Estão no Meu Simulador

Não estou preocupado com o estado das coisas. Isto é uma simulação que estou a jogar. Uma espécie de RPG. É por isso que não me vejo – só ao espelho. Mas vejo as minhas mãos. As pernas. Todo o corpo do pescoço para baixo e a parte da frente. Até a pila.
Claro que há variáveis inerentes ao jogo que não posso dominar. São variáveis da matriz do jogo e que respondem às minhas escolhas. As minhas opções políticas produzem uma determinada construção social, económica e política à minha volta. As minhas opções clubísticas, sexuais, ambientais e de género condicionam o mundo que se monta à volta de mim.
Eu sei que têm dificuldade em acompanhar o meu raciocínio. Mas entendam, se eu morresse, e eu não sei quantas vidas tenho para jogar porque nunca perdi nenhuma, por enquanto, mas se eu morresse definitivamente para o jogo, o jogo parava. Ele só existe porque eu o jogo. Dito de outra maneira, o mundo só existe porque eu o concebo. Sou uma espécie de Deus deste mundo onde vocês se movimentam para minha glória.
Eu poderia ter optado por outro tipo de personagem. Se calhar de maior predominância social e cultural. Mas isso também requeria maior conhecimento do jogo do que aquele que eu tenho. É a primeira vez que o jogo, acho. Sou uma personagem relativamente secundária por opção. Quando se é secundário as exigências do jogo são menores. E é maior a possibilidade de seguir em frente. Não é uma questão de qualidade de jogo, só ao alcance dos grandes jogadores, mas de quantidade de jogo. Eu tento manter-me em jogo o máximo tempo possível. Encarnei a ideia de simulação mais que de jogo. Eu quero mais simular que jogar. Uma espécie de Sims. Ou Civilization. Eu espero construir-me.
O fantástico desta simulação é que o mundo é constituído por coisas boas e coisas más. E são as minhas opções que as vão despoletar. E eu gosto disto. Mesmo sendo secundário, acabo por ter responsabilidades nos caminhos que a simulação enceta.
Mas isto não me livra de alguns sustos. Mesmo sabendo que estou a jogar um jogo, a viver digitalmente uma vida simulada, alguns dos problemas da época e do mundo que eu escolhi acabam por me assustar quando tendo a esquecer-me que estou numa simulação. Lembram-se quando apareceu pela primeira vez o reality show Big Brother? Uma das questões mais debatidas era o facto de, a partir de certa altura, e por ser uma constante, os participantes no jogo esqueciam-se das câmaras e que estavam a ser filmados e num jogo. A simulação em que eu estou também me faz esquecer, por vezes, onde estou. Quando surgiu a SIDA, tive medo de a contrair. Porque pensava que era real. E, na verdade, poderia terminar a simulação ao morrer de uma intervenção inerente ao próprio jogo. Hoje já não me assusto, mas evito. Sei que posso contrair cancro. E que perderia o jogo se o contraísse. Mas na verdade não morria. Porque a minha vida é fora daqui. A minha vida é real num mundo real. Não nesta simulação.
Eu sei que têm uma certa dificuldade em acompanhar o meu raciocínio. Afinal, todos vocês são variáveis do jogo. Julgam que existem mas, na verdade, são só 0’s e 1’s. Sujeitos aos algoritmos que baralham as cartas e as distribuem. Mas eu também não escrevo estas coisas para vocês. Já sei que não entendem. Escrevo isto para mim. Para não me esquecer. Para não me esquecer que estou num jogo. Num jogo que quero ganhar.
Mas farto-me de rir comigo próprio. É que nem numa porra de jogo eu consigo fazer batota ou ser um filho-da-puta com as variáveis que me acompanham. Acho que nunca irei chegar ao fim desta simulação. Nunca irei ganhar o jogo.
E, daí…

[escrito directamente no facebook em 2018/10/19]

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A Casa de A.

Faço a cama de lavado. Viro o colchão. Capa. Lençóis. Fronhas. Edredão. Tudo muito esticadinho. Aliso as dobras. Volto a passar a mão. Como se fosse um ferro suave e morno. Afasto os possíveis vincos. Mas são imaginários.

