A Miúda que Estava Naquela Curva a Caminho de Pataias

Era naquela curva a caminho de Pataias, depois de passar a cimenteira, mesmo a meio da curva, por fora, no pinhal mas por fora da curva, estava lá uma poltrona onde a miúda se sentava. Estava lá sempre sentada, fizesse chuva ou sol, estivesse calor ou frio e, se não estivesse, é porque estava ocupada com algum cliente lá mais para trás, no meio do mato, atrás de uma moita, em cima de um velho colchão, sujo e fétido, na companhia das pulgas, a foder com algum camonista.
Aquela era a curva dela. Sempre a mesma desde que a vi a primeira vez que lá passei já faz uns bons anos. Chamo-lhe miúda porque foi assim que me pareceu da primeira vez que a vi. E me fez olhar para ela enquanto fazia a curva de carro a caminho da Nazaré. Estava sentada na poltrona, de perna traçada, uma boa perna, pareceu-me, a fumar um cigarro, e a olhar-me directamente nos olhos. Eu senti os olhos dela cravados nos meus e foi ai que a vi miúda. Claro que já não é uma miúda. Hoje já não é uma miúda. Nem sei se alguma vez o terá sido. Foram os anos que passaram por ela, mas também a vida dura que desempenhava ali, naquela curva a caminho de Pataias para quem vem de baixo, da cimenteira ou da Estação de Pataias-Gare.
Às vezes estava lá um carro parado ao pé da poltrona. Sempre o mesmo carro. Suponho que fosse o companheiro dela. O protector. Às vezes era ele que estava sentado na poltrona. Ela estava em pé, junto à estrada, de saia curta, camisa decotada. Ou sentada no capot do carro. Ou num tijolo. Estava sempre a fumar. Estavam sempre a fumar, os dois.
Quando não era aquele carro, eram carrinhas, camiões. Sempre lá vi carrinhas e camiões. Alguns parecidos. Talvez os mesmos. Talvez tivesse clientes certos. Que paravam sempre ao passar por lá. Um dia vi lá uma Lambreta. Tentei recordar-me de quem conhecia que tivesse uma Lambreta, mas não me lembrei de ninguém.
Não sei se, ela e os clientes, conversavam alguma coisa antes de caírem em cima do colchão. Não sei se ela se lavava. Se ela se lavava antes. Se ela se lavava depois. Se eles se lavavam. Os homens. Mas cheguei a ver garrafões de água de cinco litros. Talvez fosse para se lavarem, não sei. Também não sei se fodiam sempre todos em cima do colchão, ou em pé contra uma árvore, ou simplesmente em pé, com ela dobrada, ou se era só manual, bocal, anal. Não sei. Nem sei se fumavam algum cigarro depois. Não sei se trocavam algum beijo. Acho que não há beijos nestes contratos casuais. Acho que é demasiada intimidade. Talvez os beijos estivessem reservados para o namorado, para o companheiro, para o protector. Também não sei qual era o valor do serviço. Não devia ser muito, para o género de clientes que lá via parados. Mas que sei eu do salário dos camionistas?
A última vez que lá passei estava um casal de velhotes a apanhar restos de lenha e pinhocas, precisamente naquela curva, por fora da curva, a caminho de Pataias para quem vem da cimenteira. Não vi lá a poltrona. Não sei se os velhotes levaram a poltrona se a miúda mudou de poiso. Talvez tivesse adoecido. Talvez tivesse morrido. Pensei nisso, que talvez tivesse morrido. Talvez às mãos de um cliente. Talvez às mãos do protector.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/05]

