A Mulher, parte 02

[continuação de ontem]

Os olhos fechavam-se com o cansaço. A leveza da cabeça apoiada ao acrílico atrás de si relaxavam-na. Via as pessoas a passarem, difusas, à sua frente para entrarem dentro do autocarro. Aliás, dos vários autocarros, que acabaram por ali parar vários ao longo da noite que começara já há algum tempo.

Ela esqueceu-se que estava ali. Sentada num desconfortável banco de alumínio na paragem de autocarro. Estava tão cansada que adormeceu. Esqueceu-se de que tinha um autocarro para apanhar. Esqueceu-se que tinha um filho para tratar. Simplesmente foi vencida pelo cansaço. Adormeceu ali assim, no meio daquele barulho. No meio daquela confusão. Gente. Gente ao telefone. Adolescentes na galhofa. Autocarros. O cheiro do combustível queimado dos autocarros. Os táxis. As buzinas dos táxis. Os carros. As motorizadas. O pára-arranca. O caos.

Mas ela já não estava ali. Estava em casa. Não na casa para onde devia ter ido de autocarro. Não na casa onde o filho a aguardava. A casa de onde veio, há muitos anos, de uma vida sem futuro, para tentar melhor sorte e uma nova vida. E onde é que ficava mesmo, essa nova vida? E em que futuro?

Ela estava na ilha. Dançava uma morna. Debaixo das estrelas. Umas guitarras lentas, dedilhadas. Uma voz rouca, cansada. O desejo. Ah, a porra do desejo. O dançar juntinho. Sentir em si o outro todo, inteiro. Depois a fuga para a praia. O riso. A gargalhada. As brincadeiras. O desejo. Era tão feliz nessa época! Não tinha dinheiro. Nem trabalho. Ajudava em casa. Ajudava a cuidar dos outros irmãos. Era uma irmã-mãe. Mais branca que todos os outros. Aliás, ninguém dizia, ao primeiro olhar, que ela era preta. Era branca. Sem discussões. A única branca naquele conjunto de, quantos? Quantos irmãos? Doze, treze. Talvez catorze. Não sabia quantos é que já tinham morrido. Nem quantos ainda nasceram já depois de ter vindo para cá. Com o seu homem. À procura de uma vida que não tinha lá. Eram outros tempos aqueles. Hoje, se calhar, talvez fosse diferente. Mas teve coragem. Coragem de voltar costas a casa, à família, e vir à aventura para o desconhecido. Começar uma vida do zero. Ainda se lembra. Do zero. Do nada. Do não ter nada e começar a ter alguma coisa.

Ela continuava sentada no banco de alumínio e com a cabeça encostada ao acrílico atrás de si. Estava a dormir profundamente. Ouvia-se na sua respiração. Uma respiração profunda. Descansada. A mulher sentada ao seu lado olhava-a e sorria. Um sorriso sem maldade. Compreendia o cansaço. Ela própria também se sentia assim, muito cansada, às vezes. Havia dias assim.

Já não havia fila para os autocarros. Três, quatro pessoas aguardavam debaixo da plataforma da paragem. Agora já passavam mais espaçados no tempo. Eram menos. A hora de ponta ficara lá para trás. Já era de noite. Noite cerrada. E ela continuava ali a dormir. Como se estivesse em casa.

Mas não estava ali. Nem lá. Estava na ilha. Passeava numa zona de rocha. Rocha vulcânica. Caminhava descalça sobre a lava fria. Depois corria a descer uma ladeira. Vinha a rir, desengonçada, a correr pela ladeira abaixo. Atrás dela um rapaz. Ria com ela. Como ela. Chegaram lá abaixo, ao fundo, ela parou e despiu-se. Ele também. Ficaram nus. Sem vergonhas. Ela mergulhou no mar. Ele também. Ela nadou. Ele foi ter com ela. Abraçou-a. Abraçaram-se. Beijaram-se e deixaram-se envolver pela água do mar.

