Ela Aparecia Lá por Casa e Ficava a Dançar Comigo

Naquele tempo eu trabalhava como assistente de realização em pequenos filmes de baixo orçamento. Tínhamos de ser pau para toda a obra. Às vezes para além do nosso trabalho também tínhamos de ser pais e mães de muita gente, especialmente dos realizadores e dos actores, personagens sempre tão cheias de dúvidas e a precisarem de um certo conforto e de uma palavra de ânimo.
Chegava a trabalhar doze, treze, quatorze hora por dia só em plateau, a dirigir as várias equipas, a aguentar os egos dos realizadores, a minimizar os danos financeiros dos produtores, a garantir menos horas de trabalho e horas extra pagas ao resto da equipa, a dar carinho aos actores, tantas vezes abandonados por realizadores indecisos e demasiado nervosos para conseguir tirar dos actores o que eles tinham para ser tirado. Mas também, naqueles filmes de série B não havia muito a desejar tirar. Era o que era. E tinha de ser feito. E alguém tinha de garantir que se fazia. E eu era esse alguém.
Depois destas doze, treze, quatroze horas de trabalho em plateau, mal chegava a casa, abria uma garrafa de vinho tinto, sentava-me na mesa da cozinha, computador aberto, e preparava a folha de serviço do dia seguinte, deixando-a depois em stand-by à espera de eventuais alterações de última hora, coisa que acabava quase sempre por acontecer. Depois acendia um cigarro, pegava no telemóvel e telefonava aos chefes de equipa a perguntar se estava tudo pronto para o dia seguinte, confirmava com os actores se já sabiam os horários para a maquilhagem, cabelos e guarda-roupa e acabava a noite de trabalho a falar com a produção. Confirmar transportes, locais de filmagens, autorizações. Às vezes dois ou três dedos de conversa com o produtor sobre como é que estava a correr o filme, a prometer que mantinha o realizador dentro das datas e do orçamento, sabendo à partida que nada do que eu dizia iria alguma vez ser verdade. Mas tentava-se.
No fim desligava o telemóvel. Fechava a tampa do computador. Olhava à volta da cozinha. Precisava de comer alguma coisa. Nunca sabia o que me apetecia comer. Acabava sempre por fazer uma sandes de presunto. Quando não havia presunto fazia com mortadela. Mais um copo de vinho tinto. E depois ia finalmente para a sala. Sentava-me pesadamente no sofá, cansado, ligava a televisão que ficava a trabalhar para o boneco e aguardava que ela chegasse, porque essa era a altura em que ela chegava.
E ela chegava, sentava-se no outro sofá e olhava para mim. Sorria-me. Um sorriso doce. Eu voltava a acender outro cigarro e começava a conversar com ela. Falava de tudo com ela. As dificuldades nas filmagens, os problemas com os realizadores, com os produtores, a dificuldade em manter a tranquilidade nos actores, a falta de dinheiro no projecto, a crónica falta de dinheiro no projecto, o desespero por um local de filmagens que se tinha tornado impraticável, um fato que se estragara, os figurantes para o dia seguinte, demasiados para eu conseguir tratar deles todos, poucos para as necessidades do filme, até chegar às partes mais íntimas da conversa e dizer-lhe Fazes-me falta! e ela sorrir outra vez, um sorriso de simpatia, um sorriso de quem percebia a falta que me fazia mas que não podia fazer nada para mudar o estado das coisas. Era assim a vida. A minha vida. Às vezes punha uma música a tocar, uma música melosa do tempo em que ainda dançava e dançava com ela, abraçados, eu sentia-lhe o cheiro do cabelo acabado de lavar, e é estranho como às vezes me esqueço da cara dela, da voz dela, mas não me esqueço do cheiro dos seus cabelos acabados de lavar, e dançávamos durante toda a noite, até que o telemóvel tocava e eu perguntava sempre Quem será a estas horas? e ela largava-me, eu ia buscar o telemóvel, ela despedia-se de mim, lançava-me um beijo com a mão e desaparecia. Eu agarrava o telemóvel, perguntava Quem é? Quem é?, mas nunca era ninguém, era o despertador, eram horas de me levantar, era já outro dia, outro dia de trabalho, e eu levantava-me do sofá, desligava o alarme do telemóvel e despia-me para ir tomar um duche e vestir roupa lavada que estava a nascer mais um dia de trabalho duro e eu tinha de me preparar para ele.
E enquanto ia a caminho do banho, perguntava-me sempre pelo dia em que eu chegasse a casa e ela já lá não estava para partilhar comigo os pequenos problemas do dia-a-dia. E não queria que esse dia chegasse.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/19]

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