Acordo às 07:30′

07:30’.
Acordo com o besouro do despertador. Ultimamente não tenho paciência para as novelas noticiosas.
O despertador toca e eu levanto-me. Está frio. Sinto um arrepio no corpo. Caminho, descalço, pela casa. Vou até à cozinha. O chão está gelado. Olho pela janela da cozinha, como faço todos os dias. Está um pouco escuro, lá fora. O dia ainda não acordou por completo. Está como eu. Mas não vejo nada para além da janela. Um nevoeiro cobre o vale. Não vejo as montanhas lá ao fundo. Não vejo as oliveiras. Nem o carro que está parado aqui mesmo em frente. Se eu estivesse na rua não via a ponta do meu nariz. É um nevoeiro cerrado.
Faço café.
Deixo o cheiro do café acabado de fazer acordar a casa. Qual casa? A casa sou eu. Estou acordado. E estou à janela da cozinha, com uma chávena de café na mão, duas colheres de açúcar, a olhar para a rua e a ver um nevoeiro branco-sujo que parece mover-se à minha frente, mas pode ser ilusão.
Ao fundo, no meio do branco-sujo, vejo o que parecem ser umas luzes. Provavelmente os carros a passarem lá em baixo, na estrada.
Não ouço barulho.
Bebo o café. Está quente. Tenho os pés frios. Vejo uma sombra escura a mover-se no branco do nevoeiro. Quem será? Demasiado cedo para o carteiro.
Uma das luzes que cruza o meu olhar, lá ao fundo, uma das luzes que passam na estrada, faz uma curva de noventa graus para cima e sobe. Sobe! Vai para cima! Para o céu! Não pode ser um carro. Porra!
A sombra está mais escura. Sobe a ladeira. Vem cá para cima e… O quê?
Desapareceu. Desfez-se. Desfez-se no nevoeiro!
É só nevoeiro.
Ouço umas vozes. Viro-me para trás. Largo a chávena de café na mesa da cozinha. Vou pelo corredor. Sigo as vozes. Percorro o corredor. Descalço. Os pés nus nas lajes frias. O som das vozes está mais alto. Aproximo-me do meu quarto. Há gente lá dentro. Estão a falar. Não entendo o que dizem. Quantos serão? Coloco a mão na porta. Empurro-a devagar. Tento não ser descoberto. Tento ver quem é sem que me vejam. Empurro a porta mais para trás. Enfio a cabeça pela frincha. Espreito lá para dentro. As vozes estão num crescendo. Olho.
Abro os olhos e olho.
Vejo o tecto. O tecto da casa. O tecto do meu quarto visto da cama. Estou deitado.
São 07:30’.
Acordo com as notícias no despertador.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/15]

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Levas-me a Dançar?

Leva-me a dançar.
Era o que eu queria que ela pedisse. Que ela ordenasse. Mas nunca aconteceu.
Leva-me a dançar. Mas eu dançava sempre sozinho. Até a música parar.
Eu saía. Concertos. Cinema. Amigos. Copos. Sozinho. Ela ficava em casa. Sentada no sofá. Uma manta sobre as pernas. Um chá de uma qualquer erva exótica a fumegar na chávena. Os óculos tombados sobre a ponta do nariz enquanto lia um livro. Ou dois. E olhava para a televisão. Noticiário. Sempre no noticiário. Um olho no burro e outro no cigano. É uma expressão. Imersa no livro, estava atenta ao que era notícia. E o telemóvel sempre ali ao lado. Multitasking.
Saíamos. Claro que saíamos. Quase sempre para jantar. Não de uma forma social. Não havia era paciência para cozinhar. Saíamos. Enfardávamos. Regressávamos.
Eu bebia um whiskey à janela. Fumava um cigarro. Olhava a rua. Ora chovia. Ora fazia sol. Ora era noite. Ora havia vida lá fora. Ora a morte cá dentro.
Ela continuava sentada no sofá.
Lia.
Eu olhava-a e pensava Leva-me a dançar. Mas não levava. Não dançava.
E eu saía. Concertos. Cinema. Amigos. Copos.
Um dia estava parado em frente ao Red, Orange, Orange on Red do Mark Rothko. Estava imerso naqueles tons. Estava quente. Com calor. A camisa aberta. As mangas arregaçadas. A boca seca. Custava-me mesmo a engolir a saliva que não tinha e, mesmo assim, pensava Apetecia-me um cigarro. Estar aqui parado, mergulhado neste vermelho-crime, de cigarro na mão, preso na ponta dos dedos, o fumo a colorir de amarelo as unhas mal cortadas e as peles nos cantos que já não consigo ver mas sinto a roçar-se em mim quando meto as mãos nos bolsos.
E ouvi É pena não poder puxar de um cigarro e fumar na companhia deste vermelho. Este vermelho impele-me a fumar um cigarro.
Virei-me.
E vi que era eu. Não era eu-eu. Era eu-outro. Outra. Alguém que sentia o mesmo que eu perante aquela alucinação de Rothko.
Tirei o maço de cigarros do bolso e ofereci-lhe. Ela agarrou no maço. Retirou um cigarro. Colocou-o na boca. Depois virou-se e começou a andar. Olhou para mim e eu segui-a.
Saímos do museu.
Acendemos os cigarros. Fumámos.
Em silêncio.
E no fim ela perguntou Gostas de dançar?
Eu acenei. Que sim. Claro. Muito.
E ela perguntou Levas-me a dançar?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/14]

