Sopa de Agrião para o Jantar

A noite passada houve uns carros parados lá à frente, na estrada. Com o confinamento os carros tinham desaparecido daqui, e as pessoas também. Esta rua esteve deserta. Agora parece que está tudo, ou quase tudo, a recomeçar a voltar aos velhos hábitos. Parece que afinal o vírus não infectou ninguém por aqui e as pessoas começaram a fazer o que faziam antes. Já saem de casa. Já andam em grupo. Os miúdos já brincam na rua. Já há namorados de mãos dadas no jardim da aldeia. O café voltou a encher. Confirmei ontem quando lá fui beber um bagaço. Disse-me o dono que servia-me o bagaço mas que tinha de ir bebê-lo para a rua. E assim fiz. Eu e todos os outros. Tudo à entrada do café a beber e a fumar. Tudo na risota. Ninguém conhece ninguém que tivesse morrido com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém que tivesse sido infectado com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém. Eu também não. Se calhar é mentira.
Será que é tudo mentira?
Depois à noite, estava eu aqui no alpendre a fumar um cigarro e a tentar ver as montanhas lá ao fundo, a noite estava limpa, havia luar e conseguia ver as montanhas e estava a pensar como tinha saudades de ir até lá quando apareceu por aí o primeiro carro. A passar devagar. Eu estava cá em cima, no alpendre, às escuras. Só a incandescência dos cigarros. E tomei atenção ao carro. Passou devagar. Muito devagar. Depois parou lá mais em cima. Primeiro pensei É passe. Depois pensei É sexo. Entre uma coisa e outra, não sabia qual a que calhava pior nestes tempos e ali, à beira de casa. Cabrões!
A meio da noite, já me tinha deitado, já tinha dormido mesmo durante algumas horas, fui acordado por uma música vinda da rua. Música que deveria estar em altos berros para entrar pelos meus vidros duplos e vinda de lá de baixo, do fundo da estrada. Levantei-me sonolento e fui à janela da cozinha. Cocei-me à janela. Conseguia ver, ao fundo da estrada, as luzes vermelhas de presença de um carro, ouvia a música que saía de uma alta-fidelidade (não reconheci a música mas era um pop-rock manhoso) e parecia-me gente a girar à volta do carro. Não percebi se era gente a chegar e a partir, se era gente a dançar. Também podia ser só gente a foder encostada ao carro. Mas não percebia muito bem.
Ainda peguei no telemóvel para ligar à guarda, mas desisti. Não sou bufo.
Voltei para a cama. Tomei um Zolpidem e só acordei hoje, já era meio-dia.
Voltei a ir à aldeia. Andava toda a gente na rua. Parecia dia de festa. A peixeira da Nazaré apareceu por aí a vender peixe fresco. Comprei um Robalo para amanhã. Já tenho almoço para o primeiro de Maio.
Hoje à noite vou estar atento aos carros que passarem.
Já arranjei dois paralelos do passeio que encontrei soltos no meu caminho até à aldeia.
Agora vou beber uma cerveja e comer umas pevides que comprei a uma senhora que as estava a vender em frente à igreja. Não há missa mas há pevides.
Ainda não sei o que vou jantar. Alguma coisa se há-de arranjar. Ainda tenho um resto de sopa de agrião. É isso. Uma sopinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/30]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

