Pulseira de Prata com Nome Gravado em Baixo-Relevo

Nunca tive uma pulseira de prata com o meu nome gravado, nem com o meu tipo de sangue ou com a morada dos meus pais caso fosse um filho perdido nas ruas do mundo. Via-as nos pulsos das outras crianças, crianças como eu e achava, então, que não era uma criança como elas. Elas eram portadoras de uma pulseira e eu não. Elas tinham algo que as distinguia e eu não. Elas tinham o nome escrito, gravado a baixo-relevo, pendurado nos pulsos, que abanavam, e agitavam quando jogávamos à bola, saltávamos à mocha e faziam prever o calduço na nuca quando entrávamos na estátua, quando queríamos atravessar o corredor do colégio e as paredes repletas de outras crianças como eu que, esperando que passasse, me batiam no cachaço e ficavam estáticos, serenos, a olhar para além de mim, ou arrogantemente directos para mim, de olhos nos olhos, e a pensarem Não fui eu, Não me viste, e eu a desejar estar no lugar de um deles, a desejar ver um deles mexer-se para ocupar o lugar e ser eu, estático, a bater no lombo de outro qualquer como eu mas não eu.
Porque é que eu não tenho uma pulseira assim?
Não sei se alguma vez o perguntei, mas sei que nunca recebi resposta. Nunca ninguém me disse porque é que eu não tinha direito a usar uma pulseira de prata, de corrente grossa e chapa identificadora no pulso, no direito ou no esquerdo, havia quem usasse num lado e quem usasse no outro. Quem já usava relógio no pulso esquerdo, e naqueles tempos não havia ousadia suficiente para usar o relógio no pulso direito, usava a pulseira no pulso direito. Mas agora que penso nisso acho que também vi usar relógio e pulseira no mesmo pulso. Menos eu. Eu nunca usei nenhuma pulseira em nenhum dos pulsos. Eu nunca tive uma pulseira como eles.
Porque é que nunca tive uma pulseira assim, pai?
Não tive pulseira mas tive um relógio. Um relógio que o meu pai me ofereceu quando terminei a quarta classe e passei para o ciclo. Era um Cauny, quadrado, simples, mas não tão simples assim, com três ponteiros, mas o ponteiro dos segundos circulava sozinho numa pista que era só dele, mais pequena, na parte de baixo do relógio, e um só botão para dar corda. Era preciso dar vida às horas. Elas não sabiam ser autónomas. Era eu que lhe dava vida todos os dias de manhã, a primeira coisa que fazia quando acordava, antes mesmo de ir fazer chichi à casa-de-banho, de cada vez que, com o polegar e o indicador, esticava a corda do relógio e o deixava contabilizar as horas de vida, e os minutos e os segundos, sentia-me importante, importante o suficiente para saber que aquele relógio dependia de mim para sobreviver.
Onde pára o Cauny?
Na cápsula do tempo que não tenho, na caixinha onde eu poderia guardar estas pequenas memórias da minha infância, que não guardei, poderia estar o Cauny, e a memória da quarta classe, e a minha passagem para o ciclo, um grande passo na minha adolescência, o início da minha vida como jogador medíocre de andebol e outras coisas que não fazia e passei a fazer porque já era crescido, crescido o suficiente para as poder fazer, e que o relógio marcou para sempre, e que agora já não recordo, porque me falta essa arca de memórias.
Onde está esse meu primeiro relógio? O relógio que o meu pai me ofereceu por ter terminado com distinção o meu percurso pela primária?
Estará perdido nalgum caixote que fui deixando atrás de mim nas casas por onde fui passando, ou foi vendido em tempos difíceis quando não havia dinheiro para mitigar a fome dos dias de chumbo?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/29]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s