A Morte da Lampreia

Tenho o copo vazio. Tenho sempre o copo vazio à minha frente. É a primeira coisa que faço quando me enchem o copo, é esvaziá-lo. E depois fica por ali assim, vazio. Até ser novamente cheio e eu o despejar logo de seguida. A aguardente não fica a fazer nada no copo.
Não sei quantos estão por aqui. Só ao balcão, como eu, somos três. É este agora o nosso posto de trabalho. Sentados ao balcão a beber umas aguardentes e esquecer a merda de vida que temos.
Ontem à noite comecei a queimar as primeiras tábuas do barco. Para quê o barco? Há dois anos que não vou ao rio. Ninguém daqui quer a lampreia do Tejo. Dizem que está contaminada. E têm razão. Esta espuma que agora se vê nos telejornais não é de hoje. Nem de ontem. Já começou há uns anos. Mas ninguém quer saber. Quando o rio chega à capital, já ninguém quer saber da espuma que não vê.
Já chegámos a ser mais de sessenta. Mais de sessenta na apanha da lampreia. Vinha gente de todo o país para a comer. Dava gosto ver chegar toda essa gente elegante de fora, nos seus carros grandes e lavadinhos. Agora, a única coisa que vem de fora é a lampreia. Trazem-na de França, parece. Mas são muito poucos os que vêm agora cá para a comer. Não é tão boa como a nossa. Não é, não.
O que é que fazemos agora, sem o trabalho? O subsídio já acabou. Alguns de nós vamos fazendo uns biscates. Mas também não há grande coisa para fazer por aqui. A morte da lampreia foi também a morte de muita actividade aqui da zona. Isto agora tende tudo a morrer.
Hoje, quando chegar a casa, vou voltar a queimar madeira do barco para aquecer a casa. Para aquecer a mulher e os miúdos, coitados. Que passam um frio de rachar. Não há dinheiro. Não há trabalho. Mas há sempre uns espertos que nos olham de lado. Que nos olham de lado e nos dizem Vai trabalhar, pá. Se calhar é algum dos directores das celuloses que nos matou a lampreia. Têm descaramento para isso, lá isso têm.
Às vezes fico contente que aqui não seja como na América. Porque se eu tivesse uma arma, limpava o sebo a uma série de gajos. Principalmente aqueles que trazem o rei na barriga e que julgam que tudo é deles, fazem as merdas que fazem e nada lhes acontece. Ai, acontecia, acontecia.
Mas somos mansos. Somos todos mansos, nós. Não queremos chatices. Mais facilmente morremos de fome, nós e os nossos, do que queremos arranjar chatices com essa gente cheia de advogados e leis e razões.
Entretanto, Ouve lá, fia-me aqui mais um copo, vá lá. Amanhã venho cá arranjar-te a caldeira, pá.
E pronto, mais um copo esvaziado.
E hoje joga quem? E dará nesta televisão aqui do café? Não me apetece ir para casa. Não quero encarar a mulher. Nem os miúdos. Um homem que não leva o sustento para casa não consegue encarar a mulher. Que porra de vida. Tanto caminho palmilhado para isto?

[escrito directamente no facebook em 2018/02727]