A Minha Madalena

Cada um tem as suas madalenas. As minhas chegaram em forma de mensagem. Uma mensagem. Uma mensagem foi quanto bastou. A mensagem tornada máquina do tempo. E lá estava eu. Vinte anos mais novo. Alguns quilos a menos. Ou seriam a mais? E um sorriso idiota plantado na cara.
Vi-a surgir do nada. Como num gesto de prestidigitação. Primeiro o vazio, depois tudo. Como uma bomba nuclear a prometer um big bang. O início de tudo. O princípio do infinito. O nascimento da razão. E fez-se vida. Plim.
E, afinal, nada mais era que uma banalidade. A vida é uma banalidade. Encontra-se em qualquer esquina, dentro de uma loja dos CTT, numa igreja em hora de missa, ao balcão de uma pastelaria a destruir uma bola de berlim cheia de creme e de pequenas pedrinhas de açúcar que tombam sobre o prato, o guardanapo, a barba. A vida é, aqui na Terra, uma banalidade. E, no entanto, tão extraordinária era ela para me deixar assim, de sorriso parvo na cara a olhar para uma banalidade que era minha. Minha.
A banalidade depois foi à sua vida. Claro que sim. Que as vidas são únicas e autónomas. Ganham uma dimensão que são só delas. Mas há momentos que são só nossos. A banalidade ainda não era autónoma. E aquele momento, aquele momento ali, aquele momento preciso é só meu. Aquele momento em que o vazio se encheu de vida e eu vi o nascimento, vi o truque de prestidigitação feito à minha frente, o nada tornado tudo, aquele momento é só meu porque o vi, porque o vivi. Porque existiu só para mim.
E é por isso que vinte anos depois, a minha madalena abre as portas da memória e me faz recordar quando o mundo prometia mundos e eu era o mais feliz dos homens.
Nada mais importa, lembro-me de ter pensado naquele exacto momento. Nada mais importa. Depois de ter olhado e me ter apaixonado pensei que, naquele momento, depois de ter visto o meu big bang, podia morrer. Morrer feliz e cheio. Porque nada mais importava. E é verdade ainda hoje. Nada mais importa.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/28]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Primeiro Andamento)

O tempo passa e passa por mim. Vai passando. Umas vezes devagar, outras mais depressa. Eu estou desistente. A minha promessa de construir um diário da quarentena ficou-se pela vontade. Não tenho tido forças para levar com o projecto em frente. Não tenho forças para escrever. Não tenho forças para nada.
Ouço os relatórios diários sobre o número de mortos. Não sei se os ouço todos os dias. Mas vou ouvindo. Eu ainda não morri. Ainda não pertenço às estatísticas. Mas às vezes penso que teria sido uma bênção.
Há já uns dias que não visito a minha mãe. Telefono-lhe todos os dias. De manhã e à tarde. Nestes últimos dias só à tarde. As manhãs já não existem para mim. As manhãs são passadas na cama, o edredão por cima da cabeça, ausente, inerte. À espera que tudo passe sem passar.
Pergunto à minha mãe se precisa de alguma coisa. Ela diz que não. Que não precisa de nada. Eu sei que ela está a mentir. Eu sei que ela nunca iria dizer que precisava fosse lá do que fosse. Eu sei que ela sabe que eu estou sem conseguir ser alguma coisa por mais que me custe não o ser. E custa. Mas não consigo erguer a cabeça. Sinto-a pesada. E leve ao mesmo tempo. Está aqui, deitada sobre a almofada, e por vezes dói-me, e por vezes anda não sei por onde, mas sei que me leva a sítios onde eu nunca estive, mas que ela conhece bem.
Há dias que não vejo a minha mãe. Nem os meus filhos. Nem as minhas amantes. Há semanas que não me apetece ter sexo. Já nem me masturbo. Não tenho vontade nem desejo. Sinto-me morto.
Caí na cama e deixei-me apagar. Já não sei quando foi isso. Talvez ontem. Talvez na véspera. Estou deitado na cama. Acordei já o sol ia alto. Ainda não consegui levantar-me. Não fui à casa-de-banho. Não comi. Não tenho fome. Não me apetece comer. Não me apetece levantar.
Foda-se!
Faço o diário. Vá lá, não custa nada. É só organizar o que (não) vivi hoje.
Estive deitado toda a manhã. Acho que dormi. Acho que dormi toda a manhã. Acordei com o sol já bastante alto. Virei-me para o outro lado. Precisava de um comprimido para voltar a dormir.
Não preciso de ir à casa-de-banho. Não tenho fome. O tempo está cinzento. Pus o braço de fora e arrefeceu. Agora está outra vez dentro da cama. Colado ao corpo. Aquecem-se um ao outro. Procuro um comprimido na mesa-de-cabeceira. Quero voltar a dormir. Não encontro nenhum. Já os devo ter tomado todos. Vou ter de me levantar. Ir à rua. Mas não vai ser agora. Nem hoje. Talvez amanhã.
Mais logo irei telefonar à minha mãe. Vou falar sozinho e alto, um pouco antes, para que a voz não soe tão triste. Ela descobre-me nestas pequenas pontuações. Não quero que ela saiba que não consigo levantar-me.
Viro-me na cama. Agora que já decidi que o meu objectivo, hoje, é telefonar à minha mãe ao final da tarde, tenho mais algum tempo para estar deitado na cama sem me sentir culpado. Mas sinto. Sinto-me culpado desta inércia. De não fazer nada. De nem fazer a barba nem lavar os dentes. De não tomar banho. Mas a verdade é que não quero saber. Não quero saber de lavar os dentes nem se fico com os dentes todos podres e escuros e a boca e o cu a cheirar a podre. Não quero saber. Não quero saber de nada.
Às vezes queria ir para o Pingo Doce desprotegido para ser contaminado e resolver de vez esta ansiedade de ser ou não contaminado. É claro que vou ser. Vamos todos ser contaminados. E quando? Quando é que vou ser contaminado? E porque não agora?, agora que não tenho nada para fazer, que não me apetece fazer nada, agora que o corpo pode bem menos que a cabeça e a cabeça já não pode grande merda?
Dobro mais o meu corpo na cama, debaixo do edredão, fico em posição fetal, ponho as mãos entre as pernas para sentir o calor que vem de mim, e agarro na pila e está murcha, muito murcha e eu sinto-me como ela, murcho, cansado e ausente. Estou mais magro. Sinto os ossos a roçar as peles.
Logo ao final do dia terei de estar acordado e telefonar à minha mãe. Logo, logo mais ao final do dia, vou levantar-me e fumar um cigarro. Beber um copo de vinho. Ainda tenho vinho? E cigarros? Vou ter de comer qualquer coisa. Qualquer coisa. Talvez uma torrada com manteiga. E depois vou sentar-me e escrever qualquer coisa para uma espécie de diário da quarentena. Um relato destes dias. Para mais tarde me lembrar como foram estes dias. Para mais tarde alguém saber como foram estes meus dias. Qualquer coisa para o futuro. Para se saber alguma coisa sobre alguém. Mesmo alguém tão anónimo e insignificante quanto eu.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/27]