Ela sorriu. No seu sono, sorriu do seu sonho. Sentia-se feliz. Era feliz. E agora? Agora que até tinha trabalho. Agora que até tinha algum dinheiro, guardado dramaticamente todos os finais de mês a tentar sobreviver sem lhe mexer até receber o novo salário. Agora que até tinha um filho. O seu filho. O filho de uma mãe. Sem pai. Sem marido. Sem homem, que eles não servem para nada. Não. É mentira. Claro que servem. Servem para lhe apagar o fogo que a invade. Aquele fogo insuportável que lhe consome o peito e as entranhas. Não há água, nem cerveja, nem grogue que mate aquele fogo. Aquele fogo só se combate com um homem. Um homem com desejo. E foi assim que nasceu o seu filho. Um filho que era filho dos dois. Que foi filho dos dois até o desejo dele esmorecer. E nascer por outra. Mas ela nunca se importou. Agora a sua vida tinha ganho um sentido. O sentido. Agora tinha um filho para cuidar. Dar vida. Oferecer-lhe as oportunidades que ela não teve. Mas e ela? Era feliz? Era feliz, agora?

Uma lágrima caiu pela face dela a dormir. Estava tão cansada que não acordou. Passaram todos os autocarros que a podiam levar para casa. Agora já era tarde. Mesmo tarde. E ela continuava a dormir.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2018/10/14]

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A Mulher

Ela chegou à paragem do autocarro e já lá estava bastante gente. Nem pensar em sentar-se naquele banquinho para três pessoas. Já lá estavam cinco, todas apertadinhas. Foi para o fim da fila, ao longo do passeio. Pensou como iria ser quando começasse a chover. Aquela chuva batida a vento. E encolheu os ombros e pensou que seria como das outras vezes. Como nos outros anos. Apanharia uma molha. Chegaria a casa encharcada. Mas não ficaria doente. Nunca ficava doente. Não podia ficar doente. Não podia dar-se a esse luxo. Mas a verdade é que nunca ficava mesmo doente. Às vezes achava que era um super-poder. Deu um pequeno sorriso. Olhou para os lados para ver se ninguém tinha dado pelo riso. Estava sozinha, a rir. Ainda pensavam que era doida. Mas não era. Ela não era doida.
A fila ia andando lentamente. Já tinham passado dois autocarros que vinham muito cheios. Olhou para a senhora ao seu lado. Bem vestida. Elegante. Perfumada. Chegava-lhe ao nariz o perfume da senhora. Um cheiro doce. Gostou do cheiro. Gostava de perfumes. Às vezes cheirava os perfumes das casas onde trabalhava. Mas nunca os punha em si. Não queria que as senhoras cheirassem os seus perfumes em si. Ajeitou o casaco de malha que levava vestido. Endireitou as golas. Sentiu-se destoar.
Olhou para a estrada. Via passar carros e motas. Algumas bicicletas, que agora era moda. Todos com pressa. Ela também tinha pressa. Tinha de ir fazer o jantar ao filho. Mas não lhe adiantava de nada estar com pressa. A fila não ia andar mais depressa por isso. Já conhecia a estória. A estória da sua vida. Esperar. Era esse o ritmo. O seu ritmo. O ritmo da sua vida. As coisas eram assim. E não mudavam.
Finalmente viu outro autocarro. Mas percebeu, pelo número que ostentava, que não era o seu. Continuou serena a ver a vida a desenrolar-se à sua volta. Já se tinha habituado a isso. A ver a vida dos outros a acontecer. E deixar-se ficar para trás. Porque da vida dela, ela já não esperava grande coisa. Sempre pensou primeiro nos outros. Nas vidas dos outros. Tentava ajudar os outros. Que os outros conseguissem fazer alguma coisa das suas vidas. Foi assim com o marido. Era agora assim com o filho. Seria assim no futuro, e se tudo corresse bem, com o neto. Tudo o que fazia era por ele. Por eles.
O autocarro parou e entrou muita gente. A fila andou bastante e ela aproximou-se do banco. Só lá estava uma rapariga sentada. Perguntou se alguém, à sua frente, se queria sentar. Ninguém lhe respondeu. E ela sentou-se. Finalmente, sentou-se. Agora que estava sentada, como o saco de cartão com a bata para lavar, no chão, entre as pernas, e a carteira presa nas mãos ao seu colo, é que sentiu como estava cansada. Todo o santo dia a girar de um lado para o outro. A lavar. A limpar. A cozinhar. A passar a ferro. O passar a ferro era o que lhe custava mais. Estar ali assim em pé, dobrada, com o ferro na mão, pesado, a fazê-lo deslizar ao longo da tábua, o braço a conduzi-lo, a virar a roupa, a esticá-la, borrifá-la, tirar-lhe os vincos, insistir, ir com o ferro duas vezes, três vezes ao mesmo sítio. Arre! E quando era a capa do colchão? Ou aqueles lençóis com elásticos? Gostava muito de fazer as camas com eles. Eram muito práticos. Ficavam muito bem esticados na cama. Era um gosto ver as camas assim, tão bem feitas e esticadas. Lisinhas. O horror, mesmo, era passá-los a ferro. E dobrá-los. Como é que se dobra um lençol que não tem pontas? É preciso saber. São precisos muitos anos. E ela sabia. E tinha todos esses anos de conhecimento acumulado.
Encostou a cabeça ao acrílico nas suas costas. Estava mesmo muito cansada. E estava a saber-lhe muito bem estar ali assim, sentada naquele banco de alumínio, duro e frio, desconfortável, com a cabeça apoiada atrás, a descansar ao fim de um longo dia de trabalho.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2018/10/13]

