Conversa Sobre o Tempo

Levantei-me do sofá e fui vestir uma camisola. O tempo arrefecera. Enquanto em Monchique andavam no rescaldo do incêndio, por aqui o frio voltava em força.
Falo sobre o tempo e parece que não tenho mais nada do que falar. Não é verdade. Há tanta coisa sobre a minha vida e sobre os dias em que me movo para dizer que poderia preencher resmas de folhas da Navigator ou encher discos externos de um tera só com as histórias que vivi, vou vivendo, gostaria de ter vivido ou vou ter de viver. Palavreado não me falta. A repetição deve-se à repetição da vida. Há dias que são iguais. Dias e semanas e meses formados nos mesmos moldes. Uns saídos a papel químico dos outros.
Tive mesmo de ir buscar uma camisola. Estava a ver um filme na televisão e fui aguentando até ao fim. Claro que podia ter parado o filme, ou puxado para trás para retomar o fio-à-meada depois de me ter levantado para ir buscar a camisola. Mas sou da velha guarda. Gosto de ver um filme do princípio ao fim de uma vez. Sem pausas. Sem pausas mesmo para mijar. Quando o filme terminou, libertei um arrepio de frio pela coluna acima. Levantei-me e fui buscar uma camisola.
Não deixa de ser bizarro. Tem estado um calor infernal. Sufoca-se na rua a meio do dia. O ar queima ao passar pela garganta. Isso era ontem. Hoje estou com frio. Com tanto frio que fico com azia ao respirar o ar gelado que se pôs. O excesso de calor já provocou incêndios. Ontem houve um na serra de Monchique. O céu ficou chumbo. Vi, na televisão, imagens de uma mulher a salvar uns cavalos. Coitados dos cavalos, de todos os outros bichos que não se conseguem salvar e morrem carbonizados, e coitadas das pessoas que perdem entes e vêm os seus bens perderem-se na voragem das chamas. Às vezes a vida pode ser um inferno. Depois é preciso recomeçar outra vez. Recomeçar de novo. E forças?
E no meio de tudo isto, na Europa Central, chuvadas torrenciais levam a desgraça à Alemanha e à Bélgica. Cidades construídas em leito de cheia são destruídas. Campos alagados. Carros arrastados pela fúria das águas. Já viram a água furiosa a caminho de um sítio qualquer?
Acho que temos de voltar a falar, mas a sério, das alterações climáticas. Não só por causa dos meus dias, e das diferenças que ocorrem de um dia para o outro, mas também. Lembro-me da miúda sueca a quem chamavam de tonta. A miúda que começou solitária e que acabou a arrastar multidões, de miúdos como ela mas também alguns adultos. Alguns continuam a achar que ela é chalupa. Eu acho que nós é que somos parvos por continuarmos a aceitar as coisas como elas são sem arrepiar caminho. Às vezes parece que só lá vamos ao estalo.
No outo dia, na farmácia, pediram-me uns cêntimos para pagar um saquinho pequenino de papel que se rompe com facilidade. Normalmente não quero sacos. Mas eram muitas embalagens de vários medicamentos. Depois pensei melhor e disse para a farmacêutica Tenho de pagar para fazer publicidade a essa empresa que está nos sacos? E ela disse Pois!… Agarrei nas embalagens de medicamentos e coloquei-as no regaço, em cima da t-shirt que acabei por dobrar para me servir de saco.
Posso abdicar de tudo. De carro, de telemóvel, de micro-ondas. Se as coisas são prejudiciais, parem-nas. Parem a produção. O crescimento infinito é uma falácia, sabem? E pagar cêntimos por sacos de plástico ou de papel que empresas pagam para lá virem gravadas é só pura ganância. Acabem com a porra dos sacos, destes sacos de uso único.
Entretanto o frio aumenta. Acabo a fazer um chá. Quem diria? Em pleno Julho, a beber chá quente para me ajudar a aquecer. Malditos dias, estes.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/18]

Podias Ter-me Deixado Lá Onde Me Encontraste!

