As Águias São Imperiais

Às vezes dá-me para isto. Podia dar-me para outras coisas, mas dá-me para isto. Deito-me ali debaixo da laranjeira, enquanto ainda tem ramagens e folhas que me dão sombra, pego numa azeda que espeto na boca e chupo aquele suco amargo, ponho-me a olhar as nuvens a passar sonolentas no céu e recordo, recordo com saudade, pedaços de vida a que não voltei mais mas a que gostava de voltar.
Não sou muito nostálgico. Não choro pelo que passou. Mas às vezes dá-me assim aquele aperto no coração, acompanhado de uma certa angústia ou ansiedade e tento perceber o porquê. Às vezes é só fome. Outras vezes é falta de um copo de vinho tinto ou de um cigarro. A merda das adicções. Mas também já foi mesmo a saudade. A saudade pura e dura. Nessas alturas gostaria mesmo muito de ter uma máquina do tempo e regressar a esses momentos. Não sou muito de regressos, como já disse, mas às vezes, às vezes, às vezes a vida prega-me rasteiras e eu nem me reconheço.
Hoje não havia azedas, já não há azedas há muito tempo, peguei num cigarro, na almofada da cama e numa toalha de banho e fui estender-me debaixo da laranjeira, à sombra das braças da laranjeira, braças suficientes para me darem sombra, mas não tantas que me tapem a vista e, então, pus-me a olhar as nuvens e deixei-me embalar pelo ritmo cadente da sua passagem sobre mim.
Estava num piquenique. Há muitos anos que não tinha um piquenique. Estava num piquenique. Tinha um copo de vidro com vinho tinto numa mão. Um folhado misto na outra. Tentava falar mas não conseguia que tinha a boca atulhada com o folhado misto, fiambre e queijo, que estava uma maravilha. À minha volta riam-se. Gente que já não via há muito tempo. Alguns há anos. Outros, julgava-os mortos. Partilhavam comigo o vinho. Queijinhos secos. Um fio de azeite sobre os queijinhos. Umas fatias de pão alentejano a fazer companhia aos queijinhos. Ali tudo era companhia. Engoli o folhado misto e falei. Não ouvi o que disse, mas toda a gente à volta tomou atenção. Toda a gente se calou para me ouvir. Acho que gosto de ser ouvido. Nunca tinha pensado nisso. Nunca tinha pensado em mim assim. Nunca tinha pensado nesta minha necessidade de ser ouvido. Preciso disso? De ser ouvido? Que me ouçam?
Estávamos à volta de uma mesa de pedra debaixo de um pinheiro manso na encosta da montanha com vista sobre o vale. O verde predominava. Havia umas águias a planar sobre nós. Talvez fossem uns milhafres, não sei. Embora não conseguisse ouvir qualquer som, o ambiente parecia tranquilo e suave e, o único som, talvez fosse o produzido por nós, à volta da mesa. Os risos que saíram das bocas rasgadas no fim de uma conversa minha. Uma palmada nas costas. Uma mão que me afagou o rosto e senti o calor da mão, senti o calor da mão no lado de cá do sonho, uma mão leve e carinhosa.
Na mesa de pedra repousavam embalagens com iguarias várias. Húmus de beterraba, Pão alentejano. Queijinhos secos. Azeite. Folhados mistos de fiambre e queijo. Um chouriço caseiro cortado à navalha. Pedaços de morcela previamente assada. Ovos mexidos com espargos salteados. Garrafas de vinho. Várias garrafas de vinho. Garrafas vazias.
Eu levantei-me da mesa e acendi um cigarro. Avancei até à beira da estrada e da encosta que se precipitava lá para baixo.
Olhei as nuvens no céu por cima de mim e pensei Eu sei que me estou a ver. Eu sei que não sei se isto aconteceu ou irá acontecer. Mas também sei que a satisfação não vem só com o que existe ou existiu, mas também com o que sonho, com o que imagino. É por isso que faço filmes. É por isso que escrevo histórias. É por isso que componho canções. É por isso que pinto quadros e esculpo esculturas. Às vezes sinto-me deus. Um deus. Um pequeno deus. Um pequeno deus para as pequenas coisas da minha vida. Do meu dia-a-dia. Não preciso de agarrar na bíblia e mostrá-la às pessoas. Não preciso dizer que tenho Deus sobre mim, sobre nós. Eu sou deus e não preciso de proclamações.
Dei um pequeno grito quando o cigarro queimou por completo e chegou-me aos dedos. Abri os olhos e vi uma águia em forma de nuvem a pairar sobre a minha cabeça. Acendi outro cigarro e pensei Gosto de águias. São imperiais.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/06]

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