Para um Diário da Quarentena (Sexto Andamento)

Estou a contabilizar treze dias de reclusão. Na verdade estou aqui em casa como tenho estado ao longo dos últimos anos, saio para me abastecer, cuidar da minha mãe e pouco mais. A diferença é que se ia pouco a sítios de convívio, agora deixei mesmo de ir.
Não estou em quarentena, mas estou em reclusão. Uma falsa reclusão já que tenho saído de casa. Todos os dias desço a pequena alameda e vou até à estrada. Mas até os carros deixaram de passar aqui em frente. Sinto-me só, principalmente porque a minha vizinhança sonora agora é o silêncio. O silêncio e os grilos que me prometem um Verão quente, um Verão, por ventura, também recluso em casa.
Ainda se ouvem, ao longo do dia, os sinos da igreja. Talvez sejam as horas. Não sei se será mais alguma coisa. Talvez para avisar os fiéis que a missa da hora está a passar em directo na internet? Ou que está gravada para poder ser degustada como os fiéis preferirem às horas que preferirem?
Agora que me dizem para estar por casa tenho mais dificuldade em estar por cá. Quer dizer, estar, estou, mas apetecia-me não estar. É o meu desejo de ser do contra. A porra de um feitio que me leva ao não por defeito. Não vou. Não quero. Não sei. Não gosto. Foda-se!
Estou há treze dia em casa, com todas estas minhas saídas por necessidade lá pelo meio, mas ao final do dia de hoje, e depois de ter ficado toda a manhã na cama a prometer levantar-me Daqui a cinco minutos! até terem passado quatro horas e depois de ter andado toda a tarde a engonhar entre a sala e a cozinha, a ida ao alpendre para fumar um cigarro, o regresso ao quarto para arrumar alguma coisa que tenha ficado por arrumar que ando a fazer isto às mijinhas, talvez para não me cansar, talvez para ter uma desculpa para lá voltar, talvez mesmo só para me obrigar a fazer coisas ao longo do dia e não ficar com aquela sensação com que fico, afinal de contas passou-se um dia novo e inteirinho e eu acabei por não fazer a ponta de um corno.
São tempos excepcionais!, digo-me como desculpa para não ter feito o que devia ter feito, que estou em casa mas tenho coisas para fazer, coisas tão importantes como lavar as mãos e os dentes e acabo sempre por esquecer, não querer fazer, estar-me a marimbar para estes rituais que deveriam ajudar-me a manter um certo equilíbrio emocional mas acho que já estou todo quebrado e não há volta a dar.
Estou há treze dias por aqui, mas com a sensação de fim dos tempos e ao final do dia, de um dia geralmente de merda, como o dia de hoje, sento-me no sofá com um copo de vinho tinto, e descobri hoje num jornal online que os espanhóis apresentaram um estudo que revelava que tão importante como lavar as mãos e usar álcool-gel e a distância social é o copo de vinho, ligo a televisão e ponho-me a par das últimas notícias e, normalmente, acabo por ficar maldisposto.
Estou, portanto, há treze dias assim, mais ou menos por casa, mais preocupado que normalmente e sento-me no sofá com um copo de vinho numa mão, acendo um cigarro e ligo a televisão.
Hora das notícias.
Há coisas que já sei. Sei de véspera e que fui ouvindo ao longo do dia.
Sei que o presidente brasileiro é um merdas evangélico que acha esta crise que pode dizimar milhões nas favelas das principais cidades não será mais que uma gripezinha para um atleta como ele. E fui ver ao Youtube como ele é atleta. Ri-me cheio de vontade. Com esperança que o vírus acertasse no caminho.
Também sei que o presidente americano, religioso-fanático como é está preocupado com a Páscoa e o facto das pessoas não irem à missa e, acima de tudo, não gastarem dinheiro. Da família de presidentes e primeiros-ministros imbecis, o presidente norte-americano acha que a América é forte o suficiente para dar cabo do vírus chinês em duas semanas. Foi o que ele disse.
Ouvi também que o governador do Texas garante que os velhos texanos não se importarão de dar a vida pela economia do país. Nada como o templo capitalista para se apelar à fé no santo Dólar.
Sobre Itália e Espanha, já perdi a noção dos números. Estão sempre a serem actualizados e já estão para lá da minha compreensão. Isto numa altura em que a Organização Mundial de Saúde avisa que o epicentro da crise pode mudar para os EUA num prazo de duas semanas. E ainda continuo a ouvir gente afirmar que a gripe normal mata mais, muito mais. Cansado de pessoas sem formação lançarem-se à sabedoria adquirida na universidade da vida.
Por cá vamos bem lançados para entrar nos números da Europa. Ao menos que sejamos Europa nisto, já que não somos em quase nada ou, pronto está bem, não quero ser muito mau nem mal-agradecido, em pouca coisa, então que sejamos Europa nisto, mesmo que as verbas da Europa não cheguem cá como chegaram as dos anos oitenta que enriqueceu muita gente mas acabou por não afinar o país nem os seus empresários.
Vim aqui para registar o meus diários dos dias difíceis e acabei a falar do que me tem atormentado durante estes dias. Ainda por cima não é por mim que me atormento, mas pelas pessoas de quem gosto e que gostaria de não ver nestas situações de perigo.
A UEFA adiou o Europeu de Futebol. O COI adiou os Jogos Olímpicos. O Festival da Eurovisão foi cancelado. O Festival de Cannes foi adiado. Os festivais de Verão não sei o que vai ser deles. As pessoas, principalmente as mais velhas, vão continuar a morrer. Outras vão continuar a sair em grupo porque são imunes. Há muita gente que vai ser despedida. Muitas empresas, especialmente PME, que irão à falência. As pessoas podem ficar sem dinheiro para as despesas correntes. Renda da casa. Luz. Água. Gás. A fome vai chegar. As outras doenças estão a perder prioridade e podem levar outras pessoas também à morte por outros caminhos. O Estado avança com linhas de crédito através dos bancos, os únicos que não dão nada a ninguém e acabam por ganhar com a crise. As concessionárias das auto-estradas podem vir a ser indemnizadas por falta de utentes e a Padaria Portuguesa pede ajuda ao Estado para pagar mal e porcamente aos seus empregados. Acho que estou a assistir em directo ao fim do neo-liberalismo.
Estou aqui sentado há um tempo no sofá com o copo de vinho ainda intacto na mão e o cigarro inteiro transformado em cinza pronto a tombar sobre o tapete. Na televisão passam anúncios publicitários e nem percebo a quê e pergunto-me quem será o público-alvo. Estou um pouco perdido nos meus dias. Preciso de me colocar em ordem.
Amanhã vai ser um dia mais organizado.
Amanhã vai ser um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/25]

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