A Liberdade Está a Passar por Aqui

Hoje era o dia das possibilidades. Tudo podia acontecer. A liberdade estava a passar por aqui.
Era meia-noite e um e eu já não conseguia pregar olho. Não queria perder pitada do dia, embora fosse ainda noite. Já sabia que não ia acontecer nada porque não podia acontecer nada. As pessoas tinham de manter distâncias, não se podiam agrupar, não se podiam tocar. Não podia haver aglomerações e as comemorações teriam de ser comedidas e, o bizarro de tudo isto, é que estas constrições à liberdade de cada um eram precisamente para preservar a liberdade de todos. A liberdade de continuar a existir.
Passaram-se as horas. O dia sucedeu-se à noite. As redes sociais começavam a agitar-se. Os discursos da praxe prometiam o que prometiam que é sempre o que se promete nestes dias em que as promessas galvanizam. Já sabia que amanhã já nada disto interessava mas, hoje, hoje sentia-me em sintonia com todos. Com quase todos, vá lá. Há sempre uns que sobem as escadas do orgulho e são muito superiores a tudo isto que faz mexer as massas. Acham que é tudo ridículo. Depois há outros que não ligam porque não ligam a nada que não seja eles próprios e os seus. Por último, os que não gostam mesmo nada da nada. Afinal ainda há muita gente que não está em sintonia.
Que importa?
Discursaram os discursos da praxe. Perante menos convivas que o habitual. Comentaram-se os discursos de cada um dos intervenientes. Comentaram-se os comentários. Cantaram-se canções à janela. E Depois do Adeus. Grândola, Vila Morena. Ainda houve quem importasse o Bella Ciao. Houve quem gravasse tudo com telemóvel. Houve quem postasse tudo isso nas redes sociais. Uns bateram palmas. Ofereceram corações. Outros assobiaram. Vomitaram ódio. Afinal, é isto que nos liga, as nossas grandes diferenças e as peculiares formas como olhamos o mundo.
A noite chegou. Completou-se um ciclo. Mais um. Estava cansado.
Estou cansado.
Vou dormir a pensar no que fazer à minha vida. Liberdade sim, mas não de estômago vazio.
Há sempre possibilidades. Tudo pode acontecer. A liberdade está a passar por aqui. Bate à porta mas, não traz nada com ela. Nada de novo. Como é que vou encher a barriga amanhã? E depois de amanhã?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/25]

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