Acordo com a Monica Vitti à Cabeceira

Arrasto-me por casa. As portas e as janelas abertas para deixar correr o vento mas só o calor é que franqueia as portadas. Não sei o que fazer. Não me apetece fazer nada.
Abro a porta do congelador e retiro um saco de gelo. Vou enfiando os cubos na boca e sinto a água derretida a cair pelos cantos e escorrer pelo peito.
Estou quente. Não sei se tenho febre ou se é deste calor de Agosto que me consome.
O som da cantoria das cigarras entra-me pelos ouvidos e embala-me.
Pego num livro e sento-me no sofá. Mas os olhos fecham-se e não consigo começar a ler.
Toca o telemóvel tombado no móvel em frente. Não me consigo levantar. Olho-o enquanto toca. Não exerço nenhum gesto. Não tento levantar-me.
Reparo que tenho uma ventoinha a girar ao lado do sofá mas nem lhe notei a presença. O vento que provoca é quente. Mas só o percebo agora. É um bafo quente e seco que me faz encolher ainda mais no sofá.
O sofá aquece debaixo do meu corpo. Deixo-me cair para o chão. O chão de madeira está mais fresco. Arrasto-me de costas pela sala à procura de zonas mais frescas.
Uma farpa da madeira espeta-se nas costas. Grito de dor. Viro-me, estico o braço para trás e tento tirar a farpa. Não consigo. Vai ficar lá espetada. Levanto o corpo e sento-me no chão da sala.
Inclino-me para trás, para me encostar ao sofá. Mas é de veludo e queima-me as costas.
Que merda.
Levanto-me a custo. Caminho, lento, para o quarto. Deixo-me cair sobre o lençol da cama desfeita. Está fresco. Agradável.
Adormeço.
Acordo e é de noite.
Acordo com a Monica Vitti à cabeceira da cama. E diz Tinha vinte anos quando nos conhecemos. E era feliz.
Não sei o que é que isto quer dizer. Nunca conheci a Monica Vitti. Para minha grande desgraça.
Volto a acordar. A Monica Vitti já não está cá. Suspiro. A minha vida acumula azares.
A noite está mais fresca. Mas ainda quente.
Tenho fome mas não consigo comer.
Acendo um cigarro e fico ali deitado, na cama desfeita, a olhar o fumo que se acumula no tecto.
A cama já aqueceu debaixo de mim. Debaixo do meu corpo escaldante.
Não sei para onde ir.
Mas também não me apetece.
Ouço o telemóvel a tocar de novo lá dentro, na sala, onde o deixei. Fico a ouvi-lo tocar até se extinguir o som. Quem será?
A cinza do cigarro cai sobre mim. Sacudo-a para os lençóis. Mando a beata para a rua através da janela aberta. Penso que posso dar início a um incêndio. Ouço um morteiro. Dois. Três. Há festa algures. Perto. Os morteiros podem provocar incêndios. Pensei que estavam proibidos em Agosto, digo alto, para me ouvir, numa voz embargada pela secura da garganta.
Viro-me na cama e tento adormecer de novo. Olho para cima para ver se a Monica Vitti regressou. Mas não tenho essa sorte. Só o calor. Só o calor me faz companhia.
Tento adormecer, mas sei que vai ser difícil.
Penso que comia umas sardinhas assadas. Com pimentos. E bebia um copo de vinho. Tenho fome. E sede. Mas não me apetece comer. Não me apetece levantar. Não me apetece viver.
Quero adormecer. Quero dormir.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/20]

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Fui Eu que o Encontrei

A Lua estava alta. Alta e brilhante. Pendurada lá em cima. Era só um bocado da Lua. Um bocado rasgado. Mas um bocado luminoso que me guiava através da escuridão da casa.
Esperei que ela saísse.
Ela saiu. Eu entrei.
Ainda tinha uma chave. A fechadura era a mesma.
Não acendi luzes.
Sabia onde queria ir.
Acabei por tropeçar. A casa era a mesma mas estava diferente. Outras coisas noutros sítios. Outros sítios. Outras coisas. Caminhos diferentes. Caminhos obstruídos. Caminhos libertos.
Esperei. Esperei, habituei os olhos e a Lua ajudou-me. A luz deste bocado de Lua acabou por guiar-me através daquela casa igual mas diferente.
Circulei pelos corredores. Espreitei as outras divisões, nem sei bem porquê. Talvez curiosidade. Talvez nostalgia. Talvez só desfastio.
Entrei no escritório. Dirigi-me à estante. Procurei. Procurei a letra. Procurei na ordem. P. Paul Éluard. Sim, ainda organiza como eu. Pelo primeiro nome. Um homem é o seu nome, não o nome da sua família. Paul Éluard. Recreios Vagos, a Boneca. Série K da &Etc.
Era meu. É meu. Fui eu que o encontrei. Fui eu que o comprei. Fui eu que o li.
Peguei no livro e olhei para ele. Feliz regresso, murmurei-lhe. Voltei para trás.
Refiz os passos todos. Segui a luz da Lua.
Assustei-me com as suas sombras agora mais marcantes. Mas continuei.
À entrada vi o Gato das Caldas. O Gato em porcelana. O Gato das Caldas com um enorme mangalho. Estiquei o dedo para o focinho do Gato. Olhei-o. Toquei-lhe. Comecei a empurrá-lo devagar. Devagarinho. E ele virou-se. Caiu. Estilhaçou-se.
Ups, disse. Desculpa, continuei. E sorri. Um sorriso velhaco. Vingativo.
Às vezes sou mesmo merdoso.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/19]