A Primeira Vez que Saí à Rua de Mãos-Dadas

A primeira vez que saímos para a rua de mãos-dadas, eu fiquei com dois metros de altura, peito inchado, percebi a cara ruborizar e senti-me a pessoa mais importante do universo.
Estava em casa dela. Tinha acabado de lhe dar um beijo nos lábios. Ela tinha aberto a boca. Senti a língua húmida dela a procurar a minha. Os nossos dentes bateram uns nos outros, desajeitados. E depois sorrimos um para o outro.
A minha mão procurou a dela. Encontraram-se e não mais se largaram. Foi difícil abrir a porta da rua e fechar a porta à chave sem largarmos as mãos. Depois saímos, de mãos-dadas. Era a primeira vez que saía para a rua de mãos-dadas. Estava nervoso mas sentia-me muito importante. A pessoa com mais sorte do mundo. Sentia-me nas nuvens e olhava as outras pessoas lá em baixo, aos meus pés. Senti vertigens e, por momentos, enjoei e pensei que ia vomitar. Mas agarrei-me à mão dela. O coração batia tanto e tão alto que tinha medo que ela ouvisse. E, de vez em quando, engasgava-me a respirar e tossia. Sentia-me a ficar com a cara vermelha e muito quente. Piorou quando parámos no passeio, junto à passadeira, à espera de cruzarmos a estrada para o outro lado, e ela encostou a boca ao meu ouvido e disse Gosto de ti! e os lábios dela a mexerem-se na construção fonética fizeram-me cócegas na orelha e senti um arrepio pela espinha, a minha mão começou a transpirar, a dela também, e mesmo com a estrada vazia de carros não conseguimos cruzá-la pela passadeira para o outro lado. Ficámos ali presos aquele momento, a tentar recuperar a lucidez mas sem fazer muito por isso, até que fomos acordados pela buzina de um automóvel que parou para nos dar passagem. Eu pus o pé na estrada e esperei que ela viesse comigo mas a minha mão e a dela escorregaram, tão transpiradas que estavam, e desatámos os dois a rir e ela começou a correr para o outro lado da estrada e eu segui-a e, já no passeio, a rir, ela abraçou-me e ou voltei a beijá-la, enquanto a minha mão agarrou a dela, mas com força, como uma tenaz, para não mais a deixar largada num sítio qualquer onde eu já não estivesse e ela se pudesse perder.
Às vezes penso no que é que mais gostava de voltar a sentir pela primeira vez. E nunca é no primeiro beijo, na primeira relação sexual, no primeiro filho, na vez em que recebi a Palma de Ouro em Cannes ou quando acertei no Euromilhões. Não. O que eu penso sempre que gostaria de voltar a sentir outra vez pela primeira vez era sair de mãos-dadas com ela à rua. Voltar a sentir-me um gigante, a pessoa mais importante do universo, mesmo com o nervosismo, o rubor e as borboletas na barriga, afinal, vem tudo no mesmo pacote.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/26]

