Tive uma Namorada que Foi a Primeira mas Pode Não Ter Sido

Tive uma namorada que foi a minha primeira namorada. Ou a segunda, já não recordo com certeza absoluta. Já não recordo com certeza absoluta a ordem dos factores, porque houve várias primeiras-namoradas na minha vida, umas mais primeiras que outras, umas de quem ainda me recordo e outras que já não sei quem foram e se alguma vez foram, tal o esquecimento, mas lembro-me desta porque sei quem é, lembro-me perfeitamente dela, e só não revelo o nome para justificar as minhas certezas porque não quero arranjar-lhe problemas em casa que ela tem família, é mãe de duas meninas e tem um marido muito ciumento que, já ouvi dizer, lhe chega a roupa ao pêlo. Isso é algo que não tenho certeza. Mas é melhor prevenir e, além do mais, ninguém tem nada a ver com o nome das minhas antigas namoradas.
Foi uma namorada com quem passeei de mãos-dadas, mas escondidas pela vergonha. Naquela época eu era muito envergonhado. Naquela época, ainda mal entrado na adolescência, eu era um miúdo muito envergonhado, de olhos postos no chão e os pés metidos para dentro que tive dificuldade em educar a ficarem direitos. Eu e ela encostados ao muro do liceu, as mãos atrás das costas, das costas de um ou de outro, em alegre brincadeira, um com o outro, as mãos de um nas mãos do outro.
Eu caminhava pelos corredores do liceu com as mãos dentro dos bolsos do casaco e ela com a mão dela dentro do meu bolso, a mão a apertar a minha, transpiradas pelo calor e pelo medo que alguém visse e fizesse disso assunto.
Tive uma namorada que foi também a primeira namorada com quem fui ao cinema. Não foi a primeira rapariga com quem fui ao cinema mas foi a primeira namorada com quem fui ao cinema e foi a única com quem eu consegui mesmo ver os filmes. Afinal, era para isso que estávamos lá. Para ver filmes. E foi com ela que vi o John Travolta a dançar de dedo apontado ao céu num fato branco em Saturday Night Fever; que vi a Olivia Newton-John adolescente numa saia rodada e elegante numas calças de napa preta justas a cantar com o John Travolta no Grease; e me apaixonei pela Princesa Leia em Star Wars enquanto mundos eram destruídos. Depois, nunca mais pude ir ao cinema com namoradas se o que eu queria era mesmo ver os filmes.
Foi esta primeira namorada que me deu o meu primeiro beijo de lábios, sem língua, que me fez ir à Lua e voltar num abrir-e-fechar de olhos. Foi esta primeira namorada, que talvez não tenha sido mesmo a primeira, que dançava comigo, agarrada a mim, o corpo dela junto do meu, colados mas ainda sem malícia ou anseios, o Angie, e me tocava nos cabelos com os dedos finos e compridos e me desconcentrava e me levava a pisar-lhe os pés e a calcar os sapatos de verniz pretos ou a sujar as John Smith brancas.
Tive uma namorada que foi a primeira namorada que levei para o meu quarto, de porta fechada, com quem os meus pais não implicaram. A minha mãe aparecia lá com uma bandeja com um copo de sumo e umas bolachas. A minha mãe gostava muito dela. Acho que foi a única namorada de quem a minha mãe gostou.
Depois de tantas namoradas que já tive na vida, gostava de conseguir poder voltar a sentir tudo o que senti com a minha primeira namorada que talvez não tivesse sido bem a primeira. Acho que isso sim, seria a minha verdadeira fonte da juventude. E então poderia dizer que que tinha uma primeira namorada em todos os momentos da minha vida, mesmo que já não fossem a primeira.
[se calhar essa não seria a melhor ideia porque depois esquecia-me desta primeira namorada, que talvez não tenha sido a primeira, e de todas as outras primeiras seguintes, porque se tornavam todas iguais e o que é bonito é que elas tenham sido tão diferentes, iguais mas diferentes, iguais mas únicas]

[escrito directamente no facebook em 2020/02/25]

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