Não Tenho Medo de Morrer

Não tenho medo de morrer.
Tenho medo da doença, da deficiência, da incapacidade. Tenho medo da consciência da morte. Tenho medo de ficar ainda mais dependente, do que já sou, dos outros.
Não tenho medo de morrer.
Tenho medo do medo das pessoas que me são queridas. Tenho medo de filho e de pai. Tenho medo de amante e de amado. Tenho medo de amigos, alguns, os que trago aqui no peito, os que não são sangue mas são alma.
Mas não tenho medo de morrer.
A minha vida já vai longa. Acho que vivi uma boa vida. Pode não ter sido a melhor das vidas, mas foi a vida que consegui viver da forma que quis e me foi possível. E tenho gostado da vida que fui vivendo. Se pudesse voltar atrás acho que poderia repetir quase tudo. Quase tudo. E quase tudo diz muito sobre a vida que vivi.
Por isso não tenho medo de morrer.
O que se está a passar agora no mundo assusta-me, mas não me faz temer a morte. Faz-me ter medo pelos outros, os que ainda têm tanto para viver, os que ainda não puderam viver o que eu já vivi. Os que ainda acalentam planos para o futuro e têm esperança.
Eu não tenho medo de morrer.
Tenho mais medo dos caminhos que escolhemos e que nos trouxeram até aqui. Não todos os caminhos, mas muitos deles. Alguns caminhos que fomos percorrendo nestes últimos tempos são caminhos de cabras em direcção a sítio nenhum que não o lucro pessoal de meia-dúzia de gente egoísta.
Temo pela falta de memória e desconhecimento da História. Temo pela verdade escondida e pela mentira gritada alto para se fazer ouvir como a única verdade. Temo pela mentirosa falta de alternativas. Temo pela falta de líderes capazes e pela glorificação de bestas inúteis e mesquinhas. Temo pela ignorância geral. Pela falta de lucidez. Pelo não querer saber. Pelo fechar de olhos.
Eu não tenho medo de morrer.
Acho que está na hora de mudarmos de vida. Chegámos do nada a isto. Ainda temos de ir de isto ao futuro. A História não chegou ao fim e este neo-liberalismo canibal não pode ser, não é, o único caminho. O Homem tem de ser o centro da vida, como o está, parece, a ser agora. Ou quase.
O que a vida me ensinou é que há sempre alternativa. Há sempre outro caminho. Mesmo quando achamos que não. Mesmo quando todos nos gritam que não existe. Porque existe. E a História tem demonstrado que há sempre outra escolha.
Eu vejo-os já a fazer contas. E estarão certas as contas, com toda a certeza. Eles são economistas, gestores, matemáticos, professores. As contas estão certas. Nem ponho em causa os seus resultados. Os elementos da equação é que talvez sejam os errados. Os elementos da equação é que talvez sejam outros. Talvez devam ser outros.
Penso sempre numa prova de 100m, cujo recorde está constantemente a ser quebrado nos Jogos Olímpicos ou em cada novo campeonato do mundo. É a superação pessoal e humana de corrida para corrida. E imagino que mantendo esta progressão de quebra de recordes, chegaria o dia em que o atleta cruzaria a meta no momento da partida. Ora, isso não é possível. Há um espaço a percorrer que não admite a ausência do tempo. O mesmo se passa com o capitalismo como o conhecemos. É uma bizarria pensar que haverá sempre um crescimento constante. Há-de chegar uma altura em que o crescimento não é mais possível porque se chegou ao limite do espaço-tempo como na prova de 100m.
Para que se encontrem novos caminhos é necessário mudar os elementos da equação. Se calhar o Homem, e não o dinheiro ou o trabalho, tem de passar a estar no centro da economia. Um Homem vale muito mais que todo o trabalho físico que conseguir produzir. Porque um Homem também é muito mais que os braços e as pernas e os turnos numa fábrica a fazer rolhas. Contar estórias ajuda a prevenir o caos, a afastar a loucura. Olhem à volta. Olhem o que está a acontecer. Reparem na importância das coisas. Vejam o valor de uma simples carcaça feita nestas condições, por quem a faz, e o que é necessário ultrapassar para a adquirir. Reparem na importância da música, do cinema, da literatura, nestes dias que correm mais devagar. Reparem na importância que, neste momento, se descobriu na calma, no lazer, no tempo. Reparem na relevância de médicos, enfermeiros, cientistas, motoristas, padeiros, merceeiros… Qual a contabilização destes factores numa equação?
Ao ver o que se passa hoje no mundo, tenho esperança que as coisas mudem. Porque no meio do caos e do terror que estamos a viver, há um humanismo e uma civilidade de que duvidava.
Claro que há bolsas de gente má, gente malformada, gente mesquinha e gananciosa, gente boçal que continua a querer colocar o pé em cima da cabeça alheia para chegar mais alto que os outros. Mas os bons, os de coração puro, os bem-intencionados e amigos dos amigos e de gente que nunca viu em lado nenhum estão em franca maioria. Não sei se é o medo da morte. Não sei se é o medo da perda de um modo de vida. Mas há vida nestes dias e nestas gentes.
Eu não tenho medo de morrer.
E estou num grupo de risco. Tenho problemas respiratórios e já estou a entrar na idade da velhice. Se for infectado pelo Covid-19, há fortes possibilidades de não conseguir sobreviver. Mas não tenho medo de morrer. Tenho pena de deixar a ausência aos meus amores. Tenho pena de deixar a solidão a quem me ama. Mas fico descansado porque acho que, talvez, talvez alguém tenha aprendido alguma coisa com estes dias e a nossa civilização possa arrepiar caminho e criar um novo paradigma mais de acordo com as esperanças da maioria. Talvez.
Eu não tenho medo de morrer. E se tal acontecer, vou de coração cheio pelo que tenho visto nos últimos dias. Dias de morte, mas também dias de enorme coragem e humanismo.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/19]

2 comentários em “Não Tenho Medo de Morrer

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