O que É que Ele Queria Dizer com Aquilo?

O que é que ele queria dizer com aquilo?
Não consigo deixar de pensar no que ele me disse mas, não sei o que é que ele queria dizer com o que disse.
Agora já é tarde demais para saber, não é?
São três da manhã. Está um grande luar. Parece quase manhã. Se eu desligar os faróis do carro, continuo a ver bem a estrada. Olha! Olha aqui!
Parece que é a maior Lua do ano. Superlua, dizem. Os tipos que sabem destas coisas.
Mas o que é que ele queria dizer com aquilo?
Tenho de me despachar. Não tarda é de dia. Agora também parece dia, não parece? Um dia um bocado cinzento, mas dia, não é? Pára com isso, pá. Pára de falar contigo próprio como se estivesses a falar com outro. Pára com isso antes que fiques maluquinho.
Tenho de me despachar. Já são três da manhã e ainda tenho uns valentes quilómetros até chegar a Castelo de Bode. Ainda tenho de descobrir um bote. Acartar o corpo até ao bote. Arranjar umas pedras pesadas. Remar até ao meio da barragem. Voltar para o carro. Voltar para casa. Limpar o carro. Tomar banho. Lavar a roupa.
Mas que raio é que ele queria dizer com aquilo?
Este luar é tão forte que quase dá para bronzear.
Que raio de conversa a minha. Atina, vá. Acalma-te. Estás na estrada. Põe-te atento. Olha para a frente. Tem atenção aos outros carros.
Um cigarro. Preciso de um cigarro. Agarro no maço. Tiro um cigarro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo encher-me os pulmões. Acalmo. Descontraio.
Estou sozinho na estrada. É de madrugada. Já são três e meia da manhã. Está luar. Aproximo-me da barragem de Castelo de Bode.
Luzes à frente, na estrada. A polícia. Merda.
Páro o carro. Volto para trás. Viro na próxima à esquerda. Talvez não me tenham visto. Acelero. Porra, as luzes vêm atrás de mim. A polícia vem atrás de mim.
Carrego no acelerador. Deito o resto do cigarro aceso pela janela. Agarro o volante com as duas mãos. Faço as reduções, para as curvas, sem abrandar a velocidade. Eles estão a aproximar-se. Não os posso deixar apanharem-me. Não no carro. Não com ele no carro.
Viro à direita ali, na aldeia. Volto para trás. Esqueço a barragem de Castelo de Bode. Vou para outro lado. Talvez para o mar. Mas não tenho barco para entrar no mar. Porra!
Viro aqui, outra vez. Já não vejo luzes atrás de mim. Talvez os tenha despistado. Talvez não estivessem atrás de mim. Talvez nem me tivessem visto.
Tenho de largar o corpo. Tenho de largar o corpo e é mesmo aqui. Nesta ponte. Que rio é este? E que importa, o nome do rio? Lanço o corpo daqui. Não tenho peso para afundar o corpo. Não faz mal que vai ser arrastado pela corrente. Com sorte vai até à foz e entra no mar e as marés levam-no para cascos-de-rolha.
Páro o carro aqui. Em cima da ponte. Saio. Abro o porta-bagagens. Agarro no corpo. Tiro-o do porta-bagagens. Arrasto-o até ao murete. É pesado, o corpo. Ergo-o. Ergo-o até ao cimo do murete. Transpiro. Estou cansado. Passo uma parte do corpo para o outro lado. Levanto o resto do corpo. Lanço-o todo para lá do murete. Ele voa. Ele voa e depois cai. O corpo cai da ponte abaixo. Vejo o corpo a cair. A mergulhar nas águas do rio. Ouço um ligeiro barulho do corpo em contacto com a água. Vejo o corpo a desaparecer no rio. Depois reaparece. E desliza leito fora. Vejo-o a deslizar. Lá vai ele. Com a corrente. Talvez chegue ao mar. E desapareça. Talvez desapareça de vez. Talvez eu tenha tempo de regressar a casa. Limpar o carro. Tomar banho. Lavar a roupa. E deitar-me antes de ser manhã.
Olho para trás e não vejo as luzes da polícia. Atento aos barulhos e não ouço nada.
Entro no carro e arranco de regresso a casa. Talvez tenha tempo.
E o que é que ele queria dizer com aquilo?

Aquilo, o quê? O que é que ele disse? Esqueci-me? O que é que ele disse? Foda-se!Foda-se!Foda-se! O que é que ele disse, pá? O que foi? O que foi que ele disse?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/09]

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