A Liberdade Está a Passar por Aqui

Hoje era o dia das possibilidades. Tudo podia acontecer. A liberdade estava a passar por aqui.
Era meia-noite e um e eu já não conseguia pregar olho. Não queria perder pitada do dia, embora fosse ainda noite. Já sabia que não ia acontecer nada porque não podia acontecer nada. As pessoas tinham de manter distâncias, não se podiam agrupar, não se podiam tocar. Não podia haver aglomerações e as comemorações teriam de ser comedidas e, o bizarro de tudo isto, é que estas constrições à liberdade de cada um eram precisamente para preservar a liberdade de todos. A liberdade de continuar a existir.
Passaram-se as horas. O dia sucedeu-se à noite. As redes sociais começavam a agitar-se. Os discursos da praxe prometiam o que prometiam que é sempre o que se promete nestes dias em que as promessas galvanizam. Já sabia que amanhã já nada disto interessava mas, hoje, hoje sentia-me em sintonia com todos. Com quase todos, vá lá. Há sempre uns que sobem as escadas do orgulho e são muito superiores a tudo isto que faz mexer as massas. Acham que é tudo ridículo. Depois há outros que não ligam porque não ligam a nada que não seja eles próprios e os seus. Por último, os que não gostam mesmo nada da nada. Afinal ainda há muita gente que não está em sintonia.
Que importa?
Discursaram os discursos da praxe. Perante menos convivas que o habitual. Comentaram-se os discursos de cada um dos intervenientes. Comentaram-se os comentários. Cantaram-se canções à janela. E Depois do Adeus. Grândola, Vila Morena. Ainda houve quem importasse o Bella Ciao. Houve quem gravasse tudo com telemóvel. Houve quem postasse tudo isso nas redes sociais. Uns bateram palmas. Ofereceram corações. Outros assobiaram. Vomitaram ódio. Afinal, é isto que nos liga, as nossas grandes diferenças e as peculiares formas como olhamos o mundo.
A noite chegou. Completou-se um ciclo. Mais um. Estava cansado.
Estou cansado.
Vou dormir a pensar no que fazer à minha vida. Liberdade sim, mas não de estômago vazio.
Há sempre possibilidades. Tudo pode acontecer. A liberdade está a passar por aqui. Bate à porta mas, não traz nada com ela. Nada de novo. Como é que vou encher a barriga amanhã? E depois de amanhã?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/25]