Eu disse-lhe Podias ter-me deixado lá onde me encontraste!
Ela não disse nada. Ficou zangada comigo. Eu sei quando ela fica zangada comigo. E quando não me responde, nem dá seguimento às minhas conversas, eu sei que está zangada comigo. E eu também sei que o que lhe disse é motivo de zanga. Ela fica furiosa quando eu lhe falo nisto, quando eu a lembro de quando me encontrou, de quando me foi buscar, de quando me trouxe para aqui.
Eu estou-lhe agradecido. O que ela fez foi dar-me uma segunda oportunidade.
Quando a vida, a minha vida, não corre como devia, ou como eu queria que corresse, eu fico zangado, fico zangado comigo, comigo e com a minha vida, com a minha exposição na vida, e digo coisas que não devia, mas preciso de dizê-las para aliviar o corpo, o coração, a cabeça e para não ter de voltar a ser encontrado lá onde fui encontrado. É por isso que eu digo Podias ter-me deixado lá onde me encontraste! É um grito. Uma asneira, uma caralhada. É um exorcismo. Mas sei que ela não gosta. Sei que, para ela, o ter-me encontrado foi uma prova de fogo, ela própria foi posta à prova e passou com distinção, mas consumiu-a. Ela ficou desmembrada. Teve de ir buscar forças ao mais fundo de si própria e não quererá voltar a passar pelo mesmo outra vez. Eu sei. Eu sei e ela sabe que eu sei. É por isso que não diz nada. Mas consome-se lá por dentro por minha causa.
Eu poderia evitar dizer o que digo. Ainda por cima, não é culpa dela as desgraças que se abatem sobre mim. O acaso, eu próprio, sei lá. Qualquer coisa. O destino. A porra do destino, que é a maneira mais fácil de tentar arranjar explicação para o que não tem. É assim, a vida. Uns ganham e outros perdem. Uns ganham sempre e outros perdem sempre. E depois grito. Blasfemo. Magoo quem me quer bem para me magoar a mim próprio. Sim, no fundo, o que eu quero é magoar-me a mim próprio. É ir para o sítio onde ela me encontrou sem ir para o sítio onde ela me encontrou. É por isso que lhe digo Podias ter-me deixado lá onde me encontraste.
Ela está sentada no sofá a ouvir as notícias num canal de notícias. Talvez a RTP3. Eu andei para a frente e para trás a tentar arranjar uma maneira de lhe pedir desculpa. Mas não é fácil voltar a falar no que aconteceu.
Já fumei dois cigarros. Bebi um whiskey. Fui à janela uma dúzia de vezes. O final da tarde já deu lugar à noite. Ainda não falámos depois de eu ter dito o que disse. Nem jantámos. Nenhum de nós arriscou fazer o jantar. Ela continua na sala, sentada no sofá a ouvir as notícias sobre as enxurradas na Alemanha e na Bélgica. Sobre o incêndio na serra de Monchique.
Sento-me ao lado dela. Coloco a minha mão sobre a dela. Os dedos da mão dela reagem à minha mão e acariciam-me os dedos. Não olhamos um para o outro. Estamos em processo de recuperar o ambiente anterior. É melhor não forçar as coisas. Para já, houve um pedido de desculpas sem ser necessário pedir Desculpa! E as desculpas não pedidas foram aceites na forma de umas festas. Agora só precisamos de tempo. Eu e ela. Eu às vezes sou uma besta. Ela tem uma paciência do caralho para me aturar. Depois só precisamos de um pouco de tempo. Tempo para perder a zanga e esvaziar a fúria. Gosto do calor da mão dela.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/17]

