A Tentar Dançar à Chuva

Acordei com os pés gelados. Pensei logo no tempo em que usava uma botija de água quente para aquecer a cama e os meus pés. Pensei na falta que as mães fazem nestes momentos. Bastava gritar Mãe! Oh, mãe! e a minha mãe vinha a correr acudir as necessidades básicas de sobrevivência ao meu dia-a-dia. Nunca tinha os pés frios. Quando saí de casa dos meus pais, acabaram-se os pés quentes. Ninguém nunca mais me aqueceu água para a botija.
Não foi por causa dos pés gelados que acordei. Acordei com a chuva a bater violenta contra a janela do quarto. Acordei assustado. Parecia mesmo que a tempestade estava com vontade de entrar pelo quarto dentro. Sentia o vento a soprar nas árvores aqui à volta. Ouvia o assobio terrível, provocador, do vento. Pensei se a casota do cão estava a aguentar o embate. Pensei por onde andariam os gatos. O alpendre devia estar inundado. O telheiro do carro talvez fosse uma solução. Às vezes vão para cima do carro e deixam-se lá estar a dormir. Já tive que os enxotar para poder sair com o carro. Já tive de parar ao portão para os tirar de cima do capot onde vão deitados a olhar para mim como se me perguntassem Que raio é que estás a fazer, pá?
Os olhos habituaram-se à escuridão e começaram a ver alguns contornos que a gretas abertas das persianas da janela e os números luminosos das horas do rádio-despertador digital acentuavam.
Virei-me de lado na cama. Senti dor na coxa. E na perna. E no braço. Tudo do lado esquerdo. Tinha-me esquecido da queda. Tinha dado uma queda na estrada, lá em baixo. Andava a passear na estrada. Andava a desconfinar. Estava de calções e t-shirt. Estava sol. Sol e calor. Estava um belo dia para usufruir do desconfinamento e sair à rua. Ouvi um barulho atrás de mim e virei-me. Desequilibrei-me e caí no chão. No asfalto. Tive uma espécie de vertigem que me fez dançar na estrada, prendeu-me os pés e fez-me tombar no chão. Escorreguei um pouco para a vala da berma, cheia de brita, e raspei o meu lado esquerdo e a palma das duas mãos. Fiz sangue no braço. Esfacelei a coxa e rasguei os calções. Regressei a casa. Furioso, claro. Tomei banho. Pus betadine. Abri a porta do congelador. Agarrei na garrafa de Moskovskaya e levei-a à boca. Bebi. Bebi como se não houvesse amanhã. Doía-me o corpo.
Olhei para a rua através da janela da cozinha. Ainda era de dia. Deu-me o desânimo. Senti um peso nos ombros. Senti uma nuvem escura sobre a cabeça. Uma nuvem escura e trovejante. Gritei. Gritei Foda-se! bem alto. Nem sei porquê. Gritei, só. Guardei a garrafa no congelador. Fui para o quarto. Abri a cama. Enfiei-me lá dentro. Fechei os olhos e pensei Dorme!
Quando acordei tinha os pés gelados. Os pés gelados e o corpo dorido. Mas só percebi o corpo dorido quando me virei na cama. A chuva batia intensamente na janela. Parecia querer entrar. Eu fechei os olhos mas estava desperto. Não conseguia voltar a adormecer.
Acendi a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Peguei no iPad. Fui ao Facebook. Ao Instagram. Ninguém. Abri um programa de desenho e fiz um. Chamei-lhe A Tentar Dançar à Chuva. E mandei-o para as redes sociais. Depois levantei-me e fui fazer torradas. Estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/10]

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