A Fauna dos Subúrbios com Banda-Sonora dos Pet Shop Boys

Comprei uns binóculos para ver a tipa do sétimo andar ali de frente, do outro lado da via rápida. A tipa é gira. Um pouco destravada. Vai nua à varanda regar as plantas. Leva amantes lá para casa e tem o cuidado de deixar as cortinas sempre abertas. Há que garantir diversão à vizinhança. Eu não sou voyer mas, às vezes, não tenho outra coisa para fazer enquanto fumo um cigarro à janela.
Não é a única estória que acompanho. Há muitas outras estórias. Desde que vim para cá morar que me comecei a aperceber da riqueza sociológica dos habitantes das cidades-dormitório. Já comecei a compilar umas estórias. Um dia publico um livro de antologia: A Fauna dos Subúrbios com Banda-Sonora dos Pet Shop Boys.
Às Sexta-feiras não há grandes estórias. Pelo menos não a esta hora. As famílias estão a jantar. Normalmente pizza. Vejo chegar as motorizadas de som estridente. Elas andam como aranhas pelas ruas da cidade-dormitório, entre as torres enormes e os jardins sem árvores. Também ouço a subir e descer o elevador do meu prédio. É um corrupio. Comem pizza. Tomam banho. Vêm televisão. Jogam Monopólio. A mãe liga a máquina da loiça. Faz uma máquina de roupa. O pai vê o jogo da bola. Há sempre um jogo da bola. Só por volta das cinco da manhã é que começa a haver alguma actividade mais interessante com os regressos a casa de quem saiu para a noite. Vêm com companhia. Ou sozinhos. Mesmo os que regressam sozinhos trazem o Gregório como companhia. E é vê-los por aí. Nas ruas. Em casa. Na varanda. A despejar tudo.
Mas hoje os binóculos serviram para outra coisa.
O bairro é cortado a meio por uma via rápida. Há um viaduto para as pessoas cruzarem a estrada mas fica muito lá em baixo e tem de se caminhar bastante para completar o desenho feito para abater os desníveis.
As pessoas cruzam então a estrada pelo asfalto.
As pessoas galgam as grades de protecção e cruzam a estrada. Geralmente a correr. Às vezes à frente dos carros que, ali, naquela zona, não se coíbem de espremer o motor. É um efeito tauromáquico. As pessoas a fugirem às bestas.
Já muita gente lá foi colhida. Morreram já algumas pessoas. Aqui mesmo à minha frente. Vejo-as a serem colhidas enquanto fumo um cigarro. É um desfastio.
Foi o que aconteceu hoje.
Uma velha. Hoje foi uma velha.
Eu estava à janela a fumar um cigarro quando a vejo pôr-se de gatas para passar por baixo das grades de protecção. Ainda pensei Não, velha, não faças isso. Mas disse-o baixinho, porque ela não me ia ouvir.
Ela levanta-se e lá vai, de bengala na mão, uma perna a puxar a outra, mais a arrastar-se que a andar, com carros a fazer slalom à sua volta e ela persistente, a caminhar em frente, devagar, sem olhar para os carros, a pensar que eles é que a vêm, eles é que têm de parar, eles é que têm de lhe fugir.
E então… E então levou com um Fiat Punto conduzido por um miúdo. Nem vinha especialmente depressa, o garoto, mas assustou-se com a velha na estrada, os carros nas faixas ao lado, a seguirem em frente, cada um na sua vida, e não soube reagir.
Ouvi o barulho. O barulho do impacto. Um som seco. Um grito. Uma travagem feita tarde demais.
Ainda vi a velha a ser projectada em frente. Em voo livre. A cair no chão e rebolar. Os braços e as pernas a girar como se fosse um boneco.
As pessoas dos outros prédios assomaram às janelas.
Eu ainda peguei nos binóculos. E olhei.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/12]