Belo Adormecido

Fechei os olhos à ida e voltei a abri-los quando já estava de regresso.
Sentado no topo do barco, no meio do povo carregado de lancheiras, malas térmicas e colchões de ar, o sol a bater-me na cara, o som da água a deslizar por baixo do ferry e as conversas amenas que se ouviam ali à volta embalaram-me. Os olhos fecharam-se e adormeci.
Despertei quando uma moto-de-água esgalhou o motor ao lado do ferry, macho-alfa em exibição parola, e ultrapassou-nos para parar logo de seguida com algum problema no motor. Acordou-me. O sol já estava do outro lado do ferry. O ferry já não ia, vinha. E o que é que se tinha passado entretanto? durante o resto do dia? entre o ir e o voltar?
Há buracos de tempo nas minhas memórias. Nas mais imediatas mas também nas mais antigas. Não é que me esqueça do que aconteceu. Parece é que não aconteceu nada.
Eu ia para a praia. E, depois, vinha da praia. Trazia o cabelo cheio de sal, o corpo queimado, não bronzeado, queimado mesmo, depois de três anos sem ir à praia, e mesmo utilizando protector solar factor trinta, e sim, sentia ainda creme no corpo, mas parecia uma lagosta suada, corada. Os lábios gretados, talvez pela falta de água e excesso de calor. Os testículos com areia. As unhas das mãos, e as dos pés, estava de chinelos e via as unhas dos pés, estavam sujas.
Talvez não tenha acontecido nada e tudo seja uma ilusão. Posso nunca ter saído de casa. Posso nunca ter subido no ferry. Posso mesmo nunca ter ido à praia.
Talvez tenha acontecido tudo noutra dimensão. Talvez tenha caído do ferry numa oscilação e passado por um portal. Talvez tenha chegado a uma praia. Uma praia longínqua onde tive de caminhar durante horas com uma linha de horizonte que se mantinha sempre à mesma distância até que talvez tenha chegado. Talvez tenha espetado o chapéu na areia, espalhado creme protector pelo corpo, pelo menos nas zonas onde tenha conseguido chegar, e me tenha deitado a dormitar enquanto o sol me lambia o corpo branco e o torrava. Talvez tenha ido ao banho ali, no sítio onde o mar e a ria se cruzam, a água morna, as ondas pequeninas, a maré suave, aquele chapinhar sonolento e a pouca gente que estava e os que estavam, provavelmente, estavam calmos e silenciosos. Talvez tenha comido um papo-seco com queijo e presunto. Talvez tenha comido um generoso cacho de uvas pretas. Talvez tenha devorado um Tupperware cheio de pedaços de melão e melancia. Talvez tenha bebido uma garrafa de água de litro e meio. Talvez tenha bebido um café no apoio de praia a meio do dia. Talvez tenha bebido um gin tónico a meio da caminhada de regresso ao ferry, em fim de dia, para ter forças nas pernas e não me deixar abater pelo caminho interminável. Talvez tenha voltado a entrar no ferry de regresso e, a meio da viagem, ao passar pelo mesmo portal que me puxou para lá, para a outra dimensão, tenha sido cuspido de regresso e, efectivamente, nada tenha realmente acontecido aqui, deste lado, onde eu não cheguei a chegar onde ia e acabei por regressar sem ter ido onde devia. Tudo um sonho, provavelmente. Talvez. A minha vida sempre muito dada a talvez.
Não me quero perdido em dúvidas.
Amanhã retomo a viagem. Amanhã irei atento. Amanhã guardarei memória da minha ida à praia para poder ter mais um capítulo da minha vida. Sem dúvida. Sem buracos na memória. Talvez.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/16]

