Qual o Preço da Vida?

…e depois, cada vez mais me convenço da nossa pequenez, mesmo quando explodimos de grandiosidade e damos passos enormes, maiores que nós, e o futuro nos parece risonho e o Homem se põe em bicos-dos-pés para tentar ser Deus, dar a volta ao cosmos e ultrapassar a morte, descobrimos que somos o nosso próprio horror, quando nos tornamos carrascos de nós próprios e injuriamos e batemos e matamos quem temos ao nosso lado, porque queremos ser donos do que não nos pertence, e olho para os jornais e vejo as notícias sobre os 1% que comanda, efetivamente, este mundo, e percebo que todos nós queríamos ser, em alguma parte do tempo e do espaço, esse 1%, achando que podíamos ser donos e senhores da vida e morte de outrem, mas as manchetes do jornais enchem-se de indignação, nós enchemo-nos de indignação, as caixas de comentários dos jornais online enchem-se de indignação e as redes sociais indignam-se por inteiro, em coro, tudo muito alinhadinho, sem vozes discordantes nem dissonantes, e vimos todos condenar do alto de todas as nossas certezas e convicções, o criminoso quando, a bem da verdade, fomos nós os criminosos, nós os que deixámos acontecer, nós os mansos, nós os que estamos parados à beira da estrada a ver passar o cortejo dos horrores, a ver passar Auschwitz e o Trabalho que Liberta, Sarajevo, o Ruanda, o Médio-Oriente, e que só nos preocupamos com a nossa vidinha, vemos passar o cortejo dos horrores mas não nos metemos que não nos diz respeito e depois vamo-nos indignar em conjunto, porque em grupo é tudo mais bonito e simples, e não é preciso pensar, alguém o há-de fazer por nós e só temos de seguir a maré, não levantar ondas para que a indignação não se abata sobre nós, e por isso até sabe bem quando Elon Musk sugere que tudo isto é uma simulação, a nossa vida e a indignação e o futebol e o assédio e violência doméstica e a morte são apenas o resultado de um qualquer programa computacional à escala cósmica e nós não somos mais que 0s e 1s que alguém programou para ser assim, agir assim e terminar assim, mas quando vejo o filme O Quadrado do sueco Ruben Östlund, candidato ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, em representação da Suécia, filme onde se reflecte sobre o vazio e a virulência das sociedades actuais, sobre as constantes mudanças de códigos sociais e culturais e qual o preço que tem a vida de qualquer um de nós e qual o nosso papel nesta exposição absurda, onde todos temos os mesmo direitos e deveres, só que não, a realidade abate-se cruel sobre a teoria que…

[escrito para o Jornal de Leiria em 2018/02/01]