Estou Quente

Sinto-me quente.
Ele coloca a mão dela sobre a minha, que está na alavanca das velocidades, e diz Estás quente.
Sim. Estou quente. Sinto-me quente.
Vou a conduzir o carro. Ela vai ao meu lado. Olha para mim. Coloca a mão dela sobre a minha e diz Está quente. Eu vou a conduzir devagar. Vou atrás de um camião lento. Não praguejo. Vou a conduzir mas nem vou atento à estrada. Vou só atrás do camião.
Eu estou à entrada do Liceu. Estou a fumar um cigarro. Ela está ao meu lado. Encostada a mim, como só os adolescentes sabem encostar. Mergulha a cara no meu pescoço. Beija-o, lentamente. E diz Estás quente.
Sim. Estou quente.
Paro o carro no parque de estacionamento do super-mercado e digo Eu fico aqui. Ela sai. Eu fico. Mas não estou lá. Não estou em lado nenhum. Sinto-me estranho. Estou quente mas não tenho calor. Sinto, aliás, um pouco de frio. Nada de muito intenso. Um arrepio. Uma vontade de não estar de t-shirt.
Passam carros à minha frente. Carrinhos cheios de compras. Uma carrinha Opel faz manobra para estacionar de traseira. O Mercedes que vem atrás apita. Volta a apitar. O Opel pára. Pára atravessado na estreita passagem do parque de estacionamento. Um homem sai de dentro do carro com um ferro na mão. Aproxima-se do Mercedes e começa a bater no carro com o ferro. A mulher dentro do carro fica parada. Estática. Assustada. O homem parte os faróis da frente do carro. Amolga o capot. Parte o espelho retrovisor exterior esquerdo. Com uma só pancada. Violenta. Bate com o ferro no pára-brisas mas não consegue parti-lo. Nem um arranhão. A mulher dentro do Mercedes desperta. Mete a marcha-atrás e arranca em alta velocidade pelo parque de estacionamento. Ao fundo faz um pião. Endireita o carro. Mete a primeira e desaparece.
O homem com o ferro na mão olha à volta. De peito feito. Olha para toda a gente. À espera de um olhar. De um desafio. Mas todos os olhos fogem. O meu também. Olho para o lado. O homem afasta-se, lentamente. Entra dentro do Opel. Estaciona-o.
Eu vejo-o sair do carro e entrar dentro do super-mercado.
A porta do carro abre-se. Ela entra. Coloca o saco aos seus pés. Dá-me uma garrafa de água e um comprimido. É um ibuprofeno. Toma-o. Estás quente, diz
Meto o comprimido na boca. Abro a garrafa e bebo água. Empurro o comprimido. Ela leva a mão à minha testa.
Eu ponho o carro a trabalhar. Saio do parque de estacionamento.
Queria estar no Liceu. À saída do Liceu. A fumar um cigarro. A fumar um cigarro e ela a dar-me um beijo, suave, no pescoço e a murmurar-me ao ouvido Estás quente.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/11]