Coloco quatro almofadas. Duas delas sem utilidade prática. Para quê, tudo isto?

Todos os dias de manhã faço a cama. Estico os lençóis, puxo o edredão, dou umas pancadas nas almofadas. Parece um show room. Para quem?

Qual o mal de deixar a cama aberta? Lençóis e edredão puxados para trás, caídos aos pés da cama? Assim a cama até areja do meu cheiro nocturno. Qual a necessidade de puxar tudo para cima?

Abro as janelas e deixo o quarto respirar. Gosto de abrir as janelas. Principalmente de Inverno. Gosto de sentir o frio a penetrar-me os ossos. Gosto do vento a varrer as misérias para longe. Gosto de sentir o quarto respirar. Por vezes coloco o edredão à janela. Permitir-lhe a golfada de ar fresco. Mesmo que depois venha impregnado de cheiro a gasolina. Ou a fritos do restaurante chinês.

Aspiro o quarto. Não, não aspiro. Esqueci-me que o aspirador continua avariado.

Ponho-me de gatas e limpo o chão com um pano húmido. Não molhado. Húmido.

Mando duas das almofadas pela janela aberta. Não servem para nada. Acumulam pó. Rua.

Tenho uns pontos pretos na parede. Moscas e mosquitos mortos à paulada durante a noite. Aquela porra não sai. Já pensei em pintar a parede. Já esteve pintada de amarelo torrado. Uma cor de merda. Não sei o que me passou pela cabeça. Também tive o quarto alcatifado. Durou um mês. Arranquei tudo. Gostava de sentir os pés nus sobre a alcatifa nos primeiros dias. Depois o pó começou a tomar conta de tudo. O pó que entra pela janela aberta quando quero cumprimentar o frio e sentir-me vivo. Ganhei comichão nos pés. Arranquei tudo. Agora também há pó. Mas não se entranha nos pelos da alcatifa.

Vou à cozinha. Faço um chá de hibisco. Enquanto a água ferve tomo um duche rápido. Visto uma roupa prática. Um casaco de algodão sobre a t-shirt. Depois levanto a tampa do Mac. Sento-me na mesa da cozinha com uma caneca de chá a fumegar. Abro o Word. E começo a escrever:

Cena 01 Casa de A. – Cozinha Int. / Dia

As janelas da cozinha para a rua estão abertas.

A. está sentado frente ao computador na mesa da cozinha. Ao lado, uma caneca fumegante. Pega num maço de cigarros e acende um. Fuma enquanto olha para a folha em branco no ecrã do computador.

Começa a escrever. Na folha em branco começam a aparecer umas palavras: “Faço a cama de lavado.”

[escrito directamente no facebook em 2018/10/18]

Não Há Ninguém Lá Fora

Começou a chover. Chegou o tempo cinzento. Já vesti um casaco de malha. O meu corpo já deu sinal. Outono.
Todo eu fui atrás do meu corpo. Tremo. Está frio. Está frio em casa. Mais ainda que na rua. Mas na rua chove. Recolho-me.
Acendo a lareira. Uso umas velhas Selecções do Reader’s Digest que nem sei como chegaram aqui. Foram aparecendo. Como tudo, aqui. Tudo foi aparecendo aos poucos. Como eu. Eu também fui aparecendo. Aos poucos. E um dia já cá estava antes de aparecer. Agora estou por aqui. Sou um pouco como as Selecções. Estou à espera de ser útil. Mas fecha-se-me o tempo.
Começou a chover. Não fechei a janela. Gosto dos pingos da chuva a salpicarem a sacada da janela e tombarem para dentro de casa.
A luz baixou. Acendi a lareira.
Gosto de olhar as chamas a crescerem. Gosto de ouvir o crepitar da lenha seca. Gosto de ver as várias cores que pintam as chamas. Gosto desta minha solidão confortável. Não que me restasse outra.
Fiz umas torradas. Um chá de menta. Um luxo que não vou conseguir manter.
Já não consigo ler com esta luz. Tento recordar estórias. Manter-me acordado. Manter-me em jogo.
Quando o dia morrer por completo já só restará a luz da lareira. E as sombras nas paredes vazias. As sombras das chamas. E das minhas estórias. As verdadeiras e as inventadas.
Aguardo amanhã. Aguardo poder sobreviver a outro Inverno. Nem sei porquê.
É por isso que falo?
Uma justificação?
Agora chove com mais força. O chão já começa a estar bastante encharcado. A madeira começa a chiar. Reclama.
Levanto-me e fecho a porta da janela. Olho lá para fora. Não há ninguém na rua. Não há carros. Nem motas. Não há cães. Nem gatos. Nem pássaros.
Queria um cigarro.
A noite cai.
A lareira consome as Selecções do Reader’s Digest.
Não há ninguém lá fora. Não há nada.
Cá dentro também não. Resto eu. Até quando?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/17]

