Não Consigo Respirar

Desculpa, não consigo respirar.
Eu pedia. Acho que pedia. Na minha cabeça eu ouvia-me dizer Desculpa, não consigo respirar. E não conseguia. Não conseguia mesmo respirar. Ele tinha o joelho em cima do meu pescoço. O joelho com o peso de todo o corpo em cima do meu pescoço. Eu não conseguia respirar e dizia-lhe Desculpa, não consigo respirar, mas ele não devia ouvir-me ou eu não estava realmente a pedir alto, com força, porque o joelho dele continuava a prender-me o pescoço e a impedir-me de respirar e eu já me sentia sem forças.
Sentia-me afastar. Afastar dali. Daquele chão. Daquele canto de chão junto ao carro, à roda do carro. Sentia-me afastar. Sentia-me flutuar e via-me ali, eu-ele naquele chão de asfalto, debaixo do joelho do homem, o joelho a prender-me a respiração e eu a tentar pedir-lhe que me deixasse respirar.
E é estranho. Não consigo respirar mas não consigo deixar de pensar que fumava um cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro. Sentar aqui no lancil do passeio, ao lado do carro, e fumar um cigarro. Ou um charro. Podíamos partilhar um charro, eu e ele, e falaríamos desta coisa de sermos diferentes mas, no fundo, sermos iguais. Ambos tivemos pais. Ambos, eventualmente, tivemos filhos. Dois braços. Duas pernas. Dois olhos. Duas orelhas. Duas narinas num só nariz. Fomos à escola. Fomos à escola aprender a ler. Aprender a escrever. Aprender a fazer contas. Aprender a raciocinar. Ou talvez não. Jogámos às escondidas e à apanhada. Jogámos futebol. Namorámos. Dançámos. Beijámos e, com sorte, fomos beijados. Lemos livros. Ou não lemos. Jogámos ao Monopólio. Roubámos moedas da carteira da mãe. Em algum momento da vida vimos O Rei Leão e nenhum de nós se identificou com o Scar ou com as hienas. Comemos um Big Mac…
Não devia ter falado em comida. Muito menos em hambúrgueres. Aquilo cai-me no estômago como uma pedra. E dói-me o estômago. Sabes? também me dói o estômago. Terá sido do Big Mac que comi?… Quando é que comi um Big Mac?… Estou perdido no tempo. Que dia é hoje? Terá sido do Big Mac ou do murro que levei?
Não consigo respirar. Ouve, por favor, não consigo respirar. O teu joelho no meu pescoço não me deixa respirar. Sinto-me tonto. Maldisposto. A desmaiar. Dói-me o estômago. Dói-me o pescoço. Doem-me os braços. Dói-me tudo. Dói-me todo o corpo.
Desculpa, não consigo respirar.
Não consigo respirar contigo em cima de mim. Com o teu peso concentrado no teu joelho e descarregado no meu pescoço. Não consigo respirar.
Estou a morrer, sabes?
Não consigo respirar por causa do teu joelho no meu pescoço.
Estás a matar-me, sabes?
Estás a matar-me.
Não consigo respirar.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/28]

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