O Futuro É um Nada

Um de Maio. Podia ser o início de uma história de amor. Mas era somente um relato de ausência. Era o Dia dos Trabalhadores. Mas já não havia trabalhadores. Estavam desempregados. Estavam doentes. Tinham falecido. Restavam os colaboradores. E esses já não eram trabalhadores. Já não eram operários. Esses eram colaboradores. Chefes de si próprios. Igual-igual. Donos de pequenas empresas com um só cliente. O antigo patrão tornado cliente. Igual-igual. O antigo operário era agora burguês. Gel no cabelo e havaianas ao fim-de-semana a passear no areal da Costa da Caparica. Antes isso que ler um livro, gritam-me.
Ainda ouvi alguns relatos, ao longo do dia, de gente em manifestação na Alameda, em Lisboa. A Alameda onde se festejava o Dia do Trabalhador quando o Dia do Trabalhador era festejado. Agora já não havia ninguém para festejar nada. Ou quase ninguém. Ainda houve alguns que foram à Alameda participar numa coreografia norte-coreana. Os poucos trabalhadores que existiam foram contaminar-se uns aos outros. Haveriam de morrer infectados nas semanas seguintes.
O bizarro de tudo isto viria ainda mais tarde, quando os patrões começaram, eles próprios, a perceber o erro que tinham cometido e a começarem a festejar, eles próprios, sim, o Dia do Trabalhador. Para lembrarem. Para se lembrarem quando começaram a perder os seus consumidores. A razão da sua existência. Sim, porque a razão da sua existência não era a produção. Era a venda. Sem consumidores, não havia vendas. Sem trabalhadores, sem gente com trabalho e salário, sem gente com um Rendimento Básico Incondicional, sem gente, afinal, com capital para consumir, sem dinheiro a circular entre a base da pirâmide e o seu topo, com tudo estagnado, não havia capitalismo. Sem base para suportar o topo, o topo iria começar a descair. No fim, iria tudo terminar como terminam todas as coisas: em nada.
Claro que ninguém iria sobreviver à história para a poder contar, nem haveria ninguém a quem contar, nem haveria alguém a quem pudesse interessar a história e muito menos poderia haver alguém que pudesse dizer Eu bem avisei!
Mas eu sei. Eu daqui já espreitei o futuro e vi como era. E era um vazio. Um nada. Caminhamos para o nada. Estamos tornados irrelevantes.
Sentado no meu alpendre, a beber um copo de Herdade dos Grous tinto e a fumar um cigarro, assisto ao caminhar imparável da irrelevância. E já não faço nada para parar a sua caminhada porque já não vale a pena. O futuro é o que fizemos dele.
A vossa única esperança é que nos ofereçam uma segunda oportunidade num outro mundo semelhante a este e rezar para que não o fodamos como fodemos este.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/01]

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