Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

O Nojo

Para ir de braço no ar não precisa de ir de braço no ar. O braço no ar é uma figura de estilo. Não precisa de estar representada fisicamente por um braço levantado no ar. Pode-se decepar o braço e ele continua levantado, na linguagem, na ideia, no discurso.
Eu via o tipo a descer a avenida e via-o de braço no ar. Ele não estava efectivamente de braço no ar, não como eles, os que levantam o braço no ar, costumam levantar, mas estava, figurativamente, de braço no ar.
Na mentira. No cálculo. Na raiva. No ódio. Aquele ódio que saía em espuma no discurso cuspido.
Estava a ver as imagens na televisão quando senti qualquer coisa a mexer pelo canto do olho, no canto do enquadramento. Virei para lá a cara, os olhos. Agucei a visão. Desfocado. Coloquei os óculos. Pior. São para ver ao perto. Levantei-me da cadeira, desci as escadas do alpendre e desci ao quintal. Fui até onde me pareceu ver qualquer coisa a mexer. E estava qualquer coisa a mexer. Um comboio de coisas a mexer. Aproximei-me e vi-as. Umas a seguir às outras. A cabeça de uma no rabo da outra. As processionárias. Que raio estavam ali a fazer? Ainda não era a época delas. Mas estavam ali. Tinham descido do pinheiro e faziam comboio, sei lá para onde. Tinha de as matar antes que o cão ou os gatos as vissem. São tóxicas. Fazem-lhes mal.
Voltei a casa para ir buscar álcool e lume.
Ao passar pelo alpendre ouvi a voz do repórter e a manifestação de uma coisa que era outra. Lembrei-me do braço no ar que não estava no ar.
As pessoas do braço no ar não têm nada a propor. Só a força. As pessoas de braço no ar contestam as outras. São contestatárias. Mas não têm nada de novo ou interessante para dizer, para propor e que sirva a todos, a todos sem excepção. São cortadores sociais. Fora estes e aqueles e aqueloutros. Contra. Contra. Contra. Contra negros. Contra chineses. Contra comunistas. Contra a esquerda. Contra emigrantes. Contra ciganos. Contra homossexuais. Contra os diferentes. Contra.
Agarrei numa garrafinha de álcool e numa caixa de fósforos.
Voltei para o quintal, para as lagartas do pinheiro.
Eles pregam a moralidade. A moralidade dos outros, não a deles. A corrupção dos outros, não a deles.
O que mais se percebe do que vou ouvindo da televisão é o ódio. O ódio a tudo o que não são eles. O ódio a tudo o que é diferente.
Aproximo-me das processionárias. Esguicho o frasco de álcool sobre elas. Depois acendo o fósforo e lanço-o, em chamas, sobre elas, sobre o álcool e vejo a chama a formar-se rápida e vejo as processionárias a arder e esguicho mais álcool para elas se queimarem, queimarem todas e ficarem petrificadas.
O cão aparece ao fundo do quintal e enxoto-o. Bato as palmas e digo Xô! Xô! Põe-te a andar! e ele vai embora.
Eu vou à arrecadação buscar uma pá e uma vassoura e apanho os restos queimados das processionárias. Despejo a pá num saco de plástico e fecho o saco com um nó. Depois desço a alameda, saio o portão da rua e vou pela estrada fora até à ilha dos caixotes de lixo e largo o saco no caixote do rsu.
Regresso. E penso na manifestação.
A malta que está sentada no café a refilar não tem nada a propor. Só o ódio. O ódio e a contestação.
A manifestação é uma demonstração de força da pobreza de espírito, do vazio, do nada. Ali não há nada a discutir. Não há nada a propor. Há ódio e a supremacia do músculo.
Cheguei ao alpendre e os gatos já andavam outra vez por lá. Um deles sentou-se na minha cadeira. Mandei-o sair Vá, sai daí!, mas ele não saiu. Tive de o tirar à mão e coloquei-o no chão. Ele miou, a refilar.
Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro. Já não se falava na manifestação. Então fazia-se a actualização dos números do Covid-19. E não podiam ter-se infectado todos enquanto iam todos de braço no ar sem levar efectivamente o braço no ar?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/28]

Crianças Birrentas

O velho andava lá no carreiro com a serra eléctrica a cortar os ramos das árvores e a desbastar o mato do terreno. Ele tinha lá umas oliveiras que davam umas azeitonas muito azedas, mas todos os anos as ia lá apanhar. Às vezes dava-me algumas. Azedas. Nem na sopa as conseguia comer.
Chegava a esta altura e punha-se a desbastar o terreno para evitar as cobras e fazer uma pequena limpeza.
Mas as aparas da árvores do outro lado do muro, mandava-as de volta para lá. Cortava os ramos das árvores que passavam o muro para o lado dele e depois mandava o que cortava para o outro lado. Devolvia à procedência.
Eu estava em pé no alpendre a fumar um cigarro e a apreciar. Sentado não conseguia ver o homem a desbastar o terreno. E já imaginava o que lá vinha. O vizinho, o sujeito do outro lado do muro, que até é cunhado do velho, há-de mandar as braças de volta cá para este lado. Eles não se dão bem e estão sempre em guerra um com o outro. Mas o velho é mesmo o diabo em pessoa.
O ano passado, resolveu queimar os ramos das árvores podadas numa enorme fogueira numa altura em que as fogueiras estavam proibidas. Mas ele é daqueles que acha que sabe e só faz o que acha que deve fazer e a ele ninguém dá ordens. Do piorio. A guarda foi lá ao terreno e levou-o preso. Esteve dois dias numa cela. Para aclarar as ideias, disseram os guardas. Mas não serviu de nada. O velho é teimoso como o diabo.
Há uns anos, o muro que separa os dois terrenos caiu ali numa zona mais acima e tombou para o lado de cá. O velho mandou os tijolos de burro tombados para o terreno do vizinho e levantou outro muro aproveitando para entrar alguns centímetros dentro do terreno do outro. O cunhado, quando se apercebeu, deitou o muro abaixo, levantou outro entrando meio-metro dentro do terreno do velho, deixou-lhe os tijolos velhos no terreno e esperou-o com a pressão-de-ar. Quando o velho chegou, disparou sobre ele. O velho também foi buscar a pressão-de-ar e passaram ali umas horas aos tiros um ao outro até que a guarda chegou e levou os dois. Estiveram uma semana na cadeia. Não lhes serviu de nada.
Por mais estranho que pareça, as mulheres deles dão-se bem uma com a outra, são amigas, sócias no mini-mercado da aldeia e às vezes até vão juntas à cidade para ver um concerto do Tony Carreira.
Amanhã o cunhado há-de chegar ao terreno, há-de ver os ramos largados lá do seu lado, há-de mandá-los de volta para o terreno do velho e há-de esperá-lo com a pressão-de-ar carregada. Hão-de andar aos tiros um ao outro e com um pouco de sorte não se irão atingir porque têm os dois uma pontaria de merda.
Larguei o velho na sua tarefa de cortar o mato e mandar os ramos para o outro lado do muro e fui-me sentar.
Gosto de me sentar no alpendre e olhar as montanhas lá em frente, sempre lá em frente, imutáveis, serenas, a garantirem-me que a vida é assim, sempre assim, por mais que pensemos que não.
E então ouvi um tiro. Outro. E novamente.
Percebi que tudo se precipitou. O cunhado veio mais cedo e apanhou o velho em flagrante.
Levantei-me da cadeira e cheguei-me à frente no alpendre. E vi pequenos focos de incêndio no terreno do velho. O cunhado lançava cocktails molotov que incendiavam os montes de ramos secos cortados. O velho é que trazia a pressão-de-ar nas mãos e tentava disparar sobre o cunhado.
E eu disse Oh, que caralho.