Olhão

Olhão é, talvez, o segredo mais bem guardado do Algarve. A meio caminho de Tavira, o segredo revelado, para quem vem de Faro, Olhão não é uma localidade turística de pernas abertas à espera dos voos charter das ilhas britânicas, tem vida própria, gente nativa de pele curtida pelo sol, terra de pescadores, de pescadores e peixeiras, e outras gentes normais com empregos normais e banais que fazem andar os dias, uns atrás dos outros, para quem ainda há cafés e snack-bares e restaurantes e pizzarias a preços de gente normal, com empregos normais e salários estupidamente baixos normais.
Olhão não é praia. Mas está perto delas. Não é uma terra bonita, mas tem o seu charme. Olhão tem um grande problema, ainda não está estragada. Mas temo que, mais dia menos dia, esse assunto seja resolvido. Há obras ao longo de toda a linha de água e, quando vejo obras desta envergadura, quando se tenta embelezar o que já era bonito, assusto-me sempre.
Quando se chega a Olhão, assume-se um certo desgosto. Aquelas entradas são feias. Fazem lembrar algumas localidades em volta de Lisboa. Localidades tristes e miseráveis. Arredores dos arredores. Casas sem história e sem arquitectura. Mas depois entramos naquilo que será a zona velha, a zona histórica, perto do mercado, e somos puxados para dentro do vórtice para o qual poucos são chamados. Foi daqui que saiu gente que foi fundar a Baía dos Tigres, frente ao Namibe. O mercado é bonito, construção do início do século XX, em tijolo vermelho, rodeado de bares e restaurantes entre o gourmet e o popular, dá para toda a gente, para todos os gostos e para todas as carteiras.
Dei uma volta para estacionar o carro e parei em zona livre, onde os parquímetros não entram. Um luxo. Repito. Estacionei o carro em zona livre de pagamento. Ficou lá parado o tempo todo e o tempo todo locomovo-me a pé. Há lá melhor maneira de conhecer uma terra?
Volto atrás. Olhão não é praia. Mas dá-se com elas. Partem, diariamente, várias vezes ao longo do dia, mais ou menos a todas as horas, barcos com destino às praias da Armona, da Culatra e do Farol. É só escolher. A mais próxima, a da Armona, necessita de uma viagem de quinze minutos. A mais distante, a do Farol, requer uma viagem de quarenta e cinco minutos. A Culatra fica a caminho do Farol.
Chegados às praias, praias para as quais, depois de atravessar a ria de barco é necessário galgar sapais a pé, temos sol e mar. Uma água nem quente nem fria, amena e limpa. Um sol devorador. É preciso usar protector solar. Pouca gente. Por momentos senti falta de gritaria, jovens aos toques na bola, a jogar raquetas, a fazer peito em rituais de acasalamento a impressionar miúdas, miúdos aos berros, pais a discutir a bola, mães a queixarem-se das notas dos filhos ou, talvez devessem, dos dramas da pandemia. Não. Gente tranquila que aguarda ordeiramente a vez para entrar nos barcos, para sair dos barcos, para caminhar ao longo dos passadiços para chegar à praia, casas-de-banho limpas, asseadas e com papel-higiénico e toalhas para as mãos. Gente que, na praia, mantém a distância. Gente que, em trânsito, anda toda de máscara. Gente que pára numa esplanada para beber um café ou uma cerveja e portam-se como pessoas. E não berram. Conversam. Em alemão, em inglês, em francês e espanhol e, também, em português com várias pronúncias.
Olhão é um segredo e, na verdade, o meu conselho é que não vão para lá. Deixa-na continuar assim, só para algumas pessoas que não querem encontrar Albufeira em todos os outros sítios. Nem há hotéis. Bom, até há. Há um hotel novo e todo luxuoso, mas que eu não fui lá coscuvilhar. Há Alojamento Local em casa antigas que se andam a recuperar. Aos poucos. Porque Roma e Paiva também não se fizeram num dia.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/15]