Anúncios

De Mãos Dadas com a Morte

Tenho um sonho recorrente em que estou a correr, todo nu, numa espécie de limbo onde não existem formas, nem figuras, como se corresse no vazio, mas um vazio que se parece com um ouvido infectado, cheio de pus a escorrer, mas ao mesmo tempo não se vê, mas percebe-se, por isso é um vazio que se faz sentir cheio, e depois, quando me começo a sentir cansado, caio, não sei onde, num buraco qualquer e, invariavelmente, acordo aos pulinhos na cama, como se tivesse caído lá do alto do tecto sobre o colchão, depois de uma aventura com o Little Nemo.
Há muitos anos que não tenho este sonho. Não tinha.
Ontem tomei Mefloquina. Estou em África e tenho de tomar medicamento contra a malária. A Mefloquina exerce um grande poder sobre mim. Altera-me o sistema nervoso. Não fico mais irritado que o costume, que é o que faz normalmente a toda a gente, mas põe-me a sonhar. Ou a lembrar-me dos sonhos. Dos sonhos terríveis que me faz sonhar. Dos sonhos em que a morte anda comigo de mãos-dadas.
Então, ontem, dia em que tomei Mefloquina, sonhei. E voltei a sonhar o mesmo sonho que sonhava, dantes, quando ainda sonhava ou, pelo menos, me lembrava de o ter feito. Estava a correr, todo nu, numa espécie de vazio por onde escorriam coisas viscosas que não vinham de lado nenhum nem iam para nenhum lado. Simplesmente circulavam ali, à minha volta, enquanto eu corria. Mas eu também não corria para lado nenhum, nem sei de onde é que vinha. Corria. Só corria.
E de repente…
E de repente os fluídos viscosos começaram a solidificar e tornar-se corpos e a tombar à minha volta. Eu queria parar de correr, ver que corpos eram estes, mas não conseguia parar de correr. Mas vi a cara. As caras. As caras eram uma só. E era a minha. Todos aqueles corpos que tombavam à minha passagem eram eu, eu morto a cair sobre mim e não conseguia parar de correr e…
E acordei. Estava deitado na cama. A transpirar. Estava a respirar com alguma dificuldade. Sentia-me cansado. Como se tivesse corrido. Virei-me na cama e vi-a ao meu lado. Cheguei-me a ela e abracei-a. Senti-a viscosa. Puxei o lençol para baixo e mandei um grito. Ela estava cheia de fluídos viscosos, já não tinha corpo, era uma massa disforme gelatinosa e, quando olhei a cara, vi, novamente, que era eu. Ela era eu. E nessa altura voltei a acordar.
Acordei na cama. A transpirar. Estava a respirar com alguma dificuldade. Sentia-me cansado. Como se tivesse corrido. Virei-me na cama e deixei-me cair para o outro lado, que estava mais fresco. Mas não consegui adormecer. Não parava de pensar no sonho que tinha tido. E lembrei-me que tinha um sonho recorrente em que estou a correr, todo nu, numa espécie de limbo onde não existem formas, nem figuras, como se corresse no vazio, mas um vazio que se parece com um ouvido infectado, cheio de pus a escorrer, mas ao mesmo tempo não se vê, mas percebe-se, por isso é um vazio que me faz sentir cheio, e depois, quando me começo a sentir cansado, caio, não sei onde, num buraco qualquer e, invariavelmente, acordo aos pulinhos na cama, como se tivesse caído lá do alto sobre o colchão, depois de uma aventura com o Little Nemo.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/26]