A Mulher, parte 04 e final

[continuação de ontem]

Ela ia no autocarro a caminho de casa. Ia no caminho inverso ao que fazia todos os dias a esta hora. A esta hora estava a caminho do trabalho. Hoje estava a caminho de casa. Normalmente ia em pé porque o autocarro já ia cheio quando parava ao pé de casa. Hoje ia em pé, mesmo com muitos lugares vagos, porque estava nervosa. Ansiosa por chegar a casa. Queria ver o filho. Queria saber se estava bem.
Ia em pé, agarrada ao varão perto da porta de saída do autocarro. Contrariava as curvas da estrada com posições do corpo. Voltou a telefonar. Ninguém atendia.
O autocarro parou na sua paragem. Ela saiu. Ela saiu a correr e foi a correr, o correr possível que o seu corpo cansado e já muito gasto pelas amarguras da vida lhe permitia. Cruzou a estrada depressa. Sem olhar. O seu foco era a casa. Subiu a rua. Subiu a rua até ao cimo. Depois virou à direita e entrou dentro do bairro. E depois foi andando em passo rápido, rua-a-rua, lá no interior do bairro. Ruas pequenas e estreitas. Casas baixas como se quisessem passar despercebidas aos olhos da lei, da ordem e das finanças. Saltou por cima de uns esgotos que corriam a céu aberto. Sim, ainda havia disso ali, naquele bairro. Naquele bairro de emigrantes. Naquele bairro de onde vinham os braços para limpar as casas douradas da cidade. Da capital. Uma capital de luxo ancorada nos braços da precariedade.
Chegou a casa. Enfiou a chave na fechadura. Abriu a porta. Correu para o cubículo que era o quarto do filho. A cama estava vazia. Ela levou a mão à boca para sufocar um grito de desespero. Os olhos largaram lágrimas que corriam desalmadas sem pedir licença. E então ela ouviu Mãe?! O que é que estás aqui a fazer?
Ela virou-se para trás e viu, sentado à mesa, à entrada de casa, a tomar o pequeno-almoço na forma de uma tigela com cereais e leite, o seu filho. O filho que era dela. Só dela. Ela largou o saco de cartão com a bata para lavar e a carteira no chão e lançou-se sobre ele estendendo-lhe os braços como tentáculos sobre ele e sufocando-o no seu amor de mãe-pai que julgava que o seu mundo tinha desabado mas afinal não. Afinal ele estava ali. Estava sentado à mesa a tomar o pequeno-almoço antes de sair para a escola. Camisa branca. Calças de ganga limpinhas. A mochila arrumada com tudo o necessário.
Mãe?!… Sai… Deixa-me acabar de comer para ir embora, disse o filho. E ela sorriu. Limpou as lágrimas às costas da mão a sorrir. E retirou suavemente as mãos-tenaz de cima do filho. E disse-lhe Desculpa. Desculpa não ter vindo ontem à noite. Eu logo explico. Agora vou tomar um banho rápido que estou atrasada.
Ela deu-lhe um beijo na face. Entrou naquele pequeno polibã e deixou que a água fria lhe lavasse o medo. Foi uma lavagem rápida que estava atrasada. Mais passar o corpo por água. Vestiu uma roupa limpa. Meteu uma bata lavada no saco de cartão e deixou a suja numa bacia. Despachou-se mais depressa que o filho. Ela era aquilo. Rápida. Decidida. Não perdia tempo com preâmbulos. Ela conhecia as exigências da vida. Deu um beijo rápido na face do filho e saiu de casa a correr. Aquele correr dela, que era um andar assim mais depressa. Até porque os anos e o cansaço não a deixavam ser mais rápida. Ainda ouviu um Até logo, mãe! Adoro-te que o filho lhe gritou. Sorriu. Ruborizou. E continuou a sua caminhada, agora em sentido inverso, pelas mesmas ruas pequenas e estreitas do bairro de emigrantes.
Saiu do bairro. Virou à esquerda. Desceu a rua embalada que para baixo todos os santos ajudam.
O autocarro que queria apanhar estava a chegar à paragem.
Ela viu-o. Viu-o e decidiu que tinha de o apanhar. Estava já atrasada.
Ela pôs o pé na estrada para a atravessar, para a atravessar a correr para não deixar fugir o autocarro, pôs o pé na estrada, sem olhar para um lado, nem para o outro, a correr, naquela sua correria que era mais um andar depressa, o mais depressa que os anos e o cansaço lhe permitiam e foi então que apareceu um táxi, que não a viu, e lhe bateu, a ela que não o viu, e a levantou pelo capot acima até ao pára-brisas que rachou com o impacto e a projectou uns metros à frente, mandando-a de rojo pelo chão de asfalto, até ela parar, quieta, silenciosa, com o corpo dobrado em dobras impossíveis, no chão sujo e triste.
O táxi parou. O taxista saiu do carro e levou as mãos à cara. Os autocarros pararam. O autocarro dela não arrancou. As pessoas começaram a aproximar-se do corpo inanimado.
Ao fundo, o filho dela cruzou a estrada, olhou para aquela confusão mas seguiu em frente. Ia para a escola. Tinha de ir para a escola. Era a única coisa que a mãe lhe exigia. Que fosse para a escola. Que estudasse. Que fosse alguém na vida. Alguém que ela nunca tinha sido.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/16]