Peguei no telemóvel e telefonei para a guarda. E fiquei ali a vê-los guerrear. Como duas crianças birrentas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/27]

Cinquenta

Foi rapidamente que cheguei aos cinquenta anos. Depois de chegar aos cinquenta anos, deixei de contar a idade. Depois dos cinquenta anos sinto que já estou para lá do que seria espectável. Não que já tenha feito tudo o que queria fazer ou que já tenha atingido os objectivos marcados para a minha vida mas, simplesmente, porque é uma idade em que isso deixou de me interessar. Estou vivo. Vou vivendo. Ok.
Há uns anos, lá em cima, no cimo das cataratas do Iguazú, ali na confluência do Brasil, Argentina e Paraguai, ao ver cair no vazio aquela enorme massa de água, e o poder que de lá emanava, lembro-me de ter pensado Agora já posso morrer! Quando vivemos e vemos coisas assim, coisas intensas, parece que se liberta de nós um peso e percebemos que já chegámos onde queríamos chegar ou onde a vida nos poderia levar. Claro que, logo que saí de lá, logo que se quebrou aquela magia poderosa da força da água a cair e o som trovejante que arrasta consigo, percebi que ainda tinha outras coisas mais para ver e sentir antes de poder dizer Agora já posso morrer! Mas já lá vão muitos anos depois disso. Entretanto, já cheguei aos cinquenta anos, já passei dos cinquenta anos, já deixei para trás os cinquenta anos, por vezes já me sinto cansado, muito cansado, demasiado cansado, já vi muito e já vivi muito e não preciso dizer Agora já posso morrer! porque sei que essa é a condição a que estou a chegar, mais dia menos dia.
Passei dos cinquenta anos. Não vi nenhuma luz. Não atingi o nirvana. Simplesmente deixei de me preocupar. Pelo menos, comigo.
Telefonei à minha mãe. Atendeu e disse Agora não posso falar, e desligou. Achei estranho. A minha mãe adora falar. Mesmo ao telemóvel. Esperei que me ligasse. Não ligou. À noite, refiz a chamada. Atendeu. Já tinha jantado. Estava à janela a ver quem passava. E eu perguntei Porque é que não podias falar? e, do outro lado, o silêncio. O silêncio de uma criança apanhada com a boca na botija. Apanhada em flagrante e sem saber como fugir. E o melhor ataque é a defesa. E, finalmente, diz Olha, queres mesmo saber? Estava no Pingo Doce e havia lá gente e não queria estar a falar alto ao telemóvel para toda a gente ouvir a minha conversa e eu precisava de uns morangos e fui lá à procura deles e levei a máscara e não toquei em mais nada juro! juro por Deus! e também não havia morangos e vi-me embora pronto! Ela sabe que não devia ir ao Pingo Doce sozinha.
E fiquei eu em silêncio.
Já cheguei aos cinquenta anos, estou na ladeira da minha vida e a minha preocupação é com uma criança de quase noventa anos que se faz rebelde e arma a revolução.
Acabei a rir. O que é que adianta? Ficar zangado? Triste? Já passei dos cinquenta anos. Acho que temos de viver o resto dos nossos dias como se fôssemos morrer já amanhã. Porque amanhã pode mesmo já ser tarde. E o resto são só estórias que levamos connosco para o túmulo para nos fazer companhia na eternidade. E consta que, por lá, não há vinho nem cerveja nem cigarros nem música nem dança nem sexo, só mesmo a porra de uma eternidade sem sabor.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/26]

Juá

No meu tempo de miúdo havia um detergente para lavar a roupa, lavar a roupa à mão naqueles tanques que não eram de guerra mas de cimento, que quase só as mulheres utilizavam, e que já eram um upgrade dos lavadouros públicos onde as mulheres se juntavam para distribuir notícias enquanto lavavam as roupas da família e das famílias de bem da cidade (como muito bem descrevia Chianca de Garcia na sua popular Aldeia da Roupa Branca), chamado Juá, que era, também, um verdadeiro Bazar das Novidades, e que me perdoe o verdadeiro Bazar das Novidades que, na rua D. Dinis, em Leiria, alimentava os meus sonhos de criança, mas este bazar que era o Juá fez-me brincar de mil-e-uma maneira e hoje ainda me serve como impropério para gritar à cara das pessoas que fazem asneiras grosseiras, com irem a conduzir um carro a vinte quilómetros por hora em plena auto-estrada A1, ou simplesmente porque me chateiam Ouve lá! Tiraste a carta no Juá, foi?