Na Estrada Nacional 1

A Estrada Nacional 1 é ainda um mundo à parte. É todo um outro tempo que veio de arrasto para este. Uma espécie de furúnculo cheio de pus que sobrevive aos antibióticos modernistas do século XXI numa faixa de tempo que parou algures lá para trás, com todos os vícios e dores que a consumiam.
Fiz a EN1 na semana passada e entrei na cápsula do tempo.
Ia devagar numa estrada onde se pisa no acelerador. Mas há troços onde se anda devagar. E não, não é por causa da polícia, radares ou operações Stop. É por causa das meninas que ainda se sentam em caixas de madeira à beira da estrada, a abanar a perna mostrando disponibilidade.
Reparei nisso por acaso. Ia devagar atrás de um camião. Ia distraído a ouvir música atrás de um camião. A cofiar a barba com uma mão enquanto a outra agarrava o volante. Quando o camião encosta na berma à direita e ele passa por mim. O vestido. Na verdade fui eu que passei por ele porque era eu que ia na estrada. Mas ele veio, passou ao meu lado, chamou-me a atenção distraída, e ficou lá para trás com o camião. Mas ainda vi. E confirmei pelo retrovisor. Um vestido pendurado no ramo de uma árvore à beira da estrada, à entrada de uma estrada de terra batida. O vestido esvoaçava ao vento. O camião parado ao lado.
Depois, mais à frente, um caixote de fruta, em madeira, em pé, à entrada de outra estrada de terra batida. Mais um pedaço de pano, talvez um lenço, preso numa árvore. E finalmente percebi. Uma rapariga estava sentada, agachada, em cima de um tijolo, as pernas abertas, a olhar descaradamente para quem ali passava. Quando eu passei, os seus olhos colaram-se aos meus. Uns olhos frios, vazios, mortos. Semi-fechados pelo cansaço. Mas uns olhos disponíveis. Uns olhos que não prometiam nada, mas que davam tudo.
Os olhos ficaram lá para trás.
Mais à frente virei à esquerda. Aguardei e voltei à estrada. Voltei atrás. Quis voltar a ver aquele mundo que não sabia ainda existir assim, ali, daquela maneira.
No regresso passei mais devagar. Vi a tristeza sentada em bancos de piquenique no interior das estradas de terra batida. Estradas marcadas no seu início. Um vestido. Um lenço. Um pedaço de pano colorido. Marcavam presença. Aqui há gente. Elas estavam ali. Disponíveis. Mortas mas serviçais.
Imaginei os locais. Um banco. Uma manta no chão do mato. Um preservativo que seria largado ao lado, junto com outros preservativos já usados e largados ali, à espera que o tempo os consumisse. A falta de água corrente. Talvez um jerricã. Talvez um garrafão. Um par de olhos a garantir a segurança. A troca negocial. O garantir do pagamento. A luta pela sobrevivência. A falta de vida. A falta de amor. A falta de carinho. A falta de higiene. A falta de tudo. A necessidade de tudo o resto. A sujidade.
Não consegui perceber as idades. Pareciam novas. Mas velhas. Marcadas. E tudo sujo à volta.
Parei o carro numa das entradas. Atrás de mim, apitaram-me. Respirei fundo. As mão presas ao volante como garras. Uma cara colada à janela a forçar um sorriso impossível. Os dedos a bater no vidro. Olha para mim, diziam. Uma promessa falsa. Ao fundo, um homem encostado a uma árvore, discreto, mas suficientemente em campo para avisar que lá estava. A mão na cintura a afastar o casaco e a pistola, presa nas calças. Um aviso.
Vomitei. Vomitei para cima do volante.
A rapariga olhou triste para mim e percebeu. Não voltou a bater no vidro. Não insistiu. Afastou e disse qualquer coisa para trás. Para o homem no mato.
Voltei a ligar o carro, esperei pela oportunidade e voltei a entrar na EN1.
Quando estava quase a chegar a Leiria é que percebi que tinha regressado ao ponto de partida. Queria ter ido para o outro lado. Mas tudo se baralhou.
A vida às vezes é uma merda.
Retomei a viagem no dia seguinte. Mas fui pela Auto-Estrada.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/18]