A Mulher, parte 03

[continuação de ontem]

A paragem de autocarro estava vazia. Bem, vazia, vazia não. Ela estava lá. Sentada no banco de alumínio e a cabeça muito direita, suportada pela parede de acrílico onde estava encostada. Continuava a agarrar a carteira pousada no colo. E, preso entre as pernas, o saco de cartão onde ia a bata para lavar em casa.
Os autocarros já tinham deixado de passar. Era tarde. Bastante tarde. Já era de madrugada.
Passava um ou outro táxi que se abeirava da paragem a ver se era alguém perdido à procura de transporte. Mas não. Era somente alguém que ali estava a dormir. Talvez uma sem-abrigo. Gaita!
Passaram dois miúdos de skate e, um deles olhou para ela e riu, riu descaradamente e alto, e apontou com o dedo para ela, para mostrar ao outro miúdo, no outro skate. Mas o segundo miúdo passou à frente. Não se manifestou. Pararam os dois mais à frente. Sentaram-se no lancil do passeio, com os pés na estrada, os skates parados ao lado, a fumar um cigarro.
Nem assim ela acordou. O cansaço acumulado fechou-a para o mundo. Podia vir aí uma réplica de 1755 que ela continuaria a dormir.
Passou o camião do lixo. Parou ao lado da paragem de autocarro para apanhar o lixo de uns caixotes. O barulho do camião. O barulho do elevador do camião. O barulho dos caixotes a baterem para largar todo o lixo no camião.
No prédio em frente abriu-se uma janela. Alguém foi fumar um cigarro para a janela e ver o camião do lixo na sua tarefa nocturna.
Ela continuava a dormir. Mas não estava ali. Continuava lá. Lá na terra de onde viera há uns anos. Estava cheia de esperança. Com toda a esperança que tem quem nada tem. Lembra-se quando reuniu os pais. E alguns irmão. Os mais velhos. E lhes contou. Contou que ia embora. Que não podia mais continuar a ajudar lá em casa porque se ia embora. À procura do futuro. Do seu futuro. Da sua vida. Sozinha? Não, sozinha não. Com o homem. O seu homem. Vou com o meu homem. E os pais choraram. E os irmãos despediram-se. E prometeram-se viagens. E férias. E regressos. E nada disso aconteceu. Ela nunca mais regressou. Nunca encontrou a vida que procurava. Mas não podia dizer que se sentisse desiludida. Não, não se sentia desiludida. Era assim. Era assim, a vida. As coisas eram assim. Havia uns dias melhores que os outros. E era tudo.
Chegou cá. Engravidou. O homem cansou-se dela. Da vida que levava. Da vida que ambos levavam. Do corpo dela. Da criança. Arranjou outra. Mais nova. Sem filhos. E ela ficou sozinha. Sozinha com o filho. O seu filho. O filho só dela. O filho que um dia iria levá-la de volta à sua terra. Às suas praias. Ao seu mar.
Ela suspirou. Ela suspirou e, devagarinho, começou a acordar. Abriu os olhos. Pestanejou. Olhou à volta. Abriu a boca. Não conseguia dizer nada. Levantou-se, nervosa. A carteira na mão, muito junta ao peito. O saco de cartão com a bata para lavar tombou quando ela tirou os pés e foi até à estrada. Olhou para um lado e para o outro. Já começava a chegar gente. Pessoas que iam trabalhar cedo. Bastante cedo. Mas já era tarde.
