A História em Directo

O tipo está sentado à minha frente. Muito lá para a frente. À frente das câmaras que filmam tudo aquilo que diz. E eu vejo. E ouço. Ouço em primeira mão as histórias de um participante na história do meu país. Estou na primeira fila, na verdade em segunda que as câmaras estão primeiro que eu, a ouvir contar a história por quem a viveu.
Por vezes faço comparações. Entre o que ouço e o que sabia. O que julgava saber. A história não tem contemplações. Foi. Aconteceu. Por vezes vivemos enganados em ideias imaginadas e difundidas por outros que ouviram as mesmas história mas contadas em segunda, terceira, quarta mão. E quem conta um conto…
Passam as horas. O tipo não pára de falar. De contar eventos. De colocar a história no seu lugar. De recolocar a história no seu caminho. De colocar os pontos nos is. Quantas histórias existem na história? Quantas histórias a história concebe? Quantas são verdade? Quantas não passam de fantasia?
Os que a vivem fazem crer nelas. E fico ali, feito parvo, a ouvir falar do meu país como se fossem histórias de um qualquer filme de Hollywood.
Há pessoas que nos adormecem. Nem sempre na melhor das camas. Há outras pessoas que nos despertam, nos fazem tomar atenção e ansiar por mais conhecimento.
A luz cai. O dia da lugar à noite. Muda-se a luz. Mas continuamos em frente. O tipo não pára. É uma metralhadora de memórias. E dispara. Dispara sem parar. Dispara recordações. Se bem me lembro…
O tempo passa. Adormeço? Talvez. Acordo noutra realidade.
Vejo a figura do Primeiro-Ministro na televisão a avisar-me da emergência. Estamos em caso de emergência mas não tanto. Há decisões a tomar mas só se tomam algumas. Talvez as mais simples. Talvez. Há algumas decisões que parecem ser tomadas já demasiado tarde. Mas estamos todos a aprender coisas novas todos os dias. Há que ouvir os técnicos. Sim, claro. Há que ouvir os técnicos. Os técnicos é que sabem. Mas as decisões são políticas. São sempre políticas. E são os políticos que têm de tomar as decisões. Não podem fugir à responsabilidade.
Estou a viver a história em directo. Mas o que me fascina mesmo é a história contada à distância. Uma história já arrefecida e percebida. Uma história que me é contada por quem a viveu. E que me parece mais real que a história que eu vivo em directo que mais me parece um sonho que tenho acordado.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/12]

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