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O Amor… Que Vai e Vem

…sobreviver ao Natal, esta festa cristã que a economia conseguiu pôr a render mais que qualquer outra festa e que leva inclusivamente a olhar de lado quem não sente nenhuma empatia por este lufa-lufa entre lojas, umas mais caras outras mais baratas, à procura de coisas para oferecer, tendo o cuidado de pedir o sacro-santo talão de troca porque já se sabe que quem dá dá uma coisa qualquer, comprada sem o mínimo de sentido e muito menos objectivo, e quem recebe acha que merecia outra coisa bem melhor ou mais de acordo com o estatuto género raça ou credo e a roupa não é prenda e os pares de meias e a caixa de Ferrero-Rocher que andam há anos de casa em casa sem nunca encontrarem abrigo, mas é estranho que este ano nem um Ferrero-Rocher franqueou as portas de minha casa, e que deve ter algum significado mas não quero agora pensar nisto até porque o que importa é a orgia do bacalhau com as couves e o polvo e o peru e o cabrito, quando não é borrego, e o camarão que agora é quase de graça comprado nos supermercados e já nem é preciso acordar de madrugada nem andar à tareia com alguém da fila, porque já não há fila para o comprar, regado a um qualquer vinho, este sim, caro, com um bom rótulo porque vai à mesa e é preciso impressionar, como impressionante foi ver que todas as estradas da cidade iam dar ao Shopping, a abarrotar pelas costuras com gente que se passeia, e também compra, depois de enfrentar filas de trânsito de horas, enquanto a cidade fica deserta, definhe e é palco de actividades lúdicas e populares o suficiente para trazer cá para dentro quem cá não vive porque as pessoas que habitam a zona velha devem ter o hotel pago durante estas eternas festividades que infestam esta zona de tanto barulho que não deve haver gente que resista a estas terapias de choque de alegria a todo o custo e, ainda mal refeitas desta loucura natalícia, que muitos já esqueceram o que celebra e, como já disse lá em cima no texto ostraciza quem não acredita no Pai Natal, nos unicórnios, em princesas da Disney nem príncipes de cavalo branco que os divórcios dos pais ajudaram a esquecer, ganha-se pedalada para a Passagem de Ano onde os foliões vão gastar as energias do ano passado e as do seguinte, entrando já neste novo ano em deficit, mas muito alegres e contentes que o que é preciso é esta alienação da vida, não é preciso ler, estudar, aprender, discutir, perceber, o que é necessário é competir, ser melhor, ir mais longe, ganhar e depois extravasar tudo no vómito de uma festa de Passagem de Ano como se nos preparasse para as tristezas que o novo ano nos traz mas que, ansiosamente acreditamos que seja melhor que o outro e desta é que é e é agora que a humanidade muda e que as pessoas largam o livro de cheques e o cartão de crédito e vão finalmente abraçar-se umas às outras e dar mimo e colo que é, afinal, o que todos nós andamos à procura mesmo quando estudamos a física-quântica: o amor, o raio que o parta do amor que vai… e vem…

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/12/28]

Fora da Caixa, mas em Ambiente Controlado

e então era assim: génios claro, claro que sim, a escrever, a pensar, a dizer, a criar, a inventar, a jogar, a pular, a representar, a fazer qualquer coisa extraordinária que o mais comum dos mortais não consegue fazer daquela maneira, assim, como foi feita pelo génio, aquele que aprendemos a amar, mesmo que acabemos a odiar, mas que aprendemos primeiro a amar, por vezes nem tanto por aquilo que fez, por aquilo que conhecemos do que fez, mas por aquilo que alguém disse que fez e da sua importância e que a comunicação social elevou à potencia, às vezes até do mal, porque os génios tombam de um lado para o outro, bastando, para tal, exercitar o seu direito opinativo como qualquer um de nós, mas não o podendo fazer porque é génio e esse não se prende em articulações mundanas estúpidas que só interessam aos idiotas que não têm a genialidade da criação à porta de entrada, e então o génio não pode dizer de ninguém que é um metafísico da meia-foda, muito menos se o metafísico for o Milan Kundera no auge da sua glorificação graças a À Insustentável Leveza do Ser, mesmo que o aforismo parta da língua solta de António Lobo Antunes porque o génio tem de ser respeitoso e impoluto, domesticado, ou quanto muito, exercitar as suas verve irascível e maldisposta em casa alheia porque muito se gosta do escárnio, do maldizer e da asneira se não for em nossa casa, sobre a nossa pessoa e para os nossos ouvidos puros, pudicos e virgens, incapazes de semelhantes vilezas sobre os nossos semelhantes, a não ser que sejam do clube errado, do partido errado, do sexo errado, que prefiram a cor errada, ou nos tenham traído e colocado um belo e pouco recatado par de cornos, ou então glorificar essa maledicência desde que criada, construída e vivida em casa alheia porque o amor nunca é suficiente para aguentar tamanhos dislates de génio dentro de casa, dentro do quarto, dentro da cama, onde não se passa nada mais que a posição de missionário porque somos todos filhos da cristandade, o Natal está à porta e o Pai Natal só dá presentes a quem se portar bem, por isso quer-se dos génios que eles pensem fora da caixa sim, mas em ambiente controlado para não dizerem o que não devem como o Ricardo Araújo Pereira que acabou excomungado pela Fernanda Câncio por não ter dito nada do que ela leu, mas que ela leu e portanto ele escreveu e ele tem graça e liberdade desde que eu não seja o alvo, nem pense que o sou, porque mais importante que a falta de limites ao génio é o respeitinho que é uma coisa muito boa e bonitinha e que cabe debaixo da árvore de Natal durante o mês de Dezembro, ao lado dos presentes, caros e brilhantes que

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/11/23]

Quantas Vezes Temos de Perder as Nossas Vidas?