Numa Esplanada à Beira da Ria

Os enormes chapéus de sol vermelhos, da Super Bock, abanam ao vento. As abas estalam como chicotes. Dobram-se ao vento que se levantou. Esteve um dia quente. Ainda está. Mas levantou-se vento. À minha frente, no pequeno porto de recreio, os barcos, pequenos barcos a motor, um ou outro catamarã, nada de muito chique nem muito ostensivo, andam para cima e para baixo ao sabor das ondas levantadas pelo vento.
As esplanadas estão cheias. São vários os bares, restaurantes, cafés, geladarias com esplanadas viradas à ria. Ao fundo, depois da marina e da ria, vê-se a língua de terra da ilha que se espalha ao longo da costa. As pessoas olham para lá. Os mastros dos barcos ancorados na ilha andam violentamente de um lado para o outro. O vento está mais forte lá ao fundo. Ao meu lado, duas senhoras bebem vinho branco e comem uns camarões. Na marginal, em jeito de passeio, um Labrador, com coleira, passeia-se sozinho olhando para as pessoas nas esplanadas como se procurasse alguém. Uma rapariga de vestido, que parece querer levantar voo, fala para um telemóvel e, quando o Labrador passa, passa-lhe a mão pelo pêlo, desequilibra-se e deixa cair o telemóvel ao mar. Sem pensar duas vezes, mergulha atrás dele. Eu vejo-a mergulhar e penso que deve estar doida.
De uma outra esplanada lá mais ao fundo, vem o som alterado de vozes. Alguém discute. Os meus olhos viram-se para o sítio de onde vem o barulho e vejo uma rapariga dar um estalo na cara de um velho, levantar-se da mesa, despejar um copo, talvez uma caipirinha, para cima do velho e ir-se embora esbaforida, a refilar alto. As pessoas estão como o tempo, agitadas.
Levo um cigarro à boca. Acendo-o. Reparo que ninguém está de máscara mas é normal, não é?, aqui come-se e bebe-se e fuma-se, as mesas estão distantes, algumas das pessoas estão sozinhas, como eu, e não se passa nada para além do vento que se levantou e que pode transformar-se em tempestade, ou não, que eu não percebo nada disto e sou só um cronista dos dias que correm soltos à minha volta.
Agora passa uma bola, empurrado pelo vento, passa paralela à linha do mar e não cai. Atrás da bola surge um miúdo que corre que nem doido atrás dela enquanto a manda parar Pára! Pára! mas a bola continua imparável empurrada pelo vento.
A rapariga que mergulhou atrás do telemóvel, já me tinha esquecido dela, surge de baixo, surge do mar, encharcada, com o telemóvel nas mãos, e vejo-a levar o telemóvel ao ouvido e gritar Está? Está? mas parece que não está ninguém ou, pelo menos, ninguém a ouve.
Acabo com o resto da imperial que está à minha frente. Não sei se peça outra. As ondas estão mais altas, uma delas bate contra o paredão e rebenta à minha frente. Algumas pessoas são molhadas. Eu também sou salpicado. Penso que é melhor ir embora. Mando fora o cigarro. O sol já se foi. O vento está mais forte, o mar mais agitado e está a começar a fazer frio. Talvez venha mesmo aí uma tempestade. Já não vejo o Labrador. O miúdo vem ao colo do pai, deve ser o pai, e traz a bola nas mãos. A rapariga continua a tentar falar para o telemóvel. As duas senhoras estão agora a beijar-se e uma delas tem um camarão descascado na mão, à espera do momento certo para o levar à boca.
As outras pessoas que enchem todas estas esplanadas são outras estórias que eu não li. Não posso ler tudo. Algumas estórias são só para estarem ali, ou para serem lidas por outros. Eu vou-me embora. Já li a minha dose. Acho que vem aí tempestade.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/14]

E se Ele Cai

E se ele cai, parte a cabeça, a bacia ou os pulsos ao colocar as mãos para se apoiar, para se proteger.
E se ele cai, cai para a frente ou para trás, cai desamparado, com todo o peso acumulado dos anos, ossos frágeis, músculos flácidos, pele enrugada.
E se ele cai, cai de uma vez e já não se levanta. Fica.
E se ele cai, do alto da ponte, da fonte, do cimo do prédio, do campanário da igreja, do muro de betão sobre a arriba, cai fundo e desaparece. Desaparece entre as brumas do passado ou as ondas da maré.
E se ele cai, leva-me com ele e caímos os dois. Cabrão.
E se ele cai, é uma queda sem retorno, ponto final, parágrafo, não mais uma vírgula nem um ponto e vírgula nem um travessão.
(mas se ele cai entre parêntesis podem abrir-se e fechar-se os parêntesis e a queda é qualquer coisa de entretanto, um anexo, uma nota talvez relevante mas pode não ser fatal nem final)
E se ele cai, cai furioso e quer levar toda a gente com ele na queda, que não há-de cá ficar ninguém para gozar a desgraça alheia. A dele.
E se ele cai, morre, morre de uma vez, sem parêntesis nem segundas oportunidades.
Se ele cai, cai.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/13]

