, no alpendre. Está bem, respondi-lhe.
Enquanto ela agarrava na mangueira e ligava a torneira, eu tirei os calções e deixei que me molhasse, enquanto espreitava o carro da instrução e as pessoas à volta dele. E ainda sorri outra vez.

[escrito directamente no facebook em ]

Os Irmãos Metralha

Ela estava parada no meio da rua, de costas, com a mala pendurada no braço e as pernas afastadas, e estava a puxar as cuecas para o lado, através dos collants. Depois virou-se para mim e vi que ela era ele, e não estava habituado a usar fio dental.
Começou a andar, desengonçado, de pernas abertas e de difícil equilíbrio naqueles saltos e passou por mim. Exalava um odor a transpiração. A maquilhagem estava borrada e caía-lhe cara abaixo.
Eu estava encostado ao muro a fumar um cigarro e por ali fiquei. Vi-o passar ao pé de mim, senti-lhe o cheiro ácido de fim de festa, e fiquei a vê-lo desaparecer lá ao fundo da rua, na esquina com a perpendicular.
Era Carnaval. Felizmente já não era como noutros tempos. Pelo menos aqui. Os foliões fugiram todos para outras latitudes para dar aso aos seus desejos mais inconfessáveis e libertaram-nos a cidade.
Ainda havia uma ou outra criança. Mas eram residuais.
Tenho ficado exilado em casa nestes dias. Hoje arrisquei sair. E a verdade é que já não há quase ninguém mascarado por aqui. Pelo menos durante o dia. Esta matrafona foi um caso isolado.
Enquanto pensava nisto e fumava o cigarro, ouvi o chiar dos travões de um carro, que deslizou e foi bater, com estrondo, num táxi que estava parado no semáforo vermelho, na estrada à minha frente.
O táxi abalroado deu um solavanco para a frente e parou. O taxista saiu do carro e dirigiu-se a gesticular para o carro que lhe bateu por trás. Não chegou a aproximar-se ao carro. Lá de dentro saíram quatro Metralhas, quatro rapazes mascarados de Irmãos Metralha que saltaram para cima do taxista e começaram a bater-lhe. O taxista caiu ao chão. Os Irmãos Metralha desataram aos pontapés.
Eu peguei no telemóvel e fiz uma chamada para o 112.
Acabei o cigarro. Os irmãos Metralha acabaram com os pontapés. E o taxista acabou por ficar no chão, enrolado sobre si próprio, sem se mexer.
Desencostei-me do muro e fui embora. Os Irmãos Metralha entraram no carro e arrancaram estrada fora, passando por cima do passeio, ao lado do táxi, e com o semáforo vermelho. O taxista começou, lentamente, a levantar-se. Os carros que estavam atrás dele começaram a apitar com alguma insistência quando o semáforo passou a verde e o táxi continuou a bloquear a passagem.
A cidade estava perigosa. As pessoas andavam perigosas. A humanidade caminhava para o seu fim. E eu ia para casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/12]

Encontrar Pessoas e Perdê-las

Telefonei-lhe e convidei-a para jantar. E como nunca estou satisfeito com os problemas que arranjo, convidei-a para jantar em minha casa.
Há duas semanas despedi a senhora que vinha cá, uma vez por semana, dar um jeito à casa. Tendo eu também sido despedido, não a podia manter.
E eu fui despedido porque… Na verdade nem sei bem. Reestruturação do sector, foi o termo utilizado para me porem a andar. Não refilei. Não discuti. Não disse nada. Nunca gostei de discutir trabalho, salário, recolocação. Aceito as coisas como vêm. E nunca tive jeito para discuti-las.
Então, sem salário, também não o podia pagar à senhora que me vinha limpar a casa. E eu não sou grande doméstico. E, para variar, o aspirador continuava avariado. Já nem sei há quando tempo isto se mantém assim. A casa estava cheia de pó, quer dizer, cotão, mesmo, e o lava-loiça atulhado de pratos e talheres já com comida seca e tão entranhada que achava que ia ter de ficar de molho durante algum tempo para amolecer e ser possível lavar.
Então, com a vinda dela, e antes de pensar o que é que iria cozinhar para a impressionar, tinha de limpar a casa. E meti mãos à obra. Peguei numa vassoura e comecei a varrer o chão do corredor, da cozinha, do quarto, os tapetes, a juntar o cotão, a retirar o lixo dos cantinhos, os pelos da barba e os cabelos da casa-de-banho, os restos de comida do ralo do lava-loiça, a fruta podre e cheia de mosquitos de uma espécie de fruteira…
E nessa altura atravessou-se um ataque de asma provocado pelo pó que a vassoura levantou e comecei a ter muitas dificuldades em respirar, e só tive tempo de telefonar para o 112 antes de me sentir sufocar e desmaiar…

Acordei num quarto de hospital. Tinha uma máscara a dar-me oxigénio. Sentia os pulmões a encherem e a esvaziarem obrigando o meu corpo a acompanhar os movimentos de inspirar e expirar.
Fiquei durante muito tempo deitado na cama a olhar para uma televisão pequenina, ainda de cinescópio, pendurada alto na parede em frente, mas desligada. Não sei o que via lá, naquele ecrã.
Mais tarde uma enfermeira veio dizer-me que ela estava lá fora e me queria ver. E eu recusei. Não podia ser visto assim, menorizado, deitado numa cama de hospital, com problemas respiratórios provocados pelo pó da casa que tentei tirar à vassourada. Não, não podia, não queria vê-la. Tinha vergonha. Sentia-me diminuído.

Mais tarde, quando tive alta e ia a sair, soube que ela tinha sido atropelada por uma ambulância ali à saída do hospital e que tinha falecido ainda no local.
Ironia do destino, nunca mais a iria ver.
Tínhamos sido colegas de escola numa outra vida. Reencontrámos-nos numa noite de Sábado de homenagem aos anos oitenta no Xanax, uma discoteca que entretanto a polícia fechou, e para onde se dirigiam todos os divorciados, separados, solitários da noite na cidade, ou gente que precisava somente de umas horas longe dos filhos. Agora que a discoteca fechou, por onde andará esta gente?

[escrito directamente no facebook em 2017/11/10]