Um Arrepio de Frio nas Costas

Senti um arrepio de frio como se alguém tivesse passado por mim. Senti um arrepio de frio e os pêlos dos braços eriçaram-se.
Olhei para trás. Virei-me e olhei para trás de mim. Tive aquela sensação de alguém ter passado por mim e estar parado, atrás de mim, a olhar-me na nuca, a olhar-me fixo na nuca. Levei a mão à nuca. Massajei-a. Virei-me e olhei para trás mas não vi ninguém. Não vi nada. Só a cozinha e a solidão da minha cozinha. O silêncio dos vidros duplos. A porta e a ligação ao corredor que leva ao resto da casa. Que leva à porta da rua. Que leva à rua.
Aproximei-me da porta da cozinha. Olhei para o fundo do corredor. Vi as portas abertas dos quartos, da sala, a porta encostada da casa-de-banho. Pus-me atento. À escuta. Não ouvia nada. Nem os barulhos dos apartamentos de cima e de baixo, dos apartamentos dos lados.
Fixei o olhar no fundo do corredor, na porta da rua. A chave estava na fechadura. Via-a à distância. A chave na porta. A porta fechada.
Tive a sensação, pelo canto do olho, de uma sombra a mover-se dentro da casa-de-banho de porta encostada mas com uma frincha que deixava ver a luz no interior. Senti o coração a acelerar. A bater forte. A bater tão forte que fiquei com medo que se ouvisse em casa, no corredor, na casa-de-banho.
Fui devagar. Fui em silêncio. Fui com uma mão a deslizar pela parede do corredor a manter o equilíbrio, o salto da mão sobre os quadros, e o regresso à parede, a deslizar.
À porta da casa-de-banho encostei o ouvido. Prestei atenção. Procurei um ruído, um barulho, qualquer som. Senti, de novo, um arrepio de frio pelas costas acima. Virei-me, em silêncio, de regresso ao corredor até ao fundo à cozinha. Mas nada. Não havia nada. Voltei a minha atenção para a casa-de-banho. Olhei-a pela frincha. Nem uma sombra. Nem um movimento de sombra. Nem um ruído. Nem o bater do meu coração. Com a mão direita, empurrei a porta para dentro, devagar, até a ter toda aberta e a casa-de-banho vazia à minha frente. Olhei para a janela. Estava fechada. O chuveiro pendurado acima da banheira estava seco, não pingava. Nenhuma das torneiras pingava. O depósito de água da sanita estava em silêncio. Os frascos de after shave na prateleira. Voltei a puxar a porta e deixei-a encostada.
Caminhei em frente. Parei à porta do primeiro quarto. O meu quarto. A cama por fazer. O edredão tombado no chão. Os lençóis enrolados neles próprios. O relógio-despertador a iluminar, a verde, as horas. Os livros na mesa-de-cabeceira. Nas mesas-de-cabeceira. Uma revista caída no chão, junto com o edredão e o que deviam ser umas cuecas. Minhas, obviamente. A janela também estava fechada. As cortinas corridas.
Segui em frente, até ao outro quarto. Só espreitei. Era um quarto vazio. Não havia nada para ver. Só o espaço. O ar. O vazio. O pó no chão. A janela fechada, também. Sem cortinas. De persianas meio corridas.
Virei-me para trás. Voltei para trás, no corredor. Parei à entrada da sala. Em silêncio. Vazia, também. As luzes dos led dos aparelhos electrónicos ligadas. Um copo vazio na mesa de apoio. Umas revistas em cima do sofá. Um cinzeiro, de pé, cheio de beatas. Tinha de o despejar. Mas não agora. Pilhas de livros no chão. Nenhum livro tombado.
Voltei a olhar para o fim do corredor. Para a entrada da cozinha. Regressei lá.
Olhei de novo a cozinha. Vazia.
De súbito, notei a janela meio aberta. A janela da cozinha. E pensei Estava fechada. Não estava? Mas não conseguia responder. Achava que estava fechada. Mas não tinha a certeza. Não conseguia ter a certeza. Se calhar estava aberta.
Aproximei-me da janela. Olhei para fora. Puxei a porta de vidro da janela e abri-a toda. Meti a cabeça de fora. Assustei-me. Estava um gato preto sentado no pequeno parapeito que contorna o prédio, mesmo ao lado da janela da cozinha. Meti a cabeça para dentro. Assustei-me. Senti o coração a bater muito depressa, de novo. Senti-me tremer. Suspirei fundo. Voltei a pôr a cabeça de fora da janela. Devagar. Com calma. Olhei para o gato que estava a lamber-se. Lambia as patas. Depois abriu as pernas e começou a lamber-se entre as pernas.
Eu já não sentia mais nenhum arrepio de frio. Deixei de ter aquela sensação de haver alguém a passar por mim.
Acendi um cigarro. Fiquei ali à janela a fumar, a olhar para o gato a limpar-se, e a pensar que, se calhar, estava na altura de arranjar companhia lá para casa. Um pouco de companhia. Um pouco de barulho. Um caminhar no soalho da casa para além do meu.
Acabei o cigarro e lancei-o para a rua.
Fui buscar um pires com leite e deixei-o à janela, a janela aberta e o pires de leite do lado de dentro da janela. O pires de leite em casa. Anda bichano, anda.
Anda gato. Anda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/21]

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