Levantou-se uma Ventania

Lá fora o vento sopra. Hoje já esteve um tempo quente de derreter o alcatrão da estrada. Depois arrefeceu e subiu a ventania. Seria boa para secar a roupa se eu tivesse roupa no estendal. Não tenho. Não tenho lavado roupa. Não tenho saído de casa. Não tenho tomado banho nem mudado de roupa. Passo os dias de boxers, e às vezes visto uma t-shirt, a mesma que está sempre caída sobre a poltrona do quarto. Já aconteceu ter de a vestir durante a noite quando arrefece e eu sinto frio na minha nudez e a pila diminui tanto que às vezes parece que a perdi não sei onde.
Não sei porque falo tanto do tempo. Talvez não tenha mais do que falar. Talvez estas alterações climáticas intervenham demasiado na minha vida. A verdade é que esta inconstância me anda a afectar. Nunca sei com que contar e isso irrita-me. E quando me irrito, faço merda.
Espreito através da janela fechada para o vento lá fora. As árvores vergam. Há uma bacia de plástico a voar. Acho que já é mais que uma pequena ventania que se levantou. O céu escureceu. Ainda estamos no final da tarde e parece quase noite.
A luz acabou de faltar. Deixei de ouvir o zumbido do frigorífico. As horas no relógio digital do forno, desapareceram.
Acendo um cigarro. Estou nervoso. Parece que há qualquer coisa no ar. Sinto-o. De repente, caiu sobre mim uma certa angústia. Engulo a saliva com dificuldade. Tenho a boca seca. Vejo o cigarro tremer entre os dedos da mão. Lá fora o vento parece ser, agora, uma tempestade. Não sei do cão nem dos gatos. Devem estar escondidos. Espero que estejam protegidos. Não vou lá fora, agora. Não assim, com este tempo. Como o dia se pôs!
A luz não regressa. Já não vejo quase nada em casa nem na rua. Ouço o rugido do vento ao passar pela casa.
Apago o cigarro. Vou até ao quarto. Deito-me na cama. Levanto o edredão e deito-me debaixo dele. Cubro-me todo. Os pés e a cabeça. Tapo os ouvidos com as mãos mas continuo a ouvir os gritos lancinantes do vento. Tento pensar noutras coisas mas não consigo pensar em nada. Só tomo atenção ao barulho na rua. Estou sozinho e estou a ficar com medo.
Agora rebentou qualquer coisa. Talvez uma janela. O barulho da tempestade parece ter entrado pela casa dentro. Devia levantar-me e ir ver o que é que aconteceu. Talvez resolver o problema se tiver resolução. E se for a tempo. Talvez uma janela se tenha aberto. Ou um vidro partido. Mando-me ir mas não vou. Fico. Não me obedeço.
O som parece cada vez mais alto. Cada vez mais perto de mim. Dentro de casa, talvez dentro do quarto, talvez por cima de mim. Acho que o som ensurdecedor está dentro de mim, dentro da minha cabeça.
Grito. Grito para abafar o som. Grito mas não me ouço. Só o barulho. O barulho ensurdecedor dentro da minha cabeça. Vou sair debaixo do edredão. Vou sair e ver o que se passa. Tenho de sair. Tenho de conseguir sair. Tenho de arranjar coragem. Mas estou de boxers e sinto-me diminuído. Que merda!