A Vida Corre às Golfadas

Recomeçou a chover.
Fiquei com a roupa lavada molhada toda enrolada numa bacia à espera de melhores dias.
Tive de recuperar as botas. O casaco comprido. O chapéu-de-chuva, um elemento que perco à média de dois por semana. Às vezes basta só uma tarde de chuva, com uma ligeira aberta, para eu deixar o chapéu esquecido em qualquer lado. Mas já me rendi aos chapéus-de-chuva chineses, que são feios, duram pouco, deixam entrar água pelas costuras, mas são baratos e, quando os deixo esquecidos em qualquer lado, não fico chateado.
O chão de casa também sofre. É de uma espécie de mosaico vidrado que com a humidade fica molhado e muitas vezes parece estar mais água no chão de casa que na rua. É por isso que acabo por lavar muitos tapetes e toalhas que passo a vida a espalhar pelo chão lá de casa.
Mas hoje resolvi não sair.
Tinha um texto para entregar que podia mandar por e-mail. Iria ficar a trabalhar em casa. Não precisava de calçar botas, nem usar o chapéu-de-chuva nem iria molhar o chão de mosaico vidrado.
Ainda tinha pão de véspera. Uma lata de atum em óleo vegetal. Dois tomates. Um bocado de esparguete. Não ia morrer de fome. Ainda tinha um pacote de vinho e um maço de cigarros quase cheio. Combustível não me faltava.
Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador, de cigarro na mão e comecei a escrever o texto. As palavras fluíam-me com naturalidade. Encontravam nexo e faziam sentido quando juntas. Estava a ficar contente com o que estava a sair dali quando a electricidade se foi.
A bateria do computador já não funcionava muito bem e ele tinha de estar sempre ligado a uma tomada. O ecrã ficou preto. No início não percebi muito bem o que estava a acontecer. Acendi um cigarro e esperei. Depois reparei que as luzinhas que pululam lá por casa tinham desaparecido. O despertador-rádio da minha mesa-de-cabeceira estava desligado. Não havia nenhuma luz e percebi que não havia electricidade e que o trabalho teria morrido.
Fiquei desmoralizado.
Calcei as botas, Vesti o casaco comprido. Coloquei o computador dentro da mochila e saí de casa.
Havia luz no prédio. Voltei a casa e verifiquei os fusíveis. Depois reparei numa carta da EDP caída em cima de um móvel à entrada de casa. Não paguei a conta.
Peguei na carta, voltei a sair de casa e fui até ao café.
Instalei-me. Pedi uma bica. Agarrei um cigarro apagado entre os dedos e liguei o computador.
Afinal não tinha perdido o que já tinha feito. Era só continuar.
Eram horas de almoço. O café estava cheio. Havia uma grupo de raparigas novas, empregadas de escritório, que não paravam com os risinhos e conversas tolas e gargalhadas, todas muitos contentes e a falar muito e muito alto e levantavam-se e sentavam-se tocavam umas nas outras para chamarem a atenção e eu sem conseguir concentrar-me.
Desliguei o computador. Paguei o café. Fui ao multibanco da rua pagar a conta da EDP. Já não aceitava o pagamento por multibanco. Tinha de ir a um balcão. Estava a chover. O chapéu-de-chuva chinês não me protegeu muito, mas ajudou-me a chegar a um balcão da EDP. Uma hora de espera. Paguei e voltei para casa. Continuava a chover. Agora com vento. O chapéu-de-chuva chinês virou-se ao contrário e partiu as varetas. Fui o resto do caminho debaixo de chuva, resignado. Cheguei a casa e não pude tomar banho. Não tinha electricidade para o esquentador. Despi a roupa. Sequei-me com uma toalha húmida e vesti um fato-de-treino. Sentei-me na mesa da cozinha a fumar um cigarro e a olhar para o relógio a pilhas que estava pendurado na parede. Pus-me à espera que me ligassem a electricidade. Esperava que os cigarros que me restavam no maço fossem suficientes. Mas não quis pensar muito sobre isso.
O dia ia ficando mais escuro e a noite ia caindo. A minha cabeça ia tombando dobre o peito. E tinha o texto para escrever e enviar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/25]

