Escalracho

Hoje fui um homem do campo. Andei a acartar lenha para debaixo do telheiro e depois fiz uma queimada para destruir o escalracho e a casca dos pinheiros.
Ontem, ao final do dia, já me tinham vindo trazer uma carrada de lenha que me irá servir para o próximo Inverno. Como ameaçava chuva, achei por bem arrumá-la debaixo do telheiro, embora não me apetecesse nada e tivesse outras coisas bem mais interessantes para fazer, como sentar-me no alpendre, a beber uma caneca de café e a olhar as montanhas. Mas não. Calcei umas botas que me estavam apertadas e que a última vez que tinham sido calçadas foi para dançar umas músicas dos Cult na antiga Juke Box, umas calças de ganga rotas e uma t-shirt de um jornal regional que não sei como é que veio parar à minha gaveta de roupa de usar por casa.
Peguei no carrinho-de-mão e lá andei eu entre o quintal, onde o tractor largou a lenha em monte, e o telheiro, onde fui empilhando a lenha aos poucos, devagar, fiz três lances mais ou menos com a minha altura. De início ainda pensei em separar a lenha pelo tipo de madeira, mas depressa desisti. Era demasiada lenha para um tipo só. Fiquei cheio de dores nas costas, em especial na zona dos rins. Não estou habituado a este tipo de trabalho físico e já não tenho idade para me habituar. Mas fiquei contente por conseguir fazê-lo. Ainda ganhei umas bolhas nas mãos por acartar o carrinho-de-mão cheio de toros de madeira e umas farpas nos dedos porque não tenho luvas e foi tudo com as mãos descobertas. Tenho de comprar luvas. E betadine. Andei a espetar agulhas nos dedos para tirar algumas farpas. Mas ainda não as tirei todas. Há algumas que não consigo tirar. Tenho de pedir ajuda à minha vizinha, mas tenho medo que ela pense que quero outras coisas e na verdade, não quero. Só quero mesmo ver-me livre destas farpas.
Depois da lenha arrumada e das dores nas costas e das farpas nos dedos, sem esquecer as bolhas e acho que algumas delas ir-se-ão transformar em calos, agarrei num ancinho (descobri finalmente qual a utilidade) e andei a apanhar os restos que tinham ficado espalhados pelo quintal (alguns guardei-os que são bons para acender o fogo na altura da sardinha). Aproveitei e arranquei as ervas daninhas que andam a furar as pedras do quintal, apanhei braças secas e outros lixos que se encontravam por lá e eu nem tinha percebido. Quando deitei fogo ao monte de detritos que juntei, olhei em volta e percebi que o quintal era outro. Maior. Maior e mais bonito. Fiquei contente. Cheio de dores no corpo, mas satisfeito.
Quando descalcei as botas também percebi como me doíam os pés. Massajei-os. Tomei um duche. Vesti roupa lavada. Fiz um Tinto de Verano para aproveitar o vinho tinto mau que me oferecem de vez em quando (os pequenos produtores aqui da aldeia fazem uma zurrapa que trocam entre eles). Eu, às vezes, também recebo uns garrafões. O vinho é muito mau mas, com 7 Up e limão, é um refresco bastante interessante para acompanhar um cigarro e o meu olhar sobre as montanhas como estou a fazer agora. Um Tinto de Verano numa mão, um cigarro na outra e as montanhas lá ao fundo. Afinal não choveu. E acho que já não chove. Não sei é se conseguirei levantar-me daqui. Sinto os músculos das pernas e dos braços rijos. Como se fossem de pedra. As costas estão a latejar. Os dedos estão a arder e a fazer-me comichão. Às vezes vejo umas centopeias a passear pelo alpendre. Devia matá-las. Mas não consigo levantar-me. Espero que não entrem em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/04]

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