Ida à Praia

Hoje peguei no carro e saí de casa. Nem tomei banho nem me vesti. Fui com as calças de fato-de-treino que enfiei pelas pernas quando me levantei e uma sweat de algodão. Nem fiz café nem torradas nem comi nada. Nem fumei sequer o primeiro cigarro do dia. Calcei logo as sapatilhas e saí da casa.
Estava a dar em doido assim fechado. A espreitar pela janela. A ver o vazio nas ruas. As caras à janela. As caras mirradas como a minha nas janelas. A fumar cigarros. Uns atrás dos outros. Enquanto uns enfiaram sacos familiares de papel-higiénico nos carrinhos de supermercado, eu aviei-me de volumes de cigarros e vários pacotes de tabaco de enrolar, filtros e mortalhas. Falta-me a paciência. Não me falta tabaco.
Saí de casa e entrei no carro. Saí pela cidade. Pela cidade vazia. Quase vazia, afinal. Fui-me cruzando com algumas pessoas a caminhar pela cidade. Uns com cães. Outros sem cães mas solitários. Uns caminhavam decididos. Outros apalpavam terreno. Vi um velho de mãos atrás das costas à beira de uma passadeira a ver quem poderia passar. Passei eu. Levantou-me a mão num cumprimento cúmplice. Respondi também com o levantar da mão. Acho que o velho estava a dizer-me que éramos os corajosos, nós os que estávamos na rua. E eu só queria que ele percebesse que eu não era nenhum herói mas que precisava de ver o mar. Precisava mesmo de ver o mar. Não precisava de ir à praia, de mergulhar, de nadar, nada dessas coisas tão veraneantes como o tempo que parece estar, mas ver, só ver. Era só o que eu precisava. Uma espécie de Xanax da alma. Ver o mar.
Cruzei a cidade. Havia mais gente na rua que imaginava. Talvez bem menos que aquilo que tenho visto noutros lugares através da televisão e das redes sociais. Somos um povo de rua. Gostamos de estar na rua. É por isso que não entendo as poucas esplanadas na cidade, no país. Um país de bom tempo e poucas esplanadas. E as poucas esplanadas que existem estão cobertas. Nem todas, claro.
Cruzei a cidade, passei os subúrbios e deixei-me ir estrada fora até à praia.
Passei pelo pinhal ainda morto, com alguns focos de vida teimosa a brotar entre os cadáveres das árvores carbonizadas. Muito verde e violeta e amarelo a pintalgar o chão de onde ainda se erguiam árvores mortas, ainda não cortadas depois de todo este tempo em que o Pinhal do Rei ficou reduzido a pouco mais de vinte por cento da sua área original, anterior ao grande incêndio. Vê-se, aqui e ali, algumas tentativas de replantação. Mas está tudo ainda muito no início. Há ainda enormes pilhas de troncos de madeira que era suposto terem sido vendidas. Para as celuloses. Para lenha. Mas estão aqui. A apodrecer. Esquecidos.
Chego ao Vale Furado. O pequeno parque em terra batida frente ao Mad, fechado, está vazio. Não há ninguém. O dia está claro. Faz sol. Está calor. Saio do carro e aproximo-me da arriba. Sento-me em cima do varandim de madeira a olhar o mar lá em baixo. Não há ninguém na praia. Só o mar a rebentar as suas ondas e a espraiá-las pelo areal. Consigo ver a costa até à Praia do Norte e o Forte da Nazaré. Não dá para ver se há surfistas ou não na água. Estou demasiado longe para o perceber. Também vejo as Berlengas. Daqui de cima parece tudo muito calmo e tranquilo. Eu respiro. Respiro fundo e com calma.
Acendo um cigarro e deixo-me ali estar por um bom bocado, a apanhar os raios de sol, a maresia que espero que chegue cá acima, e a ver a melodia das ondas, acima abaixo, que me relaxam.
Depois, algum tempo depois, alguns cigarros depois, percebo que retemperei baterias. Fazia-me falta esta comunhão com o mar.
Vi chegar um outro carro com um casal. Voltei para dentro do meu carro e regressei a casa. Enquanto conduzia de regresso percebi que estava com vontade de reler o Knausgard. Tempos de excepção precisam de literatura de excepção. Era tempo de voltar à Morte do Pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/29]

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