Queimado pelo Sol num Dia de Praia

Abri um olho e vi o dia. Senti calor. Empurrei o edredão com os pés e deixei o frio da manhã lavar-me a transpiração nocturna. Mas afinal não estava frio. Eu é que estava demasiado quente do edredão. Levantei-me da cama. Caminhei descalço ao longo do corredor até à cozinha. Abri a porta da rua e saí. Saí para o alpendre. Estava um sol luminoso. Quente. O céu azul. Um azul bebé e sem nuvens. Os pássaros numa orgia sonora nas árvores à volta. Os gatos dormitavam à sombra e nem levantaram a cabeça quando saí. Peguei nas tigelas dos gatos e do cão e despejei-lhes água da torneira. Os gatos nem ligaram. O cão apareceu e pôs-se a beber água, sofregamente. Eu decidi Vou à praia.
Entrei em casa. Agarrei num boné. Peguei numa toalha. E voltei a sair de casa. No pequeno relvado do quintal estendi a toalha e deitei-me ao sol.
Pus o boné entre a cabeça e a cara. O calor adormecia-me o corpo. Fechava-me os olhos. Embalava-me os pensamentos.
Fui levado de regresso a São Pedro de Moel. Deitado na areia, em baixo das piscinas que já não existem. Deitado de barriga para baixo na toalha sobre a areia da praia. Os olhos abertos, manhosos, espreitam a miúda ao meu lado. Mas eu sei que ela também está a olhar para mim. Também espreita para mim por baixo dos braços, sorrateira, a pensar que eu não percebo que ela está a olhar para mim. Depois eu tiro o braço da frente e olho descarado para ela. Ela faz o mesmo. Sorrimos. Estamos com os braços estendidos nas toalhas e as mãos tocam-se. Quem tomou a iniciativa? Já não sei. Mas estamos de mãos dadas e ela agora fecha os olhos. Já me agarrou. Já estou ali. Já estou ali com ela. Já sou dela. Não precisamos de falar. De explicar nada. Está tudo implícito.
Depois ela levanta-se e puxa-me. Vamos ao mar, diz. E eu vou. Vamos os dois. Mas vamos com cuidado. O mar de São Pedro de Moel não é uma brincadeira. É preciso ter atenção. Mas vamos. Vamos os dois. Com cuidado. De mãos dadas. Molhamos os pés. As pernas. Sentimos os pés enterrarem na areia molhada com o recuo violento da água do mar. Ela larga-me a mão de súbito, corre para uma onda que se aproxima e mergulha. E eu, apanhado de surpresa, fico ali a vê-la fazer o que eu devia ter feito e digo para mim Conas!
Mergulho a seguir. Mas saio logo. E ela também. O mar está a puxar. Estamos parvos um com o outro, como estão os apaixonados, mas não somos estúpidos. Saímos do mar cheios de areia nos calções. Ela deita-se de costas. Eu deito-me de bruços.
Então sinto uma dor. Como se estivesse arder. Sinto o peito a arder. As pernas a arder. A pila a arder. Abro os olhos, e chamo-a. Chamo-a. Mas ela parece não me ouvir. Está a olhar para mim e sorri. Sorri apaixonada. Será que é agora que me vai dar um beijo? Mas eu sinto-me a arder. E então levanto-me. Sento-me na toalha. Não estou em São Pedro de Moel. Estou em casa. No quintal. Já não sou um adolescente apaixonado em São Pedro de Moel. Sou um velho em casa que não tem paciência para confusões e pessoas. E estou mesmo a arder. Tenho o corpo vermelho. Não pus creme protector. Adormeci. Deixei-me levar pelo tempo. O sol já está alto. Queimo.
Que horas serão?
Que dia é hoje?
Em que ano estou, afinal?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/17]

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