Ela tirou o telemóvel da carteira e viu as horas. E ficou ali parada, por momentos, a olhar para o telemóvel a tentar processar o que lhe tinha acontecido. Ela tinha ficado ali a dormir? A sério?
E agora? E agora, o que faço?, perguntava-se. Já não vale a pena ir a casa. E o miúdo?
Marcou um número no telemóvel e ligou. Esperou. Esperou. Ninguém atendeu.
Do outro lado da estrada já havia um café aberto. As luzes ligadas. Um jovem que, ruidosamente, montava uma esplanada. Ela olhou para trás, para a paragem de autocarro e viu o saco de cartão tombado no chão. Foi lá apanhá-lo. Chegou um autocarro. Saiu gente. O autocarro arrancou. Ela cruzou a estrada e foi ao café. Sentou-se numa mesa a um canto. Pediu uma bica e uma torrada. Voltou a tentar telefonar.
Ao balcão, um velho pegava num copo de bagaço e bebia-o de um só gole. Nem pestanejou.
Ela desligou o telemóvel. Ninguém atendia. Veio a torrada. E a bica. Comeu. E bebeu.
Saiu do café. Já se via alguma luz do dia. Já havia mais gente na rua. Carros. Autocarros. Motorizadas. Gente. Gente com mochilas para a escola. Gente com pastas para o escritório. Gente com sacos de plástico para todo o lado. Gente.
Ela sentia-se nervosa. Não estava bem. Não se sentia descansada. Podia ser da falta de sono. De ter dormido ali, na rua. Podia ser muita coisa. Mas havia algo que a incomodava. Sentia um aperto no coração.
Viu o autocarro a chegar à paragem. Cruzou a estrada, o mais rápido que conseguia, sem olhar para os lados, tal a pressa. E entrou no autocarro para casa. Era hora de ir trabalhar mas ia regressar a casa. Estava com um pressentimento.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2018/10/15]

A Mulher, parte 02

[continuação de ontem]

Os olhos fechavam-se com o cansaço. A leveza da cabeça apoiada ao acrílico atrás de si relaxavam-na. Via as pessoas a passarem, difusas, à sua frente para entrarem dentro do autocarro. Aliás, dos vários autocarros, que acabaram por ali parar vários ao longo da noite que começara já há algum tempo.

Ela esqueceu-se que estava ali. Sentada num desconfortável banco de alumínio na paragem de autocarro. Estava tão cansada que adormeceu. Esqueceu-se de que tinha um autocarro para apanhar. Esqueceu-se que tinha um filho para tratar. Simplesmente foi vencida pelo cansaço. Adormeceu ali assim, no meio daquele barulho. No meio daquela confusão. Gente. Gente ao telefone. Adolescentes na galhofa. Autocarros. O cheiro do combustível queimado dos autocarros. Os táxis. As buzinas dos táxis. Os carros. As motorizadas. O pára-arranca. O caos.

Mas ela já não estava ali. Estava em casa. Não na casa para onde devia ter ido de autocarro. Não na casa onde o filho a aguardava. A casa de onde veio, há muitos anos, de uma vida sem futuro, para tentar melhor sorte e uma nova vida. E onde é que ficava mesmo, essa nova vida? E em que futuro?