Lá Vão os Meus Amores

O dia acorda amargo. A noite adormece azeda.
Entre uma coisa e outra mal tenho tempo para chorar a perda.
Abro a janela e está um sol tímido. Não está frio. Mas não está calor. Há um ligeiro vento que abana as ramagens aqui em frente e produz sombras que me assombram a casa. Não está cá ninguém. Mas parece. Parece que quem falta anda por cá à solta, a fazer cabriolices. As cabriolices que não vi. Que nunca vi.
A casa está vazia. Sinto-a desconfortável. Demasiado grande para quem está sozinho. Mas tenho muitos fantasmas para abrigar. Deixo-os por lá. Eu saio. Eu saio sempre. Saio a correr antes que fique lá preso a memórias que já não sei se são reais ou inventadas.
Podemos inventar um passado?
Pego no carro e vou até à praia. No caminho telefono para o trabalho. O que digo? A verdade? A verdade não interessa. Não importa. Estou doente. Dói-me a barriga. Vomitei. É suficiente. Plausível. Falso, mas verosímil.
Que importa as dores da alma? Que importa o vazio que se instala cá por dentro e não me deixa respirar. E me obriga a dobrar o corpo à procura de força. Eu perdi. Eu perdi-os lá para trás. E é já tarde.
Não está ninguém na praia. Só eu e as gaivotas.
O mar está calmo. Não fosse o frio e deixava-me mergulhar.
Que se foda o frio.
Arranco as sapatilhas. Puxo a camisola pela cabeça. Largo as calças na areia. Os boxers ficam a meio caminho. Não sei o que fiz às meias, mas tinha umas calçadas. Os óculos ficaram dentro das sapatilhas. O telemóvel também. O relógio vai aqui comigo. Preso no pulso onde o meu pai o prendeu. Um dia terá outro destinatário. Um dia também o irei colocar num outro pulso. Mas agora mergulha comigo. Agora leva-me debaixo das ondas frias de Outubro como se fosse o meu Agosto particular sem mais ninguém a não ser eu. Dou cinquenta braçadas em frente. Regresso noutras cinquenta.
Cá fora está vento. Um vento frio.
Agarro na roupa e entro nu no carro. Ligo o ar-condicionado e deixo-me secar. Aquecer. Visto-me.
Regresso a casa.
Não me apetece ir trabalhar. Não tenho fome.
Agarro em Life? or Theatre? – A Selection of 450 Gouaches de Charlotte Salomon. Abro ao acaso. Uma pintura de uma mulher (ou um homem?) à janela, de costas para mim, a olhar ao fundo, o quê?, duas crianças, e diz qualquer coisa de intraduzivelmente alemão. Mas a tradução em inglês ajuda-me There goes my loved ones, and no one cares about me.
There goes my loved ones.
There goes my loved ones.
There goes my loved ones, and no one cares about me.
E sei que a culpa é minha. E sinto-me azedo. E já é noite. E deito-me. E espero que a noite dure a eternidade e eu esqueça tudo o que sei e não quero mais saber e quero é esquecer e já não ser mais eu nem mais nada e nem pensar nem saber nem escrever nem nada nem…

[escrito directamente no facebook em 2018/10/10]

O que É que Lhe Terá Acontecido?

Estávamos os dois naquela pequena escuridão, de língua na boca do outro, e as mãos, marotas, a entrar por debaixo das camisolas, da minha e da dela, que ambos desejávamos tocar naqueles pontos tão sensíveis e macios, quando a luz se acendeu.
Parecia o flash de uma máquina fotográfica, acender e apagar, assim em rápida acção, como a preparar o caminho para depois acender completamente. Um bocado como o balastro daquelas luzes frias e merdosas das lâmpadas fluorescentes das cozinhas antigas, que ainda são o que há, pelo menos nas casas por onde eu vivo. São umas luzes que parecem que estão com medo de acender, vai-não-vai e lá acaba por ir. Ou vir. A luz. Finalmente.
Mas habituado aquela escuridão propícia ao desejo, assustei-me com o despertar daquela luminosidade e o pigarrear de quem lá vinha, juntamente com a luz.
Assustei-me, sim. Assustei-me e levantei-me num ápice de velocidade super-sónica e subi os lances de escada que me levavam até casa. Abri a porta. Entrei. E encostei-me a ela. O coração a saltar. O ouvido na porta. Quem lá vem? Quem será?
E então pensei nela. Nela que deixei lá, no meio das escadas, com a camisola subida. O sutiã à mostra, quase de certeza. E ela lá sozinha. Quem é que lá viria? E como é que ela iria escapar daquela situação?
Percebi, então, que tinha o cinto das calças desapertado. E o primeiro botão das calças fora da sua casa. Os passos passaram pela minha porta e continuaram para cima. Não ouvi vozes. Onde é que ela se teria metido?
Deixei-me deslizar pela porta abaixo. Serenei o coração que parecia querer saltar peito fora.
Acalmei.
Abri a porta e, de novo às escuras, desci as escadas. Mas ela não estava lá. Nem nunca mais lá voltou.
Senti a língua dela na minha boca. As bocas húmidas. E frescas. As línguas a tocarem-se. O chocar dos dentes na ânsia de sentir. A minha mão a tocar-lhe numa mama por cima do sutiã. A mão dela por baixo da minha camisola. A mão dela na minha perna. A mão dela a desapertar-me o cinto. A mão dela a abrir os botões das calças. A frágil luz da Lua que entrava pela clarabóia das escadas do prédio e nos mantinha naquela intimidade de sombras e contornos. Na acolhedora escuridão.
Toca-me. Toco-te.
E depois a porra da luz!
A porra daquela luz!
Onde é que estás?, perguntei-me.
O que é que lhe terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/09]

