As Minhas Virtudes São Públicas, os Meus Vícios Privados

As minhas virtudes são públicas. Os meus vícios são privados. Que é que posso fazer? Sou um filho de Leiria e ajo como tal. Espero não ser censurado. Sou o que de mim fizeram.
Toda a gente sabe que vou à missa e comungo com regularidade. Sou baptizado. Circuncidado. Fiz a primeira comunhão, a segunda e o crisma. Casei pela igreja. Estudei num colégio de freiras. Dou dinheiro para a caridade. Ajudo a Cruz Vermelha. Não praguejo. Voto normalmente à direita. Ajudei a eleger o sr. Quinze por Cento e sou um anti-comunista primário. Sou a favor da vida, contra a Interrupção voluntária da gravidez, contra a eutanásia, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra a adopção por pessoas solteiras ou em casamentos não convencionais. Sou um leitor compulsivo mas tenho cuidado com o que compro. Vejo cinema nas salas do Centro Comercial e compro alguns CD’s na FNAC. Como peixe cozido, bitoques e frango assado. Às vezes vou ao McDonald’s. Às vezes como pasta. Gosto muito de morcela de arroz, chanfana e alheira.
O que não sabem, nem têm de saber, é que já paguei vários abortos. De várias raparigas. Nenhuma delas a minha mulher. São acidentes de percurso. A que todos estamos sujeito, mas ninguém tem nada a ver com isso. Não foram feitos cá, pronto.
Frequentei com alguma assiduidade o Maybe e o Raínho. Mas só porque eram os únicos bares abertos àquelas horas. Tive umas experiências homossexuais, mas acabei com isso porque estava a tomar uma dimensão que já não podia controlar. Atropelei uma velhota que acho que morreu. Mas ninguém viu. Às vezes também roubo no supermercado, mas é mais pela sensação, pela vertigem que me atinge. Fumo erva. Comecei no colégio a fumar. Nos intervalos. Quando tenho dinheiro dou na coca que me anima, no cavalo que me deprime, no mdma que me faz dançar all night long e nos cogumelos que me ilustram a existência. Compro alguns livros mais obscuros na Amazon. Vejo pornografia na internet e já me arrisquei na deep web. Já vi snuff movies e outras coisas que não posso dizer porque acho que pode ser considerado crime.
Acho que vou divorciar-me. Não porque queira, é claro.
Mas esta é a minha vida privada e ninguém tem nada a ver com ela. É a minha. E se não fosse assim, como conseguiria sobreviver à terra cinzenta que é Leiria?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/09]

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Qual É o Meu Nome?

Algo se passa comigo.
Sinto-me cansado. A voz está a desaparecer. Falo do fundo de um poço. Eu próprio mal me ouço. E custa-me falar.
Já me é difícil aguentar o peso. Não que esteja gordo. Pelo menos, não mais que o habitual. Mas é o meu corpo que já não se suporta. Está a soçobrar debaixo dele próprio.
Desloquei-me à figueira que está no quintal. Estiquei o braço para apanhar um figo, mas não consegui. Não consegui puxar o figo. Agora penso se ele realmente estava lá. Já não me lembro se fui à figueira ou não. Não me recordo.
Vi uma formiga. Tentei esmagá-la com o dedo. Fui incapaz de o fazer. Mas não foi uma incapacidade física. Não consegui matar a formiga. Comecei a chorar ao olhar para ela com um pedaço de batata frita às costas a caminhar ao longo da ripa de madeira da mesa.
Sentei-me no alpendre a fumar um cigarro. A olhar lá para fora. A olhar para a montanha que se abre lá ao fundo. Está uma nuvem escura sobre ela. Vai chover. Vai chover sobre o incêndio que deflagrou na montanha. Vejo o fumo que se acumula lá no alto. Se calhar não vai chover. Se calhar é só uma nuvem de fumo. Do incêndio.
Acabei o cigarro. Tenho a beata na mão e não sei que lhe fazer. Sei que devia fazer qualquer coisa, mas não sei o quê.
Estou com a beata na mão a olhar o incêndio na montanha enquanto penso no figo que não comi na companhia de uma formiga.
Não consigo falar.
Vejo a minha cara assustada no reflexo do vidro dos óculos que tenho postos na cara. A cara está assustada. E cansada. Tento falar mas não consigo. Mexo a boca mas não sai nenhum som audível.
Deixo cair a beata.
Faço força nos braços da cadeira mas não consigo levantar-me.
Estou cansado.
A beata pegou fogo ao jornal caído debaixo da cadeira. A cadeira já começou a arder. Mas não consigo sair daqui. Não consigo fugir.
Choro e espero que as lágrimas apaguem o fogo.
Algo se passa comigo.
Já não consigo articular uma palavra audível. Não consigo levantar-me. Estou esquecido mas nem sei do quê.
Cheira-me a fumo e sinto vontade de fumar um cigarro.
Gostava de saber o meu nome. Eu não devia ter um nome? Qual é o meu nome?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/08]