Este espaço era para falar da minha paixão pela Surma depois de ouvir Antwerpen e depois dos vários, não muitos admito, concertos que vi. Só que, entretanto, aconteceu Domingo. E São Pedro de Moel. Desculpa, Débora.

Fui alertado por amigos do que estava acontecer no Pinhal do Rei. Um braseiro. São Pedro de Moel estava cercado pelas chamas. Ninguém podia sair. A primeira preocupação foi a família. Ao descobrir todos bem, veio o amargo pelo que estava acontecer a um sítio que já foi, para mim (e sempre será nas minhas memórias) uma espécie de quintal das traseiras onde vivi uma parte muito importante da minha vida. Um quintal cheio, vivido, silencioso…

Ao mesmo tempo acabei por descobrir que São Pedro de Moel não era caso único. O mesmo estava a acontecer um pouco por todo o país, do Tejo para cima. E descobri o horror. Mais de 500 fogos activos ao mesmo tempo. Ainda não consigo processar a coincidência. É demasiado certinho para ser natural.

A fúria, logo seguida da frustração, não tardou a chegar. Os canais de notícias mantiveram, até demasiado tarde, as suas emissões normais. Quando passaram aos directos, foram em busca do circo, da imagem de encher o olho, da emoção, da morte. A informação concreta do que se estava a passar e onde e como e porquê e como sobreviver em certas zonas e o que fazer e as necessidades e toda a informação relevante e útil acabou por chegar pelos meios de comunicação regionais e, acima de tudo, pelas tão mal tratadas redes sociais.

Ainda não refeitos de Pedrogão Grande, o inferno voltou a consumir-nos. E não aprendemos nada. Quantas vezes temos de perder as nossas vidas para perceber? As beatas lançadas do carros, as queimadas, os plásticos largados no chão… Não me interessa demissões de ministros. Nada tenho contra a compra de submarinos, que um dia podem ainda vir a ser úteis. Mas é necessário que se priorizem as prioridades. Onde estão os guardas-florestais? A limpeza das matas? O controle da industria da eucalipto? As nomeações por mérito e responsabilidade? É necessário que quem coordena saiba coordenar. E que quem investiga, investigue. E que quem julga, julgue. Mas não só politicamente. Estamos a falar de negócios, de negócios de milhões que se fazem à custa da morte, da madeira queimada, dos eucaliptos, dos terrenos, dos helicópteros e aviões, da reconstrução, do reordenamento, da alteração de políticas e, acima de tudo, do poder que se exerce.

Segunda-feira o ar estava irrespirável em Leiria. Seguramente muito pior na Marinha Grande, em São Pedro de Moel e noutros pontos críticos do país. Descubro que o Pinhal do Rei desapareceu. E quem me trata da bronquite?

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/10/19]

Setembro

Gosto de Setembro.

Setembro já foi um mês de Victor Espadinha. Agora também é meu.

E é o meu mês preferido. Pelo menos hoje. Agora. Não, não é o meu mês preferido. Por mais que o tentasse dizer, não conseguia suportar a mentira ou melhor, esta pequena e curta inverdade. Mas gosto de Setembro. Houve uma altura que não gostava, mas agora gosto. Acontece-me muito disto.

Comecei a gostar de Setembro com os Earth, Wind & Fire e a música September que, embora me embale o Verão (é disco sound, aquele som de que não gosto, mas que não consigo evitar dançar), já promete o Outono, os dias mais frios, mas ainda não cinzentos, e a boa disposição. “Say do you remember // Dancing in September // Never was a cloudy day”. E há muitos anos que danço September. Vem com as festas dos amigos de sempre, por troca com as festas dos conhecidos de ocasião.

É um mês que não é carne nem peixe, é uma salada mista. Ainda me permite ir à praia, mergulhar no mar e beber cervejas na esplanada com os amigos noite fora. Mas já me obriga ao casaquinho para evitar as constipações, talvez uma mantinha sobre as pernas e um copo de vinho tinto a acompanhar a Liga Nacional e dos Campeões.