A Noite de Cristal

As botas disparavam em força contra mim. Contra o meu corpo enrolado no chão. Vinham de todo o lado. Já não sei quantas eram. As botas. As botas a matraquear-me o corpo. A cara era uma massa de sangue. Os olhos estavam inchados. A língua não conseguia furar a boca. Os lábios estavam grossos. Só via, desfocado, a baloiçar ao pescoço, sobre mim, a cruz de Cristo pendurada num fio. Tombando sobre o meu corpo tombado e massacrado.
Parei de me mexer. Parei de me mexer e eles pararam. Foram-se embora. Ainda houve um que veio dar-me um último pontapé. Uma grande penalidade. Na cara. Na boca. Partiu-me um dente. Mas nem senti. Já não sentia nada. Nem dor. Nem ódio. Nada.
Continuei deitado. Enrolado. Por tempo. Por bastante tempo.
Depois lá tentei levantar-me. A custo. O corpo dorido. Agarrei-me ao banco do jardim para me suster. Para me puxar.
Cuspi. Cuspi para o chão. Uma massa escura. Viscosa. Ficou um fio da massa pendurado à boca. Tirei-o com as mãos. Estavam negras, as mãos. As unhas partidas. Lascadas.
Puxei as calças para cima. Apertei o cinto. Devagar. Olhei à volta. A mochila caída no chão. Aberta. Tudo espalhado. O iPad partido. O Walden do Henry David Thoreau feito em mil pedaços de folhas rasgadas e espalhadas pela relva. A capa baloiçava no rebordo de um caixote do lixo. Acabou por tombar lá para dentro. Deixei-a ir. E aos restos das folhas que o vento espalhava por ali. Deixei-as por lá. Ainda vi uma sweat-shirt pendurada no ramo de uma árvore. Um caderno A4 a boiar no pequeno lago, no meio dos patos. O pequeno Moleskine preto, de capa rija, semi-enterrado na brita do caminho. A tampa da caneta de tinta permanente ainda estava acoplada à capa. O resto da caneta não a vi. Aliás, não via grande coisa. Tinha os olhos inchados. Restava-me uma pequena ranhura. Um fio de imagem. Desfocada.
Doía-me as costas. As pernas. Os braços. A cabeça. O cu. Tinha sangue, mas não sabia de onde vinha. Estava ferido algures, debaixo de todo o sangue que secava pelo corpo. Mas não conseguia perceber de onde vinha.
Cuspi. Não tinha grande força para cuspir. Era mais abrir a boca e deixar cair uma massa de sangue, cuspo e baba para o chão.
Tentei endireitar as costas, mas era um processo doloroso. Continuei curvado. Apanhei a mochila. As coisas a que consegui deitar a mão. Enfiei-as na mochila.
Olhei à volta. Passavam algumas pessoas por ali. Ignoravam-me. Fingiam que não me viam. Por medo. Por nojo.
Pus a mochila às costas e arrastei-me para fora do jardim.
Devia ir a um hospital, pensei.
E pensei melhor.
Vou para casa, decidi.
Tinha medo. Não me sentia seguro em lado nenhum. Uma tareia não me livrava de outra. Tinha de sair da rua. Tinha de ir para casa.
Pensei que estava na Alemanha. Em 1938. A noite de cristal.
Enganei-me. Estava no Brasil. 2018.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/08]