Matar Saudades

Passeio de braço dado com a minha mãe. Ou melhor, eu levo as mãos dentro dos bolsos das calças de ganga coçadas e ela tem a mão dela agarrada ao meu braço, e como que é puxada por mim, mas não a puxo, deixo-a ir à velocidade dela, devagar, muito devagar, com a bengala a servir de apoio, depois pára, cumprimenta alguém, há sempre alguém para cumprimentar, mas à distância, sempre à distância, levanta o braço, Olá! Boa tarde!, como se já não visse os seus conhecidos há uma eternidade. E é! Na sua contagem, é uma eternidade o tempo que tem estado em casa, a ver a vida a fugir-lhe, o tempo a encurtar, conta os anos, os aniversários que faz, almoçamos juntos no dia de anos e diz Que para o ano aqui possamos estar outra vez! E vamos estando, mal ou bem vamos estando por aqui e talvez consigamos chegar a outro aniversário. Já não falta muito! Pois não, mãe, já não falta muito.
Passeamos ali à volta da casa dela. Olha as montras. Conta-me histórias. Histórias que já ouvi tantas vezes. Outras são novas. Não sei se são histórias reais ou se as inventa. Mas ouço-a. Às vezes respondo-lhe. Mas eu estou ali para a ouvir falar, não para comentar. Passeamos pela cidade. Eu à velocidade dela, pela cidade quase-deserta e sinto-lhe uma certa tristeza no olhar. O vazio incomoda-a. Gosta de ver gente. De ver gente nova a andar sempre atrasada pelas ruas da cidade.
Recordo quando era ela que me levava. Mãos-dadas. O meu braço esticado. Puxado pela sua velocidade. Naquele tempo era ela que andava depressa. Às vezes tinha de correr. Correr para acompanhar o passo decidido da minha mãe.
Recordo um dia na praça da Nazaré, eu e a minha mãe de mãos-dadas a caminho da praia. Eu estava chocho. Estás a chocar alguma, dizia-me a minha mãe. Parávamos no quiosque a meio da praça e eu escolhia umas bandas-desenhadas. Na altura eram só histórias aos quadradinhos. O Fantasma. O Mandrake. O Buffalo Bill. Histórias do FBI. Histórias do Faroeste. E naquele dia estava chocho e acabámos por regressar a casa. Eu fui-me deitar na cama. Veio o médico. Estava doente. E fiquei de cama durante muito tempo. Mas as revistas foram sempre chegando. Já não era eu que as escolhia, era a minha mãe. Talvez o meu pai. Devorava-as todas. Mais que uma vez. Fiquei muito tempo em casa naquela altura. Lembro-me da saturação. O estar farto, mesmo com tantas histórias aos quadradinhos para ler. Mas já não saía com a minha mãe. Já não andava na rua de mãos-dadas com a minha mãe. Já não corria. Já não via pessoas. Já não ouvia o barulho ensurdecedor da cidade a pulsar.
Percebo como a minha mãe está saturada de estar em casa. Sozinha em casa. E os cuidados que lhe estou sempre a recomendar. Mas acho que tenho de alargar o cordão sanitário à sua volta.
Vamos passear, mãe. Vamos à rua. Vamos passear pela cidade. Ver as montras. Ver pessoas. Dizer olá às pessoas conhecidas. Contares-me as mesmas histórias de sempre. Ou outras que te lembres. Ainda te levo à padaria para comprar pão. Talvez uma broa de milho. Ao talho para comprares umas iscas de vaca de que tens saudades. Talvez à peixaria para ver se compras uns jaquinzinhos, não é mãe? Ou umas petingas. Temos de matar saudades de tudo o que temos saudade, não é mãe?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/24]

Soubesse Eu Tocar Guitarra

Soubesse eu tocar guitarra, saía de casa, ia até à cidade deserta, sentava-me num banco de jardim, à sombra de uma árvore frondosa e punha-me a tocar o Stairway to Heaven para as miúdas descerem as escadas dos prédios confinados, fugirem aos gritos desesperados dos pais, dos namorados, dos maridos e correrem descalças até mim, sentarem-se na relva, a meus pés, uma flor no cabelo, um sorriso nos lábios, as sardas a pularem de cara em cara, uma azeda ao canto da boca a sonharem com as histórias da carochinha enquanto se deitavam languidamente umas sobre as outras, como pequenas ninfetas do artista, a saborearem o pecado.
Depois vinham os pais, irmãos, maridos e namorados buscá-las por uma orelha, pelo braço, puxá-las pelos cabelos, arrastá-las pelas pernas, as cabeças a baterem, pesadas, na calçada portuguesa a deixarem rastos de sangue, para as protegerem no recato do lar da terrível infecção promíscua que circula no ar e nas guitarras dos artistas.
E eu então pousava a guitarra, pegava na AK-47 e disparava a eito sobre todos eles e via-lhes os corpos explodirem em mil pedaços e tombarem inertes sobre a calçada portuguesa que já não era a preto e branco mas de vermelho vivo, um vivo-morto, e quando acabassem as munições voltaria a pegar na guitarra e tocaria uma versão acústica e muito lamechas do Straight to Hell dos Clash, limparia as mãos com álcool-gel, fumaria um cigarro e depois regressaria ao silêncio solitário de casa onde beberia um copo de vinho tinto alentejano para matar a sede.
Mas não sei tocar guitarra.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/23]