A Vida Era Simples e Eu Tinha de a Complicar

Eu estava sentado à mesa da sala. Sentado numa das cadeiras da mesa da sala. Era uma mesa que não era muito utilizada. Normalmente fazíamos as refeições na cozinha. Todas. Na sala víamos televisão e, em dias de festa, aí sim, a mesa era aumentada, com uma tábua que tornava a mesa um terço mais comprida, a minha mãe colocava uma toalha de linho, que era só utilizada nestas alturas, com uma toalha de plástico por baixo para não estragar a mesa, sendo que normalmente ficava furiosa porque apareciam sempre pingos de vinho e de molhos da comida, e a toalha ficava com mais uma nódoa porque Vocês são uns porcos! e O que vale é que tenho ali outra, mas não é para as vossas unhas que vocês estragam tudo!, mais o serviço de mesa inglês comprado a prestações na Lora e que, milagrosamente ainda estava inteiro, com peças que eu nunca soube para que é que serviam, mas que viam a luz da ribalta nestas alturas em que nós, todos nós, a família nuclear, de fatinho domingueiro, banhinho tomado e cabelo bem penteado, com o risco ao lado, nos sentávamos então na mesa da sala e parecíamos uma daquelas famílias da televisão, como os Buddenbrook, mas sem o glamour, a aristocracia e o dinheiro.
Eu estava sentado à mesa da sala mas não era dia de festa nem estávamos lá a fazer nenhuma refeição. Estava lá sentado porque eram as cadeiras mais altas de casa e, por causa de um ataque de bronquite, eu precisava estar sentado num sítio alto, muito direito, com os polegares enfiados nas presilhas das calças para abrir os alvéolos e me facilitar a respiração e tentar sobreviver a mais um ataque.
Estava com falta de ar.
Ainda não tinha descoberto o Ventilan.
A minha mãe fazia umas papas com linhaça, que cozinhava no fogão, fazia uma trouxa com um pano e colocava-me esse preparado sobre o peito. Parece que fazia bem à bronquite. E eu ficava assim, quieto, deitado na cama, de barriga para cima, a olhar as teias-de-aranha no tecto, com aquelas papas de linhaça quente sobre o peito, à espera que a bronquite desaparecesse e eu conseguisse voltar a respirar normalmente, como toda a gente.
Naquele dia eu sentei-me à mesa da sala para respirar melhor porque não queria ir para a cama com a trouxa de linhaça.
Naquele dia, que era já noite afinal, era um Sábado de Euro-Festival da Canção e eu queria estar ali, na sala, a ver quem ganhava, em que lugar ficava a canção portuguesa e qual a canção minha preferida para que, no dia seguinte, pudesse comentar com a Malta da Rua.
Tinha um gravador Sanyo ao pé da televisão, onde carregava nas teclas REC (a vermelha) e PLAY ao mesmo tempo para gravar todo o Festival e poder, no dia seguinte, dizer de minha justiça perante a plateia lá da rua.
Eu estava sentado à mesa da sala com dificuldade em respirar, mas atento ao fim da cassete para a virar para o lado B.
Cada vez que me sento numa mesa de sala, penso nos rituais motivados pela minha bronquite.
Cada vez que vejo o Euro-Festival da Canção, lembro-me do António Calvário, da Madalena Iglésias, da Simone, da Tonicha e do Fernando Tordo.
Cada vez que olho para a minha vida penso sempre como ela era tão simples, porque raio tive de a complicar?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/13]