O Juá oferecia vários brindes, quase todos eles destinados às crianças, aos filhos das mulheres que, afinal, iriam utilizar o detergente na lavagem da roupa da casa, talvez, quem sabe, para entreter a criançada enquanto as mães trabalhavam à volta do tanque, a esfregar, esfregar, esfregar, e depois pendurar ao sol para secar, mas não durante muito tempo directamente ao sol para não queimar a roupa e o branco não ficar amarelo e o preto não ficar castanho, enquanto os pais, coitados, ganhavam a vida lá fora, longe desta azáfama.
Os brindes do Juá eram feitos numa fábrica em Leiria (está bem, era no Juncal, mas é a mesma coisa, não é?), da mesma forma que as famosas e resistentes cassetes Sonovox, com que fazíamos as mixtapes apaixonadas, também eram feitas em Leiria (era na Marinha Grande, que é também a mesma coisa, não é?).
O Juá ofereceu jogos do Galo, bonecos militares, cowboys e índios, que davam para fazer exércitos e conquistar o mundo ou, pelo menos, o quarto à irmã (às vezes a cama, que um quarto dava para dois filhos, às vezes mais), pequenas molduras para fotografias rasgadas da Crónica Feminina, copos de plástico coloridos, bolas, bonecos para as pontas dos lápis e lapiseiras, canecas para o leite com Ovomaltine matinal e uma colecção de sinais de trânsito para estarmos familiarizados com as regras quando chegasse a nossa vez de tirar a carta, mas que então também servia para brincarmos às cidades com os carrinhos da Matchbox em estradas desenhadas no chão de terra batida atrás das garagens, terrenos públicos ou privados que todos usufruíamos nas brincadeiras.
Às vezes também vinham brindes para as mães. Para as mães porque os pais não queriam saber disso para nada, mas as mães queriam porque compravam o detergente e usavam os brindes para poupar nas despesas da casa: copos de vidro que iam à mesa do jantar, colheres de esparguete que a minha mãe nunca utilizou porque teimava sempre em partir o esparguete antes de o cozer, para caber no tacho e as famosas molas de roupa, em plástico, coloridas, que vinham destronar as eternas molas de madeira que as equipas de cinema nunca deixaram morrer porque dá sempre jeito à secção de iluminação.
Também havia fervedores de leite (dantes o leite não era pasteurizado e tinha de ser fervido, não era?) e conjuntos de chá.
Também houve uma época em que o Juá oferecia carros e motos por sorteio, mas nunca saiu cá em casa nem em casa de nenhum dos meus amigos de infância cujas mães também usavam Juá para esfregar a roupa nos tanques de cimento enquanto os filhos se entretinham com os brindes grátis que as embalagens traziam.
Aqui tenho de fazer um pequeno aparte para referir o meu brinde preferido da Juá, que era uma régua com dois buracos de tamanho diferente e ranhuras onde iam encaixar várias rodas de vários tamanhos que giravam nesses buracos, arrastados por lápis ou canetas, e faziam lindos desenhos artísticos e muito gráficos.
E só me lembrei do Juá porque quando estava a ultrapassar o carro que seguia à minha frente todo chegado à esquerda até eu ter de apitar várias vezes a pedir passagem, me virei para ele, para o condutor do outro carro, e gritei do sítio onde estava Saiu-te a carta no Juá, foi, meu cabrão?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/25]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

As Voltas que a Vida Dá

Ela era a rapariga mais gira do liceu naqueles anos em que andei por lá. Toda a gente queria namorá-la. Os rapazes e as raparigas. Eu não era excepção. Mas de mim nem sequer sabia a existência. Não éramos da mesma turma, mas éramos do mesmo ano escolar. Ou dos mesmos anos, porque levámos uns anos em paralelo no liceu, pelo menos entre o nono e o décimo primeiro ano. Ela nunca soube quem eu era. Passei várias vezes por ela, a olhá-la, não nos olhos que não tinha coragem para tão grande descaramento, mas para a boca. Era para a boca que eu olhava, na secreta esperança que aquela boca um dia se abrisse para mim e dissesse Olá!
