Na Twilight Zone

Estava em choque. Acho que estava em choque. Ou então ainda eram resquícios dos cogumelos que comi no Freedom há mais de dez anos. A alternativa era eu ser um episódio perdido da Twilight Zone e isso não me parecia muito verosímil. Por mais que a minha vida seja estranha. Por mais que eu seja um sujeito bizarro. Até porque acho que, mesmo assim, ainda sou uma pessoa e não um episódio de um programa de televisão. Se bem que, o facto de ter dito acho não me deixa muito descansado.
A verdade é que estava mesmo em choque.
A televisão não dava nada, como é costume. Uns ecos perdidos no meio da cacofonia, mas uns ecos requentados, já velhos e ultrapassados pelos desenvolvimentos mais recentes. Desenvolvimentos constantes e nada compatíveis com um serviço noticioso à hora certa. Estava tudo a acontecer em directo nas redes sociais. A revolução não será televisionada, como já tinha profetizado Gil Scott-Heron, mas será transmitida ao vivo através do Facebook e do Instagram.
Várias cidades americanas estavam a ferro-e-fogo. Manifestações de rua, algumas bem violentas, desde há uma semana, desde a morte de George Floyd. A América, Terra dos Bravos e dos Homens Livres, a tal Terra do Sonho, estava a viver um pesadelo que nos habituámos a ver noutras latitudes. O presidente americano chegou a ser escoltado pelos serviços secretos para um bunker debaixo da Casa Branca. Mais tarde, e depois de balas de borracha e gás lacrimogéneo, o presidente americano foi correr até uma igreja que fora vandalizada para, de bíblia na mão, incendiar ainda mais os ânimos das pessoas revoltadas. O bispo Michael Curry veio protestar contra essa imagem de Donald Trump de bíblia na mão. A mayor de Chicago chegou a mandar Trump foder-se.
Wow.
No Brasil as coisas não estavam melhor. A trupe de Bolsonaro começou por aplaudir uma investigação a um ex-companheiro de luta do presidente brasileiro, entretanto caído em desgraça, para logo depois ficarem furiosos, e muito irritados, ao ponto de ameaçarem, junto com a sua família, o ministro do STF responsável pelas investigações ao grupo de ódio ligado à cúpula bolsonarista, ao jeito dos gangsters como James Cagney. Ao mesmo tempo, os Anonymous, um grupo de hackers, que depois vieram dizer que afinal não eram eles, garantiam estar em posse de documentos comprometedores para Jair Bolsonaro e os filhos 01, 02 e 03, Inflávio, Carluxo e Bananinha. Numa bravata que metia Terra Plana, Marielle, pé de goiaba, copos de leite e Deus em cima de todos eles.
Ufa.
Entretanto, em Portugal, o aprendiz dos outros dois garantia que quando chegasse ao poder, ofender polícias, magistrados e guardas prisionais (estranhamente não disse nada sobre guardas alfandegários, nem dos serviços de estrangeiros e fronteiras) irá dar prisão e que, a rede social Twitter, irá deixar de ser uma bandalheira.
Fiquei parvo. Em choque. A droga anda marada.
Peguei num copo de vinho. Acendi um charro. Sentei-me no alpendre a olhar as montanhas lá ao fundo e comecei Om!… Om!…

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[escrito directamente no facebook em 2020/06/02]

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