A Minha Época Estava a Desfazer-se

Roubei um carro da polícia.
Estava num café quando ouvi, na mesa do lado, uma miúda perguntar ao namorado Quem era o Mark E. Smith? e ele dizer Não sei. Porquê? e ela responder Morreu! Apareceu-me aqui no feed. Pensei que era alguém importante mas, senão conhecias…
Foda-se! Pensei que era alguém importante?
Levantei-me da mesa e saí do café. Quando cheguei à rua lembrei-me que não tinha pago a bica e o queque que tinha consumido. Voltei lá dentro e larguei uma moeda de 2 euros na mesa, e saí de novo do café.
Estava escuro. E com a noite, com o princípio da noite, tinha vindo o frio. Era Inverno. Mas o sol da tarde tinha-me enganado. Só trazia um casaquito de lã que agora não era suficiente para parar o frio que se fazia sentir e que me entrava pelos ossos dentro.
Acendi um cigarro para me aquecer um pouco. E pus-me a caminho. Não sabia para onde. Não queria ir para casa. As coisas estavam azedas e não me apetecia enfrentar de novo o diabo.
Segui rua fora, de mãos nos bolsos, o cigarro a consumir-se na boca e a pensar que uma época, a minha época, estava a desfazer-se aos poucos. Já tinha sido o David Bowie. Depois o Cohen. O Zé Pedro. Agora o Mark E. Smith. Quem seria o próximo? O David Byrne? O Morrissey? Ou o James Murphy? Que irritação! Estava mesmo zangado. É que até me apetecia voltar para casa e ir ouvir os vinis dos The Fall e tentar exorcizar a sua falta. Mas não podia ir. Agora não podia ir. Por causa dela. Porra para ela. E não podia ouvir The Fall no telemóvel. Não tinha dezasseis anos. Não ouvia música no telemóvel.
Estava a chegar a um cruzamento quando reparei que havia alguma confusão. Vários carros parados. Pessoas aglomeradas no meio do cruzamento. As luzes azuis e vermelhas do carro da polícia a varrer as imediações.
Aproximei-me para observar. Reparei que o carro da polícia estava vazio e com as portas abertas, mas estava com o motor a trabalhar. Olhei a confusão e percebi que os dois polícias estavam a tentar resolver algum problema no meio da multidão.
Entrei para dentro do carro da polícia, fechei a porta, pus marcha-atrás e saí dali para fora. Ainda vi os polícias a correr para o carro através do espelho retrovisor.
O sirene do carro começou a apitar quando comecei a acelerar. Tive de experimentar vários botões que se exibiam ali à minha frente para desligar a sirene e as luzes. Mas consegui. Cruzei a cidade. No rádio, alguém estava a falar para quem estava a conduzir o carro. Desliguei o rádio.
Saí da cidade. E fui estrada fora, sem saber bem para onde.
Depois decidi ir até ao Pedrogão. E fui.
Quando lá cheguei larguei o carro no meio do pinhal que não tinha ardido. Com as mangas do casaco puxadas para as mãos, limpei o volante, o rádio, o tabliet e todos os botões onde pudesse ter mexido e o puxador da porta e saí dali.
Fui até à praia. Sentei-me mesmo à beira-mar a ouvir o barulho das ondas e deixei-me estar ali algum tempo, até que percebi que estava muito frio e que estava a ficar gelado. Fui até um café que estava aberto. Ainda há cafés abertos durante o Inverno no Pedrogão. Enquanto bebia um café e uma aguardente para aquecer, telefonei a um amigo para me lá ir buscar. E disse-lhe Traz música dos The Fall.
Enquanto esperei fui bebendo várias aguardentes. E lá fui aquecendo. Não me lembro do meu amigo ter chegado. Não me lembro de ouvir música. Não me lembro de regressar a casa. Não sei o que aconteceu ao carro da polícia.
Mas agora, agora eu estou em casa e estou prestes a iniciar outra discussão. Porra para isto.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/24]