A Viúva-Negra a Esticar as Suas Patas para Além do Meu Umbigo

A velocidade com que passámos do Inferno ao Inverno, foi como virar as página de um mau livro. Num momento está um calor diabólico. No outro faz vento e frio. Ameaça chuva.
Entre um e outro constipei-me.
Bebi um chá. Tomei um comprimido. Deitei-me.
Acordei a meio da noite assustado. Assustado e transpirado.
Estava a sonhar com aranhas. Eu, que nunca sonho.
Sonhei que estava em casa, sentado no sofá, a fumar um cigarro, a beber um copo de vinho tinto, quando começaram a sair aranhas da parede. De buracos que eu não via. Buracos na parede. Buracos como se fossem poros. Como se a parede fosse uma pele. A pele de um ser vivo coberta de poros. E de dentro dela, pelos poros, começaram a sair aranhas. Diferentes tipos de aranhas. E depois reparei que era de dentro de mim que elas estavam a sair. Mandei o cigarro para chão, larguei o copo de vinho que se derramou pela alcatifa da sala e comecei a sacudir as aranhas. Mas cada vez saíam mais e mais aranhas de todo o género e feitio. Entrei verdadeiramente em pânico quando vi que, do meu umbigo, começou a sair uma enorme viúva-negra. Uma barriga grande e redonda e umas patas enormes, compridas que se esticavam todas para fora de mim. Tentei gritar. Abri muito a boca. Mas não saía som nenhum. Levantei-me. Agarrei a viúva-negra com as mãos e puxei-a para fora de mim.
E foi então que acordei. Acordei assustado. A transpirar. Com lágrimas a cair pela cara abaixo. O coração a bater muito depressa. Ouvia-o a bater, como um tambor. As pernas a tremer. Um calafrio a subir coluna acima.
Sentei-me quieto na cama e deixei-me estar, a habituar os olhos àquela obscuridade, a recuperar forças e a acalmar os nervos.
Depois levantei-me e fui até à sala.
Não sabia nada de sonhos. Não costumava sonhar. Tinha a vaga ideia de ter ouvido, algures, que sonhar com aranhas era algo sexual. De frustração sexual. Sorri. No meio de tudo, sorri.
Despejei um bocado de whiskey num copo. Acendi um cigarro. Mandei umas baforadas. Bebi um grande gole. Tentei acalmar. Não liguei a televisão. Fiquei só ali assim, sentado no sofá, a beber, a fumar, a olhar para o vazio negro da televisão desligada.
E então senti uma impressão no braço. Cocei. Senti qualquer coisa a mexer-se em cima de mim. Eu não conseguia ver nada. Mas sentia que havia qualquer coisa a passear-se por cima de mim. Assustei-me. Levantei-me e fui acender a luz da sala.
E vejo-me coberto de aranhas que saem de dentro de mim, das paredes da sala, que vêm do corredor, entram pela janela, vêm de todos os lados e saltam-me para cima. Estou aqui na sala e estou coberto por aranhas. Espero estar a sonhar. Quero estar a sonhar. Que isto seja um sonho. E quero acordar. Quero despertar deste pesadelo. Quero despertar! Como é que tudo começou? Isto é um sonho. Um sonho terrível, mas só um sonho. Acho eu. E como é que tudo começou? Onde é que tudo começou?
A velocidade com que passámos do Inferno ao Inverno, foi como virar as páginas de um mau livro. Num momento está um calor diabólico. No outro faz vento e frio. Ameaça chuva.
Entre um e outro constipei-me.
Bebi um chá. Tomei um comprimido. Deitei-me.
Acordei a meio da noite assustado. Assustado e transpirado.
Estava a sonhar com aranhas. Eu, que nunca sonho.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/07]