Nunca aconteceu.
Ou aconteceu. Mais tarde. Muito mais tarde. Já nenhum de nós tinha nada a ver com o que era naquela época.
Ela parecia outra. Outra de um passado tão distante e diferente daquele que eu lembrava. Acho que tinha envelhecido mal. Sentia ali um certo desleixe. Talvez a vida lhe tivesse sido madrasta.
Reconheci-a pelos olhos. Apesar de tristes, cansados e envelhecidos, ainda eram os olhos dela. Os olhos que eu evitava olhar quando passava por ela. A boca que eu conhecia tão bem, a boca para onde eu sempre olhava, receoso do olhar, essa já não era definitivamente a mesma. Agora era fina, quase um traço horizontal perdido entre vários vincos verticais que sublinhavam aquela boca que já fora um mar de promessas.
As voltas que a vida dá, pensei.
Bastou eu mostrar alguma empatia com ela, com a conversa dela para comigo, com as desculpas dela para eu não passar a multa, para ela olhar para mim como nunca tinha olhado trinta anos antes.
Sim, eu era polícia. Um simples polícia de trânsito que a minha vida também não deu para mais. Não me interpretem mal. Na verdade nunca quis ser mais do que era, do que sou. E já não sou polícia. Nem de trânsito nem de nada. Fui convidado a sair da corporação, para colocar as coisas de uma forma mais simples. E não quero falar mais disto. Aliás, não estou aqui para falar de mim, mas dela.
E então, eu era polícia, um polícia de trânsito, e tinha acabado de passar uma multa a um carro, aliás, uma carrinha, uma carrinha Mercedes, quando ela apareceu, esbaforida, a correr, ou a tentar correr, que o corpo já não ajudava muito ao atletismo, e talvez uma bronquite, pelo menos foi o que me pareceu quando ela chegou a correr ao pé de mim, tinha eu acabado de lhe colocar o papel com a multa no pára-brisas, e ficou ali uns momentos a tentar recuperar o fôlego e depois lá pediu desculpa. Eu reconheci-a logo. Reconheci-a pelos olhos. Mesmo com trinta anos de provações, reconheci-a logo. Era ela. Trinta anos depois era ela que estava a dirigir-me a palavra, a reconhecer a minha existência, a pedir-me, por favor, que lhe desse uma pequena atenção.
Eu sorri. Não foi um sorriso maldoso, nem gozão. Não, foi mesmo um sorriso de satisfação por, trinta anos depois, ela finalmente falar comigo.
E se ela falou. Não sei se me reconheceu. Mas não deve ter reconhecido. Como é que podia reconhecer alguém que nunca tinha conhecido? Eu ouvi-a falar. Pedir desculpa. Mais que uma vez. Que a vida não estava fácil. Ir levar e buscar os filhos. Que por mais crescidos que estejam, estão sempre dependentes da mãe. E nunca há lugares para estacionar por alguns minutos na cidade e depois tinha precisado de ir ali a uma loja encomendar alguma coisa que precisava para uma outra coisa que estava a fazer, que ela disse o que era mas que eu já tinha esquecido porque, nessa altura, estava eu a anotar, mentalmente, todas as transformações que trinta anos tinham marcado no seu corpo, na sua cara e, aparentemente, na sua vida.
Embora eu na altura fosse um simples polícia de trânsito, fazia ginásio. Não era um Adónis, mas não estava mal. Fui simpático com ela. Retirei-lhe a multa. Mas mais que a multa, pareceu-me, ficou agradecida por eu lhe ter dado atenção. Por eu a ter ouvido. Se não soubesse quem ela era, ficaria a pensar se não teria ficado entusiasmada com a atenção que lhe dispensei.
Depois dela se ter ido embora, fiquei a pensar nisso. Depois abanei a cabeça e disse-me que o melhor era esquecer aquele encontro imediato com o passado.