A Vida Era Simples e Eu Tinha de a Complicar

Eu estava sentado à mesa da sala. Sentado numa das cadeiras da mesa da sala. Era uma mesa que não era muito utilizada. Normalmente fazíamos as refeições na cozinha. Todas. Na sala víamos televisão e, em dias de festa, aí sim, a mesa era aumentada, com uma tábua que tornava a mesa um terço mais comprida, a minha mãe colocava uma toalha de linho, que era só utilizada nestas alturas, com uma toalha de plástico por baixo para não estragar a mesa, sendo que normalmente ficava furiosa porque apareciam sempre pingos de vinho e de molhos da comida, e a toalha ficava com mais uma nódoa porque Vocês são uns porcos! e O que vale é que tenho ali outra, mas não é para as vossas unhas que vocês estragam tudo!, mais o serviço de mesa inglês comprado a prestações na Lora e que, milagrosamente ainda estava inteiro, com peças que eu nunca soube para que é que serviam, mas que viam a luz da ribalta nestas alturas em que nós, todos nós, a família nuclear, de fatinho domingueiro, banhinho tomado e cabelo bem penteado, com o risco ao lado, nos sentávamos então na mesa da sala e parecíamos uma daquelas famílias da televisão, como os Buddenbrook, mas sem o glamour, a aristocracia e o dinheiro.
Eu estava sentado à mesa da sala mas não era dia de festa nem estávamos lá a fazer nenhuma refeição. Estava lá sentado porque eram as cadeiras mais altas de casa e, por causa de um ataque de bronquite, eu precisava estar sentado num sítio alto, muito direito, com os polegares enfiados nas presilhas das calças para abrir os alvéolos e me facilitar a respiração e tentar sobreviver a mais um ataque.
Estava com falta de ar.
Ainda não tinha descoberto o Ventilan.
A minha mãe fazia umas papas com linhaça, que cozinhava no fogão, fazia uma trouxa com um pano e colocava-me esse preparado sobre o peito. Parece que fazia bem à bronquite. E eu ficava assim, quieto, deitado na cama, de barriga para cima, a olhar as teias-de-aranha no tecto, com aquelas papas de linhaça quente sobre o peito, à espera que a bronquite desaparecesse e eu conseguisse voltar a respirar normalmente, como toda a gente.
Naquele dia eu sentei-me à mesa da sala para respirar melhor porque não queria ir para a cama com a trouxa de linhaça.
Naquele dia, que era já noite afinal, era um Sábado de Euro-Festival da Canção e eu queria estar ali, na sala, a ver quem ganhava, em que lugar ficava a canção portuguesa e qual a canção minha preferida para que, no dia seguinte, pudesse comentar com a Malta da Rua.
Tinha um gravador Sanyo ao pé da televisão, onde carregava nas teclas REC (a vermelha) e PLAY ao mesmo tempo para gravar todo o Festival e poder, no dia seguinte, dizer de minha justiça perante a plateia lá da rua.
Eu estava sentado à mesa da sala com dificuldade em respirar, mas atento ao fim da cassete para a virar para o lado B.
Cada vez que me sento numa mesa de sala, penso nos rituais motivados pela minha bronquite.
Cada vez que vejo o Euro-Festival da Canção, lembro-me do António Calvário, da Madalena Iglésias, da Simone, da Tonicha e do Fernando Tordo.
Cada vez que olho para a minha vida penso sempre como ela era tão simples, porque raio tive de a complicar?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/13]