Ela estava na ilha. Dançava uma morna. Debaixo das estrelas. Umas guitarras lentas, dedilhadas. Uma voz rouca, cansada. O desejo. Ah, a porra do desejo. O dançar juntinho. Sentir em si o outro todo, inteiro. Depois a fuga para a praia. O riso. A gargalhada. As brincadeiras. O desejo. Era tão feliz nessa época! Não tinha dinheiro. Nem trabalho. Ajudava em casa. Ajudava a cuidar dos outros irmãos. Era uma irmã-mãe. Mais branca que todos os outros. Aliás, ninguém dizia, ao primeiro olhar, que ela era preta. Era branca. Sem discussões. A única branca naquele conjunto de, quantos? Quantos irmãos? Doze, treze. Talvez catorze. Não sabia quantos é que já tinham morrido. Nem quantos ainda nasceram já depois de ter vindo para cá. Com o seu homem. À procura de uma vida que não tinha lá. Eram outros tempos aqueles. Hoje, se calhar, talvez fosse diferente. Mas teve coragem. Coragem de voltar costas a casa, à família, e vir à aventura para o desconhecido. Começar uma vida do zero. Ainda se lembra. Do zero. Do nada. Do não ter nada e começar a ter alguma coisa.

Ela continuava sentada no banco de alumínio e com a cabeça encostada ao acrílico atrás de si. Estava a dormir profundamente. Ouvia-se na sua respiração. Uma respiração profunda. Descansada. A mulher sentada ao seu lado olhava-a e sorria. Um sorriso sem maldade. Compreendia o cansaço. Ela própria também se sentia assim, muito cansada, às vezes. Havia dias assim.

Já não havia fila para os autocarros. Três, quatro pessoas aguardavam debaixo da plataforma da paragem. Agora já passavam mais espaçados no tempo. Eram menos. A hora de ponta ficara lá para trás. Já era de noite. Noite cerrada. E ela continuava ali a dormir. Como se estivesse em casa.

Mas não estava ali. Nem lá. Estava na ilha. Passeava numa zona de rocha. Rocha vulcânica. Caminhava descalça sobre a lava fria. Depois corria a descer uma ladeira. Vinha a rir, desengonçada, a correr pela ladeira abaixo. Atrás dela um rapaz. Ria com ela. Como ela. Chegaram lá abaixo, ao fundo, ela parou e despiu-se. Ele também. Ficaram nus. Sem vergonhas. Ela mergulhou no mar. Ele também. Ela nadou. Ele foi ter com ela. Abraçou-a. Abraçaram-se. Beijaram-se e deixaram-se envolver pela água do mar.

Ela sorriu. No seu sono, sorriu do seu sonho. Sentia-se feliz. Era feliz. E agora? Agora que até tinha trabalho. Agora que até tinha algum dinheiro, guardado dramaticamente todos os finais de mês a tentar sobreviver sem lhe mexer até receber o novo salário. Agora que até tinha um filho. O seu filho. O filho de uma mãe. Sem pai. Sem marido. Sem homem, que eles não servem para nada. Não. É mentira. Claro que servem. Servem para lhe apagar o fogo que a invade. Aquele fogo insuportável que lhe consome o peito e as entranhas. Não há água, nem cerveja, nem grogue que mate aquele fogo. Aquele fogo só se combate com um homem. Um homem com desejo. E foi assim que nasceu o seu filho. Um filho que era filho dos dois. Que foi filho dos dois até o desejo dele esmorecer. E nascer por outra. Mas ela nunca se importou. Agora a sua vida tinha ganho um sentido. O sentido. Agora tinha um filho para cuidar. Dar vida. Oferecer-lhe as oportunidades que ela não teve. Mas e ela? Era feliz? Era feliz, agora?