Lembrei-me desta história porque hoje, quando estava na caixa do Lidl, ela passou por mim. Ela foi às compras ao Lidl e passou pela minha caixa. Ela não me reconheceu. Obviamente. Aliás, deixei de ir ao ginásio. Mas eu, eu reconheci-a logo. Estava igual à última vez. Muitos anos longe do liceu, mas igual à última vez. Quando lhe perdoei uma multa de estacionamento e tinha ficado a pensar se ela não teria ficado entusiasmada comigo. Hoje não me reconheceu. Hoje, enquanto eu ia passando as compras dela pelo leitor do código de barras, nunca olhou para mim uma única vez.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/23]

Desconfinamento

Ia a meio do percurso quando percebi que estava sozinho. Onde é que se teriam metido? Voltei para trás à procura deles. Andei durante algum tempo no sentido inverso, a refazer o caminho, mas não via ninguém. Depois tive de parar. Havia bifurcações e eu já não sabia de onde é que tinha vindo. Os caminhos pareciam-me todos iguais. As árvores eram iguais. Os movimentos sinuosos dos caminhos também me pareciam todos iguais. Tudo parecia a mesma coisa, mas não o podia ser. Por momentos tive medo de me perder. Estava sozinho no meio do mato. Sentia-me perdido mas, ao mesmo tempo, ainda não tinha saído do caminho que começara a fazer com todos eles.
Recomecei a caminhar em frente. Haveria de ir dar a algum lado. Talvez ao sítio onde queríamos ir quando começamos a caminhada, lá atrás.
O horizonte não tinha mais que cinco, dez metros de cada vez. Sempre na próxima árvore. Sempre na próxima curva. A vista nunca estava desafogada. Estava no meio do mato. Um mato quase-cerrado. E eu continuava a palmilhar terreno à espera de chegar onde devia chegar e, com um pouco de sorte, talvez encontrar quem tinha perdido.
Era preciso não desmotivar.
Continuei sempre em frente. Sempre a caminhar sem parar. Sempre à espera de chegar a algum lado. Porque a algum lado deveria ir dar.
Até que cheguei. Finalmente! pensei.
A luz estava a cair. Ali à minha frente, o mar. A areia. A praia. A festa. A festa estava a acontecer. íamos para uma festa, afinal? Já não me lembrava. Teria chegado a tempo? A tempo da festa?
E eles? Onde é que eles estavam?
E pus-me às voltas pela areia à procura deles. A circular pelo meio dos outros, os que já lá estavam.
Enquanto circulava, ia percebendo que a festa já tinha acontecido. Garrafas vazias caídas pela areia. Embalagens de alumínio com pequenos ossos e restos mastigados de frango assado. Caixas gordurosas de pizzas, com restos de massa roída. Rodas de fogueiras a morrerem e a serem atiçadas ao mesmo tempo que a noite se fazia adulta e eu começava a ter mais dificuldade em perceber quem era quem no meio daquelas pessoas. Havia grupos de gente reunida à volta de tocadores de djambés e de guitarras. Havia grupos de gente à volta de fogueiras a partilhar charros, pequenas conversas, adivinhas, anedotas. Havia quem lesse a mão, as linhas-da-mão. Havia quem divagasse acerca da astrologia e do valor dos signos. Havia grupos de gente a dançar à volta de pequenas e potentes colunas que cuspiam metros de música colorida. Havia gente solitária parada a olhar para o mar; para as ondas do mar; para as fogueiras a arder; para os corpos entrelaçados e caídos na areia. Havia gente a mergulhar no mar. Havia gente a cantar. Havia gente a foder.
Não reconhecia ninguém.
Afastei-me para um canto e sentei-me numa pequena duna, encostado a uma árvore. Não sei que árvore era. Era uma árvore. Puxei de um cigarro e, quando o ia a meter na boca, entre os lábios, percebi que estava de máscara, de máscara social. Lembrei-me do vírus. Lembrei-me que estávamos a desconfinar, mas que devíamos manter distância. O vírus estava activo. Não havia vacina. Ainda nos infectávamos. Estávamos a desconfinar, mas devíamos ter cuidado. Muito cuidado. E então lembrei-me que não vira nenhuma máscara entre toda aquela gente que estava ali na festa, uns em cima do outros, uns encostados aos outros, uns dentro dos outros.