Assassinos com Honra

Cheguei a casa e eles estavam à entrada, ao pé do portão, junto ao muro. Uma gata, preta, brilhante, e seis gatinhos que deviam ter nascido alguns minutos antes. A gata miou para mim quando parei o carro antes de entrar o portão e subir a rampa até casa. Olhei-a. Senti-me mal. Lido mal com estas situações. Não sei o que fazer mas sei que devia fazer qualquer coisa. A gata era lindíssima. Os gatinhos muito pequeninos. Estavam espalhados por ali. Mas ela controlava-os enquanto miava para mim. Acabei por fugir dali com o carro.
Na manhã seguinte saí a casa a pé para ir ao café. Tinha-me esquecido dos gatos. Foi quando cheguei ao portão que voltei a vê-los. Mas só os que restavam. Dois gatos pequeninos. Um preto e um castanho-amarelado. Miavam muito. O castanho-amarelado subia e descia sobre o outro que não se mexia. Parecia morto. Mas não estava. Da gata e dos outros quatro gatinhos, nem sinal. Havia uma tacinha com um pouco de leite que alguém deve ter lá deixado para os gatos. Mais ao lado o cadáver de uma ratazana que a gata deve ter morto.
Deixei lá os gatinhos. Ia ao café. Quando voltasse, se ainda lá estivessem, logo se veria o que iria fazer. Mas pensava no porquê de estarem ali aqueles dois gatinhos. E só pensava que iam morrer. Que a gata os tinha deixado ali para morrer. Que eram fracos demais para sobreviver num mundo difícil e complicado. Abanei a cabeça. Não gostava de pensar nestas merdas. Deixavam-me triste. Deprimido.
Tentei pensar noutros coisas. No Benfica. Em raparigas boas a comerem meloas. Nas férias que não tive mas gostava de ter tido. Mas invariavelmente, acabava por lá voltar. Os gatos. Os cabrões dos gatos. O preto e o castanho-amarelado. A miar. Dava por mim a sorrir. Que porra. Deprimido e a sorrir. Logo eu que nem gosto de gatos. Por vezes não consigo compreender-me. Não me entendo. Sou um mundo de contradições. Desejos e vontades antagónicas. Um chato do caralho.
No regresso não encontrei nada. Nem os gatinhos, nem a tacinha com o resto de leite nem a ratazana morta. Tudo desaparecido. Teria sonhado?
Quando entrei em casa ela lançou-se-me nos braços e disse Temos dois gatinhos cá em casa. Pode ser, não pode? Pode? e levou-me pela mão até ao alpendre e mostrou-me um caixote e lá dentro um gatinho preto e um castanho-amarelado. Ambos a miar. A miar como o raio. Que chatos! Mas disse Claro que sim, e sorri-lhe.
Depois disse Ninja e Ronin. O quê?, perguntou-me. Os nomes do gatos. Escolho eu o nome dos gatos. Ninja e Ronin. Assassinos japoneses. Mestres da arte de matar. Em silêncio. Na sombra. Mas com honra. Para matarem as ratazanas que andam por aí. Ela mandou uma gargalhada e disse Às vezes pareces mesmo um anormalzinho do caralho. E eu disse Sim, eu sei.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/17]