Uma Carraça Agarrada às Virilhas

Estava no banho quando a vi. Primeiro senti-a. Senti-a quando passei a mão. Senti um corpo estranho. Um pequeno alto. Quase um abcesso. Num sítio onde não devia estar.
Debrucei-me sobre mim próprio, puxei a pele e consegui vê-la. Grande. Preta. Quieta. A filha-da-puta a querer passar despercebida. Mas eu vi-a. Senti-a e depois vi-a.
Tentei puxá-la. Não consegui. Era redonda, sem arestas onde agarrar. E estava bem agarrada a mim. Presa. A chupar-me.
Estava nas virilhas. A chupar-me o sangue.
Desde o dia anterior que andava com febre. Já descobrira porquê.
Pensei em queimá-la com a ponta incandescente de um cigarro. Mas não era grande ideia. A carraça podia entrar em stress e largar mais veneno do que aquele que largava.
Uma pinça. Era de uma pinça que precisava.
Saí da banheira nu, nu e molhado, e fui ao quarto procurar o canivete-suíço. Molhei a casa-de-banho, o corredor e o quarto. Sujei os pés. Encontrei o canivete-suíço. E tinha uma pinça.
Voltei para a banheira. Sentei-me na borda. Abri as pernas. Agarrei a maldita carraça com a pinça e, devagar, aos poucos, decidido, insistindo, com força, fui puxando-a com cuidado para que não deixasse lá nenhum pedaço.
Fiz sangue. Um bocado de sangue que começou a escorrer, num pequeno fio encarnado-escuro a deslizar pela perna abaixo. Caiu um pingo no tapete da casa-de-banho. Dois pingos.
Finalmente consegui retirá-la toda. Levei-a com cuidado até à retrete e deixei-a cair. Puxei o autoclismo. Duas vezes. Três vezes.
Voltei para dentro da banheira e acabei de tomar banho. Lavei especialmente e com afinco, as virilhas.
Já estava na cozinha a beber um café e a fumar um cigarro quando ela chegou. Disse-me A casa está toda molhada. Eu disse-lhe Tinha uma carraça. Onde?, perguntou-me. Nas virilhas, respondi. Que nojo!, disse ela já em andamento a sair cozinha fora, a pegar na carteira e a fechar a porta da rua com estrondo nas suas costas.
Isto aconteceu há três dias. Já não tenho febre. Tenho uma ligeira vermelhidão nas virilhas. Ela ainda não regressou. Eu tenho cigarros e vou continuar a fumar. Já não tenho café, mas ainda tenho umas garrafas de vinho tinto. Não sei de onde é o vinho. Vou bebê-lo de qualquer maneira. Fumar cigarros. E procurar mais carraças pelo corpo.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/06]

Abaixo de Humano

Demasiado calor para ir à praia. Demasiado calor para sair, procurar e experienciar o ar condicionado de um qualquer centro comercial. Demasiado calor para fazer o que quer que seja. Mesmo levantar um dedo exige demasiado de mim.
Abro as janelas todas e espero o milagre da aragem, da corrente-de-ar, da ventania. Fresca de preferência. Esparramado no sofá dedico-me ao zapping enquanto tenho paciência. Mas já viram televisão ao Domingo? Sim! É mesmo assim tão bera.
Escolher um filme.
E maldita a hora da escolha.
Estou deprimido.
Dividi-me em três para seguir o tríptico da prostituição Whores’ Glory de Michael Glawogger. Vou para a Tailândia. Para o Bangladesh. Vou para o México. Não volto inteiro. Fiquei perdido na Zona de Tarkovsky. Não sei como voltar atrás e esquecer o que vi. Não que não conhecesse o que vi. Mas porque o que vi ultrapassa, em muito, tudo o que eu queria saber. Não ver é não saber. Não querer saber é não existir.
Mas… Foda-se!
Somos uns cães.
Uns cães gananciosos.
Uns cães à procura de sobreviver a cavalo dos mais miseráveis dos miseráveis, porque há sempre um miserável mais miserável que outro, e que lhe serve de sustento.
Na Tailândia encontro o Aquário. Mostruário de carne. Carne feminina para consumo no local. Por locais e alguns turistas. Há um norte-americano por lá. Mas não é nada de novo. A Tailândia é conhecida por ser um destino de turismo sexual. O que impressiona é a forma mercantil como a coisa acontece. Lembro-me do Decades dos Joy Division e da prece de Ian Curtis:

“Here are the young men, a weight on their shoulders
Here are the young men, well, where have they been?
We knocked on doors of hell’s darker chambers
Pushed to the limits, we dragged ourselves in

Watched from the wings as the scenes were replaying
We saw ourselves now as we never had seen
Portrayal of the traumas and degeneration
The sorrows we suffered and never were freed”

Chego ao Bangladesh e descubro que descemos todos os degraus possíveis e imaginados. Num país que já por si é miserável, ainda há quem esteja abaixo dos cães, abaixo da humanidade.
Entro no Bazar. Uma cidade dentro da cidade onde vivem as mulheres que não esperam nada mais da vida que sobreviver a mais um dia. Aqui encontro crianças. Crianças vendidas pelas famílias. Por tostões. Para serem alugadas por outros tostões a outros miseráveis que não têm possibilidade de ter outra vida que não aquela. As prostitutas a quem pagam são chamadas de namoradas. Escolhem as mesmas, mesmo que às vezes escolham outras. Porque têm birras de namoro. Como entender isto? Como aceitar estas crianças em tarimbas nojentas, sujas, obrigadas a venderem-se por uma peça de roupa, um bocado de comida, uma enxerga onde dormir, mesmo que, a partir de certa hora a luz do local se apague porque chega a hora do senhorio cobrar pelos quartos, pela actividade, pela mercadoria? Num Bangladesh onde são feitas as peças de roupa que vestimos, aqui, no Ocidente…
Foda-se!…
Descubro-me no México. Aqui respira-se melhor ar, mesmo que continue azedo, enlameado, pobre. Aqui fala-se pela primeira vez de droga – crack -, que as prostitutas consomem para se evadirem. Aqui parece haver alguma vida para além da tristeza miserável da venda do corpo por quem não tem mais nada para vender. Mas não deixa de ser medonho. Cruzo-me com uma louca que dança, despida, para a câmara. Mas aqui, mesmo assim, há vida para além da miséria. Fala-se, veladamente, de algum amor, de carinho.
Há algo de comum às três diferentes realidades: a religião. Para uns, a esperança, para outros o limite (no Bangladesh as mulheres não fazem fellatio porque a boca serve para rezar o Al-Corão), para outros, ainda, o escape, como uma droga.
Acaba o filme e sinto-me despedaçado. Acaba o filme e sinto que somos menos que zero. Acaba o filme e sinto que somos uma merda de civilização. Somos alguém à espera de usar o outro. De foder o outro. De ser mais que o outro. De vender o outro.
Que vergonha de mim próprio.
Devia ter ido à praia mesmo com este calor infernal.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/05]