Uma Disputa de Território

Naquela altura devia eu andar pelos meus treze, quatorze anos. Vivíamos numa antiga casa de caseiro de uma quinta feita em retalhos, lá para os lados da Boa Vista, para os antigos donos pagarem as dívidas acumuladas ao longo dos anos enquanto aguardavam a herança familiar. Herança recebida, herança desfeita. Foi tudo para os credores. Os meus pais acabaram por arrendar a antiga casa do caseiro ao homem que a comprou. A casa era grande. Rés-do-chão e primeiro andar. Os quartos em cima e o resto em baixo. Só havia casa-de-banho no rés-do-chão e, durante a noite, usava um penico para fazer xixi que enfiava debaixo da cama. No dia seguinte a minha mãe usava o meu xixi, que misturava com água, para regar as plantas e as hortaliças que se entretinha a plantar e a semear num pequeno terreno, anexo à casa, e que nós utilizávamos em proveito próprio. A minha mãe é que cuidava daquela pequena horta. O meu pai só a regava à noite e aos fins-de-semana durante o Verão. Mas era a minha mãe que fazia quase tudo e tratava de levar à mesa tudo o que retirava de lá.
No tempo em que vivemos naquela casa fora da cidade, tivemos sempre um cão. Na verdade vários cães. Sempre que um morria, vinha outro. Cães rafeiros. Cães que nos davam. Cães que apareciam por lá. Os cães estavam sempre presos à casota por uma corrente. Naquele tempo era assim. Os cães estavam presos. Os cães eram os alarmes das casas isoladas. Sempre que os cães ladravam, já sabíamos que alguma coisa se passava. Os cães chamavam-se todos Bobby.
Um dia também apareceu por lá um gato. E ficou. A minha mãe alimentou-o e o gato acabou por ficar. O gato chamava-se Tareco e tinha mais liberdade que o Bobby. Às vezes até entrava em casa mas a minha mãe não gostava e enxotava-o para a rua.
Aconteceu que em determinada altura, apareceu por lá um gatarrão, gordo, enorme, arraçado de persa, que começou a chatear o Tareco. Não sei se era uma disputa de território mas, a primeira vez que fomos alertados para a guerra despoletada entre eles os dois foi com a chinfrineira que fizeram, engalfinhados um no outro, chinfrineira de tal ordem que o meu pai saiu de casa com a vassoura nas mãos para as eventualidades. E descobrimos os gatos enrolados um no outros e uma nuvem de pêlos a voar. O Tareco ficou com mazelas. Várias peladas no corpo. Algum sangue. E isto começou a acontecer com alguma regularidade. Não sabíamos de onde vinha o gato. Não conhecíamos ninguém com gatos ali perto. E sempre que nos aproximávamos, o gatão fugia. Não sabíamos como enxotar o raio do gatão. O Tareco estava cada vez mais desanimado, com menos pêlo e começou a emagrecer a olhos vistos.
Um dia percebi que o gatão costumava vir das traseiras e contornava a casa antes de atacar o Tareco.
Levei um toro de madeira para lenha que o meu pai ainda não tinha cortado, para o meu quarto. E pus-me a fazer uma espera ao gatão.
Depois de jantar fui para o meu quarto, fiquei à janela e aguardei. Sempre a olhar para o fundo da casa. Mas adormeci. Não sei quanto tempo fiquei ali de guarda à espera do gatão, mas adormeci antes dele chegar. Nem sei se chegou. Mas não ouvi nenhum barulho nessa noite. De manhã desci para tomar o pequeno-almoço e regressei ao quarto. Estava de férias da escola. As férias grandes. Passava as tardes a tomar banho de mangueira em frente à cozinha. Mas naquele dia, naquele dia voltei para o quarto e fui colocar-me à janela. À espera.
Ainda não era meio-dia. Já me chegava lá acima o cheiro do refogado que a minha mãe estava a fazer. Vi o gatão a vir sorrateiro dos fundos da casa. Passar rente à parede. Parar. Olhar em volta. Voltar a andar mais um pouco. Eu peguei no toro de madeira. O gato parou debaixo da minha janela. A olhar à volta. À procura do Tareco. E eu deixei cair o toro de madeira, pela minha janela, que acertou em cheio no gato. Acho que lhe acertou na cabeça. Ouvi um baque seco. O gato ficou lá caído. Eu fiquei debruçado sobre a janela a olhar o gato que não se mexia. O toro de madeira rolou um pouco depois de cair sobre o gato e parou um pouco mais à frente. O gato continuou quieto. Deitado no chão encostado à parece de casa. Devia estar morto. Nunca tinha visto nada morto. E depois, comecei a chorar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/22]