[escrito directamente no facebook em 2021/07/12]

Onde a Terra Acaba e o Mar Começa

Onde a terra acaba e o mar começa, mergulho. Mergulho de cabeça, as mãos tateantes, os braços esticados, prolongo-me debaixo de água, vou enquanto os pulmões aguentam, depois subo, abro a boca, recupero oxigénio, lanço os braços, primeiro um, depois o outro, por cima da cabeça, por baixo de água, a cabeça a um lado, ao outro, respiro, volta a ir a um lado, ao outro, respiro.
Onde a terra acaba e o mar começa, mergulho e sigo em frente. Não olho para trás, não retrocedo, sigo em frente, para a América, a terra dos sonhos, dos homens livres, dos bravos.
Onde a terra acaba e o mar começa, termina uma vida e inicia-se outra. Choro? A água do mar não deixa perceber. Obrigado, Neptuno. Obrigado Poseidon.
Tudo o que fica para trás fica para trás. É preciso não olhar para não nos tornarmos sal. O futuro é em frente. E estico os braços, forço a navegar. Um, dois, três, respiro. Um, dois, três, respiro.
Onde a terra acaba e o mar começa é uma linha divisória entre uma vida e outra, entre a vida e a morte, entre o medo e a coragem.
A água entra-me nos ouvidos e amplia-me os sons. Parece o fim do mundo. Mas não é. É só o meu fim do mundo. Bebo água. Não consigo não beber. Bebo água. Tusso. Vomito. Tento continuar a nadar. Um, dois, três, tento respirar mas faltam-me as forças. Insisto. Um, dois, três, forço-me a respirar.
A terra já não acaba porque não há terra para acabar. Páro de nadar. Olho em volta. Tudo é mar. É para onde, a América? Ainda dá para regressar atrás? Não tenho forças. É o fim do mundo, talvez? O meu fim do mundo? É só água, a perder de vista. Estou perdido. Estou só. O mar já não começa. O mar é.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/11]

Arroz de Miúdos

Chegámos cedo. Quer dizer, nem chegamos assim tão cedo, mas não era tarde. Fomos os primeiros a chegar. Quer dizer, quando chegámos, não havia lá ninguém, mas já lá tinha ido gente marcar sítio. Havia mesas de plástico e cadeiras em clareiras, debaixo da sombra de algumas árvores, outras em recantos. Marcavam o sítio, claro. Aqueles lugares estavam já marcados pelas pessoas que queriam ir ali almoçar em jeito de piquenique. Nós passámos ao largo das mesas e cadeiras de plástico, e de uma mala fechada, a mala era uma mesa que se abria e lá dentro, aposto que estavam os pés da mesa e os bancos ou pequenas cadeirinhas. Passámos ao largo e fomos um pouco mais dentro do mato, junto ao ribeiro, para filmar. Mas o raio do ribeiro não se calava. Uma barulheira ensurdecedora e tivemos que mudar de sítio. A natureza é cruel. Voltámos para mais perto das mesas de plástico.
Começámos a filmar.
Levantou-se o vento.
Os pássaros começaram a chilrear.
Uma motorizada de escape aberto passou na estrada mas, o barulho chegou-nos como se estivesse ali mesmo, ali ao nosso lado.
Entretanto, chegou um carro. Um carro com a família de uma daquelas mesas e cadeias de plástico. Quase para cima de nós. Uns putos saíram do carro aos berros com uma bola nas mãos e começaram a jogar. A jogar e a berrar. Pedimos um pouco de silêncio, se faz favor, um pouco de paciência, se faz favor, era só um pouquinho, um pouquinho pequenino para acabar de filmar uma coisa que ainda nem tínhamos começado.
Que sim, pois. As câmaras de filmar têm sempre este efeito mágico que cativa as pessoas. Pelo menos no início.
Ao fim de três quartos de hora ainda não tínhamos acabado e a família estava impaciente, os putos já bufavam, a mãe estava de trombas e o pai parado, a olhar para nós, a fazer pressão.
Acabámos por ali. Pedimos desculpa e agradecemos.
Esta coisa estúpida de filmar ao fim-de-semana. Esta coisa estúpida de filmar ao Sábado. O Sábado é dia de descanso, de piquenique, da libertação do excesso se energia acumulada durante a semana, da ligação à natureza, de corpo deitado numa manta a olhar as nuvens a passarem através das pequenas aberturas na ramagem das árvores.
A mãe da família estendeu-nos um Tupperware com rissóis. Aceitámos. Depois veio o vinho, em copo de vidro. E quando demos por nós, estávamos sentados numa manta a comer um arroz de miúdos. Mais tarde eu haveria de me deixar cair na manta a olhar para as nesgas de céu que conseguia ver através das pequenas aberturas na ramagem das árvores e pensar Por que raio haveria de vir filmar a um Sábado? O Sábado é dia de descanso, de piquenique, de libertação do excesso de energia acumulada durante a semana, é dia de ligação à natureza. E assim foi. E já não filmámos nada do que tínhamos previsto filmar. Acabei por me embebedar e alguém levou-me a casa, já não sei quem.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/10]

