O Dia Seguinte

Cada vez se torna mais difícil sobreviver ao dia seguinte.
O dia em que o mundo quer morrer.
O dia da ressaca.
O dia que passo debruçado na retrete a deitar fora o que o fígado já não quer tratar.
Cada vez se torna mais insuportável descobrir-me velho, velho e fraco. São os cabelos que acordam comigo na almofada, a minha única companheira de cama. São as peles que respondem à gravidade e tombam por mim abaixo. São os papos nos olhos. Os dentes que caem. Os pêlos que crescem nas narinas. As unhas que encravam. Os lábios finos, ridículos. As manchas no corpo. O cheiro, o cheiro a velho, o cheiro a velho e a morte.
Ontem dancei até de madrugada. Beijei perfumes. Bebi vinho tinto alentejano. Shots de vodca. Linhas de velocidade.
Ainda sei o que era um B52.
Um broche.
Uma chinesa.
E hoje?
Hoje é o dia seguinte.
O dia em que juro e prometo.
O dia em que me vendo em troca de um pouco de juventude.
Já não vou à igreja.
Nem a casa dos pais.
Já não frequento os amigos.
E perdi a família.
O que me resta é o resto. O que fica.
O que ninguém quis. Ninguém quer.
Ontem dancei até de madrugada com os fones nos ouvidos. Ninguém quer mais ouvir Cabaret Voltaire e Ultravox.
Ontem dancei até de madrugada e depois fui comer pão quente com manteiga Milhafre.
Bebi um chocolate quente.
Depois entrei no carrossel de Maio de onde ainda não saí.
E já não tenho mais nada para deitar fora.
Só se me deitar a mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/27]

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