O Homem Binário

Progressista, farto de todos os eus que me habitam, farto das guerras que mantenho dentro de mim, matei-me analógico e renasci digital.
Tornei-me binário num mundo simplificado. Para mim, assim:
Zero ou um.
Sim ou não.
Dia ou noite.
Branco ou preto.
Homem ou mulher.
Género ou transgénero.
Benfica ou Sporting.
Lisboa ou Porto.
Portugal ou Espanha.
Europa ou o resto do mundo.
O mundo ocidental ou o mundo oriental.
Cão ou gato.
Livro ou filme.
Futebol ou andebol.
Polícia ou ladrão.
Esquerda ou direita.
O fascismo ou o comunismo.
A verdade ou a mentira.
O ser ou o ter.
Ir ou ficar.
Subir ou descer.
Contra ou a favor.
Positivo ou negativo.
Deus ou o diabo.
O bem ou o mal.
O religioso ou o profano.
O crente ou o não crente.
Cinto ou suspensório.
Carro ou carrinha.
Motorizada ou bicicleta.
Tremoços ou pevides.
Doce ou amargo.
Doce ou salgado.
Cerveja ou vinho.
Tinto ou branco.
Alguém quer saber do rosé?
Matar ou ser morto.
Comer ou ser comido.
Foder ou ser fodido.
Amor ou ódio.
Eu ou tu.
Tu ou ele.
Nós ou os outros.
Viver ou morrer.

Estou cansado.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/08]

O Dia Seguinte

Cada vez se torna mais difícil sobreviver ao dia seguinte.
O dia em que o mundo quer morrer.
O dia da ressaca.
O dia que passo debruçado na retrete a deitar fora o que o fígado já não quer tratar.
Cada vez se torna mais insuportável descobrir-me velho, velho e fraco. São os cabelos que acordam comigo na almofada, a minha única companheira de cama. São as peles que respondem à gravidade e tombam por mim abaixo. São os papos nos olhos. Os dentes que caem. Os pêlos que crescem nas narinas. As unhas que encravam. Os lábios finos, ridículos. As manchas no corpo. O cheiro, o cheiro a velho, o cheiro a velho e a morte.
Ontem dancei até de madrugada. Beijei perfumes. Bebi vinho tinto alentejano. Shots de vodca. Linhas de velocidade.
Ainda sei o que era um B52.
Um broche.
Uma chinesa.
E hoje?
Hoje é o dia seguinte.
O dia em que juro e prometo.
O dia em que me vendo em troca de um pouco de juventude.
Já não vou à igreja.
Nem a casa dos pais.
Já não frequento os amigos.
E perdi a família.
O que me resta é o resto. O que fica.
O que ninguém quis. Ninguém quer.
Ontem dancei até de madrugada com os fones nos ouvidos. Ninguém quer mais ouvir Cabaret Voltaire e Ultravox.
Ontem dancei até de madrugada e depois fui comer pão quente com manteiga Milhafre.
Bebi um chocolate quente.
Depois entrei no carrossel de Maio de onde ainda não saí.
E já não tenho mais nada para deitar fora.
Só se me deitar a mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/27]

Aniversário

sim, lembro-me que era uma quinta-feira, uma quinta-feira como hoje, como hoje não que não chovia e hoje chove e agora mesmo caiu uma forte carga d’água, estava sol mas se calhar não estava e estas memórias já são falsas, mas era fim-de-dia, acho que era, ouvi-te chorar e sorri, ainda sabia sorrir então, sim ainda sabia sorrir e ainda não tinha sentido o medo e a mágoa que se lhe seguiu, por isso sim, era um dia assim quase como o de hoje, mas sem chuva, e eu sorria, como sorrio agora ao lembrar, ao ouvir-te chorar, e fazias uma cara tão feia a chorar, acho que fazias, mas não eras feio, só fazias uma cara feia a chorar e foi por isso, foi talvez por isso que paraste de chorar, para que não fizesses mais uma cara feia a chorar, e eu ainda sorri mais porque paraste de chorar e também sorriste como deves fazer hoje, pelo menos é o que eu acho que fazes, sorris, talvez, no dia de hoje como fizeste naquela quinta-feira que lembro, pelo menos acho que lembro, que te vi sorrir para mim assim como eu sorria para ti