O Poço da Morte

Voltaram as dores de cabeça. Volta-não-volta, elas estão aí. E parece que regressam mais violentas. Hoje consegui descortinar um ponto no meio da cabeça, equidistante, de onde parecia vir toda a dor que me obrigava a fechar olhos e fazia sentir uma enorme vontade de vomitar.
Tomei Brufen 600. Ben-U-Ron 1000. Aspirina MicroActive. Zaldiar. Ben-U-Ron Caff. Clonix. Dois Nespresso. E quase um litro de café da avó. Alguma coisa havia de resultar. Acabei a vomitar.
Mais aliviado, saí da casa. Fui soltar o cão e mandei-o ir chatear os cães das redondezas. Eu fiquei sentado ao sol. Se calhar não foi boa ideia. Mas na altura, foi o que me apeteceu fazer.
Sentei-me no muro do poço a fumar um cigarro.
Ouvia os cães da vizinhança a ladrar. Estavam a ladrar ao cão.
Há muitos anos, um amigo meu morreu num poço assim, como este. Andava a brincar com o irmão e caiu. Num poço mais ou menos como este. Com água. Morreu. Não sei se da queda, se afogado. Não me lembro. Não sei se alguma vez soube. O irmão nunca mais foi o mesmo. Deixei de o ver. A mãe deles deixou de sair de casa.
Fui até à estrada ver se via do cão. Continuava a ouvir ladrar.
Caminhei um pouco ao longo da estrada. Depois parei. À minha frente, a atravessar a estrada, um comboio de lagartas. Aquelas lagartas nojentas do pinheiro. Acho que se chamam processionárias. Que raio de nome. Baixei-me. Olhei para elas. Mas à distância. Parecem ter uma carapaça. Levantei-me e com o pé, juntei-as todas numa roda. Depois deitei-lhes fogo. Elas começaram a arder. Fiquei a vê-las a arder. Pensei que era horrível, o que estava a fazer. Mas já estava feito. Já tinham ardido. Era já tarde para estar com merdas.
Vi o cão ao cimo da rua. Chamei-o. Assobiei. O cão veio a correr para mim, mas depois contornou-me e continuou estrada fora.
Voltei para casa.
Voltei a sentar-me no muro do poço.
Voltei a fumar um cigarro.
Comecei a pensar se as dores de cabeça não seria por causa do tabaco. Olhei para o cigarro. Não! Que estupidez!
Tocou o telemóvel. Atendi. Ouvi. Foda-se!
O cão acabou de matar uma ovelha. Tenho de lá ir buscá-lo. Tenho de pagar a ovelha. Tenho de dar uma coça ao cão. Talvez mandá-lo para o fundo do poço.
Cabrão!
Se calhar são estas coisas que me provocam as dores de cabeça. Os problemas.
Tenho de arranjar uma gaja.
Acho que está a começar a doer-me a cabeça. Outra vez.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/12]

