E Vou para Onde?

Eu estava sentado na cama, as costas apoiadas na parede de cabeceira, com um livro de fotografias de Wolfgang Tillmans em cima das pernas (naquela época andava muito interessado nas composições do Tillmans, especialmente na criação de texturas e nas naturezas mortas) e ela estava sentada ao fundo da cama de costas para mim.
Tinha pousado o livro nas pernas quando ela entrou no quarto e se sentou de costas para mim ao fundo da cama. Sentou-se muito direita. O cabelo escorria liso sobre as costas. Nada nela se movia. Sentou-se ao fundo da cama, as mãos pousadas sobre as pernas e o olhar provavelmente fixado no exterior que se via para além da janela que ficava à frente dela. E de mim.
Olhei lá para fora seguindo o que imaginei que fosse o olhar dela. Estava a chover. Estava sempre a chover naqueles dias. Dias cinzentos e frios. Dias chuvosos. Dias tristes. De onde estava não conseguia ver a rua, afinal, aquilo era um terceiro andar, não era muito alto, mas o suficiente para me manter acima do limite da rua. Imaginava a rua vazia. Vazia de pessoas e de carros. Estava tudo em casa. Como eu. Como nós. Já lá iam, quanto? três meses, mais ou menos, de confinamento. Como é que as pessoas se estavam a aguentar? Se fosse como nós, eu e ela, mal, muito mal. Quase já não nos falávamos. Dormíamos na mesma cama mas de costas voltadas um para o outro. Ela ganhara o hábito de se despir e vestir na casa-de-banho para não o fazer à minha frente. Passámos a comer quando tínhamos fome, mas sozinhos. Tínhamos sempre fome em alturas diferentes. Se calhar era propositado. Se calhar a culpa era minha. Talvez fosse dela. Ou da situação. Nunca tínhamos estado tanto tempo sozinhos. Ao fim de quinze dias já não tínhamos nada para contar um ao outro. No final do primeiro mês, já não nos tocávamos. Quinze dias mais tarde já mal nos ouvíamos falar. Grunhidos era o que saía das nossas bocas. Ela continuava nas suas leituras. Aqueles poetas checos e polacos que ela desencantava não sei onde. Eu fazia pesquisa para os meus projectos. Projectos que talvez viesse a realizar um dia mais tarde, quando a vida pudesse retomar uma espécie de normalidade e pudéssemos sair à rua e estarmos uns com os outros.
Lá fora, na rua, continuava a chover.
Foi nessa altura que percebi que ela estava a chorar.
E então disse Quero que te vás embora!, assim, sem se virar para mim. Se calhar não queria que a visse chorar. Se calhar precisava de não olhar para mim para ter forças de me pedir o que estava a pedir.
Eu perguntei Agora?
A pergunta ficou um pouco no ar, a ecoar. Pareceu-me sentir uma fungadela. E depois respondeu Sim, o mais rápido possível.
Fiquei ali a olhar para a nuca dela que continuava de costas para mim, provavelmente a olhar a chuva que caía lá fora. Eu ainda tinha o livro do Tillmans aberto sobre as pernas. Via uma fotografia muito bonita com o que podia ter sido o meu pequeno-almoço, umas laranjas num pequeno prato, um filtro de café sobre uma caneca e uma embalagem que talvez fosse de manteiga, ou de queijo-creme, uma garrafa de vidro de leite vazia e uma colher caída junto a uma janela com um relvado verde e o tronco de uma árvore. Era uma fotografia muito bonita mas muito triste também.
Perguntei E vou para onde?
Vi-lhe o braço a subir e a levar a mão até à cara enquanto rebentava num choro sonoro. Levantou-se e saiu do quarto a correr.
Eu fechei o livro do Wolfgang Tillmans e larguei-o na mesa-de-cabeceira. Lá fora na rua continuava a chover. Pensei que mesmo que houvesse alguém na rua a furar o confinamento, agora estaria mesmo vazia. As pessoas não gostam de andar à chuva.
E voltei a perguntar E vou para onde?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/14]

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