Setembro já me enterrou os amores de praia na areia e já me franqueia as portas para o amor de lareira, mais quentinho e sossegado.

Já consigo passear à beira-rio sem os magotes de gente que procura o fresco do rio – agora evitam-no por ser demasiado húmido –, e como se está bem aqui, à beira-rio, na polis de Leiria, quase sozinho, na companhia do vento que se levanta e me empurra caminho fora e me leva a pisar as folhas castanhas já caídas, e que os meus pés esmagam com um delicado som crocante, enquanto há ainda umas folhas verdes lá no alto que me protegem do sol e do cacimbo, que este mês tem de tudo.

Regressam as aulas e com elas o desejo de voltar, também eu, a frequentar a escola, voltar a ser adolescente e repetir os erros todos outra vez: Setembro é um mês de nostalgia, de saudade e de desejo melancólico. Um desejo mais quente que o de Agosto, este mais desassossegado.

Mas o melhor de tudo de Setembro, é que já é o princípio do próximo Verão. Não tarde nada já passei incólume o Natal, São Valentim, o Carnaval e a Páscoa. Com um pouco de sorte sobrevivo mesmo às eleições autárquicas e quando der por ela, estou de novo na praia, a viver amores de Verão.

É por tudo isto que gosto mesmo muito de Setembro.

 

[escrito para o jornal de leiria em 2017/09/14]

A Senhora dos Tremoços

Sou um apaixonado tardio de São Pedro de Moel. Passei as férias de infância familiares errático entre Nazaré e Pedrogão. A Praia da Vieira e São Pedro de Moel foram pequenos fogachos de algumas escapadelas solitárias. Mas ainda me lembro do pontilhado de casas clandestinas espalhadas pela costa de São Pedro de Moel ou do Pai do Frangos, versão casa antiga, rés-do-chão, agarrada à terra. Quando comecei a crescer, foi a noite que primeiro me levou a estas praias: a discoteca Riomar na Praia da Vieira e a Hot Rio em São Pedro de Moel. As praias eram os vestígios do dia seguinte quando a noite se prolongava. Mas as memórias dessas manhãs não deixavam grandes glórias matinais. Um dia a vida levou-me para São Pedro de Moel. Passei lá um dia inteiro. Depois, vários dias. Fui à praia. Conheci o famoso nevoeiro que não deixa levantar o sol antes do meio-dia. Fui apresentado aos restaurantes e cafés da terra. Palmilhei as ruas, os empedrados, a caruma, a areia. Conheci o anfiteatro que é a construção do casario de São Pedro. Fiz a volta dos Cinco e dos Sete. Cheguei, antes de me aburguesar, a acampar nos dois parques de campismo existentes, um virado para o mar, outro para o pinhal. Comi os percebes arrancados às suas rochas, mas daqueles virados ao mar onde são açoitados pela fúria das águas – e não, não era eu que os ia apanhar. Cheguei a acompanhar as quatro estações e a descobrir a beleza que era (e ainda deve ser) São Pedro de Moel no Inverno. O tempo cinzento, a chuva miudinha, o barulho do mar ao fundo mas sempre muito presente, os raios a cair no horizonte em noites de temporal, os cafés e o mini-mercado que nunca fechavam para servir a meia-dúzia de pessoas que lá vivia o ano inteiro. Gostava bastante daquele silêncio, da pouca gente, do que parecia ser um fim-do-mundo bastante agradável onde conseguia ouvir os sons dos meus passos ou da respiração mais pesada no dias de maior humidade. Mas o que mais gostava de São Pedro de Moel era dos tremoços e das pevides que a mesma senhora, ano após ano, ali, sempre no mesmo sítio, sempre ao lado do senhor das pipocas, me servia e que, por vezes, me levava a ir de longe, de propósito, só para as ir buscar. Não sei se a Senhora dos Tremoços ainda lá está. A vida afastou-me de São Pedro de Moel. Mas se ainda lá estiver, acredito que continuarão a ser os melhores tremoços e as melhores pevides do mundo.

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/08/10]