Preciso de Comer Alguma Coisa

Estou há duas semanas em casa. Na cama. Estou com uma enorme gripe. Desconfio que seja daquela estirpe asiática. Mas não me apetece ir ao médico confirmar. Só sei que tenho tido dificuldade em abrir os olhos e tenho o nariz em carne viva. E tenho passado fome. E vivido na imundice.
Nestas duas semanas em que tenho estado isolado em casa, nenhuma vez tocou o telemóvel. Ninguém sentiu a minha falta. Ninguém deu pela minha ausência.
Provavelmente, nem no trabalho dariam pela minha ausência se eu não tivesse telefonado a avisar que estava de cama. Ainda tenho de arranjar um atestado. Não sei como é que vou fazer. Estou mesmo doente. Mas não fui ao médico. Nem vou. Já sei o que tenho.
Nestas duas semanas ainda não tive coragem de pôr a roupa a lavar. Estou há duas semanas a viver enrolado nuns lençóis para onde já transpirei duas vezes por dia nos últimos quinze dias. Até a mim já me começa a incomodar o cheiro e a textura. Talvez hoje arranje coragem.
Decidi que hoje ia sair da cama. De casa. E que ia comer. Preciso de comer alguma coisa. Uma canja de galinha, por exemplo. Onde raio é que vou arranjar uma canja de galinha nesta cidade?
Vou tomar banho. Vou arranjar coragem e vou tomar banho. Vou puxar os lençóis da cama. Vou abrir as janelas do quarto e deixar entrar o ar fresco e retemperador. Vou vestir uma roupa lavada e fixe e vou comer uma canja de galinha e beber uma Coca-Cola geladinha. E depois vou arranjar uma miúda. Preciso de uma miúda. Preciso de uma miúda que fale comigo. Que me ouça. A quem me possa queixar. Que me dê algum carinho e me levante a moral.
Hoje não tomei nenhum anti-gripe. Para não transpirar. Para poder ir à rua. Só tomei uma Cecrisina para me dar força e alento.
E só preciso de um pouco de força. De coragem.
Vou contar até três e vou levantar-me e tomar um duche. Um… Dois… Três…

Mas tenho de contar três vezes até três para funcionar…

Tenho de sair daqui. Este cheiro está insuportável. Já não o suporto. Tenho de sair. Tenho de me levantar, porra…

Tenho de comer qualquer coisa. Preciso de sentir o frio da rua, o cheiro da rua, a vida na rua…

Também posso pegar numa manta e ir até à sala. Abro a janela do quarto, fecho a porta e vou para a sala com uma mantinha e aguardo que me chegue a vontade de sair. Ou que arranje coragem. E força.
E posso mandar vir uma pizza. Com alcaparras, anchovas e alcachofra. E uma Coca-Cola. E que se lixem as miúdas. E as outras pessoas.
Sim, é isso que eu preciso. De uma pizza.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/23]

Num Lusco-Fusco

Estava lá em cima, no Sítio, a olhar, fascinado, cá para baixo, para a Nazaré, para as casas minúsculas, as pessoas ainda mais minúsculas, e as pequenas ondas a deslizarem suavemente pela areia da praia.
Tinha estado sol. Mas já se tinha ido embora.
Ainda esperei ver o Raio Verde, mas acredito que tal só é possível no filme do Eric Rohmer. Pelo menos não o vi. Nem naquele momento nem nunca. Talvez as condições atmosféricas não fossem as melhores.
Estava lá em cima, no Sítio, sentado no muro sobre a falésia. Bebia uma cerveja. Trincava uns tremoços e umas pevides e ia deitando as cascas cá para baixo, para o mar, ou para areia ou para os penhascos, não sabia muito bem onde é que iam cair.
Estava sozinho.
Tinha apanhado um autocarro e ido até à Nazaré. Depois subi aquilo tudo até lá cima a pé. E pus-me a olhar cá para baixo. Cansado, depois de tal subida, puxei de um cigarro, e acalmei. E deixei-me estar ali um bocado a olhar cá para baixo. Fui comprar umas cervejas e uns tremoços e umas pevides. Mas os tremoços e as pevides não são tão bons como os da senhora de São Pedro de Moel. Não importa. Precisava de tempo. De ganhar tempo. Para ganhar coragem.
As horas foram passando. As garrafas de cerveja também. O sol subiu, desceu e desapareceu. Mas ainda não era de noite. Estava assim numa espécie de lusco-fusco, e eu já um pouco adormecido pelo álcool. Afastei-me do muro e encostei-me à parede de uma casa para urinar. Estava cheio de cerveja e tinha de a libertar de dentro de mim. E senti-me aliviado.
E foi então que me virei, respirei fundo, comecei a correr, muito depressa, o mais direito que o álcool me permitiu e quando cheguei ao muro pousei lá o pé e dei um impulso para cima e para a frente.
Senti-me no ar, a voar, sem chão, e nuns micro-segundos, completamente livre, até que me senti separar em dois. Vi o meu corpo começar a cair como se fosse um boneco de trapos, quase sem forma, deformado pelo vento da descida, mas eu, eu continuava ali em cima, no ar, suspenso sobre a minha própria queda e vi-me bater várias vezes em pedaços de rocha do penhasco, abrir cortes no corpo, vi o sangue disparar em várias direcções e, depois, o tombo na água. Vi-me desaparecer e tornar a aparecer. Vi-me a boiar na água, embalado pelas ondas do mar.
Vi muita gente junto ao muro do Sítio a olhar lá para baixo, a tentar ver o meu corpo. E comecei a afastar-me deles e a descer até mim, até ao mar, até à ondulação que me levava, suavemente até à praia. Vi gente a começar a aglomerar-se na praia. Gente a entrar dentro do mar. A mergulhar nas ondas e a nadar em direcção a mim. A ele. Ao corpo.
Depois fui levado para a praia e largado na areia. Depois muita gente. Confusão. Barulho. E acabei por me afastar dali.
Sentei-me no muro da marginal da Nazaré a ver a agitação lá ao fundo, junto ao mar. E olhei para o Sítio. E pensei que se calhar tinha outras soluções. Mas aquela tinha sido a minha.
Já é de noite e ainda aqui estou. E não sei para onde ir ou o que fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/22]

