Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

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