Às Vezes Desejo Ser o Mr. Blonde

Penso que o grande problema com que nos deparamos nos dias de hoje é a ausência de empatia. Não nos conseguimos aproximar dos outros de uma forma gratuita. Ou há um interesse efectivo ou simplesmente criamos uma barreira de arame-farpado que impede de nos aproximarmos uns-dos-outros.
Vivemos numa era antropoceno-narcísica. Ou eu ou nada.
Estávamos os dois sentados à secretária. Um de cada lado. A secretária era dele então, na verdade, ele estava sentado à secretária e eu sentei-me lá em frente para lhe pedir ajuda. Mas enquanto eu estava sentado muito direito na ponta da cadeira, sem tocar com as costas nas costas da cadeira, ele estava refastelado na sua cadeira, sentado com o cóccix e com as mãos cruzadas em cima da barriga e os dedos grossos a tamborilarem uns nos outros, à espera.
Ele estava em silêncio. Eu também.
Ele aguardava que eu dissesse alguma coisa depois do que me tinha dito. A bola estava então do meu lado. Mas eu não sabia o que lhe dizer. Estava tão irritado que, na verdade, apetecia-me saltar-lhe para cima e desatar a dar-lhe murros na cabeça. Eu que até sou um tipo pacífico!
Estava ali sentado a olhar para o tipo, chefe da sua pequena ilha-secretária onde punha e dispunha a forma como interpretava as leis, as regras e as normas da sua empresa, uma empresa que eu tinha de utilizar, que remédio!, sem se preocupar com as mazelas que criava a quem dava a informação da forma como a dava. A mim. E o problema nem era a informação que ele dava, existem regras e, para que as coisas funcionem, temos de as cumprir, até aí tudo bem, sou a favor das regras para que nos entendamos e consigamos viver em conjunto, em sociedade, mas era a forma como ele dava a informação, disparada assim à queima-roupa, como se eu fosse uma lagartixa a quem ele podia cortar a cabeça quando quisesse só porque o podia fazer. Cuspia a informação e ainda me chamava burro por não ter conhecimento prévio da informação que me estava a dar. Tinha-me informado e, acto contínuo, recostou-se na cadeira, à espera do efeito do que me tinha dito. Encostou-se na cadeira, a tamborilar os dedos grossos, uns-nos-outros, à espera. O tipo podia ter usado bom-senso. Até porque a informação que me estava a dar tinha consequências graves para mim. Um pouco de bom-senso ajuda a sentirmo-nos humanos e não um monte de esterco. Mas não, eu senti o prazer na cara do tipo. Um pequeno e quase imperceptível sorriso nos lábios. E eu então imaginei-me o Mr. Blonde, ali a dançar frente ao tipo, esparramado na sua cadeira de pequeno-chefe, imaginei-me aproximar-me dele e cortar-lhe uma orelha com o canivete-suíço com que ando sempre na mochila e que não me tem servido para nada na vida.
Ainda me ouvi trautear Stuck in the Middle with You dos Stealers Wheel, vi-me levantar da cadeira onde me sentia desconfortável e começar a dançar frente à secretária, frente a ele, de canivete-suíço na mão, a língua a molhar os lábios, antecipando o prazer da lâmina a cortar-lhe a orelha e o sangue jorrar para cima dele, e os gritos, o medo, o choro, acho que ainda o ouvi chamar pela mamã, mas isso foi só tudo imaginação minha.
Levantei-me da cadeira com vontade de dizer Vai à merda, pá! mas a única coisa que fui capaz de fazer foi agradecer a informação, Obrigado! disse enquanto me levantava da cadeira e pendurava a mochila às costas com o canivete-suíço ainda na bolsa exterior sem continuar a ser-me útil.
Quando cheguei à rua vi que ainda tinha a senha com o número de atendimento na mão, enroladinha muito fininha como um fio de esparguete. Olhei pelo vidro da montra e vi o tipo já com outra pessoa à frente e a deixar-se deslizar para trás na cadeira, na sua pose de espera quanto a vítima digere a informação dada.
Deixei cair o papel no chão. Acendi um cigarro. E pensei em como alguns de nós gostam de ser chefes, de mandar, de ter algum poder, por mais pequeno que seja, sobre os outros. E deu-me vontade de vomitar. Não vomitei. Segui pela rua fora a fumar o cigarro e a pensar no meu canivete-suíço. E foi nessa altura que me lembrei que tinha uma faca de mato de quando era escuteiro. Estava em casa e precisava de ser afiada.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/24]

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