A Mulher

Ela chegou à paragem do autocarro e já lá estava bastante gente. Nem pensar em sentar-se naquele banquinho para três pessoas. Já lá estavam cinco, todas apertadinhas. Foi para o fim da fila, ao longo do passeio. Pensou como iria ser quando começasse a chover. Aquela chuva batida a vento. E encolheu os ombros e pensou que seria como das outras vezes. Como nos outros anos. Apanharia uma molha. Chegaria a casa encharcada. Mas não ficaria doente. Nunca ficava doente. Não podia ficar doente. Não podia dar-se a esse luxo. Mas a verdade é que nunca ficava mesmo doente. Às vezes achava que era um super-poder. Deu um pequeno sorriso. Olhou para os lados para ver se ninguém tinha dado pelo riso. Estava sozinha, a rir. Ainda pensavam que era doida. Mas não era. Ela não era doida.
A fila ia andando lentamente. Já tinham passado dois autocarros que vinham muito cheios. Olhou para a senhora ao seu lado. Bem vestida. Elegante. Perfumada. Chegava-lhe ao nariz o perfume da senhora. Um cheiro doce. Gostou do cheiro. Gostava de perfumes. Às vezes cheirava os perfumes das casas onde trabalhava. Mas nunca os punha em si. Não queria que as senhoras cheirassem os seus perfumes em si. Ajeitou o casaco de malha que levava vestido. Endireitou as golas. Sentiu-se destoar.
Olhou para a estrada. Via passar carros e motas. Algumas bicicletas, que agora era moda. Todos com pressa. Ela também tinha pressa. Tinha de ir fazer o jantar ao filho. Mas não lhe adiantava de nada estar com pressa. A fila não ia andar mais depressa por isso. Já conhecia a estória. A estória da sua vida. Esperar. Era esse o ritmo. O seu ritmo. O ritmo da sua vida. As coisas eram assim. E não mudavam.
Finalmente viu outro autocarro. Mas percebeu, pelo número que ostentava, que não era o seu. Continuou serena a ver a vida a desenrolar-se à sua volta. Já se tinha habituado a isso. A ver a vida dos outros a acontecer. E deixar-se ficar para trás. Porque da vida dela, ela já não esperava grande coisa. Sempre pensou primeiro nos outros. Nas vidas dos outros. Tentava ajudar os outros. Que os outros conseguissem fazer alguma coisa das suas vidas. Foi assim com o marido. Era agora assim com o filho. Seria assim no futuro, e se tudo corresse bem, com o neto. Tudo o que fazia era por ele. Por eles.
O autocarro parou e entrou muita gente. A fila andou bastante e ela aproximou-se do banco. Só lá estava uma rapariga sentada. Perguntou se alguém, à sua frente, se queria sentar. Ninguém lhe respondeu. E ela sentou-se. Finalmente, sentou-se. Agora que estava sentada, como o saco de cartão com a bata para lavar, no chão, entre as pernas, e a carteira presa nas mãos ao seu colo, é que sentiu como estava cansada. Todo o santo dia a girar de um lado para o outro. A lavar. A limpar. A cozinhar. A passar a ferro. O passar a ferro era o que lhe custava mais. Estar ali assim em pé, dobrada, com o ferro na mão, pesado, a fazê-lo deslizar ao longo da tábua, o braço a conduzi-lo, a virar a roupa, a esticá-la, borrifá-la, tirar-lhe os vincos, insistir, ir com o ferro duas vezes, três vezes ao mesmo sítio. Arre! E quando era a capa do colchão? Ou aqueles lençóis com elásticos? Gostava muito de fazer as camas com eles. Eram muito práticos. Ficavam muito bem esticados na cama. Era um gosto ver as camas assim, tão bem feitas e esticadas. Lisinhas. O horror, mesmo, era passá-los a ferro. E dobrá-los. Como é que se dobra um lençol que não tem pontas? É preciso saber. São precisos muitos anos. E ela sabia. E tinha todos esses anos de conhecimento acumulado.
Encostou a cabeça ao acrílico nas suas costas. Estava mesmo muito cansada. E estava a saber-lhe muito bem estar ali assim, sentada naquele banco de alumínio, duro e frio, desconfortável, com a cabeça apoiada atrás, a descansar ao fim de um longo dia de trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/13]

Esta É uma Entrada que Também Pode Ser uma Saída

Destaque

Começou tudo a 27 de Junho de 2017. Desde esse dia comecei a publicar um pequeno conto diário, escrito directamente no Facebook. Um conto escrito de um só fôlego. Um conto diarístico, partindo, muitas vezes, de factos e acontecimentos reais que vivo ou observo. Depois comecei a guardá-los aqui. E está aberto a quem os quiser ler. É só entrar nestas páginas, sem se preocupar em sair. Há muito para ler.