Foto-Sinto-Me

Está frio.
O sol chama-me lá para fora. Saio. Saio de casa. Passo o alpendre. Vou até ao quintal. Desço a ladeira até à estrada de terra batida.
O sol está quente. A rua é mais quente que a casa. A casa é fria.
Não há carros.
Ouço, ao longe, um cão a ladrar.
Vejo, lá em cima no céu, o chemtrail de um avião. Para onde irá?
Do outro lado da estrada, um casal de velhos está a podar as oliveiras. Lembro-me de os ter visto a apanhar a azeitona. Agora podam as oliveiras. Ouço a velha Vê lá se me cortas o dedo, Velho! Sorrio.
Abro os braços. Deixo o corpo espreguiçar-se. Todo eu tremo. É bom sentir o corpo a espreguiçar-se. Pareço crescer.
O sol está quente. Gosto do sol quente no Inverno. Não gosto do Inverno.
Quero regressar ao Verão.
Quero chegar ao Verão. Mergulhar no mar. No mar da Nazaré. Rever o nevoeiro matinal de São Pedro de Moel. Comer um arroz de marisco no Coelho, na Vieira. Umas navalheiras no Tonico, em Paredes de Vitória. Beber umas imperiais no Casino, no Pedrogão. A ver o Atlântico. Sempre a ver o Atlântico.
O gato veio ter comigo à estrada de terra batida. Roça-se na minha perna. Sobe a uma oliveira. Olha para o casal de velhos. Depois vira-se para mim e mia. Quer leite.
Subo a ladeira. Gosto de sentir o sol a bater-me nas costas. Na cabeça. Sinto-me retemperado.
Entro em casa. Regressa o frio. A casa é fria, já tinha dito. Tremo. Visto um casaco. Um casaco de lã. Abro o frigorífico. Agarro o pacote de leite e vou ao alpendre despejar um pouco num pires para o gato.
Largo o pacote de leite no murete do alpendre. Desço as escadas. Volto ao sol. É aqui que estou bem. É aqui que sinto. Que me sinto. Foto-sinto-me.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos. Fumo o cigarro, debaixo do sol, de olhos fechados. A vida às vezes é simples. Bem simples.
Hoje joga o Benfica.
Que me interessa o estado do mundo quando posso estar assim.

Um dia visitei as cataratas de Iguazú. Confluem lá três países. Argentina. Brasil. Paraguai. Eu estava no lado argentino. E via os outros dois lados. Mas o que vi realmente foi o poder de toda aquela água a cair. A fúria. O voo. O som. O princípio e o fim. O princípio e o fim de tudo. Vi a água levar-me. Lavar-me. Abençoar-me. E achei que podia morrer. Depois de ver Iguazú, podia morrer. Feliz.

Abro os braços. Capto o sol. Recebo todo o calor que consigo. Guardo todo o conforto que me dá.
E, depois disto, posso morrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/11]

A Manta

Mais que o conforto do calor, o aconchego era dado pelo peso. Deitava-me na cama, com várias camadas de cobertores, mas tinha de ter, sempre, em cima deles todos, a manta. A manta era uma espécie de tapete-cobertor, pesado, que não era quente nem aquecia grande coisa, mas que pesava sobre mim e me fazia sentir aconchegado e confortável.
Vestia um pijama de turco, material que detestava e que ainda hoje me provoca arrepios no corpo, e por baixo da camisola, que tinha um pequeno fecho abaixo do pescoço para facilitar a passagem pela cabeça, vestia uma Thermotebe. A Thermotebe era uma camisola interior, de manga curta ou comprida, que se vestia por baixo das camisas ou das camisolas de gola-alta ou das camisolas de lã, e que protegia da maior onda de frio polar que aí viesse Europa abaixo. Havia Thermotebe de gola redonda e outras com três botões. Dormia com uma Thermotebe por baixo do pijama e, de manhã, quando me levantava, lavava a cara, os ouvidos, o pescoço, os dentes, tirava a camisola de pijama mas mantinha a Thermotebe. Depois vestia a camisola de gola-alta, depois a de lã, um casaco grosso e estava pronto para ir para a escola.
Gostava de sentir este peso em cima de mim. Era um peso confortável. Quente.
Os anos passaram.
Cresci. Menos do que aparento.
Há muitos anos que deixei de usar pijama. Gosto de dormir nu.
Larguei os cobertores. Adoptei o edredão. Mas ainda guardo alguns cobertores que, em alturas de maior stress ou depressão, vou buscar e enrolo-me neles, como uma segunda pele, que me protege do mau-olhado, da inveja, do azar e da falta de amor. Depois de tudo passado, voltam para o armário. Dentro de sacos de plástico. Fechados a vácuo. Para se protegerem dos ácaros, das traças, das poeiras do tempo e manterem intactas as qualidades de me recuperarem a alma.
A manta ainda anda por aqui.
No meu quarto. Em cima da minha cama.
A manta está sempre por cima do edredão. Mesmo no Verão. Posso tirar o edredão, dormir só com um lençol, mas a manta está lá. Para pesar sobre mim. Para me fazer sentir protegido. Para me proteger.
As Thermotebes acabaram. Desapareceram do mercado. Mas já antes delas terem desaparecido, já eu não as usava. A minha adolescência tornou-me uma pessoa quente. Há muito que já não uso camisola interior. Nem sequer daquelas de alças que muitos homens ainda usam por baixo das camisas.
Não.
Não preciso.
Não tenho frio.
Mas a manta!… Ah, a manta sim, está cá por casa. Em cima da cama. Como uma amante. Onde me deito todos os dias.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/10]

Ainda Estou Zangado?