04:44′

Sou acordado por um pequeno estremecimento na cama. Viro-me e vejo-a de costas para mim, sentada, com as pernas para baixo, os pés, provavelmente descalços, no chão. Vejo as horas no brilho digital do despertador. 04:44’ a hora do fim do mundo. Isto segundo o filme do Abel Ferrara. Estará o mundo para acabar? Talvez o meu mundo?
Pergunto-lhe Onde vais?, mas não sai nada. Tenho a voz sumida. Pigarreio. Aclaro a garganta. Repito Onde vais? e, sem se virar para mim, diz Vou fazer chichi. Mas continua ali sentada, na beira da cama, sem se levantar, sem se mexer. Pergunto O que é que se passa? Ela cruza os braços no peito, junto ao peito, vejo os dedos a aparecerem sobre os ombros, como se estivesse a proteger-se, e diz Estou sempre a sonhar. Uns sonhos estúpidos. Eu estico o braço, a minha mão toca na pele nua das coxas. Afago-a. Tento acalmá-la. Estou aqui!, não digo mas é como se dissesse. Ela vira a cabeça para mim e faz-me um sorriso. Um sorriso amarelo, se percebi bem neste lusco-fusco nocturno só iluminado pela claridade da lua que entra no quarto pela janela aberta. Acho que esforçou o sorriso para me agradecer o carinho. Mas não surtiu efeito. Os sonhos dela tendem a ser horríveis, eu sei. Metem mortes de gente que conhece. Às vezes pensa se não são desejos que ela tem, desejos inconfessáveis de que aconteça algo de mal àquelas pessoas. Às vezes acho que sou eu própria que me provoco estes sonhos! disse-me uma vez. E eu disse-lhe que não fosse tonta, que não controlamos os sonhos. Para ficar descansada. E passei-lhe um copo de vinho para as mãos. Até lhe disse Olha para mim, eu nem sonho! E gostava de sonhar!
Ela levantou-se e vi-a desaparecer do quarto, engolida pelas sombras do resto da casa. O silêncio permite-me sentir-lhe os pés descalços sobre o soalho de madeira, a porta da casa-de-banho a abrir-se, entra mas não fecha a porta nem acende a luz, levanta a tampa da sanita, ouço-a sentar-se, um silêncio, depois uns pingos que tombam sobre a água da retrete, numa enxurrada, depois diminuem, escasseiam, mas continuam a cair, devagar, até pararem por completo. Ouço o rolo de papel-higiénico a rodar, um rasgo no papel. Depois ouço-a levantar-se da sanita e puxar o autoclismo. Faz muito barulho o autoclismo. Muito mais ainda se a casa está em silêncio como agora. Sinto um barulho a sobrepor-se ao outro. Talvez esteja a lavar as mão. Pode ser a torneira do lavatório. Depois pára. Continua o autoclismo a encher o depósito. Sinto o bater da porta da casa-de-banho que ela deve ter puxado quando saiu. Conto até três e ela vai entrar pelo quarto. Um, dois três… e vejo-a a entrar na zona iluminada do quarto. Senta-se na cama, exactamente como estava quando se levantou e me acordou. Deita-se. Os olhos no tecto. Eu pergunto-lhe Estás melhor? e ela diz Sim.
Ela vira-se para o meu lado e agarra-se a mim. Eu olho por cima dela, para as horas luminosas do relógio digital na mesa-de-cabeceira e vejo que são 04:44’. É a hora em que o mundo vai acabar, penso. A hora do fim do mundo.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/09]