Regressar a Casa, parte 05

[continuação]

A mão gira na maçaneta da porta e entro dentro do meu quarto. Ainda é o meu quarto, depois de todos os quartos por onde andei a viver estes anos todos?
Cheira mal. Não mais que nas outras divisões da casa, mas talvez por ser o meu quarto e ter o seu cheiro mais marcado. Está escuro como nos outros sítios. Mas conheço a geografia do quarto de cor. Se a minha mãe não mudou os móveis de sítio, não preciso de luz para ir até à janela e abrir tudo para trás e para cima e deixar entrar o dia cá dentro. Ainda seria capaz de ir às estantes, às prateleiras onde estão os livros e escolher alguns. Os livros de cinema que estarão na prateleira de cima, porque eram maiores e de formatos mais estranhos. A poesia em baixo, nas últimas prateleiras, porque eram os mais fininhos e ficavam para o fim. Talvez ainda descobrisse Os Filhos de Torremolinos porque era grosso. Ou Os Maias por ter a cota rasgada de tanto andar na mochila, para cima e para baixo, durante o nono ano sem nunca ter sido lido.
Afasto as cortinas. Puxo as persianas. Abro a janela. Respiro fundo. Olho para fora. Acendo um cigarro e debruço-me à janela a olhar para fora. Vejo a casa de L. Tantas vezes que saltei aquele muro. Para ir ter com ela. Para ir ter com ela ao quarto. Para fugir do pai. Às vezes do cão, cabrão, que não me reconhecia às tantas da manhã, ou não sentia o meu cheiro. Via-me a passar pelo quintal e punha-se a ladrar e eu parava. Ele também parava. Parávamos os dois a olhar um para o outro. Ele ficava quieto, mas a ladrar. Acendia-se uma luz em casa e eu corria para fugir de quem quer que lá viesse, talvez o pai dela, e ele começava a correr atrás de mim, a ladrar, a ladrar. Nunca me apanhou mas, chegou a estar muito perto disso. E L. à janela, a rir-se, a ver-me a ser perseguido pelo cão, a fugir ao pai dela, a largar a cama dela à pressa quando me esquecia das horas e nem percebia que era dia de semana, havia aulas e tinha de estar em casa onde era suposto estar e então tinha de correr e ela ria, ria.
Tenho saudades desses tempos.
Tenho saudades daquele meu eu.
Deixo cair a beata do cigarro no quintal. Viro-me de costas e encaro o meu quarto. Era assim. Era mesmo assim que era o meu quarto. Era assim que me lembrava dele, que sempre me lembrei dele. A cama a um canto, encostada a uma parede. A mesa-de-cabeceira com uma pilha de livros para ler e que nunca li. Fui embora sem que os conseguisse ler. E a minha mãe nunca os tirou de lá. Sorrio. Sorrio à memória da capacidade da minha mãe de respeitar as paranoias do filho. Que livros andava eu para ler? E vou à mesa-de-cabeceira e agarro nos livros. O primeiro tem tanto pó que nem sei o que é. Limpo-o na perna, às calças de ganga. Notícia da Cidade Silvestre… Lídia Jorge? Espanto-me. A Malcastrada de Emma Santos. Mas eu li este. Não me lembro quando. Nem onde. Mas li. Acho. Acho que li. Na verdade já não me lembro. Assim Falava Zaratustra do Nietzsche. Pois. O livro que andou por todo o lado. Comprei várias edições. Nunca o li. Também não vai ser agora, não é? E este? Pássaros Feridos. Colleen McCullough. Nem sei o que é isto. O que é que isto está aqui a fazer? É meu? Era, devia ser. Não me lembro nada disto.
Sento-me na cama com os livros na mão. Deixo-me cair para trás. Sinto o pó subir. Entra-me pelas narinas, pela boca, sinto o pó invadir-me os pulmões, sinto a asma a reclamar com o pó, mas deixo-me estar deitado de costas na cama, a olhar o tecto. Há duas rachas. Duas rachas que vão de ponta a ponta. Largo os livros e deixo-os cair em cima da cama. Mas eles rebolam e acabam por cair no chão. Ouço o barulho do tombo. Foda-se!, penso. Fecho os olhos. Não queria que os livros se estragassem. Tenho sempre muito cuidado com os livros. Como é que os deixei cair? a estes?
Olho para o cimo de uma das estantes e percebo uma pilha de jornais. Que jornais serão aqueles? Não me levanto, mas sinto um sorriso nos lábios e digo alto, estremeço um pouco quando ouço a minha voz a dizer Os Blitz! e percebo que julgava que a minha mãe os tinha deitado para o lixo. Dizia-me muitas vezes que Os jornais são um criador de bicharada, e sempre pensei que os tinha deitado fora. Já não existe, o Blitz, não enquanto jornal. Será que valem ainda alguma coisa? Não devem valer. No fundo é só papel amarelecido que já nem suja as mãos. Hoje já nada tem valor.
Depois sinto a cama a mexer-se, o colchão a estremecer e vejo M. a gatinhar em cima da cama até chegar ao pé de mim, pôr-se em cima de mim e enfiar a língua na minha orelha, eu estremecer, abanar a cabeça e dizer Na orelha não! e sentir a orelha húmida da lambidela da língua marota de M. que o fazia sempre de propósito só para me irritar. Mas gostava de mim. Gostava bastante de mim, M. Eu também gostava dela. Como é que acabou? Como é que acabámos?
E depois ocorre-me uma gravidez. Ocorre-me um aborto. Ocorre-me os pais. Os pais dela. Os pais dela primeiro. Os meus pais depois. Como é que me esqueci disto? Como é que consegui esquecer uma coisa destas? O que será feito de M.?
E, de repente, sinto-me sem forças.
Estou deitado na cama do meu antigo quarto a olhar para as duas rachas do tecto a pensar numa merda que já não me lembrava e a porta da rua está aberta e as janelas também estão todas abertas e eu já não vinha aqui há tantos anos e já não sei quem são os vizinhos nem sei o que é feito dos meus amigos de infância e acho que vou chorar e sinto a tua falta mãe e também a tua falta pai e porque é que esquecemos coisas e lembramos outras e dói-me o peito e estou com dificuldade em respirar e devia levantar-me mas não quero só quero fechar os olhos e adormecer e voltar a acordar e estar deitado nesta cama a comer uma torradas com manteiga e a ler umas histórias do Príncipe Valente e sentir o cheiro das amêijoas de Sábado…

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/23]

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