Parámos em frente um do outro. Apanhados na coincidência. Ela a sair. Eu a entrar. Ela parou dentro do elevador com a mão a bloquear o sensor. Eu fiquei lá fora, à espera de poder entrar.
De início foi um reflexo condicionado. Intuitivo. Esperar que saíssem para eu entrar. Ela vinha, simplesmente, a sair do elevador. Mas entretanto, demos um com o outro. E bloqueámos. A porta do elevador, e não só.
Foram só alguns segundos. Talvez mesmo, uns nano-segundos. Mas que pareceram minutos. Uma hora. Talvez a eternidade.
Quando fora a última vez que estivéramos assim tão próximos? Fisicamente, digo. Quando? Talvez em São Pedro de Moel, quando ela disse o que disse. Ela na sua toalha. Eu na minha. Estávamos também assim, a esta distância um do outro. Mas um muro a separar-nos. Um fosso. Uma incomunicabilidade. Lembro-me que me levantei da toalha. Corri para o mar. Mergulhei. Mergulhei no mar de São Pedro de Moel. No mar Atlântico de São Pedro de Moel. Estava maré cheia. Mergulhei. Furei uma onda. Depois nadei um pouco em frente. Estava furioso. Mas ainda ouvi o apito da Natália. Prrrri! Prrrri! Sabia que o mar estava perigoso. Bandeira vermelha. Mas não conseguia voltar para trás. Encarar toda a gente. Levar um ralhete da Natália. Virei para a esquerda. Nadei ao longo da praia, mas para fora daquela zona. Para longe de toda aquela gente. Para longe dela.
Ela estava com a mão a bloquear o sensor para não deixar fechar a porta. Não sei se estava à espera que eu entrasse ou se queria sair mas não queria passar por mim. Não sabia bem o que estava ali a acontecer. Mas pensei na relatividade do tempo. Pensei que todas as análises que estava a fazer, como se fosse um algoritmo, estavam a acontecer à velocidade da luz e que, na realidade, este cruzamento não durou mais que um breve instante. Não mais que o momento em que os meus olhos olharam os olhos dela que olharam os meus. Um sopro.
O que é que estás aqui a fazer? pensei. O que é que estou aqui a fazer? pensei.
Nadei ao longo da costa. Passei a praia. As várias concessões. As várias Natálias. E saí já depois da zona das rochas. Nas praias mais afastadas. Estava cansado. Deixei-me cair na areia. Na areia molhada fustigada pelas ondas da maré cheia. Sentia a areia a fugir debaixo do meu corpo. Mas estava cansado. Precisava de descansar um pouco antes de me levantar. E quando me levantei, estava cheio de areia. No corpo. Dentro dos calções. No rabo. Na cabeça. Nas orelhas. Mas fui em frente. Subi a duna. Andei pela mata. Apanhei uma estrada. Uma estrada esburacada. Uma rua. Entrei num café. Pedi para fazer um telefonema. Telefonei. E disse Vem buscar-me, e sentei-me numa mesa, molhado, cansado, descalço e só de calções de banho. Pedi uma imperial. E elas foram chegando até chegar quem me vinha buscar. Não sei o que aconteceu depois. Perdi-me nas imperiais. Acho que fiz uns submarinos. Está tudo muito nebuloso. Mas nunca mais a vi. Nunca mais nos vimos. Até hoje. Até agora.
Ela tirou a mão do sensor e saiu do elevador. E quando saiu disse Olá!, quase sobrepondo-se ao meu Olá!, que disparei mal a vi mexer-se e sair do elevador, mas um bocadinho mais atrasado que o dela. Não sei se ela ouviu o meu cumprimento. Eu ouvi o dela. E entrei no elevador. Quarto andar. Dentista. Será que ela ouviu o meu olá? Ou acha que sou mal-educado? Ou que ainda estou zangado com ela? E estou? Ainda estou zangado com ela?
E o que é que isso importa, agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/09]