Com o Martelo na Mão

Já só me parecia o coração a bater a bater a bater com muita força contra o peito e a querer saltar fora de mim farto de me aturar e aos gritos que silenciava para não ter ainda mais que aquele bater cadente e hipnótico que estava a dar comigo em doido.
Estava deitado na cama. Em cima da cama. A almofada sobre a cabeça a tentar abafar os sons que vinham do exterior mas em vão. Não abafavam nada. Já não sabia de onde é que os sons vinham, esses cabrões. Agora pareciam vir de mim, de dentro de mim, como se o meu coração estivesse a bater ritmado no adufe à espera da harmonia da guitarra mas essa nunca mais chegava que nada daquilo era como eu achava que era. Não era o meu coração embora ele batesse. Estava vivo, não estava? Não havia adufe nem haveria de haver uma guitarra. Não há guitarras cá em casa que eu nunca soube tocar nada e a única guitarra que houve não era minha e de qualquer forma deixou de existir quando eu a parti na cabeça da dona que passava os dias em solfejo para cima e para baixo como um yo-yo nunca passando daquilo, uma merda pá!, e eu à espera dela para noites tórridas de sexo em pleno Agosto e ela a transpirar com as unhas a arranhar as cordas num solfejo irritante que me fez sair da cama nu tirar-lhe a guitarra das mãos e parti-la na cabeça. E ainda tive de a levar ao hospital para levar uns pontos, sujou-me os estofos do carro com sangue que tive de mandar lavar a seco e ainda tive de lhe comprar uma guitarra nova e eu que nunca soube tocar guitarra tive de gastar dinheiro numa guitarra que nem era para mim e nunca mais a vi nem a miúda nem a guitarra o que não deixou de ser um alívio.
Agora parecia que era um remake e como todos os remakes ainda em pior.
Havia vários ritmos como se fossem várias baterias a tocar ao mesmo tempo, como os Paus, mas estava cada uma a tocar para seu lado e não havia harmonia nem nada a ligá-las era somente barulho barulho barulho puro que me entrava pelos ouvidos e viajava à velocidade da luz pelo cérebro dentro e já não sabia o que era nem de onde vinha era já só tudo dor uma porra de uma dor infernal e eu sem conseguir pensar, só a querer fugir, era fugir que eu queria, fugir dali e encontrar o silêncio mas não devia sair de casa que as ordens eram de confinamento, de distância social, nada de beijos, abraços, relações de proximidade uns com os outros mas barulho isso sim, havia carta branca para furar os tímpanos às pessoas, a mim, a mim que me queixava e a quem ninguém ligava. Já tinha telefonado à polícia. Já tinha ligado para a Junta de Freguesia. Já tinha alertado a CMTV. Mas para uns não havia nada a fazer e para outros era assunto menor.
Não era com eles, não é?
E foi então que me decidi.
Tirei a almofada de cima da cabeça. Na precisa altura em que me pareceu ser um martelo pneumático a partir paredes por cima de mim. Levantei-me da cama. Acendi um cigarro. Fui à despensa. Abri a caixa das ferramentas. Peguei no martelo. Saí pela porta da rua. O cigarro preso ao canto da boca a fumegar. O martelo na mão. Descalço. Em cuecas. Subi as escadas. Aproximei-me da porta do apartamento por cima do meu. Toquei a campainha. Esperei.
Começo a ouvir uns passos. Uns passos que se ouvem por baixo de toda a chinfrineira produzida no interior do apartamento. Levanto o braço com o martelo na mão. Sinto a fechadura a abrir. A porta a abrir. E penso É agora!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/21]