O Homem Invisível

Estou há três semanas sem trabalho.
Estou há três semanas sem receber salário.
Não tenho um emprego certo. Horário normal. Salário ao final do mês.
Vivo de expedientes. Vivia.
Agora estou em casa há três semanas sem ganhar dinheiro e a gastar o pouco que tenho. Que tinha. O pouco que tinha e já não tenho.
Não há apoios para gente como eu.
Somos invisíveis.
Fazemos o que mais ninguém faz. O que mais ninguém quer fazer. Agora já não fazemos.
Estou em casa há três semanas. Saí três vezes para comprar algumas coisas para comer. Agora já não tenho mais nada para comer. Agora já não tenho dinheiro para comprar mais nada.
A última vez que comi, foi um resto de pão duro a rapar o óleo de uma lata de sardinhas. Tenho bebido água. Água não me falta. Pelo menos até me cortarem a água. Ouvi dizer que a água não iria ser cortada por falta de pagamento nos próximos três meses.
Estou há três semanas confinado a este T0 com kitchenette. Uma janela para a rua onde agora não passa ninguém. Olho pela janela e só há o vazio da rua. No prédio em frente, prédio de T0s e T1s como o meu, há muita gente igual a mim. Gente que vive de expedientes. Que faz biscates. Gente que ninguém vê. Só o trabalho que aparece feito. As pessoas só vêm o trabalho feito e nem se perguntam quem o fez.
Estou há três semanas fechado em casa. Fui três vezes à rua. Passo os dias e as noites a olhar para estas quatro paredes. Paredes branco-sujo. Tenho um poster da Playboy numa das paredes. Já estou farto de o olhar. Já conheço cada curva da miúda. Ia à janela fumar um cigarro e olhar para caras iguais à minha que iam à janela delas fumar um cigarro como eu, olhar a minha cara e pensar como a minha cara é tão parecida com a deles. Caras de gente sem futuro. Já não tenho cigarros. Já não quero ver mais as caras iguais à minha. Já não aguento olhar para o poster da coelhinha. Não tenho televisão. Não tenho computador. Tenho telemóvel. Há uma semana que estou sem internet no telemóvel.
Estou há três semanas aqui por casa e, nos últimos dias tenho passado o tempo a jogar uma espécie de Tetris que não é bem Tetris, é um puzzle para encaixar peças parecidas com as do Tetris. Já achatei os polegares de tanto carregar no ecrã. Já me zanguei com o jogo. Já mandei com o telemóvel contra a parede. Não partiu.
Estou sentado em cima da cama. Há três semanas que saio da cama para ir até à janela e regresso. Já não sei mais o que fazer. Estou aqui fechado há três semanas. Sem trabalho. Sem dinheiro. Agora sem comer. Quanto tempo posso aguentar sem comer? Estou cansado de estar em casa. De não ver ninguém. De não ouvir ninguém. Precisava de um cigarro. De um pão com manteiga. De um copo de vinho. De um toque de uma mão que não a minha.
Tenho de sair. Tenho de ir à rua. O vírus de se foda. Tenho de trabalhar. Trabalhar numa coisa qualquer. Preciso de um salário. Preciso de dinheiro. Preciso de matar esta fome que começa a minar-me para continuar esta minha vida miserável. Uma vida invisível. Ninguém me vê. Mas estou aqui. Sou invisível mas estou aqui, porra!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/03]

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