Tenho Nove Anos

Tenho nove anos.
Tenho nove anos e acabei de vir das férias. Das férias grandes. Estive na praia. Mas também estive no campo. Estive em casa do meus avós. Estive com os pais da minha mãe na praia. E estive com os pais do meu pai no campo.
Na praia tomei banho no mar e fui à pesca com o meu avô. No campo tomei banho no rio, também fui à pesca com o meu outro avô, mas o que eu mais gostei foi de ter conhecido uma rapariga e de ter ido aos pássaros com ela. Mas não vou falar da rapariga. Não quero falar da rapariga. Ah, e fiz uma funda.
Tenho nove anos e regressei à escola. Acabaram-se as férias e recomeçou a escola. Hoje é o primeiro dia. Os meus colegas são quase todos os mesmos do ano passado. Tenho mais duas raparigas novas. Mas ainda não as conheço. Por isso também não vou falar destas raparigas.
Tenho nove anos e estou na escola e é hora de almoço. Estou na cantina. Trouxe comida de casa numa marmita. Na parte de cima da marmita está um hambúrguer e arroz branco, e na parte de baixo está uma sopa de grão.
Eu não gosto de sopa de grão.
Eu não gosto de sopa de grão e a minha mãe sabe. E eu não sei porque ela mandou sopa de grão, porque ela sabe que eu não gosto.
A senhora do refeitório mandou-me comer primeiro a sopa. Mas eu não consegui comer a sopa. E ela insistiu. E disse que não posso comer o hambúrguer sem comer primeiro a sopa. Mas eu não queria. E ela obrigou-me. Acabei por comer uma colher de sopa. Duas colheres. E comecei a sentir-me enjoado. Três colheres. E comecei com vómitos. Mas ela insistiu. E comi a quarta colher de sopa. E acabei por vomitar para o prato.
Estou sentado à mesa, no refeitório, e tenho um prato de sopa vomitado à minha frente e a senhora do refeitório não me deixa levantar e sair daqui. Diz que tenho de comer a sopa toda. Com o vomitado. Mas eu acho que não consigo. Cada vez que olho para o prato de sopa, sinto-me mais enjoado e a ficar com mais vómitos.
Tenho nove anos e um problema, e tenho de resolver o problema.
Acho que vou fugir daqui do refeitório senão perco o recreio da hora do almoço. E logo à noite, em casa, digo à minha mãe que a senhora do refeitório ficou com a marmita para comer ela o hambúrguer.
Tenho nove anos e vou agora fugir do refeitório para ir para o recreio brincar. E não quero falar mais da senhora do refeitório.
Aí vou eu…

[escrito directamente no facebook em 2018/01/21]