Em São Pedro de Moel o Sol Desperta ao Meio-Dia

Estava uma manhã típica de São Pedro de Moel. Enublado. Fresco. Mas não desagradável de todo.
Eu estava sentado à beira-mar a ver as ondas morrer na areia. As criancinhas aproveitavam a maré baixa e distante. Chapinhavam. Os mais velhos tinham de se aventurar um pouco mais para diante à procura de uma falta de pé. As senhoras mais velhas vinham refrescar-se. Baixavam-se. Mas toda a gente percebia que vinham urinar.
Atrás de mim passou o vendedor de Bolas de Berlim.
Apetecia-me uma, mas deixei passar.
E então o grito.
Alguém gritou.
Alguém gritou forte.
Estiquei a cabeça e vi gente a fugir do mar para terra.
Ao mesmo tempo, gente que se aventurava mais para dentro do mar.
Eu continuei ali sentado, na areia.
Dois nadadores-salvadores passaram por mim a correr e entraram dentro de água. Tudo confluía para um ponto. Um ponto concreto dentro do mar. Mas que avançava, lentamente, para terra. Começava a aglomerar-se gente no ponto. Gente que começava a aproximar-se da areia. De mim.
Continuei sentado. Levantei a cabeça. E vi.
Um corpo.
Era um corpo que os nadadores-salvadores traziam para a praia. Uma excursão de gente seguia-os.
Na areia, precisaram de demarcar espaço. Os veraneantes, sem nada para fazer, aglomeravam-se à volta do corpo. Era preciso afastá-los até chegar a polícia. Deixar o corpo intacto. Afastar os curiosos. Que era quase toda a gente.
Eu deixei de ver fosse o que fosse. Entre mim e o corpo morto, deitado na areia, um monte de gente curiosa e mórbida. A ver se o conheciam. Se sabiam quem era. Se alguém dizia alguma coisa. Se as televisões apareciam. Se seria manchete na CMTV.
Eu continuei sentado na areia. O mar começava a aproximar-se aos poucos. As criancinhas já não brincavam no mar. As senhoras já não faziam mais chichi. Os adolescentes já não mergulhavam. Agora todos queriam ver o cadáver estendido na areia da praia. Até o vendedor das Bolas de Berlim lá estava. A esticar o pescoço por cima da multidão a tentar ver alguma coisa.
A polícia chegou. Afastou as pessoas. A equipa forense investigou o que pode, quis e conseguiu. Depois levaram o corpo embora.
Não sei quem era.
O mar já me batia nos pés. Finalmente levantei-me. Olhei para o horizonte. O sol começava a despontar. E vinha cheio de força. Começava o calor. O calor infernal de São Pedro de Moel em Agosto. Já era meio-dia, claro. Hora de ir para casa. Tinha umas brasas para ir atear. Era dia de sardinhada.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/16]

Há um Outro a Viver Dentro de Mim

Há outro a viver dentro de mim. Há outro que toma conta de mim e faz o que eu nunca faria.
Há um outro, louco, doido, sem limites, que me habita e toma conta de mim quando quer e lhe apetece.
A última vez aconteceu hoje. Há bocado.
Eu estava a dormir. Era ainda aquela hora mágica matinal, mas eu ainda estava a dormir. Não tinha nada para fazer e deixei-me ficar, descansadamente, a dormir.
Levantei-me. Nu. Fui à cozinha. Fiz café. Ia fazer torradas mas não tinha pão. Peguei nas chaves do carro e saí porta fora.
Eu continuava a dormir. Na cama.
Sai de casa. Entrei no carro e fui até ao InterMarché comprar pão de Rio Maior.
Ainda era cedo e o hipermercado estava fechado. Fiquei no carro, sentado, a ouvir a TSF e à espera que o InterMarché abrisse.
Quando abriu, sai do carro e entrei no hipermercado. Dirigi-me à padaria. Aproximei-me da rapariga que olhou para mim e deu um berro. Um grande berro. E saiu a correr detrás do balcão. Eu fiquei a olhar para ela a fugir. Não percebi.
Apareceu um segurança. Disse-me Não quero chatices. É melhor ires embora antes que chegue a polícia.
Mas eu quero um pão de Rio Maior, se faz favor, disse.
Ainda não veio, respondeu. Eu virei a cara para dentro do balcão e vi um monte de pães de Rio Maior dentro do depósito do pão. E disse-lhe Estão ali. E ele disse Estão vendidos. E eu respondi Não podem estar vendidos porque estão no depósito do pão. E ele respondeu Estão reservados e é melhor ires embora antes que chegue a polícia.
Eu não sabia porque raio haveria de chegar a polícia. Mas queria torradas para acompanhar com o café. Queria pão de Rio Maior. Precisava daquele pão.
Dei uma corrida. Entrei dentro do balcão. Agarrei num pão de Rio Maior. E quando ia a enfiar a mão no bolso das calças para deixar lá dinheiro pelo pão, reparei que não tinha bolso, nem calças, nem nada. Estava nu.
Estava na cama a dormir. Mas já não estava. Agora já estava ali.
O outro arranja problemas, e depois vai embora. Foge. E descubro-me no meio do InterMarché, nu e com um pão de Rio Maior na mão.
Distraí-me a pensar nas coisas que o outro eu faz e de repente senti uma pancada. E tudo ficou escuro. As vozes desligaram-se devagar e desapareceram. Eu desapareci. Não sei para onde. Não sei o que aconteceu. Desliguei.
Acordei agora, há cinco minutos, aqui. Acho que estou numa esquadra de polícia. Tenho um cobertor pelos ombros e os pulsos algemados. Não sei onde pára o pão de Rio Maior. Apetecia-me café e torradas. E um cigarro. O outro foi-se embora. E eu estou aqui. São doze e doze. Marca o relógio da parede. Já faz umas horas desde que o outro saiu de casa e me deixou a dormir. Tenho fome. E quem é este que vem aqui? O que é que ele quer?…