Ouvi uma sirene. Vi umas luzes azuis e vermelhas a varrerem o ar. A noite já tinha ganho o espaço. Vi a chegada do que me parecia ser a polícia. As pessoas começavam a desmobilizar. Sem grandes dramas. Levantavam-se e iam embora. Saíam do mar, molhados, e continuavam pelo mato dentro. Talvez em direcção aos carros. À estrada. Alguns iam abraçados. Outros iam amparados. A polícia ficara para trás a apanhar os que estavam tombados na areia. Os que estavam a dormir. Os que estavam em êxtase. Os que estavam mortos.
Eu fiquei ali mais um pouco. Ninguém deu por mim. Fiquei a fumar um cigarro atrás do outro. A perguntar-me Onde raio é que eles se enfiaram? e sem conseguir resposta.
Então, estava sozinho na praia. Já não havia festeiros nem polícia. Já não havia ninguém. As fogueiras já tinham morrido ou sido apagadas pela polícia. O que restava era o lixo da festa. Uma festa a que cheguei tarde e não encontrei ninguém conhecido e acabei por não estar com ninguém que não conhecesse.
Dois dias mais tarde soube que o número de infectados pelo coronavírus tinha aumentado drasticamente por causa daquela festa. Semanas mais tarde houve gente a morrer. Gente que nem tinha estado na festa.
As pessoas com quem tinha ido, nunca mais as vi. Não sei se estão vivas ou mortas. Nem sei já quem eram.
Hoje pergunto-me se realmente tinha ido com alguém ou se tinha ido sozinho. Já não me recordo de nenhum deles. De um nome. De uma cara. De qualquer relação. De uma pequena estória. Nada. Não lembro de nada nem de ninguém. Só me lembro de mim, sozinho, a caminho de uma festa onde cheguei tarde e que foi o melhor que me podia ter acontecido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/22]

Westworld

Tinha acabado de ver o Westworld. Tinha acabado de ver o último episódio da temporada. O oitavo episódio da terceira temporada. O genérico passou. A televisão ficou a transmitir uma imagem qualquer, uma imagem parada, à espera que eu desse seguimento à coisa. Um play qualquer. Um return. Uma escolha de menu. Mas, no momento, nem me apercebi. Não estava ali. Estava ali, no sofá, de cu enterrado no buraco do sofá a precisar de ser estofado, de cigarro consumido na mão, a cinza do tamanho do cigarro à espera de cair, à espera que eu a depositasse no cinzeiro antes de tombar livremente sobre o tapete da sala já de si bem sujo e a precisar, não já só de uma aspiradela, mas de uma limpeza a fundo, de escova e água com detergente, como a minha mãe me pagava para eu fazer, e foi assim que fui comprando os discos mais caros da minha vida, quando os discos eram em vinil, caros, de capas bonitas, e os ao vivo e duplos, coisa rara, e só raramente bons, esses raros mereciam todo o esforço que fizéssemos, como esfregar os tapetes de casa à mãe, assim, de cu para o ar, a esforçar os músculos ainda adolescentes, mas cheios de vontade de fazer a vontade e poder ter mais um disco fabuloso. Foi assim que consegui o Still. O Alchemy. Mas não estava lá. Estava ainda no interior daquela guerra entre humanos e androides, entre máquinas do destino e um qualquer ditador de algoritmos e razões de ser antes de verdadeiramente o ser. Quem é quem?
Despertei para a vida ao notar uma pequena baba a escorrer pela boca aberta. Estava de boca aberta de espanto. Não estava à espera da volta que Westworld viria a dar depois daquela primeira temporada tão sensaborona a fazer lembrar o Jurassic Park com mais dinheiro, melhores efeitos especiais e uma mais imaginativa equipa de argumentistas, com J.J. Abrams a segurar os fios para que tudo não se estilhaçasse. E, no entanto, aqui estamos.