Uma lágrima caiu pela face dela a dormir. Estava tão cansada que não acordou. Passaram todos os autocarros que a podiam levar para casa. Agora já era tarde. Mesmo tarde. E ela continuava a dormir.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2018/10/14]

A Mulher

Ela chegou à paragem do autocarro e já lá estava bastante gente. Nem pensar em sentar-se naquele banquinho para três pessoas. Já lá estavam cinco, todas apertadinhas. Foi para o fim da fila, ao longo do passeio. Pensou como iria ser quando começasse a chover. Aquela chuva batida a vento. E encolheu os ombros e pensou que seria como das outras vezes. Como nos outros anos. Apanharia uma molha. Chegaria a casa encharcada. Mas não ficaria doente. Nunca ficava doente. Não podia ficar doente. Não podia dar-se a esse luxo. Mas a verdade é que nunca ficava mesmo doente. Às vezes achava que era um super-poder. Deu um pequeno sorriso. Olhou para os lados para ver se ninguém tinha dado pelo riso. Estava sozinha, a rir. Ainda pensavam que era doida. Mas não era. Ela não era doida.
A fila ia andando lentamente. Já tinham passado dois autocarros que vinham muito cheios. Olhou para a senhora ao seu lado. Bem vestida. Elegante. Perfumada. Chegava-lhe ao nariz o perfume da senhora. Um cheiro doce. Gostou do cheiro. Gostava de perfumes. Às vezes cheirava os perfumes das casas onde trabalhava. Mas nunca os punha em si. Não queria que as senhoras cheirassem os seus perfumes em si. Ajeitou o casaco de malha que levava vestido. Endireitou as golas. Sentiu-se destoar.
Olhou para a estrada. Via passar carros e motas. Algumas bicicletas, que agora era moda. Todos com pressa. Ela também tinha pressa. Tinha de ir fazer o jantar ao filho. Mas não lhe adiantava de nada estar com pressa. A fila não ia andar mais depressa por isso. Já conhecia a estória. A estória da sua vida. Esperar. Era esse o ritmo. O seu ritmo. O ritmo da sua vida. As coisas eram assim. E não mudavam.
Finalmente viu outro autocarro. Mas percebeu, pelo número que ostentava, que não era o seu. Continuou serena a ver a vida a desenrolar-se à sua volta. Já se tinha habituado a isso. A ver a vida dos outros a acontecer. E deixar-se ficar para trás. Porque da vida dela, ela já não esperava grande coisa. Sempre pensou primeiro nos outros. Nas vidas dos outros. Tentava ajudar os outros. Que os outros conseguissem fazer alguma coisa das suas vidas. Foi assim com o marido. Era agora assim com o filho. Seria assim no futuro, e se tudo corresse bem, com o neto. Tudo o que fazia era por ele. Por eles.
O autocarro parou e entrou muita gente. A fila andou bastante e ela aproximou-se do banco. Só lá estava uma rapariga sentada. Perguntou se alguém, à sua frente, se queria sentar. Ninguém lhe respondeu. E ela sentou-se. Finalmente, sentou-se. Agora que estava sentada, como o saco de cartão com a bata para lavar, no chão, entre as pernas, e a carteira presa nas mãos ao seu colo, é que sentiu como estava cansada. Todo o santo dia a girar de um lado para o outro. A lavar. A limpar. A cozinhar. A passar a ferro. O passar a ferro era o que lhe custava mais. Estar ali assim em pé, dobrada, com o ferro na mão, pesado, a fazê-lo deslizar ao longo da tábua, o braço a conduzi-lo, a virar a roupa, a esticá-la, borrifá-la, tirar-lhe os vincos, insistir, ir com o ferro duas vezes, três vezes ao mesmo sítio. Arre! E quando era a capa do colchão? Ou aqueles lençóis com elásticos? Gostava muito de fazer as camas com eles. Eram muito práticos. Ficavam muito bem esticados na cama. Era um gosto ver as camas assim, tão bem feitas e esticadas. Lisinhas. O horror, mesmo, era passá-los a ferro. E dobrá-los. Como é que se dobra um lençol que não tem pontas? É preciso saber. São precisos muitos anos. E ela sabia. E tinha todos esses anos de conhecimento acumulado.
Encostou a cabeça ao acrílico nas suas costas. Estava mesmo muito cansada. E estava a saber-lhe muito bem estar ali assim, sentada naquele banco de alumínio, duro e frio, desconfortável, com a cabeça apoiada atrás, a descansar ao fim de um longo dia de trabalho.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2018/10/13]