O que É que Vamos Almoçar?

Início do mês. É de tempo de ir às compras. Levanto-me cedo. Não tomo banho. Passo a cara por água. Sacudo o cabelo para tirar os jeitos da almofada. Bebo café e como uma torrada. Lavo os dentes. Tiro o carro debaixo do telheiro. Espero por ela com o carro a trabalhar. Vamos os dois ao hipermercado. Eu fico no carro. Ela vai às compras. Não precisamos de ir os dois em excursão ao hipermercado em tempo de distanciamento social. Ela leva uma lista com o que precisa de comprar. O multibanco no bolso das calças. Uma luva na mão direita. Uma máscara na cara. A máscara é social, como lhe chamou a ministra da saúde. Foi feita por ela na máquina de costura que a mãe lhe deu quando casou pela primeira vez e que nunca tinha utilizado. Utilizou agora e safou-se bem que as máscaras que fez, e também fez duas para mim, as minhas são pretas, com duas camadas de algodão e elásticos para prender atrás das orelhas, estão bem catitas e fixam-se bem à forma da cara. Mas vai só ela às compras que eu pertenço ao grupo de risco. Estou a ficar velho e tenho problemas respiratórios. Ela não. Mas faço questão em acompanhá-la até ao hipermercado. Vou eu a conduzir e depois fico no parque de estacionamento à espera dela. Fico a ouvir os noticiários da rádio no carro até ele se desligar automaticamente. Depois fico ali em silêncio, dentro do carro, a olhar as pessoas que chegam e vão também fazer as compras do mês, da semana, do fim-de-semana.
As pessoas passam à minha frente, pelo pára-brisas como se fosse uma tela de cinema. Passam da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Poucas as que vêm em profundidade. Quase só mulheres. Mulheres sozinhas. Há alguns casais. Casais novos. Talvez namorados. Talvez casados de fresco. As mulheres empurram carrinhos cheios de compras. Os poucos homens que passam, passam com caixas de cerveja e garrafas de vinho. Os homens parecem ser mais práticos. Quase ninguém de máscara. Quase ninguém com luvas. As pessoas caminham próximas umas das outras. Cruzam-se. Tocam-se. Acho que não têm muito cuidado. Acho que as pessoas, no seu geral, se estão a cagar para o contágio. Acho que acreditam que só acontece aos outros. Ninguém conhece ninguém que esteja infectado. Acho que não acreditam nas notícias. Acho que pensam que é tudo folclore. Tenho lido sobre umas teorias da conspiração nas redes sociais. E desde que a NASA veio admitir o avistamento de alguns OVNIS por pilotos da Força Aérea, essas teorias têm ganho maior visibilidade e outros contornos.
Vai ali uma mãe com uma filha adolescente. São as duas pequeninas. Ao fundo, uma família, pai, mãe e dois filhos pequenos. Rapazes. Todos em fato-de-treino. O pai com fato de treino roxo fluorescente dos anos noventa. Nenhum deles leva máscara.
As pessoas estão feias.
Será que passei de concelho? Agora que pensei nisso, não sei, não faço ideia. Será que estou no mesmo concelho? Ou estou no concelho vizinho?
Estou saturado de estar aqui a olhar para estas pessoas. Eu nem gosto de pessoas. Quero ir-me embora. Apetece-me um café expresso. Uma Bola de Berlim com creme. Um Perna-de-Pau.
O que é que vou almoçar?
Vejo-a a vir lá ao fundo, a empurrar um carrinho cheio, como o das outras pessoas. Mas ela empurra o carrinho com uma mão com luva de látex. Traz a máscara na cara. Eu saio do carro e abro o porta-bagagens. Ajudo-a a pôr as compras no carro. Ela espalha álcool pelas mãos dela e pelas minhas. Esfregamos as mãos. Entramos no carro. Dou à chave. Ouço o motor a funcionar. A rádio desperta. E eu pergunto-lhe O que é que vamos almoçar?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/02]

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