Foda-se! foi o que me saiu sonoro. Foda-se!
Estava aterrado pelas possibilidades.
E se tudo fosse verdade? E se tudo é verdade?
Esqueci a cinza do cigarro e o cigarro e vi-os caírem sobre o sofá, não fizeram um buraco porque já estava frio, mas fizeram uma enorme mancha cinzenta, que tentei limpar com a mão e que acabei por espalhar ainda mais e tornar aquela mancha de sujidade numa mancha ainda maior. Levantei-me do sofá e fui até à mesa da cozinha onde tinha o computador e comecei a escrever o que me ia na cabeça assim, de jorro, sem ler nem reler o que estava a escrever, embora, ao escrever, tudo fizesse sentido e, no fim, publiquei-o no Facebook, sem ler nem reler, coisa que se pode confirmar, nem sei já o que é que lá está, nem as gralhas que possa ter, mas foi o que precisou de sair de mim naquele momento, naquele preciso momento, em que estava possuído pelo espírito da estória e pelo espírito digital de Dolores.
Depois parei. Respirei fundo. Tinha um resto de Herdade dos Grous que estava na bancada ao fundo a olhar para mim e servi-me de um copo. Acendi um cigarro, na esperança de me poder dedicar a espreitar os jornais online para bisbilhotar as notícias do dia quando dei por mim, de novo, ou talvez sem ter saído de lá afinal, naquele mundo de possibilidades.
Elon Musk já tinha avançado com a possibilidade de vivermos uma simulação. E se, mais que uma simulação, não passássemos de androides de última geração? Um mundo fabricado? Com 0s e 1s? E se o útero de uma mulher não for mais que uma impressora 3d que imprime crianças? Que a informação para essas crianças e para a sua impressão vai no esperma do homem?
Foda-se!
E toda esta guerra de informação, de dados pessoais, conquistados através de aplicações aparentemente tão inocentes como o FaceApp, não estarão a construir uma enorme base de dados que irá criar uma máquina tão potente e perversa como a Rehoboam, uma máquina transformada em deus, e se a máquina pode ser deus, porque é que nós não podemos ser máquinas? E já agora?… Não!…
Tinha acabado o copo de vinho. Tinha acabado o cigarro. Estava a enrolar um anel de cabelo nos dedos da mão direita.
Estava nervoso. Ansioso. Já não tinha mais vinho. Nem cigarros. Nem a porra de um Xanax.
Levantei-me da mesa e saí de casa. Precisava de mais vinho e cigarros para continuar a organizar as minhas ideias. Organizar as ideias antes que elas me abandonassem.
E foi nesse entretanto, entre o ir à mercearia e o regressar, que toda a estrutura da ideia que estava a construir se esboroou. O início estava cá. Tanto estava cá que consegui regressar a ele. Mas já não sabia para onde é que estaria a dirigir-me, para onde é que estava a ir. Ou a querer ir. Como se um algoritmo tivesse aproveitado esta pausa para me colocar no caminho de outra coisa qualquer. Uma coisa qualquer que não interessava para nada. Uma coisa inócua. Mas que deveria desviar-me do caminho que levava anteriormente.
E foi então que me lembrei que hoje era Domingo. Embora agora os jogos de futebol se prolonguem por toda a semana, e não haja um só dia sem futebol, a verdadeira forma de manter a adicção, hoje era o dia do Trio de Ataque, onde se fala de futebol por quem não o joga, mas por quem o analisa. Sim, hoje tenho de ver o Trio de Ataque. Beber aquela sapiência futebolística. Perceber o que se passa com o Benfica. Não é isso que importa na vida? Não?…
Há, no entanto, qualquer coisa cá dentro de mim que está a tentar esgravatar. Está a querer sair. Está a tentar dizer-me coisas. Como se o Trio de Ataque não fosse importante. Algoritmo. Desejo. Androide. Philip K. Dick. Westworld. Máquina. Deus. Porra. Porra. De repente tenho uma sopa de letras a formar-me palavras na cabeça.
Foda-se! Foda-se! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/21]