A Velha Morta Dentro da Cama

Abri a porta com um cartão de crédito. Forcei a porta, enfiei o cartão pela nesga da porta forçada até chegar ao trinco da fechadura. Depois foi só tentativa e erro até conseguir abrir a porta e empurrá-la para trás.
O trinco cedeu mas tive de empurrar a porta com força. Algo estava a travá-la. Mal forcei a porta um pouco para dentro, senti logo o cheiro. Um cheiro a podre. Um cheiro pestilento que me fez recuar para trás, para as escadas do prédio, e me provocou vómitos. A vizinha que estava comigo no patamar das escadas, e que eu quase atropelei no recuo, percebeu o cheiro. Levou a mão ao nariz. Tirou a écharpe que tinha ao pescoço e deu-ma para as mãos. Eu levei a écharpe ao nariz e voltei a empurrar a porta para dentro. Tive de forçar. Fazer força. A casa estava às escuras. Estiquei o braço para a parede. Encontrei o interruptor da luz. Cliquei para cima. Cliquei para baixo. Não havia luz. Não havia luz em casa. Fui às escuras até à parede do fundo, até à janela, com cuidado para não bater com as pernas nem com a cabeça em lado nenhum. Encontrei a janela, apalpei à volta e puxei as estores. Abri a janela de par-em-par. Pus a cabeça de fora e respirei o ar da rua. Virei-me para dentro, para a sala. Olhei para o fundo, para a porta de entrada e vi um monte de pêlo no chão junto à porta. Parecia um casaco de peles tombado. Depois percebi que era o cão. O cão morto atrás da porta da rua.
Voltei a colocar a écharpe no nariz e avancei dentro da sala. Estava tudo em ordem. Tudo em ordem mas cheio de pó. Como se a casa tivesse sido abandonada. A televisão de cinescópio com um naperon por cima. Uma mesa ao lado com inúmeras fotografias emolduradas. A mesa de apoio, em frente ao sofá, com o comando da televisão e do cabo, lado-a-lado. Um pequeno vaso com uma planta morta. Uma mantinha dobrada sobre o sofá. Vários quadros clássicos, de representação da vida de antigamente, pendurados pelas paredes. Circulei com cuidado. Saí da sala, entrei num corredor. Ao fundo percebi a cozinha. Havia alguma luz da rua a iluminar ao fundo do corredor, a cozinha. No corredor, uma porta à direita. Outra à esquerda. Fechadas. Abri uma. Abri a outra. O cheiro era ainda mais insuportável. Um cheiro a qualquer coisa podre. Mais forte. Mais azedo. As duas portas davam para a escuridão. Fui à cozinha. Louça no escorredor no lava-loiça. Um chaleira sobre o fogão. Uma fruteira com algumas peças de fruta já podres. Algumas desfeitas e alguns tufos de bolor. No chão, debaixo da janela aberta e sem estores, duas tigelas vazias. Deviam ser do cão. Mas não havia nem comida nem água. Encontrei fósforos e regressei ao corredor, às portas abertas para buracos negros. Prendi a écharpe no bolso das calças e acendi um fósforo. Entrei pela porta à direita. Uma casa-de-banho. Lavatório. Bidé. Retrete. Polibã. Um pequeno banco. Uma toalha para as mãos ao pé do lavatório. Uma toalha de banho junto do polibã. Uma prateleira com alguns frascos. Tudo organizado. Tudo cheio de pó.
Voltei ao corredor e entrei na porta da esquerda. O cheiro era demasiado forte. Prendi a respiração. Senti os pulmões a quererem saltar. Acendi novo fósforo. Uma cama. Algo na cama. Uma janela na parede. Fui abrir a janela. Puxei os estores. Abri os vidros. Enfiei a cabeça na rua. Respirei profundamente. Várias vezes. Virei-me ao contrário. Os olhos a habituarem-se ao escuro do quarto. A cama. Um corpo dentro da cama. Debaixo dos cobertores. Um corpo que era cadáver. Se calhar o cadáver da velha da casa. Não reconhecia a cara. A cara também já não era bem uma cara. Saí do quarto, refiz o corredor até à sala e saí pela porta da rua. A vizinha aguardava no patamar das escadas por mim. Entreguei-lhe a écharpe. Ela olhava ansiosa para mim, como se perguntasse Então? Então? Agarrou na écharpe e amarrotou-a entre as mãos. Estava nervosa. E eu disse-lhe Está na cama. Está morta. E a senhora soltou um grito, levou as mãos à boca e libertou o choro. Agarrou-se a mim a soluçar. Eu abracei-a com um braço e com a outra mão agarrei no telemóvel. Era preciso avisar o INEM. Ou a Polícia? Ia ligar para o cento e doze.
Enquanto o telemóvel chamava, e a senhora soluçava o choro no meu peito, pensei na morte solitária da velha. Há quanto tempo ninguém a via na rua? no prédio? à janela? Mesmo o cão, que era mandado sozinho à rua fazer as suas necessidades, há quanto tempo ninguém o via? A velha abria a porta de casa ao fim da tarde, o cão saía e esperava que alguém chegasse do trabalho para lhe abrir a porta da rua e ir fazer as suas necessidades lá fora. Depois regressava da mesma maneira. Ficava à espera que alguém chegasse ou saísse. Eu às vezes ficava à espera que ele desse a sua volta para o deixar entrar no prédio. Há quanto tempo não via o cão? nem pensava nele? Senti-lhe a falta?
Vivemos de costas voltadas uns para os outros e acabamos todos a morrer sozinhos. Quer dizer, uns mais que outros. O que é que me esperava? a mim? Uma morta solitária, também?
Do outro lado do telemóvel alguém atendeu e eu disse Sim?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/17]

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