[escrito directamente no facebook em 2019/11/07]

E se Eu Fosse?…

E se eu fosse preto? Devia ser maltratado por isso?
E se eu fosse branco? Devia ser glorificado?
E se eu fosse homossexual? Gay? Paneleiro? Maricas? Bicha? Sapatona? Lésbica? Lambedora de velcro? Fessureira? Fufa? Estaria fora da lei de Deus?
E se eu fosse Bispo católico? Devia ser pedófilo?
E se eu fosse Bispo evangélico? Devia receber dízimo?
E se eu fosse Pastor protestante? Devia foder?
E se eu fosse ateu? Devia não ter direito a viver em paz?
E se eu fosse mulher? Devia acusar um homem de assédio?
E se eu fosse homem? Devia assediar uma mulher?
E se eu fosse deputado português? Devia ir a Serralves ver as pilas do Mapplethorpe?
E se eu fosse deputado português? Devia legislar em causa própria?
E se eu fosse deputado português? Devia ser leal ao partido? Devia ser fiel ao povo que me elegeu?
E se eu fosse Santana? Devia fazer mais um partido igual aos outros a fingir que é diferente?
E se eu fosse Aníbal? Não, eu não podia ser Aníbal!
E se eu fosse professor? Devia gostar do Mário Nogueira?
E se eu fosse PSP? Devia pagar a farda?
E se eu fosse GNR? Devia pagar a farda?
E se eu fosse Comando? Devia morrer na recruta?
E se eu fosse parvo? Devia levar um par de estalos?
E se eu fosse Índio norte-americano? Devia pôr o Donald Trump fora dos Estados Unidos?
E se eu fosse o Donald Trump? Devia assediar mulheres? E homens? E gabar-me de ser único? E grande? E enorme? E espectacular? E devia levar dois pares de estalos?
E se eu fosse Alexandre Frota? Devia fazer anal técnico?
E se eu fosse Jair Bolsonaro? Devia dar um tiro nos cornos?
E se eu fosse Povo? Devia ser estúpido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/05]

Volátil

Ela vai à frente a correr. Não vai sempre? Não vai sempre à frente? A correr? Vai a correr desalmada duna acima, duna abaixo. Em direcção ao mar. Às ondas frias de Setembro. E mergulha sem medo.
Ela vai à frente a correr, mas vira-se. Vira-se para trás. Vira-se sempre para trás. Para mim. Ou sou eu que a faço virar? Que imagino que ela se vira? Ela vira-se para trás mas não lhe vejo a cara. O sol bate-lhe nos cabelos d’ouro e explodem em partículas douradas que a escondem. E não a consigo refazer.
Como esqueci a cara?
Mergulha.
Mergulha e vai, vai, vai por ali fora até ao princípio do mar.
Princípio de incertezas.
Até aos meus olhos?
Até às lágrimas dos meus olhos?
Onde moro? Onde moram?
O sangue corre ácido nas veias. Cospe. Vomita.
Como esqueci a cara?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/28]

Mulheres que Já Conheci

Já conheci mulheres assim e assado;
Mulheres que cozinharam para mim e para quem eu cozinhei;
Mulheres que me sustentaram e a quem eu dei vida;
Mulheres com dores de cabeça e que me atormentaram;
Mulheres que me amaram e eu odiei;
Mulheres que eu amei e me fugiram;
Mulheres que me deram banho e eu pintei;
Mulheres orgulhosas e de quem me fartei;
Mulheres loucas, doidas, e que me desnortearam;
Mulheres que me compreendiam e que eu não percebi;
Mulheres que me agarraram com unhas e dentes e de quem eu escapei;
Mulheres louras, morenas, pretas e ruivas;
Mulheres por quem eu lutei;
Mulheres por causa de quem matei;
Mulheres que amei;
Mulheres que odiei.
Enfim, mulheres, como são todas aquelas por quem me deslumbrei.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/10]