Espero Sobreviver

Estou deitado sobre os lençóis da cama. Os lençóis estão molhados. Eu estou transpirado. Estou a desfazer-me. Sou líquido e escorro por mim abaixo.
Não me consigo mexer.
Tenho sono. Não dormi nada esta noite por causa do calor. As janelas todas abertas mas não chegava nenhuma aragem que me refrescasse.
Levantei-me às sete da manhã para beber água fresca, urinar e regressei à cama.
São duas da tarde e ainda aqui estou. Nem consegui levantar-me para ir comer. Não consigo comer. Não consigo fumar. Só tenho sede, mas não consigo levantar-me para ir beber água.
Espero sobreviver.
Lá de fora o silêncio possível do calor. A cantoria das cigarras. Uma ou outra motorizada. Um ou outro carro. E é tudo. Por vezes parece que ouço o sino da igreja, mas acho que nessa altura estou a dormir acordado. Não há nenhuma igreja nas redondezas.
Estar assim deitado sobre a cama a estas horas, com esta luz que entra pelo resto das persianas que deixo abertas para não me sentir tão isolado, sinto-me transportado para as minhas férias de infância na Nazaré.
Os meus pais alugavam uma casa no meio da vila durante o mês de Agosto. O calor era assim como este. Ou parecido. Íamos de manhã para a praia, regressávamos para almoçar, a minha mãe fazia o almoço, dormíamos a sesta e voltávamos à praia ao fim da tarde. Normalmente ficávamos na praia até o sol tombar atrás do horizonte.
Era precisamente as sestas, deitado sobre os lençóis da cama, com a luz do início da tarde a passar entre as frinchas das persianas, sem camisola, de calções, a transpirar, a absorver o silêncio que a Nazaré era na altura, entrecortado pelo barulho isolado de uma ou outra motorizada, ou das poucas pessoas que se atreviam a sair à rua àquelas horas e passavam a conversar ali, debaixo da minha janela, e eu ouvia-as lá muito ao fundo, no fundo do meu sono leve e retemperador, que lembro agora com alguma nostalgia.
Naquela altura sabia que depois da sesta, levantava-me e voltava para a praia, brincar na areia, mergulhar no mar, conhecer miúdos novos e diferentes.
Agora não sei o que me espera se sobreviver a este calor. Já não tenho onde regressar. Não quero conhecer gente. Só espero viver um dia depois do outro.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/04]

Vou Jantar ao Salvador

Sexta-feira. Início de Agosto. Um calor infernal. A cidade foi a banhos. A cidade desertou. Está vazia. Está só para mim.
Saio de casa. Vou de calções, t-shirt e chinelos. Transpiro. Olho à volta e não vejo quase ninguém. Tenho a cidade por minha conta.
Se tivesse dinheiro, era a altura ideal para experimentar os novos e exclusivos restaurantes da cidade, agora praticamente às moscas.
Regresso às rulotes. É um erro. No deserto da cidade é um dos poucos sítios cheios. Fala-se francês misturado com português. Os emigrantes ocupam os espaços. Os emigrantes e as suas criancinhas.
Afasto-me a bater os chinelos na planta dos pés.
Acendo um cigarro. Vou até ao meio da estrada. Vou sem medo enfrentar os carros. Os carros inexistentes. Faço a avenida principal da cidade, sempre pelo meio, sem me cruzar com nenhum carro.
Vou à praça. As esplanadas estão cheias de gente de fora. Emigrantes e gente da periferia. As aldeias são quase coladas à cidade. As pessoas deslizam entre um ponto e outro. Agora sentem-se também donos da cidade.
Ninguém me conhece. Não conheço ninguém. Encosto-me ao balcão de um bar. As esplanadas estão cheias em contraste com o resto da cidade. Tudo converge para aqui. Mesmo quem passou pelas rulotes, acaba aqui. Aqui acaba tudo mais tarde. Peço uma imperial e pedem-me logo o dinheiro. Ninguém me conhece. Não conheço ninguém.
Tenho fome. Peço um pires de tremoços. Não há. A estas horas nunca há.
Despejo a imperial de um trago.
Olho para o copo vazio com riscos de espuma a toda à volta do vidro e penso O que é que estou aqui a fazer? A cidade é amarga. Madrasta. A cidade trata-me mal.
Enquanto saio acendo outro cigarro.
As esplanadas libertam odores de perfume. Vê-se que as pessoas tomaram banho, vestiram roupas leves, frescas e bonitas. Prepararam-se para a noite. Para a noite na cidade. É gente que está na moda. Eu sou o único de chinelos. Mas não estou de fato de treino. Estou de calções.
Cruzo a praça e decido ir ao Salvador comer qualquer coisa caseira. Espero que não esteja de férias. Espero que haja croquetes. Ou uma alheira de caça. Ou raia frita. Na verdade, só espero que esteja aberto. Preciso de comer qualquer coisa. Qualquer coisa boa. E de beber outra imperial. Fresca.
Acabo o cigarro e acendo outro na beata do primeiro. Uma companhia para o caminho.
Volto a encontrar a cidade deserta. E é tão bom.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/03]