[escrito directamente no facebook em 2018/08/15]

Em Agosto Vi Zé Café & Guida

A festa era na aldeia. Naquela aldeia. Poderia ser noutra que em Agosto há festas todos os dias em diferentes aldeias, vilas, cidades e às vezes até se sobrepõem as festas porque é preciso agradar aos santos e santinhos todos e aos emigrantes filhos da terra que vêm cá construir as suas casas e pagar IMI e mais outros impostos que a Junta está necessitada, mas hoje era ali, naquela aldeia, no sopé da montanha, ao lado da Nacional 1. Pelo menos era o que tinha lido no cartaz publicitário à saída do InterMarché.
À entrada da aldeia fui recebido com decorações luminosas daquelas que se utilizam no Natal ou na Feira de Maio, com curvas, rectas, circunferências em espiral e unicórnios e o nome da terrinha em luzes brilhantes de tom amarelado.
Entrei pela aldeia e não vi nada. Estava deserta. Deserta de festa e de pessoas. Não havia vivalma na rua. Não havia barulho. Não havia luminosidade para além do pórtico de chegada. Um vazio.
Dei uma volta por umas ruas residenciais que se transformavam em estradas industriais. A aldeia confundia-se com a zona industrial. Por vezes com pouca luz. Ou nenhuma. Tornava-se assustador.
Não se passava nada.
Estava num buraco negro.
Dei voltas e mais voltas e descobri que a aldeia era essencialmente uma estrada comprida e segui-a em frente, passei pela igreja silenciosa e, quase no fim, quando a aldeia parecia misturar-se com a escuridão e dar lugar ao pinhal, lá surgiu o clube recreativo e cultural, mais umas luzinhas coloridas, festivas e o som da festa, do baile, do concerto, a dar colorido ao cheiro a bifanas, frango assado e à filhós que acompanhava o café da avó.
Quando cheguei já Zé Café & Guida estavam em cima do palco. Cantavam um dos seus hits que falava de amor, desamor, lágrimas e alegria. O Zé Café agarrado ao órgão eléctrico. A Guida de microfone na mão, às vezes no suporte, ia carregando o dedo no iPad que estava espetado no aparelhómetro do órgão.
Meia dúzia de pares dançava em frente à boca do palco. Ele com ela e ela com ela. Mães e filhas. Irmãs. Não havia muito mais a dar pezinhos de dança. O resto das gentes estava espalhado pelas barracas de repasto, sentados em cadeiras de plástico a comer e a beber.
No fim da música a Guida chamou ao palco a Leonor, a filha pequenina, aí dos seus dez anos, que foi interpretar uma música chamada Mariana e mais tarde uma outra da qual esqueci o nome, mas que era cantada em português do Brasil com um belo sotaque carioca.
Três músicas mais à frente e o baile foi interrompido por dois tipos que apareceram a dar murros um ao outro. Chegaram outras pessoas a tentar separá-los, e alguns acabaram também por se engalfinhar. Havia sangue a voar. A Guida parou de cantar e agarrou na filha ao colo. O Zé Café continuou a tocar um muzak para ver se entretinha a besta do apocalipse. Ouvia-se gritos. Palavras feias. Cheguei-me para um lado. Afastei-me da confusão. Histórias de gajas. Gajas com gajos. Traições, ou nem isso. Simplesmente ciúmes. Há gajos assim. Ciumentos. E gajas também assim, namoradeiras.
O Zé Café parou a música. A confusão agora era total. Homens, mulheres e crianças estavam no meio da barafunda. Alguns dos homens batiam-se a sério. Vi uma navalha. Vi sangue. Vi um nariz partido. Vi uns dentes a rasgar uma orelha. Só não vi a polícia.
Saí dali. Entrei no carro e voltei à Nacional. Pensei em ir ao Bigodes comer uma sopa, mas achei que precisava era de ir para casa, fumar um cigarro e dormir. Amanhã havia outra festa. E eu comecei a tomar-lhe o gosto.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/14]