Preciso de Me Levantar

Ainda ontem tremia de frio e cheguei a ponderar acender a lareira, quando percebi que não valia a pena ponderar porque não tinha lenha e também não ia para o pinhal, àquela hora, à cata de gravetos e pequenos troncos caídos para fazerem as vezes da lenha, e hoje já tenho dificuldade em respirar por causa do calor e do tempo extremamente seco. Ouço a minha própria pieira e enervo-me comigo mesmo. É uma chatice, esta respiração difícil dos asmáticos que, antes de enervarem os outros, enerva os próprios.
Então hoje está calor.
Vou à praia.
Almocei um sumo de laranja fresco. Não tinha fome para mais. Vesti uns calções de banho. Calcei os chinelos. Agarrei na toalha de praia. Na carteira, no óculos de sol, na máscara e decidi ir à praia. Uma qualquer aqui da zona. Uma das praias não oficiais. Uma das praias escondidas entre dunas à frente de mato cerrado cujos caminhos é preciso conhecer de antemão.
Chego à porta da rua, à porta da cozinha que dá para a rua, olho para as montanhas que lá estão à frente e vejo-as pouco nítidas. Está calor mas o tempo não está muito bom. Está um pouco enublado. Uma coisa muito ténue, mas real. O azul do céu está esbranquiçado, como algumas fotografias que tiro.
Penduro a toalha de praia na cadeira. Sento-me nessa cadeira, ali no alpendre, a olhar as pouco nítidas montanhas no horizonte. Acendo um cigarro. Recosto-me na cadeira.
Ainda não é tempo de ir à praia, pois não? E as praias devem estar cheias de gente, não é? Aquelas pessoas todas fartas de estarem em casa e a precisarem de sair, de sol, de água do mar e ondas e da água gelada do Atlântico a fazê-las bater o dente e de gente com quem conversar e comparar barrigas para não se sentirem tão sós.
Não, provavelmente não é a melhor altura para ir à praia.
A praia vai estar cheia de gente e vai estar frio e a água gelada.
É melhor ficar aqui por casa. Faço um gin tónico, um vodka laranja, um tinto de verano. Bebo tudo. Não tudo de uma vez, mas uns a seguir aos outros. Estendo a toalha na relva do quintal. Se me der o calor, posso sempre passar-me por água, pela água da mangueira como se fosse um repuxo.

A luz cai e eu continuo aqui sentado. Ainda não bebi nada. Ainda não me levantei para ir fazer alguma coisa para beber. Fumo. É a única coisa que consigo fazer. Fumar. Um cigarro atrás do outro. Como terá estado a praia?

Já está quase escuro. Serão horas de jantar, talvez. Não tenho fome. Tenho sede. Talvez tenha uma cerveja no frigorífico. Vou lá buscá-la. É só tirar a carica e está apta a ser bebida. Estou a acabar os cigarros.

Estou com sede e ainda não bebi nada desde o sumo de laranja natural do almoço. Já não tenho cigarros. É de noite. A Lua já está lá em cima. Devia levantar-me. Comer qualquer coisa. Beber qualquer coisa. Arranjar mais cigarros. Levantar-me. Primeiro preciso de me levantar.

Preciso de me levantar.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/25]

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